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16.8.07

Aquilo que não se pode contar . 22 . Explicit

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor do painel central)]

E vi um jardim imenso, e no meio um homem sentado, de cabelos brancos, vestido à maneira dos pastores, grande, mungindo ovelhas. E à volta, em pé, muitos milhares vestidos de branco. E ergueu a cabeça e olhou-me e disse-me: "Bem-vinda, filha". E chamou-me e do queijo que mungia deu-me um bocadinho. E eu aceitei-o, com as mãos juntas, e comi. E todos os que estavam à volta disseram: "Amen". E ao som de uma voz acordei, mastigando ainda qualquer coisa doce. E contei logo tudo ao meu irmão. E percebemos que sofreríamos paixão, e começámos a não ter já nenhuma esperança neste mundo.

Paixão de Perpétua e Felicidade, IV, 8-10 (séc. III)

Depois abri os olhos e vi a mãe inclinada sobre mim. "O que foi, querido". Faltava-me o ar. Não do pó. O pó nunca me incomodou. Era do meu choro convulsivo. E eu não conseguia falar. Mudo de terror. "Já passou já passou". Não passou. Não passará. Nunca. Mas eu acreditei. Porque eu queria acreditar que. Olhei para cima e vi a moldura. Fechada. Cheia de pó. Como se sempre tivesse estado assim. Como se alguém. Ou alguma coisa. "Foi um sonho mau". E eu olhei para ela e suspirei de alívio. A voz e os olhos de uma mãe. Limpei a cara às mangas do pijama e deitei-me outra vez enrolado no cobertor. Mãe fica aqui ao pé de mim. Mãe conta-me uma história. Levei a mão ao peito e senti tum tum tum tum. E um ardor nas costas. Nada. Mãe dorme aqui comigo. Porque eu tenho medo.

Depois abri os olhos e a mãe já não estava ali. Mas eu ouvia-a na cozinha. Os tachos toc toc toc. Agora eram os tachos. Não era aquilo. Porque agora eu achava que aquilo nunca tinha existido. Mãe. "O que foi querido". Nada. E senti-me mergulhado num calor tão bom. O Sol do fim da tarde. Através da cortina listada. Laranja. Ou vermelho. Porque eu achava que tinha sido um sonho mau e feio. Porque eu estava vivo. Deitado na cama de onde nunca tinha saído. E a moldura lá em cima. Fechada. Empoeirada. Mas ela antes nunca. Nada. Chega. E dormi. Tanto.

Depois abri os olhos e era noite. Tentei levantar-me. Colado à cama. As costas. Dor dor dor. Em cima. Na omoplata. Na esquerda. Com cuidado descolei as costas da cama. Levei a mão devagar. Devagarinho. Sobre o ombro esquerdo. Depois fui descendo os dedos. Percorrendo a omoplata. Em círculos. Até encontrar. Eu já sabia. Porque já tinha sentido a cama húmida. E já tinha passado a mão. E era viscoso. Mas se tinha sido um sonho. O sangue dos sonhos não é a sério. Mas. E agora isto. Este buraco. Na omoplata. Na esquerda. Um prego dobrado. E lancei os olhos ao tecto. E percebi porque é que no meu sonho não tinha conseguido entrar à primeira. Preso. Mas se tinha sido um sonho. E depois foi como se me arrancassem o estômago. E abri a boca para gritar mãe. Mas não saiu nada.

Uns pontos brilhantes no ar. Ali. Do outro lado da cortina que servia de porta. E duas bolas grandes grandes como faróis. Empurrando devagarinho a cortina. E eu abri a boca e não saiu grito nenhum.

E agora eu já não abro a boca. Quando vejo os pontos brilhantes aos pés da minha cama. Porque eu já sei. Não vai sair nada. Porque emudeço de terror. Não por causa daquilo. Por aquilo que aquilo me lembra. A minha morte. E de como eu via tudo. E de como a minha morte não era um fim. E de como vai ser. E de como vou ficar agarrado à visão do meu corpo. E de como não vou ter paz. E de como não vale a pena viver. Mas morrer também não. E de como.

Explicit.
Vellem.

