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7.6.08

A noite

[Rogier van der Weyden - Políptico do Dia do Juízo (pormenor)]

Ainda se me zanga o sangue nos ouvidos. E os móveis protestam de tédio em soluços aflitos. Esta noite nunca mais acaba.

A zanga

[Pieter Bruegel o Velho - Dulle Griet]

Um dia pensei que se me rebentava a cabeça. Não de dor. Naqueles tempos ainda não me doía a cabeça. Era só o zumbido. O rezingar do sangue mastigando o silêncio da noite. Vazando zanga de um ouvido para o outro. Dois ouvidos sussurrantes. Zangados. Um com o outro. Os dois comigo. A seguir sim a seguir doeu-me a cabeça. Quando me deitava e parecia que os miolos se lançavam sobre os lençóis. Como se o osso se abrisse. E me abandonassem. Entregue aos meus terrores. Sozinho. Sempre sozinho. Mas então não. Era só o zumbido. Sempre sempre mais alto. A subir-me pelas entranhas acima. Até não conseguir ouvir mais nada. Só a zanga do sangue a ferver-me a cabeça. Um dia rebenta. Pensava eu. E depois haverá miolos a pastar no branco enojado do meu lençol.

29.12.07

Limo

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor do painel esquerdo)]

Pousou o copo no parapeito e despejou os olhos no rio. Gostava de os ter ali. Bebendo o limo e a lama enquanto a noite morria devagarinho. Depois respirou fundo. A mão procurou o copo. Ali. Está ali. Baixo e largo. Um gole. Dois. Já chega.

Não devia beber tanto nesta noite tão. Mas quê. Olhar as estrelas e beijar a Lua como se fosse um romance cor-de-rosa. Não. Os meus olhos bebem o limo e a lama. Habituem-se ao gosto. Para quê olhar o céu. E o cheiro. Água morta. Buaaaaaaaaaaaach. Buaaaaaaaaaaaaach. Como se me chamasse. Ouve. Buaaaaaaaaaach. O mar é mais bruuuuuum bruuuuuum. Aqui as ondas são tão. E o cheiro. Eu entrava em casa com lama até ao pescoço. Uma rã na mão. E a água quente quente na banheira cheia. Sabia tão bem. Se aqueles dias. A pele a ficar vermelha e o vapor tão espesso. Aqui não há rãs. Tê-las-ia ouvido. Só morte. Às vezes penso em ti e choro. Depois os dedos engelhavam e a mãe gritava sai já do banho. Se agora me engelharem os dedos. E os olhos de te chorar. Tantos anos. E ainda. Eu acreditava que amanhã era sempre melhor. E agora quando acordo de manhã. E se me estende este dia sem fim. Porque eu gostava da noite eterna. Sabes. Dormir. Quando durmo não dói. E depois não acordar. Para não ter de enfrentar outra vez esta luz medonha. É limo. Cheira a limo. Não é morte. As forças começam a faltar. Não é por. Não. Isso já não me mata. É esta falta de. Este vazio. Mas não. Hoje não.

Recolheu os olhos e empurrou o copo para fora do parapeito. Ficou a ouvi-lo estilhaçar-se com um som negro contra a falésia. Depois o silêncio.

Talvez amanhã.

25.12.07

Exitus

[Goya - Três homens cavando]

Quando o peso da noite se me lança pesado sobre o pescoço. E a luz das estrelas me rasga os olhos de tanto gritar. Quando o luar me dilacera as costas geladas e me beija os lábios de sangue. E o frio me incha a cama e me molha os lençóis. Quando os sonhos me arrancam as tripas. E relógio tic tic me esmurra as orelhas. Fumegantes. E as trevas me arrastam sozinho até. Quando os móveis estalantes murmuram a minha morte. E o sangue me ferve na cara. E os dedos se esmagam uns contra os outros. E o estômago ardente me rebenta o ventre. E o dia já não nasce.

22.8.07

A noite

[Goya - Un perro]

آخر الليل بتسمع العياط
ao fim da noite gritos ouvirás*
(provérbio libanês)

Não não não apagues a luz. Nem a televisão. Continua aí. E eu. Sozinho. Na cama. Fala. Para ninguém. Só para te ouvir a voz. Porque eu preciso. Não sei. Do barulho. Saber que há alguém. Não. Podes apagar a luz. Mas não apagues a televisão. Deixa-me coisa viva. Deixa-me um ruído. Ou então apaga. Mas continua aí. Fala. Não. Até podes não falar. Passeia pela sala. Arrasta uma cadeira. Ajeita-te no sofá. Mas não te vás deitar. Faz barulho. Fica aí. Não me deixes sozinho com este zumbido medonho na cabeça. Porque eu preciso. Tanto. Preciso de saber. Que não estou sozinho. Que a noite vai chegar ao fim. Que eu vou acordar. Ou não.

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* 'âHer l-leil betesmaº l-ºeyâT