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22.3.08

Περίλυπός ἐστιν ἡ ψυχή μου ἕως θανάτου

[Munch - Auto-retrato no inferno]

Harto de tanta porfia

sostengo bevir tan fuerte
qu'es triste el anima mia
fasta que venga la muerte
(anónimo espanhol, s. XV/XVI)


περίλυπός ἐστιν ἡ ψυχή μου ἕως θανάτου
Mc. 14:34

Farto de tanto lutar de tanto viver esta guerra sem descanso. E olhar-me as mãos e querer arrancá-las uma e a outra. Com os dentes que me ardem. Os dentes não ardem. Os meus ardem. Devagarinho. De fora para dentro. E abrir os olhos e ver afinal está ali. Nunca esteve. E agora o que resta. Quando já nem as noites dormidas.

14.9.07

وَإِذَا الْقُبُورُ بُعْثَرَتْ

[Salma Arastu - Allah VI]

إِذَا السَّمَآءُ انفَطَرَتْ
وَإِذَا الكَْوَاكِبُ انتَثَرَتْ
وَإِذَا الْبِحَارُ فُجِّرَتْ
وَإِذَا الْقُبُورُ بُعْثَرَتْ
عَلِمَتْ نَفْسٌ مَّا قَدَّمَتْ وَأَخَرَت
Alcorão 82:1-5


'ida s-sm'â'u anfaTarat
wa-
'ida l-kwâkitu antatharat
wa-'ida l-bihâru fujjirat
wa-'ida l-qubûru buºtharat
ºalimat nafsun mma qaddamat wa-'ahrat

Quando o céu se estilhaçar,
e quando os planetas se espalharem,
e quando os mares se misturarem,
e quando as tumbas se abrirem
- toda a alma conhecerá o que avançou e o que atrasou.

13.9.07

Epitaphius quartus

P9120109
[Painel de azulejos do século XVIII - Convento da Graça (Torres Vedras)]

اضحك يضحك العالم معك وابك تبك وحدك
ri, e o mundo ri contigo; chora, e chorarás sozinho

Depois entornem-me vinho. Branco. Última bebedeira. Solitária. Debaixo da terra dura. Quae non leuis mihi erit. E não pensem mais em mim. Eu não estou. Nunca estive. Esqueçam-me. Enquanto baixo a cabeça. E espero o golpe. Porque eu também vos tenho esquecido. Ibo nunc in malam rem. Que a vida vos seja leve. Valete.

28.8.07

A mãe das rochas

[Caspar David Friedrich - Recife]

آخر الذوا الكي
o ferro quente é o último recurso
(provérbio libanês)

Era aquela hora em que o Sol malha as cabeças com martelo furioso. Subindo suado as rochas ressequidas. E o cheiro a alga e a mar e a morte. A sua. De cada vez que o pé resvalou numa pedra solta. E o corpo estremeceu. Ai ai. E uma mão lançada mais acima e o corpo colado à pedra. É que não podia morrer enquanto não chegasse aqui. Por isso não deitou os olhos no abismo. Manteve-nos no ar. Aqui. Na rocha mãe. Mãe de todas as outras. Mãe. Desde miúdo lhe chamou assim. Aquela é a mãe das rochas. Porque dela parecem nascer todas as outras. Assim. Rolando devagarinho. Uma depois da outra. Saindo de dentro da mãe. Tremenda parede de pedra. E lá em cima. Lá em cima fica a mãe. Serena. E agora já pode deitar os olhos no abismo. Porque já chegou. À mãe das rochas. E o vento é tão forte. E os pés mal acham sítio onde pousar. Lá em baixo a praia pequenina. Não tem areia. Só pedra negra. Depois caiu. Beijando com o seu sangue uma a uma as filhas da mãe das rochas. Não tropeçou. Nem foi o vento que o soprou. Caiu.

25.8.07

Domi militiaeque . 6 . Escaravelhos

[Leonardo da Vinci - Cabeça de guerreiro]

آمن بحجر تبرا

tem fé numa pedra e serás curado
(provérbio libanês)


Adiar até ao fim. Até ao dia em que.