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et uidi spatium immensum horti et in medio sedentem hominem canum in habitu pastoris grandem oues mulgentem et circumstantes candidati milia multa et leuauit caput et aspexit me et dixit mihi bene uenisti tegnon et clamauit me et de caseo quod mulgebat dedit mihi quasi buccellam et ego accepi iunctis manibus et manducaui et uniuersi circumstantes dixerunt amen et ad sonum uocis experrecta sum conmanducans adhuc dulce nescio quid et retuli statim fratri meo et intelleximus passionem esse futuram et coepimus nullam iam spem in saeculo habere

15.8.07

Aquilo que não se pode contar . 20 . A mão

[Bosch - Adoração dos Magos (pormenor do painel central)]

E porque sabia que tinha sido condenada às feras, admirava-me de que não me lançassem as feras. E surgiu diante de mim um egípcio de aspecto hediondo, com os seus ajudantes, para lutar comigo. Vieram também até mim uns jovens formosos, ajudantes e meus apoiantes. E despiram-me e tornei-me homem. E começaram os meus ajudantes a esfregar-me com azeite, como é costume na luta. E vejo defronte o egípcio rolando no pó.

Paixão de Perpétua e Felicidade, X, 5-7 (séc. III)

Os meus olhos fugiram para o fundo do sótão. Ali onde o pó era mais denso e a luz morre antes de pousar. E o toc toc e o cheiro acre espesso. Cheiro a cor de laranja. Era aquilo. Estava ali. Primeiro pensei que fosse um engano de pó e de sombra. Uma mancha difusa escura mais escura do que do resto. Do que as nuvens de pó. Portanto não era uma nuvem de pó. Não era um engano. Então o que era aquilo. Dois olhos. Não sei se eram olhos. Duas bolas escuras e baças fixadas em mim. Como é que eu podia saber. Não sei. Que estavam fixadas em mim. Mas estavam. Assim do tamanho dos faróis de um carro. Rolaram no ar até chegarem a mim. E eu tive tanto medo. Porque eu senti. Eu estava morto. Mas senti. E aquele calor medonho espinha acima. Que estar morto não era o pior que me podia acontecer.

Era uma sombra escura espessa do meu tamanho. Pequenina. Com duas bolas enormes postas em mim no lugar dos olhos. E eu não podia estender a mão e tocar-lhe. Porque o meu corpo morto já não me obedecia. Por fim sentia-me morto a sério. Que até ali eu era um morto vivo. Sentia o meu corpo. Levava a mão ao peito e não havia tum tum tum tum. Mas eu mandava na minha mão. Estava morto mas estava vivo. Não respirava. Mas o resto estava lá. Pensava tinha medo frio angústia coragem calor. Só não tinha dor. Embora então ainda não o soubesse. Depois. Agora eu estava de facto morto. Porque o corpo já não era meu. E eu olhava-me fora de mim. Como contam aqueles textos medievais. Baronto. Túndalo. Tantos outros. Homens quase mortos levados a ver o Além. E depois voltavam aos seus corpos para contar as penas do Inferno e as delícias do Paraíso. Ou ao contrário.

Depois as bolas caíram no chão e fizeram toc toc toc. E o meu corpo tombou e as bolas em cima dele. E eu senti um frio medonho na alma. Mão gelada dentro de mim.

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et quia sciebam me ad bestias damnatam esse mirabar quod non mitterentur mihi bestiae et exiuit quidam contra me aegyptius foedus specie cum adiutoribus suis pugnaturus mecum ueniunt et ad me adolescentes decori adiutores et fautores mei et expoliata sum et facta sum masculus et coeperunt me fauisores mei oleo defricare quomodo solent in agone et illum contra aegyptium uideo in afa uolutantem

10.8.07

Aquilo que não se pode contar . 16 . Êxodo

[Bosch - Cristo carregando a cruz]

Subiu primeiro Saturo, que por nossa causa e por sua iniciativa já se entregara, uma vez que ele próprio nos tinha instruído, e portanto não estava presente quando fomos presos. E chegou ao cimo da escada, e voltou-se e disse-me: - Perpétua, estou à tua espera. Mas tem cuidado, não vá essa serpente morder-te.
(*)
Paixão de Perpétua e Felicidade, IV, 5 (séc. III)


Já cá estou. Ou lá. Porque eu já não sei onde estou. Porque às vezes parece que fiquei lá. Ou cá. E não sei onde queria estar. Se cá. Porque para saber onde queria estar tenho de saber onde estou. Se lá.

Eu não sei quem sou. Se o morto deitado na cama. Se o morto sentado balançando as pernas do lado de lá da moldura. Ou de cá.

Vou contar como foi.

