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14.5.06

Domi militiaeque VIII

[Jan van de Capelle - Calmaria]

Conversa amena. Espaçada. Junta-se-nos um terceiro rapaz. Olho a paisagem crepuscular. Nostálgico. Em volta os gritos e risos dos restantes mancebos. Sim, sou um mancebo. Agora já não me intimidam. Deixo de falar. Não tiro os olhos da janela. Comboio lento e resfolegante. Instala-se-me uma paz repousante. Quero chegar a casa, mas não tem de ser já. Tranquilo. Campos escuros. Cai a noite. Frio. Sou outro.

Domi militiaeque VII

[Arkhip Kuindji - Mar com barco à vela]

Ah, estás aí! A pensar em quê? É o meu amigo moreno que me acorda. Palmadas nas costas. Vamos embora, rapaz. O portão do quartel está aberto, de par em par. Saímos devagar. Melancolia. Volto-me de novo para o quartel. Não. Convento. Deixo-me ficar uns segundos a olhar para aquelas pedras geladas. Nostalgia. Como num filme. Acabou. O pesadelo que nunca existiu. O dia continua cinzento. Frio. Sem palavras dirigimo-nos para o miradouro. Lá em baixo, Coimbra e o Mondego. Invade-me uma súbita euforia. Dou uma corrida. Para longe do quartel. O meu amigo moreno ri-se e corre atrás de mim. Dois putos. Comecei uma nova vida. Tranquila. Paz.

Domi militiaeque VI

[Jacques Callot - Vista de uma montanha]

Excitação incontrolável. Estamos quase a ser libertados. Afinal era só isto. Não me humilharam. As humilhações que sofri fui eu que mas auto-inflingi. Para um homem de vinte e um anos normal nenhuma daquelas situações seria humilhante. Para mim foram. Por culpa minha. Não me preocupo já com a incorporação. Ainda tenho dois anos de Ramo Educacional para fazer. Depois talvez um mestrado. Mais adiamentos virão. Agora à incorporação. Não me preocupo. A minha vida mudou. Aprendi a martirizar-me apenas com o presente. Sofrer com o futuro nunca mais. Uma onda de optimismo. Nunca carpe diem me fez tanto sentido. Para quê preocupar-me com coisas que ainda não aconteceram? Andei toda a infância e adolescência aterrorizado com a perspectiva da inspecção militar. Para quê? Não foi pesadelo nenhum. Não tenho pressa de sair. Quero voltar para casa, sair do quartel. Mas não tenho pressa.

13.5.06

Domi militiaeque V

[Baccio Bandinelli - Estudo de dois homens]

Como um murro no estômago. Regressou o pesadelo. Alinhados! Serão chamados três a três. Despem-se e dirigem-se ao médico. Não quero. Não consigo. Não consigo lidar com a nudez. Nem com a minha nem com a alheia. Não sou capaz. Quero ir embora. Vão-me humilhar. Examino mentalmente o meu corpo, centímetro a centímetro. Costas nuas contra as pedras geladas. Tremo de frio. De terror. O que tens? É o meu amigo moreno. Deve ter um nome começado por A. Estamos ordenados alfabeticamente. Ao meu lado. Não o tinha visto. Nada. Tenho frio. Chama-nos. A sala está aquecida. Há um vestiário discreto. Dispo-me. Olha, estás aqui! Um primo afastado. Não me lembro de como se chama. Olhamos embaraçados um para o outro, mantendo os olhos bem levantados. Adeus, até à próxima. Veste-se rapidamente e sai. E agora. Não sou capaz. Não consigo sair daqui. Por favor. Poupem-me a isto. O senhor aí, faz favor de se despachar. Humilhação terceira. Saio e sento-me no banco onde está o meu amigo moreno e outro rapaz. Sou o último a ser examinado. Não reparam em mim. Alívio. Endireite as costas homem. Não consigo, tenho um problema de coluna. Escoliose. Muito bem. Já pensou em ir para os Comandos? Tem corpo para isso, homem.

*


Acabou. Só falta sabermos os resultados. Não tenho qualquer esperança. Serei dado como apto. Até me querem nos Comandos. Apesar da falta de força. Isso exercita-se. Não quero. Somos chamados um a um. Espera-nos, numa salinha pequena, um oficial. Pergunta-me se quero fazer o serviço militar. Não. Mas está apto, vai ter de o fazer. Marinha? Exército? Força Aérea? Exército. Dura menos tempo. Não está interessado em ingressar nos Comandos? Não. Estamos conversados.