Porque eu não vou aguentar. A sério. Eu morro. Não me mato. Mas morro. Sozinho. No meio deles. Um dia vão à minha procura. E eu estou no meio do mato. Com escaravelhos na boca. Portanto os senhores têm de me dar por inapto. Devia ser inepto. Os senhores não sabem latim. Não precisam. Mas não lhes faria mal nenhum. Porque se não o fizerem. Para o resto da vossa vida. A imagem de mim de cara posta no chão. E escaravelhos a sairem-me da boca. E do nariz.

Exército seja. Demora menos não é. E agora como vai ser. Não interessa. Tenho um ano. Ou mais. Agora é viver. Nunc uiuendumst. Já me esquecia. Os senhores não sabem latim. Esquecer o que há-de vir. Porque daqui a um ano. Ou mais. Estarei de barriga para baixo. Boca aberta. E escaravelhos. Muitos escaravelhos.

22.8.07

A noite

[Goya - Un perro]

آخر الليل بتسمع العياط
ao fim da noite gritos ouvirás*
(provérbio libanês)

Não não não apagues a luz. Nem a televisão. Continua aí. E eu. Sozinho. Na cama. Fala. Para ninguém. Só para te ouvir a voz. Porque eu preciso. Não sei. Do barulho. Saber que há alguém. Não. Podes apagar a luz. Mas não apagues a televisão. Deixa-me coisa viva. Deixa-me um ruído. Ou então apaga. Mas continua aí. Fala. Não. Até podes não falar. Passeia pela sala. Arrasta uma cadeira. Ajeita-te no sofá. Mas não te vás deitar. Faz barulho. Fica aí. Não me deixes sozinho com este zumbido medonho na cabeça. Porque eu preciso. Tanto. Preciso de saber. Que não estou sozinho. Que a noite vai chegar ao fim. Que eu vou acordar. Ou não.

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* 'âHer l-leil betesmaº l-ºeyâT

21.8.07

Epistolário XXVII

[Memling - Vir dolorum]
I am stretched on your grave
And I'll lie here forever
If your hands were in mine
I'd be sure they would not sever
My apple tree, my brightness
It's time we were together
For I smell of the earth
And am worn by the weather


(anónimo irlandês do século XVII traduzido por Philip King)

André ao seu Ρ.Α.

Volto sempre a ti. Ou talvez não. Porque eu nunca te deixo. E se nunca te deixo. Então não volto. Porque para voltar. E eu não te deixo. Nunca. Nem nos momentos de maior felicidade. Quando seria fácil arrumar-te num canto esquecido. Mas não. A tua memória não me abandona. E tu sabes que não é fácil. Para os outros. Porque o que para mim é memória. Doce. Sempre presente. Para eles é fantasma incómodo. Quando começo as minhas frases por o Ρ. um dia. Ou o Ρ. uma vez. Ou o Ρ. dizia. Tantas. Demasiadas vezes. E eu não sei se.

Perguntas porque escrevo cartas falsas em nome de um morto que nunca em vida me escreveu uma linha sequer. Eu escrevo memórias. Tu és uma. Das mais queridas. E nos momentos mais negros aninho-me nos braços que amei. Onde está o calor que não encontro cá fora. E à medida que se vai estreitando o meu mundo. E caindo uma a uma as âncoras que me sustêm. A saudade. E a tristeza. E o vazio. Porque é isso que me mata. Olhar em volta e não ver. Então volto sempre a ti. Mesmo não sendo um retorno. Porque na verdade nunca te deixei. A ti vejo-te sempre. Em todo o lado.

E se eu acreditasse que. Seria tão mais fácil. Porque teria aquela esperança. Eu sei. Vã. De um dia voltar a ver-te. Dar-te o beijo que nunca demos. Mas eu não acredito. E nunca mais nos veremos. Nem aqui. Nem em lado nenhum. Não te terei de novo nos braços. E o beijo que nunca demos. Queria poder dizer-te até breve.

Fazes-me tanta falta.

P.S.
Anteontem passei por ti. Era de noite. Estava com ele. Por quem me chora o coração.
Não pararam os meus pés. Parei eu. Deixei de ouvir de sentir de viver. Um momento. Deitei-te os olhos e disse-te olá. Não sei se me viste.

20.8.07

Harto

[Van Gogh - Caminho com choupos]

Harto de tanta porfía
sostengo bevir tan fuerte
qu'es triste el ánima mía
fasta que venga la muerte

En tus manos la mi vida
encomiendo condenado.
O piedad mereçida!
Por qué m'as desanparado?

