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8.11.08

Kill the pain . XLII . Explicit



Cortizona. Se lhe pudesse matar a dor com. Mas não. Tenha calma. Não há tubarões. Aqui. Aqui não. Mas no mar. No mar há. No mar há tantos. São bichos espantosos. Sabe. Não podem parar. Se param morrem. O ar não lhes passa pelas. E morrem. Tenha calma. Isso. Isso. Vamos. Quer um copo de água. Então. Juro-lhe que não há tubarões. Já imaginou. Um tubarão num copo. Não pode ser. Vamos. Para a semana. Quero vê-lo para a semana. Sem tubarões. Nem tijolos. Que ideia. Tijolos e tubarões. Quer ajuda. Mais um bocadinho. Deixe-se estar. Se lhe pudesse matar a dor. Se lhe. Venha cá. Não. A sério. Venha cá.

explicit
deo gratias
والحمد لله

31.10.08

Kill the pain . XLI . Requiem Aeternam

[Adriaenssen - Natureza morta com peixes]

Para lhe dizer que já vi que j'ai vu mon requin. Je l'ai vu dans votre nez de rat. Ou então não. Ou então era o anel de fogo. O anel de fogo que me rasgava os olhos se acordava demasiado cedo. Se acordava e a manhã ainda babava as janelas de uma gosma azul negra. E as costelas me diziam força força mais uma vez. Já chega. Venha cá. Eu já vi. Je l'ai vu. Os dentes. Um anel de dentes. Como nos filmes. Documentários. Vindos do abismo. Um anel de fogo. Venha cá. Não tenha medo. Je l'ai vu. Mon requin.

18.10.08

Kill the pain . XL . Rato

[Goya -Pátio do manicómio]

Já chega sabe já chega. Já lhe contei tanta coi já lhe contei mais do que devia. E o senhor levanta o nariz como um rato. Como um rato. O senhor é um rato. E eu sou um rato. Pequenino. Muito pequenino. Já chega. Venha cá.

2.10.08

Kill the pain . XXXIX . Tempo

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor)]

Do medo. Da dor. Do sofrer. Mas agora. Agora não. Porque agora. Quando o senhor me. Quando a sede e o desespero me arrancarem as tripas. Eu vou urrar e chorar e bater com a cabeça nos tijolos e. Sem muita força. Porque a fome e a sede. E eu vou saber que depois não me vou lembrar. Que quando adormecer acabou. E o sangue não me voltará a encher de memórias. Nem de dor. Porque vai ser o sono final. E eu não vou acordar. Um saco de pele e carne e ossos e gosmas. Sem memória. Sem dor. Podre. Outra mancha no chão desta cela. Mas quantos. Diga-me. Quantos. E fica a ouvir-lhes os gritos. E ouve-lhes a morte. Diga-me. Ouve-lhes a morte chegar. E quantos. Quantos. Quanto tempo.

27.9.08

Kill the pain . XXXVIII . Memória

[Fra Angelico - Decapitação dos santos Cosme e Damião]

"e ela já sabia que não penaria ali nunca mais, não penaria viva, esfregando o coração no chão, limpando cada nódoa que, mesmo depois de tirada, continuaria escurecendo o seu interior. ela não ficaria mais tempo na praça, não ela, uma mulher que fazia o seu próprio juízo e queria morrer de amor."

valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores



Já lhe disse que. Mas não. Não se levante. Não se vá embora. Não me deixe aqui sozinho. Porque tenho de lhe perguntar. Se depois. Quando estiver posto ali o trigésimo quinto tijolo. São trinta e cinco não são. Ou trinta e seis. Sete. Como eu. Trinta e sete. Mas não se zangue. Tenho de lhe perguntar. Como vai ser. Sem pão sem água. Quanto tempo. O senhor deve saber. Porque eu não sou o primeiro. Há aqui um cheiro a morto. Sabe. Uma cócega no nariz. Bem lavado. Sem manchas no. Não. Uma duas três. Umas quantas. Pequeninas sombras. Ali e aqui. Tripas podres. E sangue e gosma. Lixívia escova escova escova mas fica sempre um bocadinho. Uma mancha uma sombra. Um cheiro a. O senhor sabe. Quanto tempo. Horas dias. Dias. Dois três quatro. Quantos. Sem água. Porque sem pão seriam mais. Mas sem água. E vai doer. Vai vai. Mais do que agora mais do que nunca. A sede a fome. A sede. Não me diga. Porque se eu souber. Não interessa. Diga diga. Não ligue. Já está. Não volto atrás. Mesmo sendo pior. Mesmo sendo pior do que quando. Tanto faz. Porque depois eu já não estou cá. Sabe. Não é do sofrer que tenho medo. Nunca tive. É da memória. Do saber que me vou lembrar. Que amanhã quando acordar. E quando o sangue me trouxer de novo a maré das memórias ao cérebro. Sabe. Quando acordamos e ainda não abrimos os olhos e está tudo bem. E depois aos poucos. Os dedos metidos nos miolos. À procura. Porque eu sei que há qualquer coisa. Eu sei. Que quando me deitei. Dizia que quando dormia não tinha dores. Ele. Eu sei. Que quando adormeci e me esqueci de tudo. Havia ali uma dor uma dor baixinha. Assim. Está lá. Está lá sempre. É só procurar com paciência. E depois. E depois de repente. Uma onda de memória. Já está. E as tripas apertadas. E os cobertores queimam a pele.

23.9.08

Kill the pain . XXXVII . Tranca

[Fragonard - A tranca]

Passou. Já passou. Podia ter sido pior. Podia ter sido. Sabes que me disseram que morreste. A sério. Sabe aquelas notícias que nos arrancam as tripas. E afinal não era verdade. Ou. Não sei. Não interessa. Nem a mim. Nem a si. Já passou. Há muitos anos. Quase vinte. Imagine. Quase vinte. E ainda não lhe contei. Ainda não. Amanhã. Talvez.

21.9.08

Kill the pain . XXXVI . إرتباك


دَعْ ما يُريبُكَ إلى ما لا يُريبُكَ
recusa o que te inquieta em favor do que não te inquieta
(ditos de Maomé)

Depois descia as escadas ou apanhava o elevador. A verdade é que já não me lembro e não sei se. Porque o que vinha depois sim o que vinha depois. Assim que fechava a porta. Ele. Ou eu. Tanto faz. O medo era sempre o mesmo. Bicho medonho acordado pelo bater da porta. Ali deitado escondido à minha espera. As patas frias molhadas arranhando-me as pernas. Trepando puxando-me os testículos com força e doía. Doía tanto. Sabe. Sabe. Claro que sabe. E as unhas subindo passando ignorando-me o sexo ridículo cravadas na pele. Se ele me deixa o que é que eu faço. E eu sei que ele porque ele mal me olha de dia e de noite vira-me as costas na cama depois de. E não me telefona. E os telemóveis ainda vão ser inventados e só nos vemos nos corredores nas salas nos bares. E se ele foge de mim e eu sei que ele foge de mim. Se hoje não o vir nem amanhã. Cravadas em fúria acima do umbigo. Rasgando-me as carnes e a barriga aberta escancarada vomita-me tripas e sangue e o bicho o medo abrindo caminho dentro de mim comendo roendo-me os ossos cuspindo as gosmas e eu fico ali despejado despejando-me pelos degraus a pensar e se ele hoje à tarde e se ele amanhã. E ainda não lhe contei o que aconteceu mesmo. Não o que aconteceu antes. Porque isso eu conto muitas vezes.

