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16.8.07

Aquilo que não se pode contar || Index rerum

[Bosch - Nauis stultifera]

1 . O buraco
2 . O medo
3 . O grito
4 . Minhocas oculares
5 . Memórias
6 . A coita
7 . Frio
8 . Vermelho e laranja
9 . O bafo
10 . O sótão
11 .
12 . O cheiro
13 . O morto
14 . A escada
15 . Pregado
16 . Êxodo
17 . As trevas
18 . Aquilo
19 . E se
20 . A mão
21 . Nunc dimittis
22 . Explicit

Aquilo que não se pode contar . 22 . Explicit

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor do painel central)]

E vi um jardim imenso, e no meio um homem sentado, de cabelos brancos, vestido à maneira dos pastores, grande, mungindo ovelhas. E à volta, em pé, muitos milhares vestidos de branco. E ergueu a cabeça e olhou-me e disse-me: "Bem-vinda, filha". E chamou-me e do queijo que mungia deu-me um bocadinho. E eu aceitei-o, com as mãos juntas, e comi. E todos os que estavam à volta disseram: "Amen". E ao som de uma voz acordei, mastigando ainda qualquer coisa doce. E contei logo tudo ao meu irmão. E percebemos que sofreríamos paixão, e começámos a não ter já nenhuma esperança neste mundo.

Paixão de Perpétua e Felicidade, IV, 8-10 (séc. III)

Depois abri os olhos e vi a mãe inclinada sobre mim. "O que foi, querido". Faltava-me o ar. Não do pó. O pó nunca me incomodou. Era do meu choro convulsivo. E eu não conseguia falar. Mudo de terror. "Já passou já passou". Não passou. Não passará. Nunca. Mas eu acreditei. Porque eu queria acreditar que. Olhei para cima e vi a moldura. Fechada. Cheia de pó. Como se sempre tivesse estado assim. Como se alguém. Ou alguma coisa. "Foi um sonho mau". E eu olhei para ela e suspirei de alívio. A voz e os olhos de uma mãe. Limpei a cara às mangas do pijama e deitei-me outra vez enrolado no cobertor. Mãe fica aqui ao pé de mim. Mãe conta-me uma história. Levei a mão ao peito e senti tum tum tum tum. E um ardor nas costas. Nada. Mãe dorme aqui comigo. Porque eu tenho medo.

Depois abri os olhos e a mãe já não estava ali. Mas eu ouvia-a na cozinha. Os tachos toc toc toc. Agora eram os tachos. Não era aquilo. Porque agora eu achava que aquilo nunca tinha existido. Mãe. "O que foi querido". Nada. E senti-me mergulhado num calor tão bom. O Sol do fim da tarde. Através da cortina listada. Laranja. Ou vermelho. Porque eu achava que tinha sido um sonho mau e feio. Porque eu estava vivo. Deitado na cama de onde nunca tinha saído. E a moldura lá em cima. Fechada. Empoeirada. Mas ela antes nunca. Nada. Chega. E dormi. Tanto.

Depois abri os olhos e era noite. Tentei levantar-me. Colado à cama. As costas. Dor dor dor. Em cima. Na omoplata. Na esquerda. Com cuidado descolei as costas da cama. Levei a mão devagar. Devagarinho. Sobre o ombro esquerdo. Depois fui descendo os dedos. Percorrendo a omoplata. Em círculos. Até encontrar. Eu já sabia. Porque já tinha sentido a cama húmida. E já tinha passado a mão. E era viscoso. Mas se tinha sido um sonho. O sangue dos sonhos não é a sério. Mas. E agora isto. Este buraco. Na omoplata. Na esquerda. Um prego dobrado. E lancei os olhos ao tecto. E percebi porque é que no meu sonho não tinha conseguido entrar à primeira. Preso. Mas se tinha sido um sonho. E depois foi como se me arrancassem o estômago. E abri a boca para gritar mãe. Mas não saiu nada.

Uns pontos brilhantes no ar. Ali. Do outro lado da cortina que servia de porta. E duas bolas grandes grandes como faróis. Empurrando devagarinho a cortina. E eu abri a boca e não saiu grito nenhum.

E agora eu já não abro a boca. Quando vejo os pontos brilhantes aos pés da minha cama. Porque eu já sei. Não vai sair nada. Porque emudeço de terror. Não por causa daquilo. Por aquilo que aquilo me lembra. A minha morte. E de como eu via tudo. E de como a minha morte não era um fim. E de como vai ser. E de como vou ficar agarrado à visão do meu corpo. E de como não vou ter paz. E de como não vale a pena viver. Mas morrer também não. E de como.

Explicit.
Vellem.

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et uidi spatium immensum horti et in medio sedentem hominem canum in habitu pastoris grandem oues mulgentem et circumstantes candidati milia multa et leuauit caput et aspexit me et dixit mihi bene uenisti tegnon et clamauit me et de caseo quod mulgebat dedit mihi quasi buccellam et ego accepi iunctis manibus et manducaui et uniuersi circumstantes dixerunt amen et ad sonum uocis experrecta sum conmanducans adhuc dulce nescio quid et retuli statim fratri meo et intelleximus passionem esse futuram et coepimus nullam iam spem in saeculo habere

Aquilo que não se pode contar . 21 . Nunc dimittis


[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor do painel central)]

νῦν ἀπολύεις τὸν δοῦλόν σου δέσποτα κατὰ τὸ ῥῆμά σου ἐν εἰρήνῃ
nunc dimittis seruum tuum domine secundum uerbum tuum in pace
الآنَ تُطْلِقُ عَبْدَكَ يَا سَيِّدُ حَسَبَ قَوْلِكَ بِسَلاَم
Lc 2:29

Eu morri ali. Enquanto a mão gelada me entrava na alma e me sugava o corpo. Porque até ali só o meu corpo estava morto. A alma vivia. Porque eu tinha medo e força e tristeza e dor e alegria e espanto e. E agora não tinha nada. Só medo. Tanto.