Fin hará la profecía
dada por mi mala suerte
qu'es triste el ánima mía
fasta que venga la muerte

(anónimo espanhol, s. XV/XVI)

9.7.07

Notícias recônditas do modo de proceder da Inquisição com os seus presos

[Piero della Francesca - Torturando o judeu]

«Estando nestes apertos, nem para sentirem suas penas têm liberdade os miseráveis. Mandam-lhes que não chorem, nem suspirem rijo, porque presumem que é darem sinal aos dos outros cárceres. Se dão um ai, tendo penas que os obrigam a dar tantos, é crime. Se gritam ou falam alto, culpa grave, e como tal se castiga. Lamentável caso! É delito a queixa, são as culpas os gemidos! É virtude nos ministros o afligir - e crime nos presos o gemer e queixar! Geme o ar insensível, quando o ferem, e não gemerão os homens sensíveis e racionais?! Hão-de proibir-se e castigar-se os impulsos da natureza?! Quem, se não tiver um coração de pedra, ouvirá sem lágrimas e gemidos, a quem condenam gemidos e lágrimas? Chora, suspira e geme quem sente uma dor ou padece golpes que cortam o coração, ainda para a saúde; e não há-de chorar, suspirar e gemer quem sente tantos golpes na alma? Golpes que cortam a honra, a vida, a fazenda, não são golpes nem dires que possam encobrir-se nem disfarçar-se. Oh inumanidade que não usaram com os mártires os tiranos!»

Anónimo (séc. XVII), Notícias recônditas do modo de proceder da Inquisição com os seus presos.

Pe. António Vieira, Obras escolhidas. Prefácios e notas de António Sérgio e Hernâni Cidade. Volume IV. Obras várias (II). Ed. Sá da Costa

30.6.07

And a flying fish will set me free

[Bernini - David com a cabeça de Golias]

الجود بالنفس أقصى غاية الجود
(a generosidade da alma é a maior das generosidades)


a I.

Arde forte fogo que já não é teu. É tempo pois de te pôr in a little box with a golden key. Pyxis dulcium memoriarum. Lavado o travo deixado por paixão ferida de morte. Porque o travo só está se a paixão também. Repara. Passio. Non amor. Quia passionem nunc scio non amorem fuisse. Anos de reclusão voluntária. Monge estilita sem coluna onde pousar. Depois aparece puer uenustus com cesto de fruta pão negro e vinho doce. E o monge ri e arde por dentro. Quare puer hic uenustus me senem diligat quare capillum tangat canum meum nescio. Deslumbra-se e sonha. Diz o que quer sentir. Tu sabes. Não o que sente. Porque o que sente. Nescitur.

Deito os olhos para trás e já não dói não se aperta coração que não amou. Entraste já há tempo bastante na galeria das memórias pacíficas. Faltava arrumar-te. Vou-te pôr. Há tanto espaço. Não sei. Ali ao lado do JP.


Clausa pyxide vêm-me diante dos olhos memórias tão doces agora inofensivas.
É tempo delas. Das memórias.

And a flying fish will set me free. Lhasa.

28.6.07

Epitaphius secundus

[Caravaggio - A coroa de espinhos]

اضحك يضحك العالم معك وابك تبك وحدك
(Ri, e o mundo ri contigo; chora, e choras sozinho)

Quando eu morrer não quero que me olhem o corpo. Não há nada para ver. Metam-mo depressa depressa em caixa de madeira. Negra. Se não houver negra pode ser de outra cor. Mas não demorem muito por favor. É só dizer adeus. Adeus André. Já está. Adeus. E lancem-mo às chamas. Depressa depressa. Lume no máximo. Depois podem ver-me as cinzas. Se quiserem. Mas depressa. Que cinza é coisa que se vê tão depressa. Metam-mas num pote numa caixa. Pode ser num frasco. O que estiver à mão. Mas o que eu queria. Sabem. O que eu queria era que mas metessem num saco de papel. Daqueles castanhos que fazem barulho. E mas levassem ao tholos do Barro. E fizessem um buraquinho no chão ali sob a pedra deitada e mas deitassem com cuidado com cuidadinho no buraquinho. Mas depressa. Depois digam um poema da Sophia. Pode ser este. Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar. Sem pressa. Porque já está. Já estarei morto e enterrado. Acabaram-se as pressas. Esqueçam-me. Porque eu também vos esquecerei. Mas antes de descerem a colina. Não custa nada. Digam o poema da Sophia. São trinta segundos. Não mais. Até pode ser outro. Um de que gostem. Pode nem ser Sophia. Pode ser o que quiserem. Porque já não será para mim. Serei então cinza fria posta em sepultura milenar. Eu serei nada. Não ouvirei não chorarei. O poema será para vocês.