17.9.08

Kill the pain . XXXV . Aflição

[José Antolínez - Morte da Madalena]

e se assim fosse, estando ele morto sem regresso, a sua vida seria uma lenta aflição por esperar quem nunca poderia voltar.
(valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores)


Não sei se lhe contei. Eu conto sempre isto. Quer dizer. Eu conto sempre o que aconteceu antes. Nunca o que aconteceu. Mas a si. O senhor é diferente. É o senhor que me vai arrancar a esta merda. Esta merda. Era assim que ele dizia. Esta merda. Aquela merda. Já não tenho aquela merda. Já me passou aquela merda. Lembras-te daquela merda. Conseguiram tirar tudo. E depois morreu. Com aquela merda. Mas não. Não é dele que lhe quero falar. Um dia إن شاء الله um dia falarei dele. Sabe que não há um dia uma noite em que não me afague a memória. Há sempre uma cara na rua. Um olhar um rir. Um gingar. E o peito deixa de me subir e descer e os olhos e a boca. Seco tudo seco. Como se eu morresse ali. Às vezes passa-me pela cabeça. Sabe. Se calhar não é por causa do olhar e do rir e do. Se calhar não é isso. Se calhar é ao contrário. Se calhar fui eu que morri um bocadinho. Assim uns segundos. E por isso consigo vê-lo outra vez. Os dois memória sem corpo. Juntos. Como antes. Antes daquela merda. Se calhar. Já tem tem passado pela cabeça. Se calhar quando o senhor me. Sabe. Porque eu estou farto desta merda. E afinal não lhe contei o que aconteceu. Quer dizer. O que aconteceu mesmo. Não aquilo que eu conto sempre. E que também aconteceu. Mas foi antes.

15.9.08

Kill the pain . XXXIV . Janela

[Caravaggio - Madonna del Rosario (pormenor)]

irrumabo uos ego et pedicabo
Catulo


Metia a chave na porta e olhava para trás e punha o dedo nos lábios e dizia xiu. Xiu para quê. Não havia velha nenhuma. Só tu e eu e a cama não rangia. Como se eu não existisse. Se eu não estivesse ali. Despido e humilhado. Rasgando as entranhas de medo. Deitando-lhe mãos invejosas. E a cama nada. Como se eu nem. E eu não. Em silêncio. Puta. A cama. Conspirava com ele. Para me humilharem. Os dois. Os três. Ele e a cama e a velha que não existia. Não faças barulho. E eu não fazia e mordia os lábios e a língua enquanto os dele os lábios e a dele a língua. Sabe. Não sabe. Como pode saber. Não fosse eu rosnar ou gemer. Mas eu nunca. Sempre calado. Para quê para quê mentir para quê a velha. Sempre em silêncio. Mesmo quando. Devagar pára. Já está.

vergonha

Não tive a culpa. Os teus lábios e a língua e as. Chega. Não aguentei. O senhor sabe. Tem de saber. Uma toalha. Se eu queria uma toalha. Para me limpar. Ou talvez fosse para me tapar. Para não me ver. Era isso. Tinha nojo de mim. Porque depois virava-se de costas e até amanhã. E o que eu queria era uma janela. Abrir a janela. Vomitar vomitar-me lá para baixo. Fugir do calor e do meu embaraço. O meu pequeno embaraço. Molhado lambido e a barriga peganhenta. E as mãos. Uma toalha. Não. O que eu quero é que. Quê. Um décimo ou décimo primeiro andar. Não sei. Não me lembro. Não interessa. Já passou.

14.9.08

Kill the pain . XXXIII . Toalha

[G. Macchietti - Banhos em Pozzuoli]


quae si scribantur per singula nec ipsum arbitror mundum capere eos qui scribendi sunt libros