Toc toc toc. Dois olhos. Duas bolas grandes grandes como faróis saltando em cima do meu peito. E uma sombra espessa. E uns pontos brilhantes. Que a princípio pensei serem reflexos de luz no pó. Ainda antes de o ver. Mas não. O pó não brilha. Era aquilo. E eu não sei se. Porque nada me garante que. Aquela mão gelada. Que eu não via. Mas sentia. De quem era. Daquilo. Ou não. E se. Mas veio com ele. Com aquilo. E eu não sei se. Eu só queria que isto acabasse. De vez.

Depois os olhos afastaram-se devagarinho. E os pontos brilhantes apagaram-se. Enquanto o meu coração retomava o seu tum tum tum tum eu deixava de me ver de fora. Agora estava dentro de mim outra vez. Como agora. E o meu coração tum tum tum tum. E o meu peito subia e descia e os meus dedos ganharam cor. E olhei pela moldura e já não estava em cima da cama o meu corpo morto. E a mão gelada. Ficou cá dentro de mim.

Mas eu. Eu morri ali. E agora eu estou morto. Porque isto não é viver. Porque eu sei que. Porque aquilo me roubou tudo. E só deixou medo e terror e paranóia e loucura. E medo. E terror. E paranóia. E loucura. Mas isso não foi o pior. O pior foi que eu vi senti o que é estar morto. E eu queria que morrer fosse acabar tudo. Fechar os olhos e adeus. Mas não. Morrer é estar vivo. Com a certeza de não morrer mais. E a ver-me o corpo morto. Porque eu vi-me ali deitado na cama. A pele de cera e a boca torta e os olhos baços abertos. E se o meu coração não tivesse voltado tum tum tum tum e o meu peito a subir e a descer. O que teria eu visto. O horror e as lágrimas na cara da minha mãe. E o caixão e o funeral. E eu dentro do caixão a ver-me de cima. E depois as carnes desfeitas e os líquidos e os cheiros. E depois ficar assim parado a olhar até.

Até quando. Porque não é daquilo que eu tenho medo.

15.8.07

Aquilo que não se pode contar . 20 . A mão

[Bosch - Adoração dos Magos (pormenor do painel central)]

E porque sabia que tinha sido condenada às feras, admirava-me de que não me lançassem as feras. E surgiu diante de mim um egípcio de aspecto hediondo, com os seus ajudantes, para lutar comigo. Vieram também até mim uns jovens formosos, ajudantes e meus apoiantes. E despiram-me e tornei-me homem. E começaram os meus ajudantes a esfregar-me com azeite, como é costume na luta. E vejo defronte o egípcio rolando no pó.

Paixão de Perpétua e Felicidade, X, 5-7 (séc. III)

Os meus olhos fugiram para o fundo do sótão. Ali onde o pó era mais denso e a luz morre antes de pousar. E o toc toc e o cheiro acre espesso. Cheiro a cor de laranja. Era aquilo. Estava ali. Primeiro pensei que fosse um engano de pó e de sombra. Uma mancha difusa escura mais escura do que do resto. Do que as nuvens de pó. Portanto não era uma nuvem de pó. Não era um engano. Então o que era aquilo. Dois olhos. Não sei se eram olhos. Duas bolas escuras e baças fixadas em mim. Como é que eu podia saber. Não sei. Que estavam fixadas em mim. Mas estavam. Assim do tamanho dos faróis de um carro. Rolaram no ar até chegarem a mim. E eu tive tanto medo. Porque eu senti. Eu estava morto. Mas senti. E aquele calor medonho espinha acima. Que estar morto não era o pior que me podia acontecer.

Era uma sombra escura espessa do meu tamanho. Pequenina. Com duas bolas enormes postas em mim no lugar dos olhos. E eu não podia estender a mão e tocar-lhe. Porque o meu corpo morto já não me obedecia. Por fim sentia-me morto a sério. Que até ali eu era um morto vivo. Sentia o meu corpo. Levava a mão ao peito e não havia tum tum tum tum. Mas eu mandava na minha mão. Estava morto mas estava vivo. Não respirava. Mas o resto estava lá. Pensava tinha medo frio angústia coragem calor. Só não tinha dor. Embora então ainda não o soubesse. Depois. Agora eu estava de facto morto. Porque o corpo já não era meu. E eu olhava-me fora de mim. Como contam aqueles textos medievais. Baronto. Túndalo. Tantos outros. Homens quase mortos levados a ver o Além. E depois voltavam aos seus corpos para contar as penas do Inferno e as delícias do Paraíso. Ou ao contrário.

Depois as bolas caíram no chão e fizeram toc toc toc. E o meu corpo tombou e as bolas em cima dele. E eu senti um frio medonho na alma. Mão gelada dentro de mim.

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et quia sciebam me ad bestias damnatam esse mirabar quod non mitterentur mihi bestiae et exiuit quidam contra me aegyptius foedus specie cum adiutoribus suis pugnaturus mecum ueniunt et ad me adolescentes decori adiutores et fautores mei et expoliata sum et facta sum masculus et coeperunt me fauisores mei oleo defricare quomodo solent in agone et illum contra aegyptium uideo in afa uolutantem

14.8.07

Aquilo que não se pode contar . 19 . E se

[Bosch - Julgamento Final (fragmento do Inferno)]
κύριε ἐλέησόν με
kýrie eléêson me
Salmos (versão da Septuaginta) 40:5

E eu sei o que é isto que se me enterra no peito e me arranca a força e me mata e me morre a coragem de. Eu vejo eu sinto eu sei. E são cinco da manhã e eu espero a luz. Deito os olhos pela porta. Calor tremendo. Espinha acima. E se.

