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14.6.08

Je remercie ton corps



gracias a tu cuerpo doy
por haberme esperado
tuve que perderme pa'
llegar hasta tu lado

gracias a tus brazos doy
por haberme alcanzado
tuve que alejarme pa'
llegar hasta tu lado

gracias a tus manos doy
por haberme aguantado
tuve que quemarme pa'
llegar hasta tu lado

11.6.07

Llegar hasta tu lado

[Bosch - São Jerónimo em oração (pormenor)]

gracias a tus brazos doy
por haberme alcanzado

(cantado por Lhasa de Sela)

Cheira a algas e a peixe e a maresia. A maresia forte. Porque o cheiro a maresia não tem tantas algas não tem tantos peixes. E eu não sei se é cheiro. Se é o mar que me abraça. Um dia fiquei a ver o mar. Mas agora é o mar que. E o vento fresco. Não sei. Ainda não sei. Porque daqui a pouco. As gaivotas calar-se-ão. E o vento sossegará. Pectus tantum meum audies.

A tarde cai para dentro do mar e eu deito os olhos no cerúleo. À procura não sei de quê. Ainda. Porque daqui a pouco. Daqui a pouco saberei. É que tive de me perder. Para te me encontrar.

1.6.07

Je t'ai cru

[Martinus Rørbye - Vista da janela do artista]

que tu nunca mereciste
lo que tanto quise dar

(cantado por Lhasa de Sela)

Tu n'étais pas prêt. Tu pensais toujours à lui. Tu ne voulais personne. Je t'ai cru. Ça m'a brisé le coeur. Ça m'a détruit. Pourtant je t'ai cru. Parce que je t'aimais. Parce que quelques heures avant tu disais que tu m'aimais. Et maintenant. Je ne demande pas que tu m'aimes. Je ne demande pas que tu reviennes. Je ne demande même pas que. Ce nest pas pour ça que je pleure. Ce n'est pas parce que je te vois prêt a te lancer dans les bras d'un autre. Non, ce n'est pas ça. Au contraire. Je te veux heureux. Non. Ce n'est pas ça ce qui me dilacère le coeur et l'âme. Ce qui me fait mal, ce qui me fait vraiment mal, c'est que je vois enfin que ton histoire était toute fausse. Que tu m'as quitté parce que tu en avais marre. C'est tout. Il fallait me l'avoir dit dès le début. Il ne fallait pas t'inventer des histoires. Je m'en doutais déjà. J'en était presque sûr. Dès le premier jour. Mais maintenant je le sais. Que tu sois heureux, c'est tout ce que veux. Mais je t'en prie. Ce que tu m'as fait, ne le fais plus a personne. Ça fait mal. Trop. Adieu.

28.5.07

Epistolário XIII

[British Library, Royal MS 12 C. xix, Fólio 49v: a Fénix]

he venido a ese centro
de la nada pa' gritar
que tu nunca mereciste

lo que tanto quise dar
(cantado por Lhasa de Sela)


André ao seu querido Ρ.Α.

Leio e releio a tua última carta. No meu frasco negro de ferro não tenciono levar mais do que as minhas cinzas e algum pólen e alguma semente perdida. O remorso e a culpa e a mágoa e o medo e o amor. E a dor. Não me assombrarão. Não os levo comigo. Ficam nestas terras. Para se lançarem sobre quem descuidado passe perto. Enquanto não, devoram-me as entranhas. E tornam-me tão pesada a vida. Tão tão. Que às vezes. Tu sabes. Tu sempre soubeste. E olhavas para mim e dizias não não por favor não. E eu não. Porque tu estavas. Porque tu eras. Levantado do chão. Tinhas tanta força. Sabes que hoje levantei trinta e dois quilos. Sim. Trinta e dois. Mas tu eras mais forte. Estendias-me o braço e eu agarrava-te e. Agora não estás nem és.