Io. 21:25

Se eu queria uma toalha. E eu não não queria. O que eu queria era abrir a porta. A janela. Abrir a janela. Porque estava tanto calor. E a porta não se podia abrir por causa da velha. Não nos podia ouvir. Não me podia ver. E eu nunca a vi. Podia nem. Já me passou pela cabeça. Sabe. Podia ser mais uma humilhação. Eu ser a puta. Que entra em segredo em silêncio xiu. Clandestino. Trancado naquele quarto quente tão. E se calhar nem havia velha nenhuma. Se calhar era só mais uma humilhação. Sabe. Na faculdade fugia-me. Sim sim. Ele mesmo mo disse. Fugia de mim. Via se eu estava no bar. E se estivesse. Não se ria. Mas ele. O que ele se deve ter rido. Sim. Ele sim. Trepando escadas ridículas. Cuspindo olhares de desprezo por cima do ombro. Imaginar-me despido na sua cama. Eu. A sua puta. A quem telefonava quando mais ninguém estava. E eu dizia sempre que sim. Odiando-me a cada novo sim. Porque eu sabia. Porque eu gostava tanto dele. Sabe. Não sabe. Quando os dias são feitos a olhar para o telefone. E cada minuto é uma mão que nos abre a barriga e nos arranca as tripas. Devagarinho. Quando cuspimos a última vírgula de dignidade e dizemos sim outra vez sim sim. Subir as escadas e cheirar-lhe a indiferença no hálito azedo. Ler-lhe nos olhos a mole maçada de ter de me abrir a porta e a cama e. E ainda assim. Porque eu achava que. Sabe. A esperança parva dos apaixonados. Não. Não sabe. Como poderia saber. E esmagar na boca um riso medonho. O gozo. E eu o gozado. E eu sabia. E ainda assim.

12.9.08

Kill the pain . XXXII . Quid est ueritas

[Daniele Crespi - Pietà]

للحقيقة وجوه كثيرة
(provérbio árabe)

Mais uma ginja e vamos. E íamos e voltávamos. Não sei para onde. Não interessa. A noite media-se pelo tempo que faltava para. Tu sabes. Por isso íamos e voltávamos. E se nem fôssemos. Se só voltássemos. Voltar a beber-te a boca morna e enterrar-me as mãos no ninho dos teus cabelos. Escalar as escadas. A avenida dos. Lembras-te. Unidos num abraço medonho. Medo. O medo. De que fosse a última noite. Sabe. Eu achava que aquela era sempre a última noite. Que amanhã a noite morria e eu com ela Não se ria. Se me visse na minha ridícula nudez. Os olhos esmagados e a boca seca. Sabe. Não sabe. Se soubesse. Se o senhor me visse. Depois enrolava-me no lençol suado. Sudário. Era um sudário. Onde apodrecia. Devagarinho. Todas as noites. Em silêncio. Sem saber quem és tu. E ainda assim eu dizia-te sempre que sim. A tua puta. Não faça essa cara. Sem uma vírgula de dignidade. Porque eu só queria trepar as escadas e abrir a porta devagarinho e entrar e entornar-me na tua cama em silêncio. E depois sentir-te a pele na minha e as mãos e. A noite media-se assim. O tempo que faltava até me amarrotar e me deitar fora até outro dia outra noite.

6.9.08

Kill the pain . XXXI . Humiliate uos

[Giotto - Lamentação sobre Cristo morto]
humiliate uos ad benedictionem
(do rito moçárabe)


Lembras-te. A mão descia e. Sempre a mão. Até ao fim até ao. E eu já não sabia se o suor era teu se era meu. Mas agora não era para me fazer mal. A mão. A minha. Ou talvez. Talvez sim. A verdade é que. Lembras-te. Foi mau. Muito mau. E nunca mais passava. Primeira vez. A minha. A tua não. Tu avisaste-me entre risos envergonhados. Mas nada do que viesse de ti era mau. Ou era. Era. Foi. Tanto faz. Já passou. Mas naqueles dias. Naquelas noites. Nada que viesse de ti. Mesmo quando não me vias nem me telefonavas. E depois veja lá. Aparecia-me. Assim. Como se ontem e anteontem e na semana passada. Percebe. Como se nos víssemos todos os dias. Como se fosse uma rotina. Uma rotina boa. De namorados. Mas dois que se viam de vez em quando. Quanto tu querias. Porque eu. Eu queria-te todas as noites. Beber beber-te os lábios e a língua agarrar-te morder-te o pescoço insultar-te as nádegas beijar-te entornar-me dentro de ti. Percebe. Era a primeira vez que eu. Até então a mentira. Há tantos que. A vida toda. Mentindo-se a si e aos seus. Mas eu. Eu não. Quer dizer. Ainda me minto. Mas não nisso. Ou. E ele aparecia. Como se. E dizia-me. Então hoje à noite às tantas horas no tal sítio. O tal sítio era um bar ou uma tasca daquelas. Sabe. Ginginha com elas. O chão tem cola e os sapatos fazem nhac nhac. E eu ia. Sicut ouis ad occisionem. Sem um protesto sem um tive saudades sem uma vírgula de dignidade. Ontem não me quiseste nem anteontem nem na semana passada. Hoje aqui me tens. Até ao fim.