Aquilo que não se pode contar . 18 . Aquilo

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor do painel direito)]

γῆ εἶ καὶ εἰς γῆν ἀπελεύσῃ
terra és e à terra voltarás
gê eî kaì eis gên apeléusêi
Génesis (versão da Septuaginta) 3:19

Um sótão esquecido tem frestas nas telhas por onde entram línguas de luz de cobre que fazem dançar a poeira. E o chão range se lhe pomos um pé em cima e depois o outro. E há cómodas velhas e arcas onde ninguém toca ou se calhar nunca ninguém tocou. E teias de aranha grandes do tamanho de um homem: cortinas cinzentas de pó enfeitadas aqui e ali por cachos de moscas mortas secas sugadas comidas por dentro. E há bolor e musgo e umbrófilas porque quando chove a água escorre pelas telhas rachadas. E um cheiro espesso que se entranha na pele. E a madeira estala e ronca gemendo as entranhas roídas.

Mas aquilo não era um sótão esquecido. Fechei os olhos e esperei. Eu sabia que tinha de esperar. O quê. Não sabia. Agora sei. Agora.

Talvez não tenha sido mais do que um momento. Percebi a claridade invadir-me as pálpebras. Abri os olhos e afinal não havia claridade. Uma penumbra de cobre. Assim como a luz moribunda que passa a minha cortina listada. Laranja. E vermelha. E já não estava tudo turvo. Olhos habituados àquela penumbra. Não havia frestas nas telhas. Nem línguas de luz nem cómodas nem arcas intactas. Nem teias nem aranhas. Nem bolor nem musgo. Nem moscas secas sugadas. Vazio. Só pó. E o pó não assentava.

Olhei para todos os lados. Um sótão imenso e o pó. Alto no meio. Tanto que não chegava às telhas mais altas. Mas eu era tão pequenino. E depois descia dos lados. Até tocar no chão de madeira lisa. Limpa. Sem pó. Agora notava. Tanto pó no ar. Mas no chão. Como a moldura vista de baixo. Madeira lisa limpa polida. Como se alguém. Ou alguma coisa. O pó dançava eterno no ar. Sem pousar.

E depois ouvi o toc toc. Ao fundo. Mas como. Se o ouvia todos os dias mesmo em cima de mim. E agora estava no ponto oposto. Mesmo lá ao fundo. Onde a luz morta já pouco alcançava. Um calor tremendo espinha acima. Mas medo não. Como se. Não. Lancei os olhos ao fundo do sótão. De onde toc toc. E depois vi.

Aquilo.

11.8.07

Aquilo que não se pode contar . 17 . As trevas

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor do painel central)]

El final de la historia sólo es referible en metáforas, ya que pasa en el reino de los cielos, donde no hay tiempo.
Jorge Luis Borges, Los teólogos

Os outros meninos diziam mãe mãe deixa a luz acesa. Eu dizia mãe mãe baixa os estores e fecha a porta. Não podia ficar sequer um buraquinho por onde pudesse entrar. Se eu visse um grão que fosse de luz. Eu nunca tive medo do escuro. Do que eu tinha medo era da luz. Do que ela me podia tirar. Porque eu achava que aqueles raios de luz cortando o ar poeirento eram línguas de espíritos malvados que me entravam pelos olhos adentro. E me roubavam sugavam a alma. Lentamente. Escorrendo devagar. Devagarinho. Eu via-a. Uma mancha leitosa flutuando dentro dos raios de luz. A minha alma. Deixando um vazio doloroso na minha cabeça pequenina. As dores de cabeça. Eu sei. Eram os espaços vazios deixados pela minha alma sugada. E se um dia me ficasse apenas espaço vazio. Então todo eu seria uma dor de cabeça. Por isso se eu visse um grão que fosse de luz gritava mãe mãe mãe. E ela já sabia. Abria a porta do quarto com um sorriso conformado e baixava completamente os estores. Depois corria os cortinados e dizia pronto já não há luz nenhuma dorme bem até amanhã se deus quiser. A minha mãe acredita em deuses.

Por isso não tive medo das trevas que enchiam o sótão. Nem do silêncio total. Porque não se ouvia nada. Como se me tivessem arrancado os ouvidos. Nem o zum zum do sangue a zumbir. Mergulhado num nada peganhento. Aquiles. Porque é que me lembraria de Aquiles. Porque a mãe me tinha contado a lenda. O menino mergulhado pela mãe no rio dos mortos. Invulnerável. Mas havia aquela parte por onde a mãe o tinha segurado. O calcanhar seco. E eu naquele negro de morte. Os meus pés deitados fora da moldura. Se eu os puxasse para dentro. Então todo eu seria invulnerável. Embora eu já o fosse. Porque eu estava morto. E não há coisa mais invulnerável do que um morto.

Então puxei os pés para dentro. E depois mudou tudo. As trevas não se foram. Pelo menos completamente. Mas no ar corria agora uma luz leve. E o zumbido rido. Lá estava ele outra vez. Embriagando-me os ouvidos. E eu conseguia agora perceber o que estava à minha volta. Assim como se abrisse os olhos debaixo de água. Tudo turvo. Mas via. E ouvia. E hoje eu sei. Nunca deveria ter puxado os pés para dentro.

10.8.07

Aquilo que não se pode contar . 16 . Êxodo

[Bosch - Cristo carregando a cruz]

Subiu primeiro Saturo, que por nossa causa e por sua iniciativa já se entregara, uma vez que ele próprio nos tinha instruído, e portanto não estava presente quando fomos presos. E chegou ao cimo da escada, e voltou-se e disse-me: - Perpétua, estou à tua espera. Mas tem cuidado, não vá essa serpente morder-te.
(*)
Paixão de Perpétua e Felicidade, IV, 5 (séc. III)


Já cá estou. Ou lá. Porque eu já não sei onde estou. Porque às vezes parece que fiquei lá. Ou cá. E não sei onde queria estar. Se cá. Porque para saber onde queria estar tenho de saber onde estou. Se lá.

