26.6.05

Vox clamantis in deserto II


[Caravaggio, 1603-1604 - São João Baptista]

Naqueles dias eu achava que a sensualidade não existia. Que podia passar o resto da vida casto. Que a beleza física podia ser apreciada de forma exclusivamente intelectual. Que amor sem carne era possível e desejável. Naqueles dias eu era muito novo.

Antiquus amor


[Caravaggio, 1608 - Cupido dormindo]

Não há amor como o primeiro, diz o povo. Não foste o meu primeiro amor, foste talvez o segundo. Mas foste o mais duradouro. Durante anos pensei em ti, sem esperança. Saíamos à noite. Íamos a sítios de que não eu gostava particularmente. Mas ansiava por que chegasse a noite para poder ir para esses sítios de que não gostava. Tu também ias: íamos os dois, e por isso eu queria ir a esses sítios de que não gostava, desejava-o até, ardentemente. Também tu o sentias, mas não o demonstravas, ou então eu não o percebi. Durante meses (anos?) a fio jogámos este jogo. Nenhum de nós tinha coragem de dar o primeiro passo. E assim nos torturámos durante tanto tempo. Foi preciso vir uma terceira pessoa dar o empurrão, fazer de moderna alcoviteira. Lembras-te? Depois aconteceu o que sempre acontece. O tempo passou, a paixão esmoreceu. Fartaste-te de mim. Eu era um miúdo. Tinha quê, 20 anos? Imaturo, inconstante. Tu tinhas só uns poucos anos a mais, mas era o suficiente. Quantos anos passaram? Nunca deixei de gostar de ti, dou-me conta disso enquanto escrevo. Hoje cruzámo-nos. Não te via há pelo menos dez anos. Não soube o que fazer. Não parei, estava com pressa. Que estupidez. Pressa? Pressa de quê? Ter-me-ás visto? Ter-me-ás reconhecido? Tenho saudades tuas.

21.6.05

ἄνδρα μοι ἔννεπε μοῦσα πολύτροπον ὃς μάλα πολλὰ





[Ulisses cegando Polifemo - fragmento de cerâmica. Argos, século VII a.C.]

Teria uns 10 anos no máximo. Dedicava-me a um dos meus passatempos preferidos: enfiar-me na nossa despensa, e vasculhá-la. A nossa despensa não tinha produtos alimentares. Era antes uma pequena divisão, entre a cozinha e a casa de jantar, onde a minha mãe guardava livros que já não cabiam em mais lado nenhum, roupas, objectos diversos que não tinham já préstimo ou lugar onde serem arrumados... Eu adorava vasculhar essa autêntica mina de coisas velhas e surpreendentes. Todos os dias descobria alguma coisa excitante. Naquele dia descobri uma "Odisseia contada aos mais novos", de João de Barros. Se não era assim o título, era parecido. Já lá vão muitos anos. Na capa um gigante de um só olho - eu não sabia quem era Polifemo. Sentei-me em cima de alguma coisa, provavelmente um monte de roupa dobrada, e deixei-me ali ficar, horas seguidas, a devorar as aventuras de Ulisses e companheiros, comovido com a fidelidade de Penélope, cujo verdadeiro significado não conseguia entender na inocência da minha infância. Impressionou-me sobretudo o episódio de Polifemo. Sonhei, durante anos, com o gigante de um só olho, devorando os companheiros de Ulisses. Com o tronco afiado e endurecido no fogo com que o filho de Laertes cegou o ciclope. Com Ulisses e os companheiros sobreviventes saindo da caverna de Polifemo agarrados às barrigas dos carneiros do gigante. Com os urros de dor do ciclope. E sobretudo com o ardiloso estratagema de Ulisses, que à perguntas "como te chamas" respondeu "Ninguém". Muito me impressionei, na inocência da minha infância, com a astúcia de Ulisses. E como achei parvo o Polifemo, que, quando os outros ciclopes lhe perguntavam quem o matava, respondia "Ninguém me mata". Tolo, não percebeste logo a artimanha?

Lembro-me de que perguntei à minha mãe que história era aquela, e de ela me dizer que era uma história da Grécia antiga. Naquele dia não decidi que ia estudar Clássicas, pois não sabia o que era um curso superior. Mas decidi que queria saber mais, muito mais sobre a Grécia antiga e sobre Ulisses.

