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18.4.13

"Tudo visto e pesado, prós e contras, vem vem já. Estou farto de viver sem ti, espero apenas que me digas o dia, e que seja o mais próximo possível. Espero-te com todo o amor do mundo."

António Lobo Antunes, D'este viver aqui neste papel descripto

31.3.13

Ils ne bougent pas



ESTRAGON - Didi.
VLADIMIR - Oui.
ESTRAGON - Je ne peux plus continuer comme ça.
VLADIMIR - On dit ça.
ESTRAGON - Si on se quittait? Ça ira peut-être mieux.
VLADIMIR - On se pendra demain. (Un temps.) A moins que Godot ne vienne.
ESTRAGON - Et s'il vient?
VLADIMIR - Nous serons sauvés.
     Vladimir enlève son chapeau - celui de Lucky - regarde dedans, y passe la main, le secoue, le remet.

ESTRAGON - Alors, on y va?
VLADIMIR - Relève ton pantalon.
ESTRAGON - Comment?
VLADIMIR - Relève ton pantalon.
ESTRAGON - Que j'enlève mon pantalon?
VLADIMIR - RE-lève ton pantalon.
ESTRAGON - C'est vrai.
     Il relève son pantalon. Silence.

VLADIMIR - Alors, on y va?
ESTRAGON - Alons-y.

     Ils ne bougent pas.

(Beckett, En attendant Godot)

8.2.10

A espera

obiit 2003.02.08

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner Andresen

16.6.09

Bloomsday . IV


Happy. Happier then. Snug little room that was with the red wallpaper, Dockrell’s, one and ninepence a dozen. Milly’s tubbing night. American soap I bought: elderflower. Cosy smell of her bathwater. Funny she looked soaped all over. Shapely too. Now photography. Poor papa’s daguerreotype atelier he told me of. Hereditary tast.

Ulysses. Bodley Head, 1966. Página 196.

12.4.09

raise the shade

[Sofonisba Anguissola - Bernardo Campi pintando S. Anguissola]

raise the shade
will youse dearie?

rain

wouldn’t that

get yer goat but

we don’t care do

we dearie we should

worry about the rain

huh

dearie?

yknow

i’m


sorry for awl the

poor girls that

gets up god

knows when every

day of their

lives

aint you,
...................................oo-oo...................dearie

not so
hard dear

you’re killing me


e. e. cummings

8.2.09

Deserto

obiit 2003.02.08

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

2.1.09

Como m'eu perdi por ti

[Dürer - Cavaleiro]


- Tu que tens, ó D. Fernando,
que andas tão triste na guerra?
Ou te morreu pai ou mãe,
ou gente da tua terra.

- Não me morreu pai, nem mãe,
nem gente da minha terra:
vou triste por minha amada,
deixei-a e vim prá guerra.

- Aparelha o teu cavalo,
sete anos ao pé dela;
ao cabo de sete anos,
soldado, volta da guerra.

- Tua amada já é morta,
é morta, eu bem a vi;
- Dá-me os sinais que levava,
para m'eu fitar em ti.

Levava saia de seda,
blusa de carmesim,
o cinto que a apertava
era ouro e marfim.

- Eu vendia o meu cavalo,
também me vendia a mim,
para mandar dizer missas,
tudo por alma de ti;

- Não vendas o teu cavalo
nem te vendas tu a ti:
quanto mais bem me fizeres
mais pena se mete em mim.

De três filhas que lá temos
leva-as para o pé de ti,
que se não percam por homens
como m'eu perdi por ti.

---

Canção tradicional
interpretada por At-Tambur

25.11.08

O encoberto

cartaz

«Morto buscava a Madalena a Cristo na sepultura, e a perseverança e amor com que insistiu em o buscar morto, foi causa de que o Senhor lhe enxugasse as lágrimas e se lhe mostrasse vivo. Grande exemplar temos entre mãos! Assim como a Madalena, cega de amor, chorava às portas da sepultura de Cristo, assim Portugal, sempre amante de seus reis, insistia ao sepulcro de el-rei D. Sebastião, chorando e suspirando por ele; e assim como a Madalena no mesmo tempo tinha a Cristo presente e vivo, e o via com seus olhos e lhe falava e não o conhecia, porque estava encoberto e disfarçado, assim Portugal tinha presente e vivo a el-rei nosso senhor, e o via e lhe falava e não conhecia. Porquê? - Não só porque estava, senão porque ele era o encoberto.»
Sermão dos Bons Anos, IV

30.10.08

Arabiya

Os poemas traduzidos do Árabe passam a ser publicados num novo blogue: Pausa sobre as ruínas - الوقوف على الأطلال