Eu não sei quem sou. Se o morto deitado na cama. Se o morto sentado balançando as pernas do lado de lá da moldura. Ou de cá.

Vou contar como foi.

Um pontapé no escadote. Mas eu não. Não fui eu. Senti fazer força força força. Mas não era eu. E depois o escadote caiu em cima de mim. Em cima do eu morto deitado na cama. Não me doeu. Porque eu estava ali em cima pendurado na moldura. E o eu que pensava e sentia era eu. O eu que estava morto em cima da cama não sei. Se calhar pensava e sentia. Mas eu não sentia por ele. E portanto era como se não sentisse. Como se não fosse eu. Mesmo sendo eu.

Força força força impulso. Ah. Já está. Eu não sabia que tinha esta força. Ou não tinha. Porque eu não me lembro de ter dito aos braços força força força. E eu era tão pequenino. Mas sei que estava pendurado as pernas balançando para aqui para ali e depois dei balanço e já está. Como se me tivessem puxado. Ou como quando me sentava no baloiço e ia para a frente e para trás e para a frente e para trás e sabia que não era eu que. Era a mãe. Eu só dava balanço. Não fui eu. Foi alguém. Alguma coisa.

E aquilo que me tinha prendido agora já não estava lá. Agora estava. Agora não. Tenho medo. Porque enquanto conto penso escrevo estas coisas. Às vezes parece-me sentir outra vez aquele rio de sangue negro descendo-me as costas caindo viscoso gota a gota.

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(*) ascendit autem Saturus prior qui postea se propter nos ultro tradiderat quia ipse nos aedificauerat et tunc cum adducti sumus praesens non fuerat et peruenit in caput scalae et conuertit se et dixit mihi Perpetua sustineo te sed uide ne te mordeat draco ille

6.8.07

Aquilo que não se pode contar . 15 . Pregado

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor do painel central)]

Still round the corner there may wait

A new road or a secret gate;
And though I oft have passed them by,
A day will come at last when I
Shall take the hidden paths that run
West of the Moon, East of the Sun.
J. R. R. Tolkien, The Lord of the Rings. The Return of the King

O mais difícil foi passar o corpo pela moldura. É o que isto é. Um corpo. Morto e frio. Preso. No entanto havia um espaço tão grande entre o peito e o lado oposto da moldura. E eu não passava. Como se uma força estranha me impedisse de. Só a cabeça. E os braços. Apoiados no chão do sotão. Fazendo força força força. E nada. Corpo preso terror crescente. E o cric cric das tábuas estalando debaixo dos braços. Mais nada. Nem zumbido rido. Silêncio quente. E eu um corpo sem cabeça. Porque a tinha mergulhada naquelas trevas pegajosas e era como se não a tivesse. Uma cabeça que não vê. Achei-me cego. Meio cego. Porque eu olhava para baixo e via-me morto em cima da cama. Mas em cima. Assim que deitava os olhos na escuridão cegava. Como se tivesse mergulhado a cabeça em nada. Como se aquilo não quisesse que.

E então achei que era o medo que não me deixava passar o corpo pela moldura. O meu. E devagar devagarinho tirei a cabeça de dentro do sótão e voltei a ver. A despensa poeirenta. E a luz laranja serpenteante. Ou vermelha. As lombadas rasgadas. Eu ali em baixo deitado na cama. E aqui em cima. Quase todo no meu confortável mundo pequenino. Não fossem as mãos lá dentro do nada. E não as sentia. Como se não as tivesse.

Pendurado na moldura sem medo de cair. Porque se caísse caía em cima de mim e não morria mais. É que eu já estava morto. O eu que jazia na cama de olhos baços abertos boca torta mão crispada no peito. E o eu pendurado na moldura medonha pernas dançando no ar poeirento. E um rio de sangue negro escorrendo nas costas pingava sobre o morto deitado na cama. De onde vinha. Depois viria a saber. Agora não quero. Porque quando me lembro (*) falta-me a coragem para continuar a lembrar.

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(*) "...me acosa una picazón en la mano derecha, aguda en el dedo mayor, y una suerte de entumecimiento, como si un agente sobrenatural me estorbara, para no dejarme escribir." Adolfo Bioy Casares. Escreveu esta frase enquanto se lembrava do que me iria acontecer.

4.8.07

Aquilo que não se pode contar . 14 . A escada

[Bosch - Carro de feno (painel direito)]

Vejo uma escada de bronze, de tamanho espantoso, chegando até ao céu, e estreita, a qual só podia subir um de cada vez, e dos lados da escada estava posta toda a sorte de ferros cortantes: ali havia espadas, lanças, ganchos, cutelos, dardos, de modo que se alguém subisse sem cuidado ou não olhando para cima, seria dilacerado, e as suas carnes ficariam agarradas aos ferros. E havia debaixo dessa escada uma serpente deitada, de tamanho espantoso, que armava ciladas aos que subiam, e os amedrontava, para não subirem.
(*)
Paixão de Perpétua e Felicidade, IV, 4 (séc. III)

Se isto é estar morto. Mãos no ferro gelado. Queima. Tira tira. Esta cama abana tanto. Caio assim que puser um pé num degrau. Não sou capaz. Tenho medo. Mesmo estando morto. Não é medo de cair. Porque ainda que estivesse vivo. E eu estou morto. Se caísse caía de costas na cama. E isso nunca matou ninguém. Menos ainda um morto. Não. O meu medo não é esse. O meu medo é um medo maior. Este escadote gelado que me queima as mãos. E eu não devia sentir. Eu estou morto. O meu coração não bate. O meu peito não sobe nem desce. Os meus dedos têm a cor da cera. E onde o ferro tocou estão brancos da cor do gelo. Ainda há pouco tão forte. E agora não consigo pôr estas mãos mortas neste escadote de ferro gelado. E subir e abrir aquela moldura medonha. E ver o que é. Se é.