Muitos anos mais tarde decidi aprender latim - não havia grego na minha escola. Apaixonei-me pela língua, e não descansei enquanto não consegui também aprender grego. Mas isto contarei noutro dia. Aos 18 anos entrei no curso de Línguas e Literaturas Clássicas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Senti um arrepio indizível, quando, já no 2º ano do curso, na cadeira de Grego II, traduzi na íntegra o Canto IX da Odisseia, precisamente onde se conta como Ulisses enganou Polifemo.

20.6.05

Otium sine litteris mors est et hominis uiui sepultura


[Giuseppe Maria crespi, 1725 - Estante de livros]

Se tivesse de escolher algo meu para salvar, se tivesse um dia de fugir de casa com as coisas que me são mais queridas... As coisas mais preciosas que tenho em minha casa são os meus livros. A minha biblioteca, construída ao longo dos últimos vinte e tal anos. Trato-a com carinho e veneração, como a um familiar já velho, que conhecemos desde sempre, que nos educou, que nos formou. Quem sou hoje está ali naquelas estantes. Livros que me ofereceu a minha mãe quando eu não tinha ainda idade para ter gostos literários, e que me moldaram como homem. Os livros que amigos me ofereceram. Os livros que eu mesmo escolhi e comprei, ou pedi à minha mãe que comprasse. Ali estão os exemplares sobreviventes de "Os cinco", que devorava quando era miúdo. O Eça, que li na íntegra durante a adolescência. O Umberto Eco, que venero, leio e releio desde que o descobri em 1990. O Joyce, difícil e fascinante. Tantos, e tantos ainda que me falta ler. Há quem ame o seu carro. Eu amo a minha biblioteca.

Quod uix contingit ueram uoluptatem parit


[Vermeer, 1657 - Rapariga lendo carta]

Quando ouvia os passos do carteiro a subir a escada precipitava-me para a porta. Em silêncio. Como se fosse fazer algo proibido, tinha medo de que ele me ouvisse. Aguardava que se abrisse a portinhola metálica por onde ele lançava as cartas. Era uma casa antiga, a nossa, não tinha caixa de correio - em vez disso, havia uma pequena abertura na porta da rua, pudicamente coberta por uma tampa metálica, que fazia um característico estalido quando, depois de por ela lançadas as cartas, se fechava. Lançava-me então, sempre no mais absoluto e inexplicável silêncio, para o molho de cartas e rebuscava freneticamente, à procura de alguma que me fosse destinada. Se havia alguma, recolhia-me no meu quarto, abria voluptuosamente o envelope, e saboreava durante o resto do dia o manuscrito que me tinha sido enviado. Há anos que não recebo cartas. Tenho saudades.

Quanto recebi o meu primeiro e-mail tive uma sensação parecida. Talvez mais voluptuosa ainda. Porque na altura usava um cliente de e-mail que não fazia previsão do texto: era obrigado a abrir de facto o ficheiro, para o poder ler. Assim foi enquanto tive poucos correspondentes. Hoje é com algum enfado que abro o Thunderbird, e selecciono os e-mails que realmente me apetece ler - e são cada vez menos.

Tenho saudades de receber e enviar correio manuscrito.

18.6.05

Stultifera Nauis


[Bosch - A nau dos loucos]


Há dias assim. Não sei aonde vou parar nesta vida. Por enquanto estou descansado, porém. Enquanto recear estar louco, não estou de facto louco.

O morcego


[Trophîme Bigot - Rapaz chamuscando as asas de um morcego]

Sempre tive animais de estimação, quando era miúdo. Cobras, lagartos, rãs, tritões, tartarugas, licranços, peixes, bichos da seda, piriquitos, pintassilgos, hamsters, porquinhos da Índia... Mas nunca tive um morcego. E gostava de ter tido um. Não para lhe chamuscar as asas com uma vela, mas para o ver, para o ter na minha mão. Acho que nunca o tive por ser difícil de manter. Bichos nocturnos, que precisam de voar e caçar o seu alimento. Hoje talvez já pudesse ter um. Vivo sozinho, e eu próprio me transformo lentamente em morcego humano - cada noite que passa me deito mais tarde. Poderíamos assim, eu e o meu morcego de estimação, viver um com o outro, partilhando horários e melancolia. Mas não as presas.

17.6.05

Vox clamantis in deserto I


[Andrea del Sarto, 1528 - São João Baptista]

Naqueles tempos eu queria viver isolado. Achava que podia estar sozinho. Que não precisava de ninguém. Que não tinha nem precisava de amigos. Que não precisava da família. Que eu próprio era tudo aquilo de que eu precisava. Naqueles tempos eu era muito novo.

