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31.3.13

2003

[Angelo Morbelli - Il natale dei rimasti] 
"Ahora la pesadilla continúa... Mi fracaso es definitivo, y me pongo a contar sueños. Quiero despertar, y encuentro esa resistencia que impide salir de los sueños más atroces."
Adolfo Bioy Casares, La invención de Morel


O problema é despertar. deixar de contar sonhos. pousar. repousar. subir as escadas e cada degrau a contar um pesadelo novo. desenterrar a custo a chave do bolso. estes dias que não acabam nunca. e depois arrastar-me cuspir-me para cima da cama. o telefone não toca há. já não sei. já não há mais ninguém. pescar um livro porque era assim que afastava os pesadelos quando os óculos eram maiores do que eu e as noites eram câmaras de tortura e os dias. e os olhos a escorrer pela página sem poderem comer as letras. (Apocalipse de são João dez nove. λάβε καὶ κατάφαγε αὐτό καὶ πικρανεῖ σου τὴν κοιλίαν ἀλλ᾽ ἐν τῷ στόματί σου ἔσται γλυκὺ ὡς μέλι).

3.8.07

Aquilo que não se pode contar . 13 . O morto

[Bosch - Menino Jesus com andarilho]

No es el miedo a lo desconocido lo que me retrae, aunque actualmente me acosa una picazón en la mano derecha, aguda en el dedo mayor, y una suerte de entumecimiento, como si un agente sobrenatural me estorbara, para no dejarme escribir.
Adolfo Bioy Casares, Historia prodigiosa

Depois levantei-me e pus-me de pé em cima da cama os olhos lançados ao tecto. Não sei de onde me veio aquela força. Se do meu coração parado. Porque ele estava parado. Eu punha a mão no peito e nada. Nem um tum tum tum tum. Silêncio quieto. E um frio tremendo que me invadia os membros e os dedos estavam da cor da cera. Eu estava morto. Mas via e ouvia e cheirava. E punha-me de pé e agora não tinha medo. Daquilo lá em cima. Daquele zumbido rido que me enchia os ouvidos mortos. Do cheiro a cor de laranja ondeando o ar empoeirado.

Depois reparei que não respirava. Porque o pó já não me sufocava e o meu peito estava parado. Eu estava morto. Ainda que para o confirmar a minha mão se erguesse e percorresse o peito à procura de um tum tum tum tum de um vai-e-vem de um estou vivo. Então estar morto é isto. Eu pensava que. Na altura eu ainda acreditava em deuses. Eu pensava que vinha um anjinho bonito e me pegava e me levava pelos ares até ao céu onde um senhor de barbas me punha ao colo e me dava um beijinho e depois me mandava para um recreio sem fim feito de nuvens. E afinal. É igual a estar vivo. Só que não há tum tum tum tum no peito nem nos sufocamos com pó nem temos medo.

Depois deixei de pensar na minha estranha morte e quis abrir a moldura de madeira. A porta do meu terror. Para ver o que estava lá em cima. Porque agora eu já não tinha medo. Um dia disseram-me. Não tenhas medo de nada: o pior que te pode acontecer é morreres: e da morte não devemos ter medo porque ela é certa. E eu já estava morto. Um morto não morre. Nada mais me podia acontecer. Portanto eu tinha de abrir aquela porta maldita.

Se eu pusesse o escadote em cima da cama. Já tinha pensado fazê-lo tantas vezes. Mas o medo. Medo de quê. De cair e morrer. Mas eu já estou morto.

9.7.07

Aquilo que não se pode contar. 4 . Minhocas oculares

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor do painel lateral direito)]

Arturo preguntó: Cómo se le ocurrió el nombre?­ A mí no se me ocurrió. Lo puso un periodista, por error. En realidad, el Nóumeno es lo que descubre cada persona que entra. Y, a propósito: ¡Adelante, señores, pasen! Por cincuenta centavos conocerán el último adelanto del progreso. Tal vez no tengan otra oportunidad.
Adolfo Bioy Casares, Nóumeno

esquecer. Há umas drogas que fazem isso. Drogas daquelas dos médicos. Das boas. Porque há drogas boas. Que nos fazem esquecer. E se eu me esquecesse daquilo. Mesmo sabendo que. É que o meu problema é saber. Se eu não soubesse. Se aqueles pontos brilhantes não passassem de extravagâncias vasculares nos olhos. Coisas do meu interior das minhas entranhas. Como aqueles zumbidos nos ouvidos. O sangue a passar. Normal. Foi o que me disse o médico quando me queixei. Porque havia aqueles silêncios nocturnos. Quando nem gente nem máquinas. Só o silêncio pegajoso do nada. E os ouvidos zzz zz z. Depois há um cão que ladra e o coração dá um salto. Depois pára. O zumbido. É que eu às vezes já não sei o que é normal. Como aquelas sombras filiformes que me passam às vezes pela vista. É normal. Mas se eu não soubesse que era normal ficava assustado. Pensava que ia cegar. Que tinha bichos nos olhos. Minhocas oculares. Que mos comiam devagar devagarinho. E um dia eu acordava sem eles. Mas não. Não há minhocas oculares. Às vezes penso. Será que. Não. Eu sei que não são extravagâncias vasculares. Porque eu vi. E eu só queria esquecer aquilo que eu vi. Porque se eu me esquecesse. Era como se aqueles pontos brilhantes fossem coisa normal. E eu não tinha medo. Fechava os olhos e dormia sereno. Mesmo se não acordasse. Mesmo se

