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24.12.07

O cadafalso

[Goya - Mulher batendo noutra com um sapato]

«Ele receava da mesma maneira um terramoto e um dia de sol em que pássaros desconhecidos parecem iniciar uma amizade eterna com casais de apaixonados que não conhecem. Nestes dias calmos, Lenz via uma saúde falsa, uma preparação da maldade - alguém, com cuidado, limpava o cadafalso na véspera de a vítima o pisar.»

Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Ténica

16.7.07

Aquilo que não se pode contar . 7 . Frio

[Bosch - Tentação de Santo Antão (painel direito)]

... Ernst Spengler decidiu agir como na infância: para terminar com o terror do perseguido (que continuava a sentir) a criança deveria parar de fugir, dar meia volta, e dirigir-se de frente para o seu perseguidor
.
Gonçalo M. Tavares, Jerusalém

verei que não está nada ali. Só uns pontinhos brilhantes que desaparecem quase imediatamente. Depois as trevas. Olhos deitados aos pés da cama. A ver. A ver o quê. O que não está lá. Dói-me o pescoço. De ficar ali de cabeça levantada a olhar o escuro. À espera de ver. E uma raiva frustrada. Porque não vejo nada. É que eu queria ver. Para depois morrer de horror. Pelo menos sabia que. É que assim. Este está não está. Não sei. Podia deitar-me e dormir descansado. Porque afinal parece que não está. Para quê este terror. Não há ali nada. Só os pontinhos brilhantes. Fechar os olhos e abri-los de repente. A ver se. Lá estão. Os pontos brilhantes. Só um momento. Um momentinho. A seguir desaparecem. Se calhar nunca estiveram. Partidas dos meus olhos. Mas e este frio que não é frio. Porque não está frio. Mas eu sinto. Este ar pegajoso que não me deixa respirar. Há ali qualquer coisa. Não é um fantasma. Antes fosse. Porque se fosse. Porque se fosse eu sabia o que era. Além disso eu não acredito em fantasmas. Se fosse um fantasma. Um poltergeist. Mas não é. Assim não sei. Ou sei. Se eu me levantar. E acender a luz.

15.7.07

Epistolário XXV

[Leonardo da Vinci - Máquina voadora]

... mesmo que na carta se falasse do futuro o que estava em jogo era um processo de memória:
lembra-te que já estiveste cá fora; ou talvez melhor: não te esqueças. Era este o sentido de qualquer carta: não te esqueças!
Gonçalo M. Tavares, Jerusalém

Ρ.Α. ao seu André

Eu sei. Fiz-te sofrer. Sem saber. Porque se eu soubesse. Foi preciso morrer. E reviver na tua memória. Porque eu. Eu não sabia. Quer dizer. Eu sabia que tu. Mas não sabia que. Tu sabes. Via os teus olhos que me diziam. E as tuas mãos. Parando a meio caminho. As vezes em que se te abriam os lábios e tu ias dizer. Ou. Mas tu não. Tu tinhas medo. Quase tanto como eu. Mas eu pensava que. Não sei. Um delírio teu. Porque tu tinhas sofrido tanto. E eu pensava que. Tu sabes. E por isso nunca dei muita importância. Nunca percebi. Nunca soube. Porque tu te fechas nesse teu sorriso não sorrido. E um dia acordei morto. Na tua memória. E soube.

Eu sei. Salvei-te. Quando tudo te era negro. E os dias te eram insuportáveis e as noites te envenenavam o sono. Dei-te a vida. E mais do que a vida. Dei-te. E não percebi. Um motivo para acordares. Todos os dias. Enchi-te a alma. Mas eu não sabia. Só agora que vivo na tua memória. E me lembro. E te lembras. De ti. De mim. Todos os dias. Quando te sentas a escrever. Eu estou aqui a olhar para ti. You are my angel. E tu não sabias. Que te tinha salvado. E um dia acordaste. E eu tinha morrido.

Vou dormir. Na tua memória.

11.7.07

Aquilo que não se pode contar . 5 . Memórias

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor do painel lateral esquerdo)]

De facto, não eram muitos os que esqueciam aquilo que lhes era roubado e que os técnicos designavam como: curado de. Estar curado não era apenas deixar de ter determinado comportamento, era ainda esquecer o trajecto que de novo os poderia recuperar.
Gonçalo M. Tavares, Jerusalém


aquilo me matasse. Preferia não acordar. Morrer. Não será pior do que. Estas noites medrosas negras de pontos luminosos. Este terror que me arranca devagar devagarinho as entranhas. Uma a uma. E um dia vou acordar sem entranhas. Corpo seco vazio. E depois já nada poderá escorrer pelo buraco na minha omoplata. Na esquerda.
Que
de
noite
corre
escorre
terror
horror
Arrependo-me de ter começado a contar. Nunca tinha. A ninguém. Nem a mim. Porque se não me contasse era como se não tivesse acontecido. E aconteceu. Porque eu contei. A mim. E agora preparo-me para contar a todos e agora acontece com mais força. A dor na minha omoplata. Na esquerda. Sinal deixado. Recordação viva da tarde em que. Não sei se. Talvez parasse. Se me calasse. E deixasse morrer a memória. Assim morta morrida. Se os conseguisse

7.7.07

O sonho

[Dürer - Visão em sonho]

Heinrich afasta-se da árvore e vai para debaixo do sol para recuperar a sua sombra. Vês, aponta. Não estou morto.

Gonçalo M. Tavares,
Jerusalém

Uma oliveira. Será. Parece. Tão larga. Cabemos. Tu e eu. Debaixo. À sombra. Só nós. Só tu e eu. Mais ninguém. Nullus alius nobiscum exceptis nobis duobus. Porque eu não quero te queime o Sol te molhe a chuva.

Chegar-te a mim. Apertar-te suave nos meus braços. Sem pressa. E a minha mão no teu cabelo assim assim. Sabes. Como quando. Mas agora mais sossegado. Deixar-te um beijo pequeno nos lábios. Pequeno pequenino suave suavinho. Sentir o teu calor.

Sonho sonhado acordado.

7.6.07

Fogo

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor)]

«Diz ela: foi o último sacrifício de amor por parte de Julieta: mesmo imóvel ofereceu o seu corpo primeiro ao fogo.»
Gonçalo M. Tavares, a história de Julieta, a santa da Baviera


Não não era fogo era outra coisa qualquer. As horas quentes que me acariciavam o corpo. Pés dentro da água morna. Havia aquela sombra quente tão quente. E a tarde subia. Vagar vagarinho. Ardente. Brisa lambendo ao de leve a erva baixa. Why are you taking so many pictures of me. Am I. Yes you are. Pousava a câmera. Ria e deitava a cara no céu cerúleo. Soa bem. Céu cerúleo. Redundante. Rãs e lagostins. Havia rãs na fachada. Uma rã em cima de uma caveira. Parece que tem de se tocar para dar sorte. Sim sim. Como em Santiago. Mas ali não é uma rã. É uma reentrância na pedra. E depois metem-se lá os dedos. Também se dá uma cabeçada num santo. Coisa estranha. Uma cabeçada num santo. Isso devia dar azar. Porque dar uma cabeçada num santo. E depois abraça-se por trás. A posteriori. Hercle. Haud catholicum. Pelágio recusou. Numquid ergo me similem tuis effeminatum existimas. E então rasgou suas vestes e como bravo atleta na palestra se apresentou. Um dia contarei esta história. Agora regresso às margens do Tormes. Onde fazia tanto calor e o Sol me lambia a pele e todas as outras figuras que nesta descrição hão-de aparecer. Ou não. Não era fogo. Um dia. Hoje não.