Mostrar mensagens com a etiqueta Carceri d'Invenzione. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carceri d'Invenzione. Mostrar todas as mensagens

27.12.07

Carceri d'Invenzione . III . Doppler

[Piranesi - Carceri d'Invenzione]

Na manhã em que foi libertado coçou a barriga e ouviu um estrondo lá dentro. Da barriga. Claro. Porque mais nada poderia estoirar daquela maneira. Assim. Ouviste? Deixou-se ficar um bocadinho a pensar. O que seria aquilo. Um estrondo dentro da sua barriga. Podia ter morrido. O perigo. E terem-lhe saltado as tripas cá para fora. Não. Que disparate. E coçou outra vez, só por via das dúvidas. E de novo um estrondo. Mas agora. Sim, sem dúvida. Agora estava mais grave. Como se a barriga se estivesse a ir embora. Mas se realmente estivesse. Não. Impossível. Ora deixa lá ver. Ora essa. Estava. Vermelha. A sua barriga estava vermelha. No lugar onde a coçara. Ora se estava vermelha. Então abriu a mão e colocou-a devagarinho. Assim. Sobre a pele da barriga peluda. E pensou: e se eu coçar outra vez. Afagou a barriga. Mas sem coçar. Só afagar. E vinha de dentro da barriga um rosnar rnh rnh assim rnh rnh como um tigre zangado. Zangado. Mesmo zangado. É que se não estivesse zangado não era bem assim. Era mais como. Então levado talvez por estes pensamentos coçou distraidamente a barriga. E fez-se ouvir outro estrondo. Assim. Agora mais grave. E se o som do estrondo era agora mais grave. Pronto. Não havia mais dúvidas. A sua barriga estava a fugir-lhe. Cada vez mais longe. Cada vez mais vermelha. E isso era óbvio para qualquer pessoa que soubesse um bocadinho de astrofísica.

20.10.07

Carceri d'Invenzione . II . Dedos

[Piranesi - Carceri d'Invenzione]

Na manhã em que foi libertado estalou os dedos das mãos apenas duas vezes. Quer dizer, não estalou apenas dois dedos. Isso não faria qualquer sentido. Pois se o objectivo de estalar os dedos é devolvê-los ao seu encaixe ósseo natural, seria uma injustiça devolver apenas dois. E os outros oito? Ficariam fora do seu sítio? Ah não. Nem pensar. Não seria natural. Nem lógico. Não não. O que ele fez foi duas sequências de estalo completas. Assim. Começou pelo mindinho da mão esquerda. Este é fácil. Como todos os pequeninos. Basta um toque leve do polegar da mão direita. Depois o anular. Às vezes não estala. Será do anel. Embora ele não use anel. Mas pode ser do anel. Talvez o anel lhe aperte a articulação. Claro. E o médio e o indicador. Dedos chatos. Sem interesse, sem particularidades. E ele gosta tanto de particularidades. Antes de ser preso começava todas as suas conversas por "Isto é aqui entre nós, em particular". Os amigos não gostavam muito desta sua particularidade. Mas a verdade é que ele não tinha amigos, o que neste caso até é coisa boa. Ora o indicador e o polegar não têm particularidades, como já ficou dito. Estalam quase ao mesmo tempo, obedientemente. Fosse o anular assim. Mas não. Tinha de ser diferente. Não lhe chegava ter anel. Bom, o dele não tem anel. Mas é como se tivesse. É que se comporta como se o tivesse: não estala com facilidade, e tem uma pequena depressão regular ali, onde deveria estar o dito anel. Falta o polegar. Aperta-o dentro dos outros dedos. Quer dizer, o mindinho só lhe toca a ponta. É o mais pequenino. E como todos os pequeninos fica de fora, ninguém quer saber dele. Com toda a razão. Afinal não tem qualquer utilidade. E ninguém quer saber de coisas que não tenham utilidade. Muito menos ele. Por isso gostava de ouvir o clac clac dos ossos a entrarem no seu encaixe. Quando não tinha nada que fazer entretinha-se, pois, a estalar os dedos. Às vezes corria-os um a um, começando pelo indicador, usando a palma da mão oposta. Como um piano. Um dia achou que para variar poderia tocar uma ou outra fuga de Bach com o estalar dos dedos. Que tolice. Claro que não passou da primeira nota. Porque, convenhamos, tocar Bach com o estalar dos dedos não é coisa ajuizada. Ainda se fosse uma peça de Cabezón.

8.10.07

Carceri d'Invenzione . I . Cara

[Piranesi - Carceri d'Invenzione]

No manhã em que foi libertado lavou a cara apenas uma vez. É que nas outras manhãs lavava a cara muitas, muitas vezes. Tantas que um dia achou que se lhe começavam a ver as veias e os músculos assim, quase à transparência. Não se preocupou nada com isso. Afinal, quem, senão ele, lhe podia ver a cara? Quem, senão ele, poderia ficar impressionado, enojado até? Não não. Não tinha qualquer importância. Pensou até que talvez fosse interessante. Que, se lavasse mais ainda a cara, se a esfregasse assim bem esfregadinha, a sua pele acabaria por se tornar completamente transparente. Poderia então ver todas mas mesmo todas as veias, e todos todos os músculos. Todinhos. E que seria ainda mais engraçado se passasse a lavar o corpo todo várias vezes por dia. Assim poderia ver todos todos os pormenores mais divertidos da sua anatomia. Sim, porque ele tinha uma anatomia divertida, como veremos. Mas achou que o melhor mesmo era experimentar primeiro na cara. É que não sabia até que ponto aguentaria ver todos todos os pormenores da sua anatomia. Todinhos. E enquanto fosse só a cara, não vinha daí grande mal ao mundo. Podia sempre cobri-la de pó-de-arroz, se um dia se fartasse de ver todos os músculos, todas as veias. Assim, passou a esfregar cuidadosamente a cara várias vezes por dia. Mas não se pense que o fazia de forma obsessiva. Não. Ele só esfregava a pele da cara quando não tinha nada para fazer. Bom, é verdade que na sua cela não havia muito mais para fazer. Aliás, não havia mesmo mais nada para fazer. Isto seria muito mais interessante até, se ele tivesse um espelho onde se ver. Como não tinha, contentava-se em imaginar que a pele da sua cara estava a ficar transparente.