*

Apto. A palavra que não queria ouvir. Mas que sabia inevitável. Devia estar em desespero profundo. Não. Tranquilo. Feliz, até. Acabou. Dentro de horas estou em casa outra vez. Acabou. O pesadelo de tantos anos acabou. O pesadelo que não o foi.

Domi militiaeque IV

[Piranesi - O poço]

Silêncio. Como se o pressentíssemos. O portão move-se. Primeiro com vagar. Depois com violência, de par em par. Silêncio. Só os insectos fazem ressoar o ar abafado. E os passos. Bélicos. São dois. Jovens. Começou. Aquilo que receava desde a infância. O pesadelo. Lançam sobre nós olhares gelados. Parece-me que se detêm em mim mais do que nos outros. Paranóia. Nem devem ter reparado em mim. Gritam duas ou três ordens. Alinhados, em silêncio, ouvimos a palestra improvisada. Há uma agressividade estudada, falsa. O militar esforça-se por não sorrir. Leve descompressão. Se calhar não é tão mau. Este é simpático. Somos separados em dois grupos. Os que têm 12º ano ou mais seguem com um dos militares. Os restantes com o outro. Passo o portão. Começou. Já lá estou dentro. Agora estou às ordens deles. Podem fazer de mim o que quiserem. Já não me importo. Já não posso sair daqui. Portão fechado.

*

Tratam-nos com deferência e simpatia. Descompressão. A agressividade ficou do lado de fora do quartel. Convento. É um convento transformado em quartel. Todos em fila. Fazem favor de urinar no copo e depois trazê-lo à enfermeira. Humilhação primeira. Há quem não consiga, com os nervos. Passo com distinção esta primeira prova. Ainda me esperam outros exames. Aos olhos. Aos ouvidos. Vejo mal, mas não suficientemente mal para não passar na prova. Aos dentes. Tudo no sítio. Sangue. Pulmões. Exaustivo. Se tiver alguma doença, detectá-la-ão. Isto devia aliviar-me. Angústia. Terei alguma doença? Fumo muito. Pulmões negros. Algo pior? Suo descontroladamente. Sempre tive cuidado. Sempre sexo seguro. Mas e se. Não se pega com beijos. Mas e se. Não era este o pesadelo da minha infância. Estou no meio dele. E afinal não custa nada. Eclipsado por pesadelo maior.

*

Mais força! Não me diga que só consegue dar isso! Não consigo. Humilhação segunda. Não faço desporto, lamento. Uso as mãos para escrever, as pernas para andar. Não corro. Sou grande, encorpado. Mas não tenho força. Lamento. Primeira prova física em que tenho resultados negativos. Não tenho força. Nunca exercitei os músculos poderosos que um pediatra um dia profetizou serem os de um futuro atleta de alta competição. Quem sabe. Já não vou a tempo. Vinte e um anos. Joguei à bola uma única vez na vida. Não faço uso desta impressionante musculatura. Músculos para quê. Só os dos olhos. A ler. E os das mãos e braços. A segurar os livros. A escrever. Olhares de piedade e gozo. Não me importa. Não tenho vergonha disto. Quem são vocês para se rirem da minha falta de força? É ridículo um matulão de um e oitenta e cinco não ter força. Quero lá saber. Força para quê. Não me faz falta. E vocês, conseguem ler Séneca no original?

*

Última prova do dia. Psicotécnicos. Olá. Está alguém a falar comigo. Há um rapaz moreno a sorrir. Mete conversa. Está sozinho, como eu. Mas conhece gente ali. Queres vir jantar connosco, dar uma volta por aí? Claro. No quartel, para poupar dinheiro. Conversamos com alguns oficiais. Gente boa. Aquele que nos recebeu em tom agressivo. Prestável. Acessível. Começo a ganhar afeição a este antigo convento e aos seus habitantes. Fim de tarde. Passamos os portões. Levamos braçadeiras que não podemos perder. A vista sobre Coimbra, lá em baixo, é espantosa. Não tinha dado por ela, quando cheguei. Nem eu. Velhos amigos feitos em uma ou duas horas. Lá em baixo espera-nos um grupo. Temos hora de chegada ao quartel, não podemos exagerar. Há ali muitas caras conhecidas. Gente que me habituei a ver nos corredores da escola mas a quem nunca tinha falado. Absinto com pimenta, já provaste? Corta o sabor a álcool. Regresso em braços ao quartel. Lanço-me sobre a cama. Não me lembro de mais nada.