27.8.08

Kill the pain . XXX . Sombra

[W. Blake - A descida da cruz]

Depois houve aquela vez. Aquelas vezes. Aquelas noites na avenida dos. E a cama era tão grande e fazia uma cova no meio onde nos entornávamos em poças de suor e saliva fermentada. Em silêncio xiu que se ela nos ouve. Ela era a velhota. A velhota que lhe alugava o quarto. Nunca a vi. Eu não via nada. Entrava de coração esmagado e lábios latejantes. Sentava-me na beira da cama e bebia-lhe o perfil. Sombra raiada pintada da luz que empurrava a persiana para dentro do quarto da cama. E ali eu já não sabia se eras homem se mulher. Os cabelos crescidos dançando danças de ventre de pêlos nas tuas costas pequeninas. Todo tu pequenino. Depois rastejavas para dentro dos lençóis. Arfando a cerveja azeda da noite. Não. Espere. Eu sei. Já contei. Repetir. A minha vida. A minha vida é um repetir de coisinhas pequeninas. Mas espere.

12.8.08

Kill the pain . XXIX . Mão

[Barent Fabritius - Circuncisão]

I remember you well in the Chelsea Hotel,
you were talking so brave and so sweet,
giving me head on the unmade bed,
while the limousines wait in the street.
(Leonard Cohen)
Moía-me uma dor pequenina e eu cruzava as pernas sem conforto. Mas com força. Para a esganar. Assim. Como se faz aos tordos. Depois mordia. Mordia-me. Primeiro devagarinho. Como quando as bolhas no fundo da cafeteira. Crescendo. E já não era aquele desconforto. Era assim como disse. Dentadinhas. De periquito. Assustam mais do que doem. E às vezes já não mordia. E eu descruzava as pernas e depois zás. Trinca. Afinal. Com mais força. Como. Ah. Lembras-te. Fugiam e depois eram horas. Aprenderam a abrir a porta da gaiola. Com os focinhos. Força força força já está. A mãe não gostava e dizia malditos ratos. Não eram ratos. Sem cauda. Lembras-te. Não eram ratos. Duas faquinhas com bigodes por cima. E doía. Sabe. Um dia sangrou. E nunca mais lhes peguei. E agora era assim. Só que não sangrava. Ainda. Apertar as pernas com força. O sangue zum zum nos ouvidos. Quando a noite me esmaga de silêncio. Só que agora. Autocarro. Não é noite. E há esta gente que me cospe os olhos no colo aflito. Sabem não sabem. Não podem saber. Impossível. Não se vê. Debaixo da roupa. Não se vê. A minha vida tem sido feita disto. De pequenas coisas pequeninas. E o calor senhor. O calor na cara e na testa. E esta dentada que já não é dentada. Porque agora era uma garra que me agarrasse e arrancasse a pele. Sem parar. Sem relaxar. Sempre a crescer. Torcendo-me no banco. A senhora do lado roncando suspiros obesos. Tocar. Ferrão. Verificar. Ajuda. Por favor. Pôr lá a mão. Sempre a mão. Morta. Maldita. Maldita mão.