Força. Estou morto. Não dói. Não pode doer. Mão no ferro. Já está já já já. Queima tanto. Tira não tira. Deixa ficar. Porque está tudo na minha cabeça. Um ferro gelado não pode queimar a mão de um morto. E se dói é porque não estou morto. E se o coração está parado e o peito não sobe nem desce. É porque estou morto. E se estou morto nada de mal me pode acontecer. Porque o pior que me podia acontecer era morrer. E eu já morri. Mas isto não foi o pior que já me. Não. Isto é bom. Bonum est me hic esse. Eu não sabia latim quando. Não interessa. Então se isto não é o pior que me podia acontecer.

Queima mais queima tanto mais. Mas eu sou forte. E já estou a meio caminho entre a moldura medonha e a cama. A cama. Deito-lhe os olhos e morro outra vez. Porque na cama estou eu deitado de olhos abertos e boca torta e mão crispada no peito. Mas eu estou no escadote. E estou na cama. Então quem sou eu que subo o escadote. E quem sou eu deitado na cama. Tão pequeno tão fraco. Nunca me tinha visto. Porque num espelho não é a mesma coisa. E agora ali. Tão branco tão morto. Aqueles olhos baços pregados em mim. O que isto. Quem sou eu. Porque se eu estou a pensar e a ter medo. Então eu sou eu. Este que sobe o escadote. E aquele na cama sou eu morto. É que era eu que estava ali. Deitado olhos postos na moldura medonha a ouvir o zumbido rido. E depois levei a mão ao peito e não havia tum tum tum tum. Então eu aqui no escadote não sou eu. Eu sou aquele na cama. Então este que tem as mãos queimadas pelo ferro gelado. Que foi isto. toc toc toc. Voltou.

Deixei o morto deitado na cama e lancei os olhos à moldura medonha. Porque isto é mais forte.
E eu tenho de saber o que está ali em cima. Só mais dois degraus. Abana abana mas não cai. E quando chegar lanço um braço. Ou os dois. E toco na moldura. E faço faço força e empurro. Já está.

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(*) uideo scalam aeream mirae magnitudinis pertingentem usque ad caelum et angustam per quam nonnisi singuli ascendere possent et in lateribus scalae omne genus ferramentorum infixum erant ibi gladii lanceae hami machaerae ueruta ut si quis neglegenter aut non sursum adtendens ascenderet laniaretur et carnes eius inhaererent ferramentis et erat sub ipsa scala draco cubans mirae magnitudinis qui ascendentibus insidias praestabat et exterrebat ne ascenderent

3.8.07

Aquilo que não se pode contar . 13 . O morto

[Bosch - Menino Jesus com andarilho]

No es el miedo a lo desconocido lo que me retrae, aunque actualmente me acosa una picazón en la mano derecha, aguda en el dedo mayor, y una suerte de entumecimiento, como si un agente sobrenatural me estorbara, para no dejarme escribir.
Adolfo Bioy Casares, Historia prodigiosa

Depois levantei-me e pus-me de pé em cima da cama os olhos lançados ao tecto. Não sei de onde me veio aquela força. Se do meu coração parado. Porque ele estava parado. Eu punha a mão no peito e nada. Nem um tum tum tum tum. Silêncio quieto. E um frio tremendo que me invadia os membros e os dedos estavam da cor da cera. Eu estava morto. Mas via e ouvia e cheirava. E punha-me de pé e agora não tinha medo. Daquilo lá em cima. Daquele zumbido rido que me enchia os ouvidos mortos. Do cheiro a cor de laranja ondeando o ar empoeirado.

Depois reparei que não respirava. Porque o pó já não me sufocava e o meu peito estava parado. Eu estava morto. Ainda que para o confirmar a minha mão se erguesse e percorresse o peito à procura de um tum tum tum tum de um vai-e-vem de um estou vivo. Então estar morto é isto. Eu pensava que. Na altura eu ainda acreditava em deuses. Eu pensava que vinha um anjinho bonito e me pegava e me levava pelos ares até ao céu onde um senhor de barbas me punha ao colo e me dava um beijinho e depois me mandava para um recreio sem fim feito de nuvens. E afinal. É igual a estar vivo. Só que não há tum tum tum tum no peito nem nos sufocamos com pó nem temos medo.

Depois deixei de pensar na minha estranha morte e quis abrir a moldura de madeira. A porta do meu terror. Para ver o que estava lá em cima. Porque agora eu já não tinha medo. Um dia disseram-me. Não tenhas medo de nada: o pior que te pode acontecer é morreres: e da morte não devemos ter medo porque ela é certa. E eu já estava morto. Um morto não morre. Nada mais me podia acontecer. Portanto eu tinha de abrir aquela porta maldita.

Se eu pusesse o escadote em cima da cama. Já tinha pensado fazê-lo tantas vezes. Mas o medo. Medo de quê. De cair e morrer. Mas eu já estou morto.

31.7.07

Aquilo que não se pode contar . 12 . O cheiro

[Bosch - A adoração dos Magos (pormenor)]

La curiosidad pudo más que el miedo y no cerré los ojos.

Jorge Luis Borges, There are more things

toc toc toc. Naquela tarde a minha vida acabou entre espirais de pó laranja. Ou vermelho. Dançando à minha volta por cima de mim deitado de cara colada ao tecto. E às vezes levantava o braço e lançava-lhe a mão. Como se pudesse lá chegar. Tacteando o ar pastoso. Abrindo caminho por entre a chuva de pó ritmado. toc toc toc. Quebrando o silêncio da tarde muda. Surda. Surdo. Porque à minha volta só toc toc toc. Mais nada. Como se o mundo tivesse acabado e só restássemos nós. Eu. E aquilo. E eu queria gritar. Chamar a mãe. Mãe. Mãe. toc toc toc. A boca não se me abria. Todo eu confluía naquela moldura sem pó. Mudo. Surdo. Eu era olhos e mão. Lançados ao tecto. E aquele ardor nas entranhas.