*

Acordar pá! Acordar caralho! Têm 15 minutos para se despacharem. Não consigo tomar duche, não há tempo. Lavo-me como posso. Mal. Desconfortável. Não consigo não tomar banho. Sinto-me viscoso. Cheiro mal. Dói-me a cabeça. Absinto com pimenta. Mais exames médicos. Faça favor de abrir os braços. Cheiro mal, não me deixaram tomar duche. O médico faz um gesto de repulsa. Eu sei que cheiro mal. Se me deixarem eu vou tomar um duche. Assim não lhe ofendo o nariz. Não o digo. Agora têm de esperar até serem chamados. Fome. Não me lembro de ter comido. A espera arrasta-se. O dia está cinzento. Convento gelado. Costas nuas contra as pedras frias da parede. O militar responsável pelo nosso grupo está preocupado connosco. Têm de almoçar. Vou ver o que posso fazer por vocês. Afinal é tudo boa gente, aqui. Salsichas e arroz. Sopa não identificável. Lugar livre ali ao canto. Onde está o meu amigo moreno? Lugar livre. Como sozinho. Tanto melhor. Não conheço os vizinhos de mesa. Será que me enganei. Arroto violento. Risos bestiais. Enganei-me. Mesa dos que não têm 12º. Levanto-me, despedido por um coro de arrotos, e avanço para a sala seguinte. Lá está ele! Tinha-me enganado no refeitório, desculpa.

*

Alívio. Paz. Porquê tantos anos de terror? Tenho horror à autoridade discricionária. Mas não é isso que se vê neste quartel. Há autoridade. Há regras. Estritas. E há bom-senso. Respeito. Não é suficiente para me fazer desejar a vida militar. Mas basta para terminar um pesadelo que vinha desde a infância.

Domi militiaeque III

[Giovanni Bellini - Força]

Acossado. Leão acossado. Como me comportei no comboio... Os desafios. Acossado por gente que não era a minha. Gente que se calhar, afinal, nem dera por mim. Tudo na minha cabeça. Coro de vergonha. Pensarão que é do calor. Vivera até então num isolamento quase absoluto em relação à minha geração. Leão solitário lançado para o meio da multidão. Não os percebia. Nunca soube como se comporta um grupo de rapazes. Porque nunca tive um. Não o lamento. Via-o agora pela primeira vez. Interpretava o seu comportamento normal como ataques à minha solidão voluntária. Mas não. Afinal ninguém me abordou. Fui eu. Eu. Lancei olhares de desafio. Mostrei as solas das minhas DocMartens. Idiota. Espreguicei-me para exibir o meu metro e oitenta e cinco. Que terão pensado de mim? Louco. Tão louco. Como sempre. Agora tudo é mais claro. Suando copiosamente no pátio, à espera de que o portão do quartel abra. Coração dói de tanto bater. Olho em volta. Já não me parecem ameaçadores. Vejo angústia disfarçada com risos nervosos. São iguais a mim, afinal. Estamos todos juntos. Unidos na ansiedade. Olhamos regularmente para o portão, apreensivos. Nunca mais o abrem. Que me farão? Vão humilhar-me. Gozar comigo. Acossado. Leão acossado. Pelos meus fantasmas.

Domi militiaeque II

[Agnolo Bronzino - São Sebastião]

Tenho de levar algo para ler. Κατέβην χθὲς εἰς Πειραιᾶ μετὰ Γλαύκωνος τοῦ Ἀρίστωνος ... A caminho de Coimbra. Inspecção. Somos muitos. Só rapazes. Enchemos o comboio. Não conheço ninguém. Mau feitio. Misantropo. Não é de agora. Agora apenas sofro as consequências. Há algumas caras que me são familiares. Mas nem um amigo, nem um conhecido. Sou o único sozinho. Todos os outros rapazes se juntam em grupos mais ou menos pequenos. Mas eu não conheço ninguém. Não me posso juntar a ninguém. Sinto-me perdido. Um antigo colega de escola. Mas já não nos falamos. Tanto melhor. Farei a viagem sozinho, a ler. Ainda não lamento a solidão.

*

Há dois grandes grupos. Há os que têm 12º ano ou mais. Há os que não. A fronteira é muito nítida. Nós vamos sentados, em silêncio. Ou conversando em voz baixa. Eles gritam. Riem alto. Passeiam-se pelas carruagens, destilando excesso de hormonas. A maneira de vestir. Mesmo as caras. Inconfundíveis. É chocante. Odi profanum vulgus et arceo. A fazer apreciações elitistas. Eu. Um homem de esquerda. Detesto-me. Racionalizo. Não tiveram condições para estudar. Não têm culpa. Muitos deles parecem ser bastante pobres. Odi me et arceo. Não consigo ler em paz. O dia desponta, quente. Chegaremos pela hora de almoço. Até lá tenho de aturar isto. Grotesco.