25.6.07

Os dentes

[Memling - São Jerónimo e o leão]

إذا رأيت نيوب الليث بارزة فلا تظنن أن الليث يبت

(Se vires os dentes do leão isso não significa que ele esteja a sorrir)

a E.

Embora dos Estados Unidos. Da avenida. Não dos. Porque aos eu nunca fui. Muito menos de autocarro. Cheirava mal. Eu. Não o autocarro. O autocarro cheirava a pessoas lavadas. E a metal suado. Porque não tomei banho. E a noite foi tão. Não sei. Se calhar não cheiro. Está tudo na minha cabeça. É que não podia tomar banho. Clandestino. Se ela me apanhasse. Não podias levar ninguém. Quarto alugado. Não casa. Sim podias usar a casa de banho. Mas tu. Eu não.

Em silêncio. Como é que se beija em silêncio. Como é que. Mordendo os lábios agarrando os lençóis com garras curtas. Estavam a dizer qualquer coisa mas eu não estava a ouvir. As senhoras sentadas ao meu lado. No autocarro. Não na tua cama. Porque na tua cama só nós. Em silêncio. Sem luz. A luz da avenida. Só essa. Enquanto te despias e eu já deitado despido. O teu perfil contra a janela. Deitava-te os olhos e corria-te o corpo. Sem mãos. Ao longe. Enquanto estendias os braços num bocejo falso. Mexia-me na cama impaciente. Eu. Não a cama. Pois claro. Uma cama não se impacienta. Muito menos esta. Que não terá grandes chatices. Porque. Silêncio. Tudo em silêncio. Dois corpos quentes colados suados. Parados. Movendo só o que tem mesmo de ser movido. Porque se sai um gemido mais forte. Ou um ranger rangido. Se ela nos apanha.

Daqui vê-se a janela do teu quarto. Enquanto não chega o autocarro. Posso ir olhando. O calor do teu corpo contra o meu. As mãos que te percorrem. Silêncio suado. Trancado no quarto secreto. Há uma cova no meio do colchão. Um vale para onde caímos mesmo sem querer. Mas nós queremos. Eu quero. Tu. Às vezes parece que. Não sei. Aquele bocejo falso.

Há estas senhoras que dizem sei lá não sei. Já não as ouço. Tenho de te ver. Saber se. Porque às vezes parece que. Não. Mas ainda hoje estava tudo tão bem. Alguma coisa que eu disse. Ou que fiz. Não fiz. Diz-me lá. E agora quando é que. Se eu pudesse mandar parar este autocarro. Tocar-te à campainha. Não pode ser. Tenho sempre de subir contigo. Não podes ter visitas. Muito menos visitas destas. Não te posso tocar à campainha. Porque se ela nos apanha. Nem bater à porta. Mas se eu pudesse. Para ter a certeza. Porque agora. Agora quando nos vemos. Mais logo na faculdade. Não chega. Preciso de ti. De te abraçar. De te. Por favor. Maldito autocarro. Maldita avenida.

17.6.07

Epistolário XXI

[Dürer - Cavaleiro]

tú gitana que adevinhas
me lo digas pues no lo sé
si saldré desta aventura
o si nela moriré

o si nela perco la vida
o si nela triunfaré
tú gitana que adevinhas
me lo digas pues no lo sé

(anónimo renascentista
cantado por Zeca Afonso e Luar na Lubre)