Depois pus-me de joelhos em cima da cama e tudo mudou. A luz era a mesma. Filtrada pelas listas da cortina. Laranja. Vermelho. E dourado. Mas havia um cheiro novo no ar. Já não era o pó nem o bolor nem o papel. Era pegajoso. Húmido. Não era um cheiro animal. Era. Não sei. Era diferente. Laranja. Cheirava a laranja. Não ao fruto. À cor. As cores não cheiram. Mas aquilo era cheiro a cor de laranja. Como o calor. Um calor cor de laranja que me entrava pela pele adentro. Ou então. Talvez não fosse um cheiro a cor de laranja. Mas quando fecho os olhos e me tento lembrar. Pó. Laranja. E o toc toc toc. Que agora era um zumbido. Quase um riso baixinho. Anda cá sobe não tenhas medo. Não não. Isto não é uma história de fantasmas. Já disse. Mas eu ouvi aquilo. Dentro da minha cabeça. Ou era eu que. Ou era aquilo. E o meu coração parou. Pus a mão no peito e não o sentia.

27.7.07

Aquilo que não se pode contar . 11 . Pó

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor do painel direito)]



Los hechos graves están fuera del tiempo, ya porque en ellos el pasado inmediato queda como tronchado del porvenir, ya porque no parecen consecutivas las partes que los forman.

Jorge Luis Borges,
Emma Zunz

Com o passar dos dias os meus olhos já não se demoravam nas lombadas poeirentas. Eram agora passeios rápidos, carícias nervosas no papel amachucado. Porque depressa eram puxados para cima. A moldura de madeira. Não conseguia desviá-los. Não queria. Eu sabia que havia ali. Não sei. Tinha medo. De que afinal não houvesse ali nada. De que não passasse de delírios. Porque se calhar o toc toc era na minha cabeça. E se o toc toc fosse na minha cabeça. Não. Ninguém enlouquece tão pequenino. Dez anos. Ou cinco. Ou sete. Não me lembro. Só pó na minha memória. Ah. Mas só eu parecia notar esta coisa estranha. Ali não havia pó. Nem teias de aranha. Nem manchas de humidade. Nem caruncho. Era um quadrado de madeira polida. Como se alguém. Ou alguma coisa. Não era a minha mãe. Eu escoltava-a durante as limpezas. Eu sabia que ela não chegava lá. Porque se esquecia sempre da despensa. Ou porque não tinha tempo. Nem forças. Porque criava três filhos sozinha. Alguma coisa teria de ficar para trás. Eu lembro-me do olhar cansado sem esperança. E da chuva de pó que naquele dia era maior do que alguma vez. Não sei se foi isso. Não sei se. A verdade é que.

24.7.07

Aquilo que não se pode contar . 10 . O sótão

[Bosch - São Jerónimo em oração (pormenor)

Referir con alguna realidad los hechos de esa tarde sería difícil y quizá improcedente. Un atributo de lo infernal es la irrealidad, un atributo que parece mitigar sus terrores y que los agrava tal vez.
Jorge Luis Borges, Emma Zunz

abriu-se-me um medonho caixote de memórias. De papelão. Não é um baú de madeira. Porque um baú deve ter as coisas muito bem arrumadas. Postas com ordem umas sobre as outras. Sem misturas. E as memórias que me assaltam enredam-se numa mistura infernal. É um caixote desarrumado posto debaixo da cama. E se fosse um baú eu podia fechá-lo. Comprava um cadeado se não tivesse um. Depois deitava a chave fora. Como nos filmes. E nunca mais o abria. Porque este terror que me assombra os dias. É que o caixote não se consegue fechar completamente. Mesmo que o envolva em fita-cola grossa. Há sempre uma memória mais forte que lhe rasga o cartão e volta para me assombrar. Ameaça latente. Cala-te. Enquanto podes. E eu calo-me. Porque eu tenho medo. Um medo de morte.

E eu sei que só se não me calar é que. Que só vencerei o medo se. Porque eu sei que vou morrer. Se me calar continuarei a ser assombrado por esta memória. Todos os dias. E morrerei de terror. Devagarinho. Devorados aos poucos. Vivo. Sangrando a cada dia mais um bocadinho. Mas se falar. Não sei. O mais provável é que aquilo volte. E acabe de me matar. De vez. E depressa.