*

A ansiedade da véspera foi-se. Agora nervoso miudinho. Que será que me vão fazer? Já tirei os brincos? Já. Se calhar devia pô-los de novo. Não é normal um homem com tantos brincos nas duas orelhas, no início desta última década do século. Não queremos cá bichas. Paneleiros rua. Pode ser que... Se calhar devia pô-los. Não. É melhor não. Dizem que alegando homossexualidade eles dão-nos como inaptos. Ineptos, é assim que se deve dizer. Não sabem latim. Mas é melhor não. Mariquinhas. Aquele ali, de riso alvar, a olhar para mim com ar de gozo. É disto que tenho medo. E se gozam comigo, no quartel. Notam-se os buracos nas orelhas. Tentarei parecer o mais másculo possível. Que estupidez. Eu sei parecer másculo. Mas para quê. Que tolice. Chamavam-me mariquinhas, na escola, quando era miúdo. A minha melancolia. Os óculos. Sempre agarrado aos livros. Mariquinhas. E gordo. Também me chamavam gordo. Mariquinhas gordo. Mariquinhas gordinho. Gordinho mariquinhas. Não gostava de jogar à bola, como os outros miúdos. No recreio ficava isolado. Alegremente isolado. Misantropo de nascença? Depois cresci e tornei-me grande. Muito grande. Agora pensam duas vezes antes de me chamarem mariquinhas. Mas aquele está com os amigos. Não tem medo de mim. Cruzo as pernas. Exibo as minhas DocMartens. Sola ameaçadora voltada para ele. Baixo o livro e olho-o nos olhos. Não acredito que estou a fazer isto. Nunca me meti em brigas. Não sou capaz. Estou aterrorizado. A Cristiana tinha medo de mim. Achava que eu era um "skinhead". Não a censuro. Cabelo quase rapado. DocMartens. Calças de ganga rotas. Óculos pequeninos redondos. Apenas os brincos destoam. Pareço um oficial nazi saído de um filme de época. Eu. Homem de esquerda. Anti-nazi. O outro desvia os olhos. Retomo a leitura, triunfante. Aliviado. A minha presença é notada. Os grupos mais próximos olham-me com curiosidade. Aquele grupinho ali. Olhares gozões. Desconfortável. Era disto que eu tinha medo. Não arrisco novo desafio. Ainda estou a tremer. Levantar-me e espreguiçar-me. Sou o mais alto da carruagem. Não sou gordo, agora. Sou bastante encorpado. Pé em cima do banco. Ostensivamente desatar e tornar a atar os atacadores das DocMartens. Resultou. O grupinho parece ter desistido de me provocar. Demonstração de força estúpida. Fiz isto para quê? Idiota. Para me proteger. Criar a imagem do que não sou. Lanço olhares ameaçadores em volta, e volto a enterrar a cabeça no livro. Tenho medo. Agarro com força o livro para não perceberem as tremuras das minhas mãos. Sinto-me a sufocar. Como será no quartel? Vão-me chamar mariquinhas. Vão-me humilhar.

*

Há um que me olha de maneira diferente dos outros. Ruivo. Este não me mete medo. Desvia o olhar, embaraçado, quando o tento surpreender. É divertido. Este não diz mariquinhas com os olhos. Mas também não consigo decifrar o que diz. Bifurcação de Lares. Mudança de comboio. Isolado, no recreio. Às vezes brincava com as meninas. Mariquinhas. Estúpidos. Não sabiam que eu também brincava aos médicos, com elas. Aqui não há meninas. A estação é uma ilha cercada de arrozais a perder de vista. Isolamento absoluto. Temos de esperar. Uma hora. Ou mais. Não conheço ninguém. Caras familiares, apenas. Refugio-me no livro. Mariquinhas. O ruivo olha-me insistentemente. O que é que ele quer. Incómodo. Deixou de ter graça.

*

Comboio suburbano. Estamos a chegar, parece-me. Vamos em pé, apertados. O ruivo está mesmo à minha frente, quase lhe sinto o hálito. Os outros parecem ter-se habituado a mim, ignoram-me. O ruivo insiste. Não percebo aquele olhar. Não é de gozo. Não é de curiosidade. Não, não é de engate. Olha-me como se eu não estivesse ali. Acorda quando cruzo o meu olhar com o dele. Então baixa a cabeça e cora. Andamos neste jogo desde a Bifurcação de Lares. O que queres de mim?