Ρ.Α. ao seu André

Não tens emenda. Olhas. Amas. E não tocas. Tiveste medo de mim. Não digas que não. Porque eu li-to nos olhos. E nas mãos. Que se erguiam para me tocarem. E depois desciam medrosas. Medo de quê. Consomes-te. Se me tivesses tocado. Mas não. Tu tocaste-me. Lembras-te. Eu senti-te. Sim sim. Não fiques já tão vermelho. Não vou contar. Tu sabes que eu te senti. E eu não te afastei. Podia ter-te empurrado. Questamerda. Ainda assim. Olhavas amavas. E não tocavas. Mesmo quando. Lembras-te. Quando me beijaram. E tu viste como eu reagi. Ou não. Não viste. Porque eu não reagi. Tão novos. Aqueles lábios nunca eu tinha provado. Tu lembras-te do outro. Que era igual só que. Esquece. Não fica bem aqui. Desculpa. É que isto é difícil. Porque eu nunca. E de repente. Mas sabes. Não. Esquece. Depois perguntei-te. Vistemogajo. E depois perguntei-te coisas sobre ele. E o ciúme nos teus olhos. Não. Não era ciúme. Raiva. De ti mesmo. Dos teus medos. Das tuas inseguranças. Porque ele foi capaz e tu não. E eu não lhe disse questamerda nem o empurrei. Em vez disso quis saber coisas sobre ele. Eu não o conhecia bem. A ti sim. Tão bem. Tu sabes que eu gostava muito de ti. Nunca saberás se. Porque nunca to disse. E não é agora que to vou dizer. Diante desta gente toda.

Eu lembro-me do teu beijo na minha cara. Não era a mesma coisa. O do outro era um beijo sensual. No teu havia tanto carinho. Eu sei. Eu sabia. Mas no teu beijo não havia desejo. E por isso ri. Olhei-te e ri. E tu ficaste vermelho. Gaguejaste. Sabes que gaguejas quando estás nervoso. E as pessoas ficam a olhar para ti comiseradas. Coitadinho é tonto. Mas eu sabia que tu não eras tonto. Tonto sim de amor. Isso eu sabia. Mas eu não podia. E aquele teu beijo. Na cara. Não era um beijo de amor. Respeitavas-me tanto. Demasiado. Pedias-me desculpa quando achavas que invadias a minha intimidade. E eu ria. Tonto. És tão tonto. O teu beijo. Beijo de irmão.

Se eu fosse alguma coisa se eu fosse alguém também teria tantas saudades tuas também te quereria tanto. Mas eu sou nada. Eu não sou. Sou imagem na tua memória. Sou memória.

Beso amigo
Ρ.Α.

11.6.07

Epistolário XVIII

[Baglione - São Sebastião assistido por um anjo]

«E quando chegarom aa Seda Perigosa, acharom i leteras novamente fectas, que diziam: 'A CCCCLIII anos compridos de morte de Jhesu Cristo, em dia de Pinticoste, deve haver esta seeda senhor'. Par Deus, disse Lançalot, quando esta maravilha ouvio: pois hoje deve haver senhor, ca da morte de Jhesu Cristo a este Pinticoste há CCCCLIII anos. E bem querria se podesse que estas leteras nom visse niũũ atee que veesse aquele que a há d'acabar.»
A Demanda do Graal, 8
(tradução portuguesa do século XIII)


Ρ.Α. ao seu André

Assim sim. Sim. Sinto-te tão tão. Outra vez. Como as coisas são tão. Tão mais. Quando te dizia que não te agarrasses a mim morto. Agora não precisas. .أحبه ويحبك إنشاء الله Gosto tanto de te ver assim. O mundo não acabou. Vês. Assim. De repente. Preso naqueles olhos. Ai ai. E eu escrevo e leio e sinto. E é como se fosse eu. Porque eu sou eu. Porque eu sou tu. E quando. Não não. Deixa correr. Porque mesmo que não. Mesmo que. Assim estás tão bem. Assim eu.

Tão bom tão estranho. Et Salmanticae tu. Iterum. Estava lá o Tormes. E a Fonda Lisboa. Lembras-te. Eu não. Porque eu não estava lá contigo. Mas eu sei. O clac clac abafado das cegonhas cortando o calor da tarde. O corpo molhado debaixo do duche tão fresco. E a noite quente quente. Um dia voltarás a contar isto tudo. Eu não me lembro. Mas sei. Tão miúdo. Vinte e um anos curso acabado. Cabelo comprido tantos brincos. Óculos redondos pequeninos. Calças rotas botas militares. Bebendo sangria tanta tanta fumando cigarros. Havia o Edward e o amigo e a holandesa avantajada. Parvo. Dá Deus nozes a quem não tem dentes. Os outros holandeses. Quantos eram. Não te lembras. Eu também não.