Aconteceu naquela tarde. Em que o Sol poente invadia o corredor. Há listas laranja de luz filtrada dançando no ar empoeirado. É o pó eterno que chove do tecto de madeira. E depois aquele calor pachorrento. Como agora. No meu scriptorium. Fechar os olhos e sonhar os dias passados. Muito quietinho. Enrolado em mim mesmo. Porque se abro os braços toco em cada uma das paredes. Agora. Se lá voltasse. Porque naquela altura eu era tão pequenino. Dez. Onze anos. Não me lembro. E aquele era o meu refúgio. Quando não queria que me vissem. Então afastava devagarinho a cortina. Para não ficar a dançar. Para não me denunciar. E depois deitava-me na cama que enchia o compartimento. Era uma despensa transformada em quarto. Não havia espaço para mais nada. Cama e algumas prateleiras na parede. Livros empilhados. Talvez viesse dali muito do pó dançante. E eu gostava de me pôr em pé em cima da cama e rolar os olhos pelos livros. Até achar uma lombada prometedora. Um livro velho. Tinha de ser velho. Ali não havia livros novos. Esses estavam em estantes bonitas na sala. No meu refúgio havia livros da infância e juventude da minha mãe. Lombadas de papel vergado. E se havia uma que me chamava a atenção eu parava os olhos. Tinha de ser uma lombada rasgada. Sem letras. Para poder ficar a pensar. O que estaria escrito naquele livro. Uma aventura. Um mistério. Não interessava. Era um livro. Se tivesse imagens. Se fosse uma enciclopédia. Mesmo se não tivesse. Mesmo se não fosse. Depois tirava-o com cuidado e por entre nuvens de pó abria-lhe as páginas cansadas e sonhava durante horas. O despertar era suave. Porque sem dar por isso já tinha fechado o livro e deitava os olhos para cima. Para o tecto de madeira em cujo centro estava a medonha moldura de madeira. Se chegasse lá. Se a abrisse. É que era uma moldura que se abria. Uma porta pequenina. Quadrada. Pendurada no tecto. Sem pó. Como se alguém a limpasse cuidadosamente todos os dias. Ou alguma coisa. E se a abrisse havia um sótão. Onde ninguém entrava há muito tempo. Onde a minha mãe dizia não haver nada. Só pó e teias de aranha. Mas eu sabia que. Porque o ouvia. Quase todos os dias. Um som seco. Como se alguém batesse com as unhas no chão. Descompassadamente. Devagarinho. Às vezes eu não sabia se era mesmo lá em cima. Ou se era dentro da minha cabeça. Quanto mais durava mais pó chovia. E eu deitava-me sem respirar. Não sei como não morria. Porque os minutos passavam e eu não respirava. Só a ouvir aquele toc toc. Para ter a certeza de que. E às vezes parecia que havia um gemido baixinho. Rebolava ao longo do tecto de madeira. Lá em cima. Isto não é uma história de fantasmas. Porque o que lá está em cima não é um fantasma. Antes fosse. Porque se fosse. Se fosse eu sabia que não existia. Mas aquilo existe. Eu sei.

21.7.07

Aquilo que não se pode contar . 9 . O bafo

[Bosch - São Pedro e o doador (pormenor)]

Sospecho que en mi relato hay falsos recuerdos.

Jorge Luis Borges, La otra muerte

Agora. Está aqui outra vez. Enquanto corro os dedos pelo teclado e um sopro me faz dançar as cortinas. Bafo laranja que me inunda o scriptorium. Ou vermelho. Tanto faz. E há este silêncio. O zumbido do computador. Ou dos meus ouvidos. Só isso. Não passam carros na estrada. Não jogam à bola no corredor do prédio. Parou tudo. Estou sozinho. Tudo morto. Só os meus dedos. E o zumbido do computador. Ou dos meus ouvidos. E as cortinas que dançam. Ondeando as listas fininhas. Laranja. Vermelho. E dourado. E esta dor abafada. Há alguma coisa a sair do buraco da minha omoplata. Da esquerda. Não quero mexer. Não quero. Vou ficar parado. Sem me mexer. Como morto. Como fazem aqueles animaizinhos. Pode ser que me pense morto. Se aquilo pensa. Ah pensa. Tem de pensar. Porque se não pensasse. Parei de escrever durante. Não sei quanto tempo. Muito. Levei a mão às costas. E tive medo. Não serpenteou desta vez o meu dedo ao longo da omoplata. Da esquerda. Parou no ombro. E depois fechou-se a janela. Fechou-se. Não fui eu. Assim, CLAC. Um som seco. E eu tirei a mão do ombro. Do esquerdo. Pousei-a no coração aflito pum pum pum pum pum. High heart rate pi pi pi. Depois o silêncio tornou-se ainda mais denso. É nos meus ouvidos. O computador não zumbe assim. E agora já não ondeiam as cortinas. Só as listas. As douradas. Parece que vão saltar. E que vai aparecer. Parou tudo. Estou sozinho. Preso num buraco no tempo. À mercê daquilo. E da minha loucura. E deste bafo pegajoso. Que me lambe o pescoço e as orelhas. Quente. Como quando. Tenho medo. Se calhar. Talvez me devesse calar. Porque desde que comecei a escrever esta memória

19.7.07

Aquilo que não se pode contar . 8 . Vermelho e laranja

[Bosch - São João Baptista no deserto]

Miro mi cara en el espejo para saber quién soy, para saber cómo me portaré dentro de unas horas, cuando me enfrente con el fin. Mi carne puede tener miedo; yo, no.

Jorge Luis Borges, Deutsches Requiem

Listas verticais. Vermelho e laranja. Fininhas. Com uns fios dourados pelo meio. Agora são cortinas pequeninas. Duas. Dantes eram cortina grande grande que fazia de porta. Lambe-as o Sol ao fim da tarde. De Verão. Quando da janela do scriptorium consigo vê-lo cair cair. Durante o resto do ano é frio. O scriptorium. E escuro. E não têm outra serventia senão proteger-me de miradas alheias. As cortinas pequeninas. Enchem-me o scriptorium de uma luz fraca fraquinha. Laranja. Ou vermelha. Não sei. Cor quente. E eu gosto de me sentar à secretária sem fazer nada. Banhado pela luz laranja. Ou vermelha. E se for depois de um dia de praia. A pele quente ainda a cheirar a mar. Gozar aquele calor laranja pachorrento. Ou vermelho. Tanto faz. Sem pensar em nada. A olhar para os meus livros. Para as recordações pregadas no quadro de cortiça. Porque estas não me doem. Tanto. E depois fogem-me os olhos para as cortinhas pequeninas e eu lembro-me.

