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3.9.07

Frio frio frio

[Dürer - Auto-retrato]

Frio frio frio. E se eu ficasse mais um bocadinho. É pior. Enfiar a cabeça debaixo dos cobertores pesados e não sair daqui. E se eu nunca mais saísse daqui. Amarrado a esta cama. Como aquelas santinhas que nunca se levantam e passam a rezar o tempo todo da vida que o seu deus lhes deu. Isso não queria. Mas a ler. Enrolado nos cobertores a vida toda. A ler. Não ter de me levantar. E a dormir. Quem me dera ser santinho. Mas sem rezar. Levantar-me para quê. Outro dia. Se eu pudesse saltar os dias. Mas saltar para onde. Amanhã será a mesma coisa. E depois de amanhã. Saltar para onde. Saltar para quê. Isto nunca mais acaba. Estes dias angustiados. Não há solução.

28.8.07

Purga

[Jan Davidsz de Heem - Natureza morta com livros]

Há quem tenha sabido desaparecer, entretanto.
Mário de Sá-Carneiro,
A grande sombra

E se eu ficasse em casa a ler. Tantos livros para quê. Nunca os lerei todos. Para quê. Um dia morro, e depois. Depois acabou-se. Habes somnum imaginem mortis. Deve ser como adormecer. Só que sem sonhos. Como quando não sabemos o que se passa ao nosso lado enquanto dormimos. Só que não acordamos para saber o que se passou à nossa volta. Apagou-se. Acho. Mas para quê tantos livros. Porque me dá gozo. Para quê. Se um dia morro. De que me serviu tanto gozo. Para acabar tudo numa pira. Sim. Numa pira. Não quero apodrecer num caixote. Que a terra te seja leve. Cadáver que muito gozou dos seus muitos livros. Bonito. Para quê. Para quê levantar-me. Um dia morro. Cala-te. De que me serve tanto esforço. Tento ser feliz porquê. Um dia acaba tudo. Não é que eu quisesse a eternidade. Passar por isto todos os dias num processo sem fim. Com este eu dentro de mim. Não. Não me revolto contra a morte. Só que. Para quê começar a viver, sequer. Se tudo acaba um dia. Mais valia não viver. Mais vale não viver.

26.8.07

Purga

[Ribera - São Sebastião]

Não se pode viver assim. Um dia inteiro. Interminável. Depois a noite. Curta. E se não nascesse nunca o dia. Sempre a dormir. Se pudessem os deuses parar a marcha do Sol e fazer a noite maior. Onde é que eu li isto. Já li tanta coisa. Para quê. Sabe-me mal a pasta de dentes. Voltar para a cama. Não. Para quê insistir. Já não posso voltar atrás. Agora é enfrentar o dia. Ou não. Ia ver o mar. Já que não consigo voltar para a cama. Despachar-me. Adormecia com o copo de leite na mão. Como estou agora. Estátua de granito com copo de leite na mão. Porquê granito. É frio. Não sei. E passava o dia a dormir com a cara em cima da mesa. E depois só acordava à noite. E voltava a dormir. E nunca mais acordava. Não tinha de suportar o dia.

E se eu. Não sei. Era uma hipótese. Mas. Acabava-se. Estas maleitas matinais. Estes dias sofridos. Talvez conseguisse ser feliz. Que ingenuidade. Pois se eu não acredito. Ou acredito. Não sei. Há dias assim. Tanta dúvida nenhuma certeza. Mas e se. Talves funcionasse. Talvez conseguisse. Não mais teria pela frente estes dias intermináveis. Uma nova vida. Mas que vida? Vida? Não há vida. Cala-te. Hei-de calar-te de vez. Purgar o espírito. Assim como se purgam as tripas. Mas era o espírito que eu purgava. Libertar-me de tudo. De ti. Não sei. Não consigo. É demasiado difícil. Se eu não fosse assim. Tão cobarde. Incapaz. Chega.