26.10.08

Sombra

[Bosch - Alegoria da Gula e da Luxúria]
الخان

في الخان المُجاور ـ
رأيت ظِلّي يشرب كأس نبيذ
..........
وأنا هنا ـ
يُداهِمُني السُكْر
تترنح كلماتي

a taberna

na taberna aqui ao lado
vi a minha sombra a beber um copo de vinho
..........
e eu aqui:
agarra-me a bebedeira
tremem-me as palavras

Hassan Najmi
(tradução minha a partir do original árabe)

19.10.08

Brecha

[Khaled as-Saa'i - Sem título]

ثغرة
تحفر إلى الأبد
لا أحد يملأ
لا أحد
كلما حاولت
أخفقت
أسقطت
دمعة

فاتحة مرشيد

uma brecha
abrindo-se para sempre
ninguém a enche
ninguém
e sempre que ela tenta
falha
deixa cair
uma lágrima
Fatiha Morchid
(tradução minha a partir do original árabe)
Obrigado à Nádia pela ajuda
nas dificuldades surgidas.

9.10.08

Amor marinho

[Avercamp - Pescadores ao luar]

في الحُبّ البحريّْ

أنا بَحْرُكِ، يا سَيِّدتي
فلا تسألين عن تفاصيل الرحلةْ
ووقْتِ الإقْلاع والوُصُولْ.
كلُّ ما هو مطلوبٌ منكِ
أن تنسَيْ غرائزَكِ البَرِيَّةْ
وتُطيعني قوانينَ البحرْ...
وتَخْترقيني كسمكةٍ مَجْنُونَةْ
تَشْطُرُ السفينةَ إلى نِصْفَينْ..
والأُفُقَ إلى نِصْفَيْنْ..
وحياتي إلى نِصْفيْنْ..

sobre o amor marinho

sou o teu mar, senhora minha,
e não me perguntes da viagem
nem do tempo da partida e da chegada:
só tens de
esquecer os impulsos da terra
e obedecer às leis do mar
e entrar-me como peixe enfurecido;
racha o navio em dois pedaços
e o horizonte em dois pedaços
e a minha vida em dois pedaços

Nizâr Qabbânî
(tradução minha a partir do original árabe)


fī l-ḥubbi l-baḥrīy

'anā baḥruki, yā sayyadatī
fa-lā tas'alīna ʿan tafāṣīli r-riḥla
wa-waqti l-'iqlāʿi wa-l-wuṣūl.
kulla mā huwa maṭlūbun minki
'an tansay ġarā'izaki l-barīya
wa-tuṭīʿnī qawānīna l-baḥr...
wa-taḫtariqīnī ka-samakatin majnūna
tašṭuru s-safīnata 'ilā niṣfain..
wa-l-'ufuqa 'ilā niṣfain..
wa-ḥayātī 'ilā niṣfain..

4.10.08

Mãos

[Largillière - Estudo de mãos]
حَديثُ يَدَيْها

قليلاً من الصَمْتِ ..
يا جَاهِلَةْ ..
فأجملُ من كُلِّ هذا الحديثْ
حَديثُ يَدَيْكِ
على الطَاوِلَةْ ..نزار قباني
a fala das mãos dela

um pouco de silêncio,
impetuosa,
que a mais bela fala
é a fala das tuas mãos
sobre a mesa

Nizâr Qabbânî
(tradução minha a partir do original árabe)

ḥadīṯu yadayhā
qalīlan mina ṣ-ṣamti
yā jāhila
fa-'ajmalu min kulli hāḏā l-ḥadīṯ
ḥadīṯu yadayki
ʿalā ṭ-ṭāwila

25.9.08

Peixe

[Jean-Jacques Grandville - Peixes pescando pessoas]

كَمْ تُشْبهِنَ السَمَكةْ
سريعِةٌ في الحُبِّ.. مثلَ السَمَكَةْ
جَبَانَةٌ في الحبِّ.. مثلَ السَمَكَةْ
قَتَلتِ ألفَ امْرَأةٍ في داخلي
وصِرْتِ أنتِ المَلِكَةْ
نزار قباني

como pareces um peixe
veloz no amor como um peixe
cobarde no amor como um peixe
mataste-me mil mulheres dentro de mim
e tornaste-te tu rainha
Nizâr Qabbânî
(tradução minha a partir do original árabe)

22.9.08

Coelho


[Trabalho sobre caligrafia árabe, de Samîr Malik]
آهِ.. لو تتحرَّينَ يوما
من غَريزة الأَرَانِبْ..
وتَعْرِفينْ،
أننّي لستُ صيَّادَكِ..
لَكنَّني حبيبُكِ...
نزار قباني

ai se um dia te libertasses
da natureza medrosa dos coelhos
e soubesses
que eu não sou o teu caçador
que eu sou o teu amor
Nizâr Qabbânî
(tradução minha a partir do original árabe)


Obrigado à Nádia pela ajuda
nas dificuldades surgidas.