16.6.05

Eu quero um árbitro só para mim

Todos os clubes com direcções em funções votaram a favor do sorteio dos árbitros, menos um... Qual terá sido? Qual é o clube qual é ele que jogou grande parte da Superliga 2004/2005 com a ajuda preciosa dos árbitros, nomeados e não sorteados? Resposta aqui:

"Benfica contra sorteio dos árbitros
16.06.2005 - 19h06 PUBLICO.PT


A direcção da liga de clubes aprovou ontem uma proposta que visa substituir a nomeação dos árbitros pelo seu sorteio e introduzir o recurso ao vídeo na observação do desempenho dos juízes e assistentes. De acordo com alguns títulos da imprensa desportiva de hoje, apenas o Benfica votou contra na reunião, tendo o Beira-Mar optado pela abstenção, pelo facto da sua direcção se encontrar demissionária."

15.6.05

O leite


[Vermeer, c. 1658]

Longtemps, j'ai bu du lait frais quand je me levais. Vivia então no Algarve, em Olhão, com a minha mãe e os meus irmãos. Foi há 23 anos, entre 1982 e 1983. Todas as manhãs, bem cedo, passava na nossa rua uma carroça puxada por um burro, cheia de bilhas de leite. Nós saíamos de casa a correr, entusiasmados pelo inédito da situação: provavelmente nunca tínhamos visto um burro a puxar uma carroça, na nossa ainda curta vida. E nem a rotina de um ano esgotou a excitação que sentíamos diariamente. A minha mãe vinha atrás, com uma grande cafeteira, onde o leiteiro vazava o líquido espumoso, acabado de sair das tetas das vacas da cooperativa. Voltávamos para casa atrás dela, esperávamos que fervesse o leite, e depois bebíamos com prazer. Nunca antes nos soube tão bem o leite. No Verão de 1983, acabadas as aulas, regressámos a Torres Vedras, onde a minha mãe ficou finalmente efectiva. O leite voltou a ser de pacote, comprado no supermercado. Não havia já, em Torres Vedras, carroças puxadas por burros, cheias de bilhas de leite vindo directamente da vaca.

12.6.05

Música Antiga


[Caravaggio,
c.1595 - Músicos]

Até ao início da década de 90 só ouvia coisas que é normal os adolescentes e jovens adultos ouvirem. Gostava de alguma música pop, e era louco pela emergente música techno, embora nunca tenha apreciado as coisas mais comerciais (não, não são sinónimos). Sempre tive, no entanto, curiosidade pela chamada música clássica, muito por influência da minha mãe, que em casa sempre a ouviu.

A viragem deu-se em 1991, com a comemoração dos 200 anos da morte de Mozart. Nessa ocasião houve uma série de eventos musicais, por todo o mundo. Portugal não foi exepção, nem Torres Vedras. Houve nesse ano uma apresentação do famoso Requiem, na igreja do Turcifal (arredores de Torres Vedras). Não sei já se a interpretação foi boa, na altura eu não entendia nada do assunto - mesmo hoje entendo pouco. Lembro-me apenas de que adorei, de que saí daquela igreja extasiado e definitivamente apaixonado pela música clássica, com quem já namoriscava inconsequentemente há anos.

Com o tempo, passei a sintonizar em exclusivo a Antena 2, e a ouvir os poucos CD's que havia em casa - eram invenção relativamente recente e cara. Mas não ouvia qualquer coisa. Desde sempre fui mais sensível a uns tipos de música, menos a outros. Autores como Verdi ou Puccini deixam-me bastante indiferente. Beethoven agrada-me, mas não excessivamente. De Mozart sim, posso dizer que gosto bastante. Mas quem me fazia (e faz) vibrar não era nem Mozart nem Beethoven. Quem me fazia arrepiar e sonhar eram J. S. Bach, Vivaldi, Händel... Descobri então que estava apaixonado pelos barrocos, que era o baixo contínuo que me eriçava os pêlos de todo o corpo. Nessa altura gastava o pouco dinheiro que tinha em cassetes, para gravar tudo o que cheirasse a barroco na Antena 2. Lembro-me de ficar em êxtase com uma missa de requiem que mais tarde descobri ser de Zelenka. Tinha definitivamente trocado o hip-hop (na altura chamava-se rap...) e o techno pela música barroca.