Um pontapé no escadote. Mas eu não. Não fui eu. Senti fazer força força força. Mas não era eu. E depois o escadote caiu em cima de mim. Em cima do eu morto deitado na cama. Não me doeu. Porque eu estava ali em cima pendurado na moldura. E o eu que pensava e sentia era eu. O eu que estava morto em cima da cama não sei. Se calhar pensava e sentia. Mas eu não sentia por ele. E portanto era como se não sentisse. Como se não fosse eu. Mesmo sendo eu.

Força força força impulso. Ah. Já está. Eu não sabia que tinha esta força. Ou não tinha. Porque eu não me lembro de ter dito aos braços força força força. E eu era tão pequenino. Mas sei que estava pendurado as pernas balançando para aqui para ali e depois dei balanço e já está. Como se me tivessem puxado. Ou como quando me sentava no baloiço e ia para a frente e para trás e para a frente e para trás e sabia que não era eu que. Era a mãe. Eu só dava balanço. Não fui eu. Foi alguém. Alguma coisa.

E aquilo que me tinha prendido agora já não estava lá. Agora estava. Agora não. Tenho medo. Porque enquanto conto penso escrevo estas coisas. Às vezes parece-me sentir outra vez aquele rio de sangue negro descendo-me as costas caindo viscoso gota a gota.

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(*) ascendit autem Saturus prior qui postea se propter nos ultro tradiderat quia ipse nos aedificauerat et tunc cum adducti sumus praesens non fuerat et peruenit in caput scalae et conuertit se et dixit mihi Perpetua sustineo te sed uide ne te mordeat draco ille

4.8.07

Aquilo que não se pode contar . 14 . A escada

[Bosch - Carro de feno (painel direito)]

Vejo uma escada de bronze, de tamanho espantoso, chegando até ao céu, e estreita, a qual só podia subir um de cada vez, e dos lados da escada estava posta toda a sorte de ferros cortantes: ali havia espadas, lanças, ganchos, cutelos, dardos, de modo que se alguém subisse sem cuidado ou não olhando para cima, seria dilacerado, e as suas carnes ficariam agarradas aos ferros. E havia debaixo dessa escada uma serpente deitada, de tamanho espantoso, que armava ciladas aos que subiam, e os amedrontava, para não subirem.
(*)
Paixão de Perpétua e Felicidade, IV, 4 (séc. III)

Se isto é estar morto. Mãos no ferro gelado. Queima. Tira tira. Esta cama abana tanto. Caio assim que puser um pé num degrau. Não sou capaz. Tenho medo. Mesmo estando morto. Não é medo de cair. Porque ainda que estivesse vivo. E eu estou morto. Se caísse caía de costas na cama. E isso nunca matou ninguém. Menos ainda um morto. Não. O meu medo não é esse. O meu medo é um medo maior. Este escadote gelado que me queima as mãos. E eu não devia sentir. Eu estou morto. O meu coração não bate. O meu peito não sobe nem desce. Os meus dedos têm a cor da cera. E onde o ferro tocou estão brancos da cor do gelo. Ainda há pouco tão forte. E agora não consigo pôr estas mãos mortas neste escadote de ferro gelado. E subir e abrir aquela moldura medonha. E ver o que é. Se é.

Força. Estou morto. Não dói. Não pode doer. Mão no ferro. Já está já já já. Queima tanto. Tira não tira. Deixa ficar. Porque está tudo na minha cabeça. Um ferro gelado não pode queimar a mão de um morto. E se dói é porque não estou morto. E se o coração está parado e o peito não sobe nem desce. É porque estou morto. E se estou morto nada de mal me pode acontecer. Porque o pior que me podia acontecer era morrer. E eu já morri. Mas isto não foi o pior que já me. Não. Isto é bom. Bonum est me hic esse. Eu não sabia latim quando. Não interessa. Então se isto não é o pior que me podia acontecer.

Queima mais queima tanto mais. Mas eu sou forte. E já estou a meio caminho entre a moldura medonha e a cama. A cama. Deito-lhe os olhos e morro outra vez. Porque na cama estou eu deitado de olhos abertos e boca torta e mão crispada no peito. Mas eu estou no escadote. E estou na cama. Então quem sou eu que subo o escadote. E quem sou eu deitado na cama. Tão pequeno tão fraco. Nunca me tinha visto. Porque num espelho não é a mesma coisa. E agora ali. Tão branco tão morto. Aqueles olhos baços pregados em mim. O que isto. Quem sou eu. Porque se eu estou a pensar e a ter medo. Então eu sou eu. Este que sobe o escadote. E aquele na cama sou eu morto. É que era eu que estava ali. Deitado olhos postos na moldura medonha a ouvir o zumbido rido. E depois levei a mão ao peito e não havia tum tum tum tum. Então eu aqui no escadote não sou eu. Eu sou aquele na cama. Então este que tem as mãos queimadas pelo ferro gelado. Que foi isto. toc toc toc. Voltou.