20.7.08

Kill the pain . XXVIII . Cal

[Rembrandt - Circuncisão]
O que aqui pondera e sente muito a piedade dos santos, principalmente S. Bernardo, é que, nascido de oito dias, sujeitasse o Senhor aquele corpozinho tenro ao duro golpe da circuncisão. Tão depressa? Aos oito dias já derramando sangue? Desta pressa se espantam os Doutores; mas eu não me espanto senão deste vagar. Que venha Cristo a remir – e que espere dias? E que espere horas? E que espere instantes? Quem cuida que é pouco tempo oito dias, mal sabe o que é esperar pela Redenção.
Padre António Vieira, Sermão dos Bons Anos

Depois abriu a porta e eu saí e estrangulava a receita na mão humilhada. Esta pomada. De manhã e ao. Deitou-me os olhos caiados de. Não. Caiados não. Caiados seriam brancos. E estes eram roxos. Pintados de roxo. Senhor. Passou já passou. Isto dizia-me eu. Enquanto saía. E abria passagem por entre corpos naufragados em cadeiras agoirentas. E ela descolou as pálpebras das minhas e rosnou o nome a idade ao senhor de bengala e cheiro a cão. A cão. Ou talvez fosse a gato. Não sei. De animal. Ou talvez fosse ele. Dele. Há pessoas que cheiram a bicho. A cão ou a gato. Eu tinha cobras. Já lhe contei. Sim sim. Eu lembro-me. De água. Inofensivas. Deitam um cheiro. Nem queira saber. Quando se assustam. E não sai. Um dia saí com uma no bolso da camisa. Para meter medo às pessoas sabe. As coisas que eu fazia. Quinze anos. Mas quem teve medo foi ela. E a camisa nunca mais a pude vestir. Não saía. O cheiro. A farmácia. Não sei. Não cheira. Ou cheira. Cheia de gente abatida. Velhos de morte nos olhos e crianças caladas ao colo de mães de olhares vazios. Bocas afundadas num medo de morte. E no ar o cheiro a remédio. Xarope شراب xarâb. Bebida. Fermentada não bebem. Mas chá. Um dia vou ao deserto. E café. De camelo e turbante. E talvez um dia. Talvez. Já fui cristão. Mas sabe o que me assusta. Cortar o prepúcio. Boa noite é esta receita. Boa noite.

15.7.08

Kill the pain . XXVII . Erde from erde

[Francisco de Zurbarán - Virgem com o Menino e João Baptista]
Quero acabar com minha vida porque tenho a ideia, porque não quero ter medo da morte, porque... porque neste assunto o senhor não tem nada que saber... O quê? Quer chá? Está frio. Trago outro copo.
Dostoiévski, Demónios
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra


Abrir a porta e afogar-me até ao fundo do corredor. Depois há uma porta. Outra. Que vomita línguas de luz. Pente. Pelas frinchas pegajosas. É o medo sabe. Nas costas. É como se lá estivesse outra vez. É o medo sim. E o embaraço. É. É sobretudo o embaraço. A minha vida amigo. Senhor. Meu senhor. Perdão. É feita de coisinhas pequeninas e sem importância. E eu de olhos enrolados nas mãos escondidas. Bêbedo da luz crepuscular. Morna. Que lambe o consultório. E o embaraço escorria-me pelas bochechas escaldadas. Mal lhe via a careca inquisitiva. Como foi. Estava sozinho ou acompanhado. Sozinho. A caneta escarrando desprezo na folha na ficha de doente. Goza. Dói-lhe. Não. Mas doía. Cá dentro. E essa dor não ma pode ver. Lembras-te. Bairro Alto. Entre cervejas maçadas. Os olhos pretos de dor. Que tens tu. Sempre tão triste. Nada. Não te preocupes. Depois abria muito os olhos e dizia que só a morte o. Houve aquela madrugada gelada. Na Estrela. Lembras-te. Estás aí. Diz qualquer coisa. Sentados no chão. E os teus braços mornos e o teu hálito. E dizias tu não és como os outros. Não sou. Por isso estou aqui. À espera da. E tu já estarás livre. Eu em breve.
إن شاء الله

12.7.08

Kill the pain . XXVI . Isges to isges

[Andrea del Sarto - Madona com o menino e João Baptista]
Countlessness of livestories have netherfallen by this plage, flick as flowflakes, litters from aloft, like a waast wizzard all of whirlworlds. Now are all tombed to the mound, isges to isges, erde from erde
James Joyce, Finnegans Wake