Mas estava mais uma pequena revolução para acontecer. Há muito que era fascinado pela Idade Média. Por isso, era sempre com expectativa que ouvia as raríssimas composições medievais que passavam na Antena 2. Comprei então o meu primeiro CD: "Cantigas de Santa Maria", pela Schola Cantorum Basiliensis. Isto deve ter sido em 1992, e ainda hoje, 13 anos depois, ouço esse CD. Na gravação participava a Montserrat Figueras.

Em 1993 fui à inspecção militar. Tinha pedido sucessivos adiamentos, para concluir o curso, e agora que estava no último ano, lá ia eu. Foi em Coimbra. Sempre fui um pacifista, nunca tive qualquer simpatia pela instituição militar. Lembro-me de que ia com algum receio. Tirei os brincos todos (na altura não era tão comum como hoje), e levei A República de Platão para ler durante a viagem. O que se passou nesses dois dias (sim, durava dois dias) ficará para outra ocasião. No final do segundo dia lá me fui embora. Tinha ainda algumas horas antes de apanhar o comboio de volta para casa, e fui dar uma volta pela baixa de Coimbra, com dois rapazes que tinha conhecido. Entrámos numa loja de discos, e fui à procura de música medieval. Mas enquanto fazia correr com os dedos as caixas de CD, dei com um que, não sei já porquê, me chamou a atenção. Era um CD de vilancetes e ensaladas, interpretado pelo Jordi Savall: Bartomeu Càrceres, Anonymes XVIe siècle: Villancicos & Ensaladas
(o nome na Amazon está errado, o correcto é este). Comprei-o, e nessa noite ouvi-o várias vezes. Tinha tomado contacto com a música profana renascentista, e estava como que bêbedo de música. À música barroca e medieval juntava agora a renascentista.

Descobri depois a música polifónica renascentista, sempre "pela mão" do grande Jordi Savall, embalado pela voz da Montserrat Figueras. Ao longo dos anos comprei mais de 300 CD's de Música Antiga, sobretudo de polifonia renascentista e barroco. A polifonia ainda é hoje a que mais me enche as medidas. Aquela orgia de vozes seguindo linhas melódicas diferentes... Se eu fosse crente diria que era divino, que era a expressão musical de deus. Como sou ateu, mais não posso dizer senão que é a sensualidade da carne transposta para a música. Tenho os meus preferidos: Tomás Luis de Victoria, Cristóbal de Morales, Francisco Guerrero.


Ainda haveria de descobrir mais coisas, mas isso ficará para outra ocasião.

Pedro Barbosa e Rui Jorge


Como sportinguista daqueles que só vêem a bola quando dá o Sporting, que não ligam a mínima à selecção porque a sua selecção é o Sporting, não posso deixar de ficar bastante desgostoso e preocupado com a saída do Rui Jorge e do Pedro Barbosa. É verdade que já não são novos, e que me faz sempre muita confusão ver pessoal da minha criação ainda a jogar (o Barbosa até é mais velho do que eu). Mas eram figuras importantes, e fazem falta ao clube. O Rui sempre foi um dos meus preferidos, por diversas razões. Já o admirava quando ainda jogava no herm... hum... huh... Porto (custou a dizer...), e passei a adorá-lo no Sporting. Sempre disponível, sempre bem disposto. O Pedro, bom, o Pedro é o capitão. Jogador genial, mesmo nesta fase descendente da sua carreira. Era importante que tivesse ficado, mesmo sem jogar.

O problema parece ter sido a oposição que pelo menos o Pedro Barbosa fez ao Peseiro. Lembro de ouvir umas bocas no início da época, de que o Pedro Barbosa liderava uma autêntica revolução no balneário. Nestas circunstâncias, a saída parece natural. Porém, eu se mandasse no Sporting, se tivesse de escolher entre históricos como o Rui Jorge e o Pedro Barbosa, e um estranho como Peseiro (ainda por cima lampião! Irra!), não hesitava. Até sou dos que acham que o Peseiro é um bom treinador. Mas não hesitava. Corria com ele e ficava com o Pedro e o Rui.

11.6.05

Leonardo da Vinci - La Gioconda


[Leonardo da Vinci - Mona Lisa (La Gioconda)]

Isto pode não parecer, mas é Jacques Chirac vestido de mulher. Leonardo da Vinci usou os conhecimentos que detinha por ter sido abduzido por extra-terrestres, e por eles ter sido repetidamente violado e instruído nos mais espantosos segredos do universo: criou uma máquina do tempo que se vê perfeitamente por detrás de Judas na Última Ceia, pediu uma audiência e esboçou o retrato do Chirac. Depois, regressando ao seu tempo, achou que ficava muito sem graça, e resolveu travesti-lo. No entanto se notarem bem o nariz e os lábios não enganam, é mesmo o Chirac.

