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1.6.08

Nunc dimittis

[Caravaggio - O chamamento de São Mateus]

nunc dimittis seruum tuum domine secundum uerbum tuum in pace
Lc 2:29

Via-te em sonhos agora vejo-te em ruas pisadas de um tédio desesperado. Não é figura de. Não. Vejo-te mesmo. Os olhos brilhantes a barba dura de dois dias o andar gingão. E eu sei que és tu porque tu páras e deitas-me um sorriso perdido. Como quando me sentava ao teu lado na cama e te olhava e te via nos olhos o medo a comer-te as entranhas. Depois desistias. O corpo caído na cama fechavas os olhos para eu não te ver. Às vezes escorriam-te da boca sussurros roucos que eu não entendia. Depois viras a cara e então já não és tu. É outro. Tão diferente. Por isso eu sei que és tu. Não é uma miragem. És tu. E sabes. Nesses momentos em que me deitas o teu sorriso perdido. E te vejo de novo nos olhos a dor que te. A sério. Já não estou cá.

16.8.07

Aquilo que não se pode contar . 21 . Nunc dimittis


[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor do painel central)]

νῦν ἀπολύεις τὸν δοῦλόν σου δέσποτα κατὰ τὸ ῥῆμά σου ἐν εἰρήνῃ
nunc dimittis seruum tuum domine secundum uerbum tuum in pace
الآنَ تُطْلِقُ عَبْدَكَ يَا سَيِّدُ حَسَبَ قَوْلِكَ بِسَلاَم
Lc 2:29

Eu morri ali. Enquanto a mão gelada me entrava na alma e me sugava o corpo. Porque até ali só o meu corpo estava morto. A alma vivia. Porque eu tinha medo e força e tristeza e dor e alegria e espanto e. E agora não tinha nada. Só medo. Tanto.

Toc toc toc. Dois olhos. Duas bolas grandes grandes como faróis saltando em cima do meu peito. E uma sombra espessa. E uns pontos brilhantes. Que a princípio pensei serem reflexos de luz no pó. Ainda antes de o ver. Mas não. O pó não brilha. Era aquilo. E eu não sei se. Porque nada me garante que. Aquela mão gelada. Que eu não via. Mas sentia. De quem era. Daquilo. Ou não. E se. Mas veio com ele. Com aquilo. E eu não sei se. Eu só queria que isto acabasse. De vez.

Depois os olhos afastaram-se devagarinho. E os pontos brilhantes apagaram-se. Enquanto o meu coração retomava o seu tum tum tum tum eu deixava de me ver de fora. Agora estava dentro de mim outra vez. Como agora. E o meu coração tum tum tum tum. E o meu peito subia e descia e os meus dedos ganharam cor. E olhei pela moldura e já não estava em cima da cama o meu corpo morto. E a mão gelada. Ficou cá dentro de mim.

Mas eu. Eu morri ali. E agora eu estou morto. Porque isto não é viver. Porque eu sei que. Porque aquilo me roubou tudo. E só deixou medo e terror e paranóia e loucura. E medo. E terror. E paranóia. E loucura. Mas isso não foi o pior. O pior foi que eu vi senti o que é estar morto. E eu queria que morrer fosse acabar tudo. Fechar os olhos e adeus. Mas não. Morrer é estar vivo. Com a certeza de não morrer mais. E a ver-me o corpo morto. Porque eu vi-me ali deitado na cama. A pele de cera e a boca torta e os olhos baços abertos. E se o meu coração não tivesse voltado tum tum tum tum e o meu peito a subir e a descer. O que teria eu visto. O horror e as lágrimas na cara da minha mãe. E o caixão e o funeral. E eu dentro do caixão a ver-me de cima. E depois as carnes desfeitas e os líquidos e os cheiros. E depois ficar assim parado a olhar até.

Até quando. Porque não é daquilo que eu tenho medo.

21.4.07

Parate uiam Domini

[Bosch - São João Baptista]

Ἑτοιμάσατε τὴν ὁδὸν κυρίου, εὐθείας ποιεῖτε τὰς τρίβους αὐτοῦ
Lc 3, 4

O caminho. O gelo. E aquele ronronar das rodas esfregando os carris. Via a vida escapar-me pelos olhos. Enquanto os lançava contra o céu negro rasgado de branco. Nunca vira a Via. A Láctea. Tão branca. Os dedos dormentes. E aqueles pontinhos brilhantes. Furando-me a alma. E virava o pescoço e tirava a cabeça da janela e a imagem que me chegava à mente ainda era a da Via. A Láctea. Porque já não via nada. Negro. A escuridão pastosa. E havia aquele silêncio que me gelava o corpo. Louco. O silêncio. Cortado de branco. Enrolado no casaco gelado. E depois deixei de ver. E morri.

Rectas facite semitas eius. Abri os olhos. Novo. O céu cinzento negro pesado. Se calhar chovia. Havia humidade no ar. E a branca bola distante. Forçando o chumbo celeste. Casaco gelado lançado ao chão. Tanto frio. Sempre o ronronar. Dos carris acariciados. O vento forte entrando pelas frinchas. E depois acordei. Para a vida nova.