ʼāhi.. law tatḥarrīna yawman
min ġarīzati l-ʼarānib...
wa-taʿrifīn,
ʼnannī lastu ṣayyādaki..
lakinannī ḥabībuki...

21.9.08

Issa

[Fragonard - Mulher brincando com cão]

Issa é mais malandra que o pardal do Catulo.
Issa é mais pura que o beijinho de uma pomba.
Issa é mais fofinha que todas as miúdas.
Issa é mais preciosa que as gemas da Índia.
Issa é a cadelinha mais-que-tudo do Públio.
Se geme, cuidarias que fala.
Sente a tristeza e a alegria.
Deita-se tombada no seu pescoço e adormece,
de tal maneira que nem um suspiro lhe ouves.
E, obrigada pelas exigências do ventre,
gota nenhuma ofende os lençóis,
mas com branda patinha o acorda e lhe recomenda
que a tire da cama e pede que a levante.
Tanto pudor se acha na casta cadelinha!
Ignora Vénus, e não achamos
digno marido de tão terna menina.
Não lha leve por completo a morte derradeira,
pinta-a Públio numa quadro,
no qual verás tão parecida Issa
que nem ela é tão parecida consigo mesma!
Põe, pois, Issa ao lado do quadro:
ou ambas julgarás verdadeiras,
ou ambas julgarás pintadas!

Marcial, I. 109

Issa est passere nequior Catulli,
Issa est purior osculo columbae
Issa est blandior omnibus puellis
Issa est carior Indicis lapillis
Issa est deliciae catella Publi
hanc tu, si queritur loqui putabis
sentit tristitiamque gaudiumque
collo nixa cubat capitque somnos
ut suspiria nulla sentiantur
et desiderio coacta uentris
gutta pallia non fefellit ulla
sed blando pede suscitat toroque
deponi monet et rogat leuari
castae tantus inest pudor catellae,
ignorat Venerem nec inuenimus
dignum tam tenera uirum puella
hanc ne lux rapiat suprema totam
picta Publius exprimit tabella
in qua tam similem uidebis Issam
ut sit tam similis sibi nec ipsa
Issam denique pone cum tabella
aut utramque putabis esse ueram,
aut utramque putabis esse pictam

19.9.08

Ainda

[Trabalho sobre caligrafia árabe, de Samîr Malik]

مازلْتِ يا مُسَافِرَةْ
مازلْتِ بعدَ السَنَةِ العَاشِرَةْ
مَزْرُوعةً.. كالرُمْح في الخَاصِرَةْ
نزار قباني
ainda, viajante,
ainda, dez anos depois,
és dardo cravado no meu flanco
Nizâr Qabbânî
(tradução minha a partir do original árabe)

mazlati yâ musâfira
mazlati s-sanati l-ʿâšira
mazrûʿatan ka-r-rumh fî l-ḫâṣira

Maldito

[Bruegel o Velho - A morte da Virgem]

«há uma maturidade muito grande na morte, pensava a maria da graça. uma sabedoria qualquer que nos acode. sentiu-se muito calma tão rente à felicidade e compreendeu que era só o que queria. nem lhe importava absolutamente que existisse deus e ele a julgasse também para uma vida além do corpo. era só importante que pusesse um fim ao quotidiano cansativo que vivia e a morte estava diante de si como um passo apenas em determinada direcção. depois disto, pensava também, não estarei em lugar nenhum. e até o querer que exista o maldito, em alguma nuvem à minha espera, vai deixar de fazer sentido no momento em que eu própria desapareça de todo e não puder pensar nisso nem no contrário.»
valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores

18.9.08

Respirar

[Gian Lorenzo Bernini - Auto-retrato em jovem]

«Não sei porquê - noto-o subitamente - estou sozinho no escritório. Já, indefinidamente, o pressentira. Havia em qualquer aspecto da minha consciência de mim uma amplitude de alívio, um respirar mais fundo de pulmões diversos.»
Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

13.9.08

As moscas

[Trabalho sobre caligrafia árabe, de Samîr Malik]

(Um poema de Mahmûd Darwîsh traduzido do árabe por mim. Não é o meu preferido. É o que consigo traduzir.)


salmo 3

no dia em que as minhas palavras foram
terra
fui amigo de espigas de trigo

no dia em que as minhas palavras foram
fúria
fui amigo de grilhões

no dia em que as minhas palavras foram
pedra
fui amigo de arroios

no dia em que as minhas palavras foram
revolta
fui amigo de terramotos

no dia em que as minhas palavras foram
cabaças azedas
fui amigo do optimisma

quando as minhas palavras se tornaram
mel
as moscas cobriram-me
os lábios

Mahmûd Darwîsh