E agora. Tantos anos depois. Tão diferente. Tu. Porque o Tormes ainda lá está. Igual. Mas tu. Cabelo curto com cãs. Os brincos sim. Mas menos. E a roupa roupinha tão bonita bonitinha. Não há holandesas avantajadas nem ingleses de olhar penetrante. Há respeitáveis académicos espanhóis e portugueses. E tu académico. Quem te diria. Quem te via. Quem te sente. Tão calmo sempre tão calmo.

Sinto que não me queres ler. Ouvir. Porque tens a tua cabeça noutro lugar. E eu gosto de te ver assim. De te sentir. Porque quando te sentes. Eu também te sinto. Me sinto. Deixo-te mergulhado nos olhos cerúleos que te aprisionaram. Não te afogues.

Adoro-te.

9.6.07

Tormes

«Y en cuanto esto pasaba, a la memoria me vino una cobardía y flojedad que hice, por que me maldecía, y fue no dejalle sin narices, pues tan buen tiempo tuve para ello, que la meitad del camino estaba andado; que con sólo apretar los dientes se me quedaran en casa, y, con ser de aquel malvado, por ventura lo retuviera mejor mi estómago que retuvo la longaniza y, no paresciendo ellas, pudiera negar la demanda. ¡Pluguiera a Dios que lo hubiera hecho, que eso fuera así que así!»
Lazarillo de Tormes
(Ediciones Universidad de Salamanca)



O Tormes estava lá. Ainda hoje o vi. Mas eu podia jurar que ele era mais fraco. Um fio de água. Sim sim. Não o largo largo espelho de água. E o calor. Fugíamos de Madrid. Quarenta e quantos. Quarenta e seis. Ou sete. Inferno. Ora vê lá no El País como está Salamanca. Trinta e oito. Muito bem. O Tormes era promessa. Porque em Madrid o Manzanares. Hombre. Vaya contaminación. Bueno el Tormes también. Pero. A ver. No es igual.

Why do you keep taking pictures of me.
I am not.
Yes you are and I already told you to stop in the previous post.
I'm sorry if it's bothering you.

Depois despi a camisola. Edward will you stop it please. Descendente de Aldous Huxley. Brave new world. Tirou o título de Shakespeare. The Tempest. O brave new world that has such people in't! Como se chamava o outro rapaz. Foi há tanto tempo. Catorze anos. Ou quinze. Um desarranjo estomacal. Três dias fechado no quarto. E nós íamos vê-lo no quarto escuro. Feeeeeeling better. E ele ria fraco e o cabelo louro colado à testa suada não mexia.

Como se chamava ela. Holandesa ruiva de peito abundante. Depois contou-me que já tinha feito uma operação para reduzir as mamas. Oh dear. Trocámos cartas. Cartas de papel. Sim sim. Existem. Não sabias. Contou-me tanta coisa. Que quando. Não sei se deva. Bom. Que quando. Eu não vou dizer nomes. Ninguém sabe. E ela seria hoje a primeira a contar. Que quando desapareceram as duas. E eu fiquei tão aflito. Porque tínhamos de apanhar o combóio. Que quando desapareceram as duas. Trocaram beijos. Beijos na boca. Com língua. I'm not a lesbian you know. However. Lo que el verano en Salamanca hace a las personas. Vaya.

Sangrias sugadas na noite quente quente quente. E o Tormes chamava ao longe. Amanhã. Tomorrow. Not now. It's dark. What do you have in mind. I promise I'll go with you tomorrow. We'll have a nice nice hot sunbath.

Pés metidos na lama morna. A sombra da ponte romana e o Tormes. Tão baixo baixinho. Tornozelos. Will you send all those photos. You say Aldous Huxley is or was your relative. O wonder! How many goodly creatures are there here! How beautious mankind is! Shakespeare.