16.7.07

Aquilo que não se pode contar . 7 . Frio

[Bosch - Tentação de Santo Antão (painel direito)]

... Ernst Spengler decidiu agir como na infância: para terminar com o terror do perseguido (que continuava a sentir) a criança deveria parar de fugir, dar meia volta, e dirigir-se de frente para o seu perseguidor
.
Gonçalo M. Tavares, Jerusalém

verei que não está nada ali. Só uns pontinhos brilhantes que desaparecem quase imediatamente. Depois as trevas. Olhos deitados aos pés da cama. A ver. A ver o quê. O que não está lá. Dói-me o pescoço. De ficar ali de cabeça levantada a olhar o escuro. À espera de ver. E uma raiva frustrada. Porque não vejo nada. É que eu queria ver. Para depois morrer de horror. Pelo menos sabia que. É que assim. Este está não está. Não sei. Podia deitar-me e dormir descansado. Porque afinal parece que não está. Para quê este terror. Não há ali nada. Só os pontinhos brilhantes. Fechar os olhos e abri-los de repente. A ver se. Lá estão. Os pontos brilhantes. Só um momento. Um momentinho. A seguir desaparecem. Se calhar nunca estiveram. Partidas dos meus olhos. Mas e este frio que não é frio. Porque não está frio. Mas eu sinto. Este ar pegajoso que não me deixa respirar. Há ali qualquer coisa. Não é um fantasma. Antes fosse. Porque se fosse. Porque se fosse eu sabia o que era. Além disso eu não acredito em fantasmas. Se fosse um fantasma. Um poltergeist. Mas não é. Assim não sei. Ou sei. Se eu me levantar. E acender a luz.

11.7.07

Aquilo que não se pode contar . 6 . A coita

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor do painel lateral esquerdo)]

φανερὰ δέ ἐστιν τὰ ἔργα τῆς σαρκός, ἅτινά ἐστιν πορνεία ἀκαθαρσία ἀσέλγεια εἰδωλολατρία, φαρμακεία ἔχθραι, ἔρις ζῆλος θυμοί ἐριθείαι διχοστασίαι αἱρέσεις φθόνοι μέθαι κῶμοι καὶ τὰ ὅμοια τούτοις ἃ προλέγω ὑμῖν καθὼς προεῖπον ὅτι οἱ τὰ τοιαῦτα πράσσοντες βασιλείαν θεοῦ οὐ κληρονομήσουσιν
Gal 5, 19.21
selar
cerrar
calar
os
olhos
deixados
aos pés da cama. Cegos. Para quê. Se eu já sei. Se o sinto. Mesmo se não o vejo. E eu sei. E não consigo deixar de olhar. De me lançar nas trevas para alimentar o meu terror. Levanto o pescoço. Devadevadevagagaririnho. Para não me denunciar. Como se me estivesse a ajeitar na almofada. Mas não. Estou tolo. Tonto. Tentando ver aquilo que não se vê. Cabeça levantada queixo no peito. Tum tum tum tum coração doido. Coito. As coisas de que me lembro nestes momentos. Se fosse coito não coita aqui na cama. Tanta coita coito quase nenhum. Multum passus uix futuit. Palavra tão feia. Rouba-me a razão. O terror. Mas se eu. E se abrir agora os olhos

Aquilo que não se pode contar . 5 . Memórias

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor do painel lateral esquerdo)]

De facto, não eram muitos os que esqueciam aquilo que lhes era roubado e que os técnicos designavam como: curado de. Estar curado não era apenas deixar de ter determinado comportamento, era ainda esquecer o trajecto que de novo os poderia recuperar.
Gonçalo M. Tavares, Jerusalém


aquilo me matasse. Preferia não acordar. Morrer. Não será pior do que. Estas noites medrosas negras de pontos luminosos. Este terror que me arranca devagar devagarinho as entranhas. Uma a uma. E um dia vou acordar sem entranhas. Corpo seco vazio. E depois já nada poderá escorrer pelo buraco na minha omoplata. Na esquerda.
Que
de
noite
corre
escorre
terror
horror
Arrependo-me de ter começado a contar. Nunca tinha. A ninguém. Nem a mim. Porque se não me contasse era como se não tivesse acontecido. E aconteceu. Porque eu contei. A mim. E agora preparo-me para contar a todos e agora acontece com mais força. A dor na minha omoplata. Na esquerda. Sinal deixado. Recordação viva da tarde em que. Não sei se. Talvez parasse. Se me calasse. E deixasse morrer a memória. Assim morta morrida. Se os conseguisse

9.7.07

Aquilo que não se pode contar. 4 . Minhocas oculares

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor do painel lateral direito)]

Arturo preguntó: Cómo se le ocurrió el nombre?­ A mí no se me ocurrió. Lo puso un periodista, por error. En realidad, el Nóumeno es lo que descubre cada persona que entra. Y, a propósito: ¡Adelante, señores, pasen! Por cincuenta centavos conocerán el último adelanto del progreso. Tal vez no tengan otra oportunidad.
Adolfo Bioy Casares, Nóumeno

esquecer. Há umas drogas que fazem isso. Drogas daquelas dos médicos. Das boas. Porque há drogas boas. Que nos fazem esquecer. E se eu me esquecesse daquilo. Mesmo sabendo que. É que o meu problema é saber. Se eu não soubesse. Se aqueles pontos brilhantes não passassem de extravagâncias vasculares nos olhos. Coisas do meu interior das minhas entranhas. Como aqueles zumbidos nos ouvidos. O sangue a passar. Normal. Foi o que me disse o médico quando me queixei. Porque havia aqueles silêncios nocturnos. Quando nem gente nem máquinas. Só o silêncio pegajoso do nada. E os ouvidos zzz zz z. Depois há um cão que ladra e o coração dá um salto. Depois pára. O zumbido. É que eu às vezes já não sei o que é normal. Como aquelas sombras filiformes que me passam às vezes pela vista. É normal. Mas se eu não soubesse que era normal ficava assustado. Pensava que ia cegar. Que tinha bichos nos olhos. Minhocas oculares. Que mos comiam devagar devagarinho. E um dia eu acordava sem eles. Mas não. Não há minhocas oculares. Às vezes penso. Será que. Não. Eu sei que não são extravagâncias vasculares. Porque eu vi. E eu só queria esquecer aquilo que eu vi. Porque se eu me esquecesse. Era como se aqueles pontos brilhantes fossem coisa normal. E eu não tinha medo. Fechava os olhos e dormia sereno. Mesmo se não acordasse. Mesmo se