7.7.07

Aquilo que não se pode contar . 3 . O grito

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor do painel central)]

Contaré finalmente los hechos que he presenciado entre ayer y la mañana de hoy, hechos inverosímiles, que no sin trabajo habrá producido la realidad...
Adolfo Bioy Casares, La invención de Morel


que me povoam as noites e me assombram os sonhos vazios. Primeiro é só uma impressão vaga. Um peso no ar. Depois o cheiro. Intenso. Pegajoso. Quase quase doce. Mais nada. Não precisa de se mostrar. Está ali. Eu sei. É que o buraco na omoplata. Na esquerda. Vai-me doendo doendo. E só dói dói quando aquilo está ali. Tenho de o ver. Outra vez. Mesmo que isso signifique. Porque se o vir outra vez. Eu só queria arrancar este buraco na omoplata. Na esquerda. E viver. Se o vir outra vez. Talvez me mate. De vez. Depois acaba tudo. Este terror que me devora as entranhas. Se tu soubesses. Quando se torna maior aquele zumbido baixinho. E me vai arrancando devagar devagarinho os últimos fios de razão. E eu só queria que aquilo se calasse. Me deixasse dormir. Viver. Serpenteia-me a mão pela omoplata. A esquerda. Dói tanto agora. E este cheiro doce odioso. Mais forte mais perto. Por favor. Queria gritar queria

6.7.07

Gago

[Dürer - Cristo entre os doutores do Templo (pormenor)]

Mi alma no ha pasado, aún, a la imagen; si no, yo habría muerto, habría dejado de ver (tal vez) a Faustine, para estar con ella em una visión que nadie recogerá.

Adolfo Bioy Casares, La invención de Morel


Eu gaguejo sabes. Gago como um. Não sei. O que é que é um gago. Diz-se bêbedo como um peru. Tonto como uma barata. Mas gago como. Não sei. Mas não gaguejo sempre. Só quando me sinto. Quando estou distraído. Assim quando estou a pensar em outras coisas e me acordam de repente. Então gaguejo muito gago. Como se precisasse de um acto consciente para falar sem gaguejar. E se gaguejar fosse a minha natureza. Assim por exemplo quando estou à espera de que me atendam numa loja. E me distraio a olhar para quem passa. Ou a ler um folheto ou a capa de um livro. Depois chega a minha vez sem eu dar por isso e a empregada. É mais com empregadas. Curioso. Pergunta-me sim bom dia. Eu eu bebebem sessesabe eu. Não me saem as palavras. Porque eu quero aquele livro ali. Mas não consigo dizer. E fico vermelho e suo. E ela olha-me comiserada. Assim como quem diz coitadinho. Tão novo e já. Um dia foi na sala de espera do médico da asma. Eu tenho asma. Mas não tenho falta de ar. Curioso. Senhor André Simões. Eu levantei-me. Estava a ler. Sessesse. Eu queria dizer sou eu. Fiquei vermelho e comecei a suar. Ela olhou para mim com aquele sorriso que as enfermeiras fazem aos velhotes muito velhotes. E disse muito devagar. Silabando. Com aquele odioso sorriso comiserado. E o tom de voz com que se fala a uma criança. Olá senhor André. Venha comigo. Isso. Por aqui. Sim. Tenho falta de ar mas não sei. A minha anterior médica dizia olhe lá. Ela era muito bruta. Olhe lá você acha que respira bem. E eu dizia sessessessim. E ela dizia que eu só tinha não sei quanto por cento de capacidade respiratória. Mas como sempre tinha respirado mal não sabia o que era respirar bem. E por isso achava que respirava bem. Assim como quem vivesse numa ilha deserta e nunca tivesse visto cores na vida e achasse que via bem. Porque nunca vira cores. E portanto não sabia o que é ver bem. Mas achava que via bem. E via bem. Porque não tinha termo de comparação.

Eu era muito pequeno pequenino e um cão muito grande saltou-me para cima e eu fiquei gago com o susto. Depois curei-me. Ou não. Não sei. Se calhar não.

30.6.07

Beso salado

[Dürer - Auto-retrato com ligadura]

Ahora la pesadilla continúa... Mi fracaso es definitivo, y me pongo a contar sueños. Quiero despertar, y encuentro esa resistencia que impide salir de los sueños más atroces.
Adolfo Bioy Casares, La invención de Morel

frio
nos pés
sobe
pernas acima
agarra-me a barriga
garra romba
beso salado
sube suelto
solito
las sombras
de mi sueño
ola fría
helada
lambe
perna
pé

e eu queria ser areia amarela amada concha aqui e ali
abraçar-te quente doce cada poro da tua pele
amar-te

amigo
concha
côncava
contigo
teu corpo



Estranho

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor do painel central)]

Sin refugio perduro en este monólogo que, desde ahora, es injustificable.

Adolfo Bioy Casares,
La invención de Morel

estranho
porquê
tu sabes
os dedos
que
te
dizem

curioso
porquê
tu sabes
os olhos
que
te
cantam

bizarro
porquê
tu sabes
as mãos
que
te
murmuram

há
coisas
que
não
cabem
num

tu sabes