Um dia conto o resto. Agora estou tão cansado. Foram tantas centenas de quilómetros. Salamanca e o Tormes ficaram para trás. E desta vez não era baixo baixinho pelos tornozelos. Era muralha negra de água. Porque então eu era tão. Pues en este tiempo estaba en mi prosperidad y en la cumbre de toda buena fortuna. Isto diz Lazarillo. Eu troco o tempo. Pues en este tiempo estoy en mi prosperidad y en la cumbre de toda buena fortuna. Sí. Estoy.

4.6.07

Graal II . Aonde quiseres


Contra a noite, depois de vésperas, quando se assentarom aas mesas, ouvirom vĩir ũũ trovam tam grande e espantoso que lhes semelhou que todo o paaço caía. E logo depois que o torvam deu, entrou ũa tam grande claridade que fez o paaço dous tanto mais claro ca era ante.
A Demanda do Graal, 25
(tradução portuguesa do século XIII)


Não controlo olhos nem mãos. Quando te vejo. Sim sim o Graal. Sem palavras para te lançar. Porque o teu riso diz. Mas desdiz. Como tu. Ambíguo. Esses olhos verdes. Eu nunca gostei de. Mas os teus. Desarmado.

Queres vir comigo.
Aonde.
Procurar o Graal.
Aonde.
Aonde quiseres.

O riso. Não te saía dos lábios. E eu não sabia o que me estavas a dizer. Et excruciabar. Porque eu ia. Sim sim o Graal. Aonde tu fosses eu ia.

Pode estar num castelo. Já imaginaste nós dois num castelo alemão ou escocês ou inglês ou francês eu sei lá. Num castelo. Longe de tudo. E nós agachados agarrados em passagens apertadas. Como é que achas que. Será uma taça de ouro. De madeira. Ou de pedra. Não interessa. Eu gostava que fosse de pedra. Como tu.

Deitado tu no parapeito da ponte de pedra. Eu de pé. Cabeça posta no rio. Coração em ti. Ardente. Calados os dois batidos pelo bafo da planície. Fim de tarde que não se finava. Laranja o céu a água. E havia aquele silêncio abafado das tardes de Verão. Depois perguntaste. Não sei. Não me lembro. Embalado pelo baixo da tua voz. Ouvia-te. Mas não te entendia. Nunca te entendi. E eu não respondi e fiquei a olhar-te o verde dos olhos.

Sim eu sabia sim.
E ainda assim.
Ainda assim.
Mas se assim.
Eu sou assim.

2.6.07

al-mathal al-jadid - المثل الجديد

[Picasso - Au bain]
لا تؤجل عمل اليوم إلى الغد
(provérbio árabe)

a E.

Podia ser noutro sítio qualquer.

Cuidado. Se ela nos ouve. Anda. Podes vir. Ontem fizemos muito barulho. Perguntou-me se. Cuidado.

Aqui está escuro. Só te vejo o perfil. Enquanto te despes. Já está. E este calor que me esmaga contra a cama. Rebolo para o meio onde estás tu. Se isto é o teu corpo se é o meu. Calor. Só pele quente molhada. Pode ser tua pode ser minha. Cansa-me respirar. Porque me entra pelas narinas este calor suado.

Não fales tão alto. Se ela nos ouve. Aqui não entra. Mas depois faz-me perguntas. E o que é que eu digo. Cuidado.

Não sei se dormi. Quando venho não sei se durmo. Porque as noites são pesadas quentes. Fecho os olhos. Pele suada quente contra a minha contra a tua. Lá fora está frio. A luz branca rompe a janela.

Já podes. Sai. Vá. Depressa. Ela não está a ver. Vá. Rápido. Sim. Sim. Também te adoro. Vai. Cuidado.

30.5.07

al-mathal - المثل

[Pieter Brueghel - Os provérbios]

إذا فرغ الفؤاد ذهب الرقاد
(provérbio árabe)

Coração vazio. Porque sabes. Acabou-se. O tempo. E agora. Cansado de. Tu sabes. É que os dias há muito não são dias. E as noites sufocam. Assim devagarinho. Almofada posta sobre a cara. Calígula. Sapatinho. Já não consigo respirar. Vazou. Agora está nada. É nada. Mas há dias em que ainda bate. Qualquer coisa ainda anda por lá. Semente. Pólen. Grão de areia. Depois suspira resfolega e pára. São tão poucos já os dias em que bate. Tão devagarinho. Chegará o dia. Em que. E depois. Queres saber o que diz o provérbio. Está traduzido nestas linhas. Procura. Tolle. Lege. E o que fica em breve partirá.