Esperar olhar deixar as mãos pousar respirar devagar. Há quanto tempo. Que importa. Que será. O sangue. Ela sabe. Sorri escarninha e rosna a ficha de outra pessoa. Nome idade. A doença não pede. Mal seria. Em voz alta. Doente. Que lhe dói. Dormente. Se ele se rir. Ao ver. Sabe. A minha vida feita de coisinhas pequeninas. Por isso estou aqui. À espera. De si. Dos seus tijolos. Trinta e cinco. Não se ria. Mas então dizia eu. Revista na mão puxando páginas lambidas. Passar o tempo. Os olhos nas letras e o estômago a crepitar. Sabe. Quando se lê e não se entende. E se volta atrás. Uma duas três vezes quatro ou mais. Ler reler a mesma frase e perder-se a meio e sentir-se que se está a perder e não conseguir parar voltar à superfície. Quia animus alias res agit. Sabe latim. Sim. Já mo disse. Desculpe. E depois desistir. Viras as páginas em ritmo constante. Sem ler sem ver. Passar o tempo. Depois ouvir o meu nome escandido ao longe e uma mão que me arranca as tripas. Já está. Agora eu. Apanhar os olhos de dentro da revista.

Kill the pain . XXV . My killer

[El Greco - A virgem e o menino com as santas Martina e Inês]

and what can I tell you my brother, my killer
what can I possibly say?

(Leonard Cohen)

Da tosse e dos pulmões e de todas as maleitas que me esmagavam as manhãs. E olhe. Que lhe interessa. Que me interessa isto. Coisinhas pequeninas. Que importância. Uns pulmões e uma tosse. Se calhar esperava. O senhor. Não eu. Que eu viesse para aqui falar de coisas elevadas. Sobre a morte e a vida. Afinal se quero morrer às suas mãos. Repare que pouco falei ainda da morte. E o senhor se calhar gostava que lhe citasse Joyce e Borges. Uns romanos ou uns gregos. Um Séneca. Em vez disso uns pulmões e uma tosse. Porque é isto que me consome. Estas coisinhas. Ridículas. Tenho vergonha. Se o senhor soubesse. Às vezes as manhãs são terra que me entra pelo nariz pela boca pela pele. Como se o caixão tivesse cedido. E depois abro os olhos e penso o que é isto. E não é nada. Uns pulmões e uma tosse. E um dia por encher. Com coisinhas pequeninas. Muitas. E depois amanhã. E às vezes não tenho vontade. Não. Às vezes não. Isso era dantes. Agora não. Porque a tosse já se foi e os pulmões estão como novos. Sabe que me sinto tão forte. E por isso agora não tenho vontade nunca. Porque dantes havia a tosse e os pulmões rasgados. Agora nem isso. Um dia tossi e saiu sangue. Sabe. Não sei de onde. Se da garganta se dos pulmões. Talvez tivesse ferido uma gengiva. E ficou ali o sangue a escorrer na banheira. Umas gotinhas. Pequeninas. Se calhar a garganta. De tanto tossir. Tinha a tosse e tinha os pulmões rasgados. Agora não tenho nada. Só coisinhas. Desembrulhar o dia e não ter nada para pôr lá dentro. Por isso chega. Nem fui ao médico. Dessa vez. Nem pensei mais nisso. Descia-se uma escada interior e havia uma secretária com uma senhora velhota que rosnava e preenchia a ficha de doente. Depois esperar. Chegar depressa a minha vez e acabar-me o pesadelo. Sabe. Não. Não sabe. Se soubesse não estava aqui. A olhar para mim como se eu já estivesse morto. Não não se zangue.