Vou escrever um livro a expor esta teoria e vou ficar rico, rico, muito rico!

Albrecht Dürer - Auto-retrato


[Albrecht D�rer, 1500 - Auto-retrato com 28 anos]

Dürer não é o meu pintor preferido. Não figuraria sequer num "top 10", se me pedissem que fizesse um. Não é que não goste dele, pelo contrário, mas quando me pedem que cite nomes de pintores o nome dele não me surge. Este auto-retrato, todavia, é uma das minhas obras preferidas, de entre toda a produção plástica ocidental. Se eu tivesse tempo e dinheiro para comprar reproduções e com elas decorar as paredes da minha casa, este auto-retrato teria de constar na lista de compras. Não sou entendido no assunto, não me atrevo a fazer considerações sobre a qualidade da obra. Como leigo, a única coisa que me preocupa é o lado estético. Não me refiro naturalmente à possível beleza física do cavalheiro (não o acho especialmente bonito), mas sim ao conjunto. Fascina-me aquele olhar sereno, a boca inexpressiva, os cabelos longos, como uma juba majestática, o conjunto a um tempo sereno e confiante. Um homem na força da vida. Há força e serenidade neste quadro. Gostava de tê-lo na minha sala, ao lado do Retrato de jovem do Ghirlandaio.

10.6.05

Frederico Lourenço e Homero


Pátroclo e Aquiles
[informações sobre a imagem aqui]

Estive, no dia 8 de Junho, em Leiria, para a apresentação da "Ilíada" de Homero, traduzida pelo meu colega Frederico Lourenço. Do Frederico e do seu trabalho só posso dizer bem; sou portanto um mau crítico, e por isso mesmo me abstive de intervir na sessão. Não disse - mas digo-o agora - que achei demasiado modesta a sua alegação de que o êxito comercial se deve mais ao próprio texto do que às suas brilhantes traduções, e que qualquer tradução de Homero que saisse seria comentada, mediatizada, celebrada. Não é verdade. Uma tradução normal de Homero seria notícia quando fosse lançada, venderia algumas centenas de exemplares, e rapidamente cairia no esquecimento mediático. As traduções do Frederico não. As traduções do Frederico vendem que se fartam porque não são traduções "normais". O Frederico alia no seu trabalho duas características que não são fáceis de encontrar. O Frederico sabe grego como poucos, e como poucos domina a língua portuguesa. É que o Frederico não é só um dos mais brilhantes helenistas da actualidade. Ele é também um dos grandes escritores portugueses da nova geração. Leia-se qualquer um dos seus romances, e perceber-se-á grande parte do êxito da sua actividade de tradutor. Ao domínio da língua grega alia uma mestria literária invulgar.

Anton Tchékhov


Continuo na minha fase russa. Enquanto vou saboreando lentamente, antes de dormir, a nova tradução de Guerra e Paz, de Tolstói, à espera de que saia o segundo volume, levo na mochila para a faculdade o primeiro volume dos Contos de Tchékhov. São histórias pequenas, algumas com não mais de 3 páginas, e em tão poucas letras concentra-se tanta coisa bonita.

Domenico Ghirlandaio



Retrato de uma jovem, de Domenico Ghirlandaio, pintado cerca de 1485. Comprei uma reprodução na Gulbenkian, e pu-la na parede da minha sala. Agora quando saio de casa o meu humor está sempre mais alegre do que antes.

Umberto Eco


Umberto Eco é, como toda a gente sabe, Deus. Há uns anos atrás emprestei a minha edição de "O segundo diário mínimo", e nunca mais a vi. Este ano comprei-o de novo na Feira do Livro, e releio-o extasiado. Não consigo deixar de rir ao ler os fragmentos da Cacopédia, nomeadamente o "Projecto para uma Faculdade de Irrelevância Comparada". Aqui fica um excerto:

"Departamento de tetrapiloctomia (1)

Hidrogramatologia
Poçosecção
Avunculogratulação mecÂnica
Piropodicismo
Pelocatabase
Perlocutória da escatotécnica
Técnica das soluções mentulopênseis
Sodomocinesia
Celeropatomitência

Os estudantes podem obter a licenciatura em Irrelevância Comparada fazendo 18 exames de disciplinas absolutamente desconexas e sem relação recíproca. Para o exame requere-se a apresentação de uma bibliografia de sessenta títulos por disciplina, todos da autoria do candidato. Não se requer que aos títulos corresponda uma tese, nem que esta última, caso exista, corresponda aos títulos. A bibliografia deve seguir os critérios tipográficos propostos pelo editor Mouton de Haia.