Deixei o morto deitado na cama e lancei os olhos à moldura medonha. Porque isto é mais forte.
E eu tenho de saber o que está ali em cima. Só mais dois degraus. Abana abana mas não cai. E quando chegar lanço um braço. Ou os dois. E toco na moldura. E faço faço força e empurro. Já está.

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(*) uideo scalam aeream mirae magnitudinis pertingentem usque ad caelum et angustam per quam nonnisi singuli ascendere possent et in lateribus scalae omne genus ferramentorum infixum erant ibi gladii lanceae hami machaerae ueruta ut si quis neglegenter aut non sursum adtendens ascenderet laniaretur et carnes eius inhaererent ferramentis et erat sub ipsa scala draco cubans mirae magnitudinis qui ascendentibus insidias praestabat et exterrebat ne ascenderent

27.4.07

pudoris potius memor quam doloris

[Vermeer - Leiteira]

Projecto falhado de tradução da Passio Perpetuae et Felicitatis

Para as raparigas preparou o diabo uma ferocíssima vaca, aprestada de forma diferente do normal, correspondendo ao sexo delas o da besta. Assim foram despidas e apresentadas cobertas de redes finas. Horrorizou-se o povo, ao ver a delicada rapariga, e a outra com as mamas gotejantes, ainda de parto recente. Foram então trazidas, e vestidas com túnicas largas. Perpétua foi arremetida, e caiu de costas. E quando se sentou, puxou a túnica, rasgada de lado, para cobrir a perna, mais preocupada com o pudor do que com a dor. Depois, tendo pedido um gancho, apanhou os cabelos soltos - na verdade não era próprio uma mártir morrer de cabelos soltos, não fosse parecer prantear na hora da sua glória. Assim, levantou-se, e ao ver Felicidade caída, chegou-se a ela, estendeu-lhe uma mão, e levantou-a. E ambas se ficaram de pé. E vencida a dureza do povo, foram levadas até à porta Sanavivária. Ali, Perpétua foi amparada por um catecúmeno, de nome Rústico, que se encostava a ela, e como que desperta do sono (até então estivera em êxtase), começou a olhar à volta, e, para espanto geral, disse: "Quando é que vamos ser levadas a essa tal vaca?". E ao ouvir que isso já acontecera, não acreditou até ver marcas de violência no corpo e na roupa. Então, chamando o irmão e aquele catecúmeno, disse-lhes: "Permanecei firmes na Fé, e amai-vos todos uns aos outros, e não vos escandalizeis com a nossa paixão".

Paixão de Perpétua e Felicidade, XX

puellis autem ferocissimam uaccam ideoque praeter consuetudinem conparatam diabolus praeparauit sexui earum etiam de bestia aemulatus. itaque dispoliatae et reticulis indutae producebantur horruit populus alteram respiciens puellam delicatam alteram a partu recentem stillantibus mammis ita reuocatae et discinctis indutae prior perpetua iactata est et concidit in lumbos et ubi sedit tunicam a latere discissam ad uelamentum femoris reduxit pudoris potius memor quam doloris dehinc acu requisita et dispersos capillos infibulauit non enim decebat martyram sparsis capillis pati ne in sua gloria plangere uideretur ita surrexit et elisam Felicitatem cum uidisset accessit et manum ei tradidit et suscitauit illam et ambae pariter steterunt et populi duritia deuicta reuocatae sunt in portam sanauiuariam illic perpetua a quodam tunc catechumeno rustico nomine qui ei adhaerebat suscepta et quasi a somno expergita adeo in spiritu et in extasi fuerat circumspicere coepit et stupentibus omnibus ait quando inquit producimur ad uaccam illam nescioquam et cum audisset quod iam euenerat non prius credidit nisi quasdam notas uexationis in corpore et habitu suo recognouisset exinde accersitum fratrem suum et illum catechumenum adlocuta est dicens in fide state et inuicem omnes diligite et passionibus nostris ne scandalizemini

Passio Perpetuae et Felicitatis, XX