4.7.08

Kill the pain . XXV . Incipiam te euomere ex ore meo

[Fra Angelico - Cura de Paládia por São Cosme e São Damião]

أَفَأَنْتَ تَهْدِى الْعُمْىَ وَلَوْ كَانُوا۟ لَا يُبْصِرُونَ

e não podes tu guiar os cegos mesmo não vendo eles?
Alcorão, 10:43

A tosse. Todas as manhãs. Como se me arrancasse as tripas. Assim. E me enfiasse os braços na boca. Os braços. E me fosse arrancando os pulmões. Uma tosse com braços. Veja lá. Mas ouça. Se o senhor me pudesse ouvir de manhã. Naqueles tempos. Não agora. Agora não fumo. Nada. Não custou nada. Três maços por. Acredite. Dizia eu. Se me pudesse ouvir de manhã. Esganado no fumo da noite e do dia de ontem. Grasnando aflito fechado na casa de banho. A cada ataque era um naco de dor e de vómito. A mãe enfiava os lábios no buraco da fechadura e rosnava ladainhas de nãodeixesdefumarnãos com susto zangado. Leoa a quem leão novo abocanha os filhos. E só passava quando acendia outro. Quando saía de casa. Até lá arrojava-me em espasmos tussíferos até à cozinha. Abria a boca e tentava engolir um naco de pão com. Sei lá. Doce manteiga queijo. Tanto faz. Porque o vómito era sempre igual. Estrangulado. Até às lágrimas. Sustinha a respiração. Sabendo que não o matava. Mas tentava. Pensava em coisas bonitas. Embora a madrugada não me seja propícia a coisas bonitas. Sabe que um dia quis ver o nascer do Sol. Fiquei profundamente desiludido. Mas ele tornava e às vezes não conseguia contê-lo. Depois gemia até-logos e saía esmagado pela fúria aflita dos lábios da mãe. Vinte anos. Quer dizer. Vinte e dois ou vinte e três. O senhor percebe o que quero dizer. Ou mesmo vinte e cinco. Era tão novo. Agora olhe para mim. Olhos cansados. Os cabelos cor de. E o cheiro. Sabe. Não o suportava. Eu. O cheiro da cinza podre da noite anterior. E vinha isto a propósito de. Sim. Já sei.

30.6.08

Kill the pain . XXIV . Tepidus

[Bassano - Madona com o Menino e João Baptista]

sed quia tepidus es et nec frigidus nec calidus incipiam te euomere ex ore meo

mas porque
és morno, e não és nem frio nem quente, começarei a vomitar-te da minha boca
Apoc. 3:16

Um morcego. Assim. Com umas asas tremendas. Escondidas. Claro. Como. Sei lá. Escondidas. Não interessa. Depois abria. Sítio alto. Uma casa uma árvore uma pedra uma montanha. As asas. E ficavam todos a olhar. Olha é ele. O puto gordo. Gordo não. Magro. Sem músculos. Quer dizer. Normal. E tinha uma cauda. Como um macaco. Morcego-macaco. Saltava de árvore em árvore e ninguém se chegava a mim. Eu não queria. Enroscar-me escondido nos ramos nas folhas no. Às vezes aparecia. De repente. Não era para salvar ninguém. Super-herói não não. Salvar-me a mim. Não. Abria as asas e voava. E ficavam todos a olhar sem saber quem eu era. E havia uma menina que se apaixonava por mim. Sempre. Menina. Imagine. Tenho-o tratado por tu. Desculpe. Eu. Eu que. Claro. Uma menina. Houve aquela. Meninas. A voz grossa. Eu lembro-me. E a. Sim. E eu era gordo e tinha a cara cheia de. Diziam que era a barba que as borbulhas que. Que não me preocupasse que. Barba na testa. Morrer. Já. Eu tão feio e olhar para o espelho e ver a testa cheia de barba. Morrer. Já. Depois o repuxo baixava e eu montado na baleia à porta da escola. Sorvendo guloso os olhos espantados. Mas não. Sem carne esta baleia. Sem água sem repuxo. Goela escancarada. Já está. Um ronco oleoso. Um arroto. Depois engasgou-se. Tossiu. Escarrou. Escarrou-me. Assim. Como quem vomita uma cartilagem de frango entalada na garganta. Por isso deixei de comer empadas de. Ninguém me viu. Deo gratias. Puxar enrolar-me no casaco. Nadar no ar pesado de gelo. Cada passo cada braçada.