29.5.07

Isto foi verdadeiramente eficaz milhões de vezes


«Fórmula para tomar o aspecto de uma fénix.

Palavras ditas por N.:

Eu voei como um deus primordial, eu vim à existência como Khepri, eu cresci como uma planta, eu protegi-me com uma carapaça como uma tartaruga. Eu sou o fruto de cada deus. Eu sou a sétima destas sete uraeus que se encontram no Ocidente, o Hórus que se torna luminoso ele próprio, este deus (que julgou) contra Set, o Tot que se colocou no meio deles neste julgamento do chefe de Letópolis com as Almas de Heliópolis, a água que correu entre elas. Eu vim neste dia, tendo aparecido na procissão dos deuses. Eu sou khonsu, aquele que se opõe aos senhores.

Quem conheça esta fórmula sendo puro, pode sair à luz do dia depois da sua morte e tomar os aspectos que o seu coração pode desejar tomar; (pode) estar entre os seguidores de Uen-nefer, alimentar-se dos alimentos de Osíris, ter a oferenda funerária, ver o disco solar, ser próspero sobre a terra junto de Ré, e justificado junto de Osíris, e nenhum mal tem poder sobre ele. Isto foi verdadeiramente eficaz milhões de vezes.»

O Livro dos Mortos do Antigo Egipto, cap. 83,
tradução de Maria Helena Trindade Lopes, ed. Assírio e Alvim

26.5.07

Epistolário XII

no tenga nadie esperanza
(anónimo espanhol do século XVI)

Ρ.Α. ao seu André

Não leves para o teu frasco negro de ferro nada senão cinzas. As tuas. Não leves remorso nem culpa nem mágoa. Nem esperança. Nem medo. Nem amor. Nem dor. Não te leves. Só as cinzas. As tuas.

Não há tristeza a pingar dos meus olhos. Porque eu não tenho olhos. Nem tristeza. Nem amor. Nem dor. Mas chorei. Flebam amarissima contritione cordis mei. Sem soluço nem lágrima. E cada dia te via mais longe. E estendia-te a mão e tu davas-me as costas. As tuas. Já perdoei. Já esqueci. Ainda que me lembre todos os dias. Os meus dias. Que não são dias.

Não escrevas mais que me deixaste. Não escrevas mais que te arrependeste. Não escrevas mais que não me deste o tempo de que eu precisava. Não escrevas mais que aquilo que pensaste ser amor. Não escrevas mais que eu sabia. Não escrevas mais que foste cego como o maior dos cegos. Não escrevas. Não escrevas mais. Porque agora já não dói. E eu não estou. Nem sou. Não escrevas mais.

Não lances os teus olhos nos meus. Não me digas o que não me pudeste nunca dizer. Não me digas que. Porque agora é tarde. Agora passou. Não te agarres a mim morto. Não te deixes lançado desesperado sobre a minha sepultura. Porque eu morri. Eu não estou. Eu não sou. Eu sou duro. Tu sabes. Eu disse-te sempre tudo o que me ia no coração. Quase tudo. Porque havia coisas. Mesmo quando te doía. Nunca te disse aquilo que querias ouvir. O que não querias e o que não podias. Porque eu. Deixa estar.

Eu não quero estar sozinho no teu coração. Eu queria. Eu sei. Ainda no outro dia te dizia que queria. Mas já não quero. Porque tens o coração tão frio. Está tão frio. Estás tão frio. Não há sangue no teu coração. Para mo dares só a mim arrancaste e sangraste. E eu não quero coração frio arrancado sangrado. Queria deixar-me abraçar no teu corpo quente. Voltar a deitar a cabeça no teu colo. Sentir o teu calor. Porque aqui está tanto frio. E tu estás ainda mais frio.

Eu quero o teu desconforto. Sempre quis. E tu não viste. E quem não quer o teu desconforto não te merece. Mete isso na tua cabeça coberta de cãs. Estás bonito. Mais do que eras. Não tenhas medo da idade. Não tenhas medo do tempo. Porque não é o corpo que te vale. Tu não és corpo.

Adoro-te
Ρ.Α.

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Imagem:
Moralia in Iob de Gregório Magno - manuscrito francês do século XII