*

À porta do quartel. Pânico. Calor ardente. Tenho medo. O que me farão? Vão-me obrigar a despir em público. A andar nu entre nus. E vão ver os furos nas minhas orelhas. Vão-me humilhar. Abro o livro mas não vejo as letras, só borrões. O estômago não existe. Estou banhado em suor. Calor. Que abram depressa a porta. Que isto acabe rapidamente. Sinto que posso começar a chorar a qualquer momento. Vão-me humilhar. Vão gozar comigo. Mariquinhas. Pé de salsa.

12.5.06

Domi militiaeque I

[Guercino - Estudo de rapaz sentado]

Amanhã vou para a tropa. Vou à inspecção. Enganei-me. Que importância tem. É a mesma coisa. Quartel. Tropas. Ordens. É a mesma coisa. Tropa. Inspecção. Vai ser um ponto de viragem na minha vida. Vou à inspecção. 1,85m. Robusto, mas não gordo. Serei dado como apto, com toda a certeza. E começará a contagem decrescente para a incorporação. O pesadelo que me persegue há tanto tempo. Desde a infância. Amanhã começa. Vou-me despedir da vida tranquila, esta noite. Tenho de me levantar muito cedo, para apanhar o primeiro comboio da manhã. Que importância tem. Nunc est uiuendum. Até logo, não venho tarde. Como será amanhã. Há um bar novo, talvez lá vá. Com recantos. Pouco iluminado. Uma casa antiga transformada em bar. Anos seguidos a pedir adiamentos. Mas agora estou a acabar o curso. Não há mais adiamento possível. Andamos pelos corredores sombrios do bar e escolhemos o compartimento que mais nos agrada. É um conceito interessante, Quem me dera viajar dois dias no tempo, não ter de passar por isto. Que sorte. Dois amigos neste compartimento. Vão estar lá centenas de rapazes. Não me sinto à vontade. Sabem que amanhã vou à inspecção? Nunc est bibendum. Tomamos uns copos. Vinho do Porto. Ou cerveja. Que importância tem. É a mesma coisa. Ouvi dizer que temos de nos despir em grupo. Não quero. Aproveito esta minha última noite de tranquilidade. Amanhã começa a contagem decrescente. Não são dois amigos, são dois conhecidos. Um deles acho que o vi apenas duas ou três vezes. Que importância tem. Preciso de beber. De conversar. Com amigos, com conhecidos. É a mesma coisa.Vai-se-me apertando o estômago. Amanhã a esta hora como estarei. Onde estarei. Tenho medo. Vou andando, amanhã tenho de me levantar cedo. Boa sorte. Obrigado. E se me obrigam a despir em frente dos outros todos. Não me apetece ir já para casa. Mas devia. Mas tenho de. Não me sinto confortável no meio de grupos exclusivamente masculinos. Como será, se me incorporarem. Não quero pensar nisso, agora. Limpo a mente. O que tiver de ser, será. Preocupo-me com a incorporação quando ela chegar. Que importância tem. É melhor ir dormir, amanhã tenho de me levantar cedo. Cada degrau é uma martelada na cabeça, que ameaça rebentar. As chaves. Não trouxe as chaves. Campainha. Alguém há-de abrir. É normal, a mãe demora sempre um bocadinho a vir abrir, tem de percorrer o corredor. É melhor tirar os brincos, ainda me arranjam problemas por causa disso. Não me abrem a porta. Campainha. Que livro levar. Sim, tenho de levar um livro. Ninguém. Não está ninguém em casa. E agora. Quase meia-noite. Platão. Levo Platão. República. O Miguel diz que serei um militar diferente. Que chegarei a um posto elevado. Que terei recrutas sob o meu comando. Que em vez de exercícios militares os sentarei debaixo de plátanos, e discutiremos Platão. Plátanos. Galiza. De onde me vem a Galiza, agora? Que estranho. Quero ir dormir. Sentar-me nas escadas e esperar. Onde terão ido todos. Sentar-me nas escadas. Esperar. Até que alguém venha e me abra a porta. Amanhã muda a minha vida. Tenho vontade de chorar. Mas é ridículo chorar por uma coisa destas. Que importância tem. Hoje, sentado nas escadas, à espera de que me abram a porta. Amanhã no quartel, à espera de que ma fechem. É a mesma coisa.