(1) Apesar de denominações técnicas (cujo hermetismo se deve também a razões de decência), o bom etimólogo saberá deduzir os conteúdos, que são respectivamente: técnica de escrita em superfícies hídricas, arte de cortar o caldo, construção de máquinas para cumprimentar a tia (antiga sugestão de Nicola Abbagnano), técnica de pegar fogo às nádegas dos outros, arte de escapar por um triz, análise de fórmulas como 'vai à merda', arte de pendurá-lo ao membro viril, rítmica da penetração a posteriori, arte de mandar morrer matado. Por tetrapiloctomia entende-se obviamente a ciência que permite partir um cabelo em quatro."

Umberto Eco, Segundo Diário Mínimo, Lisboa, 1993, pp. 229-231

Havaianas



Quando eu era miúdo e chegava o Verão, só me sentia bem descalço. A minha irmã tinha a mesma tara. Mas não podia ser: a minha mãe insistia em que era necessário ter alguma coisa para protegermos os pés. Já se sabe, as mães têm sempre razão, mesmo quando não têm, e nós acabávamos por ceder, depois de muita fita. Íamos então comprar umas chinelas baratas, que nunca fomos gente de muitas posses. Normalmente íamos àqueles vendedores que dantes montavam a sua barraquinha perto da praia, e a minha mãe comprava-nos umas chinelas daquelas de enfiar no dedo. Eram óptimas, podíamos andar com elas em todo o lado, e evitávamos a chulezeira, pois o pé era convenientemente arejado. Aquelas chanatas não eram, porém, dignas de serem usadas em ambiente que não fosse a praia e o caminho de lá a casa e de casa a lá. Não passava pela cabeça da minha mãe deixar-nos usar aqueles chinelões práticos mas horrorosos na escola, muito menos visitar família ou amigos com elas calçadas. Eram pouco dignas, baratuchas, dignas de loja dos 300, se na altura as houvesse.

Foi portanto estarrecido que descobri que as xanatas que a minha mãe nos comprava nas barracas de vendedores ambulantes, práticas mas feias e pouco dignas mesmo para pessoas com poucas posses como nós, foram rebaptizadas de "havaianas", e são o último grito da moda. Eu juro que ainda pensei que fossem apenas parecidas, quando vi o primeiro anúncio televisivo a publicitá-las, há coisa de um ano ou dois. Nunca mais me lembrei disso, porque como tenho vida própria e cultura mediana não perco tempo a ver anúncios televisivos nem consumo revistas ou programas de moda/fofocas. No entanto, não pude deixar de reparar que neste Verão antecipado começaram a aparecer rapazes e raparigas aos montes, até na faculdade, com as inestéticas chinelonas que a minha mãe nos comprava nos vendedores ambulantes, mas que nos proibia de usar em situações que não fossem o ir à praia ou brincar no quintal. Lembrei-me então do tal anúncio que vira há coisa de um ano ou dois, e perguntei a uma amiga se "aquilo" eram as famosas havaianas. Confirmou-me que sim. Eu não podia acreditar. São iguais às que a minha mãe nos comprava. Sim, também as havia coloridas e com bonecos. Se a minha irmã e eu aparecÊssemos na escola com umas xanatas - perdão: "havaianas" - calçadas, seríamos imediatamente recambiados para casa por algum professor, e levaríamos um valente raspanete da minha mãe, indignada por termos feito tal figura. Hoje é um "must".

Espero que no próximo Verão sejam promovidos a acessórios de moda aquelas chinelas de plástico transparente medonhas que a gente usava para tomar banho nas zonas infestadas de peixe-aranha. Sempre protegem mais o pezinho.

Ah, e para quem me conhece e sabe que tenho também um irmão e já se está a perguntar "então e ele não usava?", a verdade é que o meu irmão não se limitava a andar descalço quando o calor apertava: quando o perdíamos de vista por mais do que um ou dois minutos, já ele corria completamente nu pela rua. Não, hoje em dia já não o faz.