Não escrevas mais que te fugi. Não escrevas mais que não te dei tempo. Não escrevas mais que te troquei. Não escrevas mais que te deixei. Não escrevas mais que te abandonei. Não escrevas mais que. Não escrevas. Porque eu não esqueci. Porque me dói tanto. Porque se eu pudesse voltar no tempo. Porque se eu não fosse tão estúpido. Porque me dói tanto tanto. Porque eu estou. Porque eu sou. Ainda. E assombram-me os dias e sufocam-me as noites. E não vejo porta de saída senão. Rodar devagarinho a maçaneta. Tão devagarinho. Até lá agarro-me a ti morto. Porque morto me dás mais do que os vivos. Porque tu não me desiludes. Porque tu nunca me foste inconstante. Nunca me negaste num dia aquilo que dizias no anterior. Nunca me disseste num dia aquilo que negavas no anterior. Nunca inventaste histórias para justificares as tuas decisões mais difíceis. Sempre disseste claramente. Tudo. E por isso nunca me magoaste. Nunca me magoarás. Porque tu. Por isso me agarro a ti morto e me deito lançado desesperado na tua sepultura.

Voltarei. Mais forte do que nunca. Mas antes vou passar pelo fogo. E deixar nestas terras o que me mata me come por dentro. E um dia voltarei. Com tanta força. E então levantarei muito mais do que trinta e dois quilos. Já viste. Trinta e dois quilos.

A cada dia mais me apetece não estar não ser não ver. Si un día me voy e ya no vuelvo yo. Ayer te tuve en mis brazos y hoy, como un grano de arena, estás escondido de mi. Lhasa.

Adoro-te.

24.5.07

A black iron pot

[Bosch - Tentação de Santo Antão (pormenor do painel central]

all my veins and bones
will be burned to dust
you can throw me into
a black iron pot
and my dust will tell
what my flesh would not
(cantado por Lhasa de Sela)

Puluis sum et in puluerem reuertar. Não. Não pó. Cinza. E não tem de ser into a black iron pot. Pode ser num frasco de vidro daqueles grandes. Porque eu tenho muito para queimar. Depois chocalha-o bem bem para teres a certeza de que estou morto. E para me ouvires uma última vez. Vês. Sou eu. Sempre funda a minha voz. E calma. Aterciopelada, me decían. Ouves. Ouve. Terei ainda tanto para dizer. Por isso chocalha o frasco. Se ainda me quiseres ouvir. Chocalha. Mas com cuidado não vá a tampa saltar. Fecha-o bem bem fechado. Para eu não voltar a sair. E me molde de novo nas cinzas molhadas de sal. Depois aperta-o no peito. Vai até àquela árvore. Sim. Essa. Abre um buraco fundo fundo fundo. Terá de ser de noite. Não tens medo pois não. Porque de dia não te deixariam. Fundo fundo. Para não me desenterrarem por acaso. Depois abre o frasco dentro do buraco e despeja a cinza e cobre tudo com terra muita terra. Porque assim se um dia por acaso me desenterrarem. Se um dia. Já não me voltarão a encontrar. Misturado na terra. Pó e cinza. Se tiveres medo abre o frasco e despeja-me na sanita. Hombre me da igual.

23.5.07

Epistolário X

[Chagall - Les amants sur le toit]


(cantado por Lhasa de Sela)

Ρ.Α. ao seu André

O meu calor e o meu cheiro. E assim dito e escrito parece que sou animal só corpo só carne. Quando só osso. E pó. Dito e escrito assim parece-me que só o meu corpo te. Parece. Mas eu sei que não. Porque isso sente-se. Lê-se-te nos olhos. E tu não és corpo. Nem era isso que via em ti. Tu sabes. Porque não é o corpo que te vale. E não era o teu corpo que eu. Não não. A cada carta mais pareço tu. Não te escrevia assim eu. E tu vais fantasiando. Não demasiado. Porque é quase tudo. Tu sabes. Eu sei. E tu não eras corpo. Então era o quê. Eram os teus olhos de aço. Tão frios impenetráveis. E eu sabia quando tu tremias. Porque tu tremes quando. E só quem passou por isto. Eu sei o que queres dizer. Só quem conhece o sabe reconhecer quando lhe passa à frente. Tu não soubeste. Não. Soubeste. Demasiado tarde. E agora que o reconheces de novo não em mim mas noutro lado. Agora vejo-te de porta fechada e chave na fechadura pronta a fechá-la de vez. Já sei que tens um prazo. Ontem ouvi-te dizê-lo. E que faltam poucos dias. E que tens uma data. Também tens direito. E que depois tudo estará definido. Que a espera termina. E viras as costas à praia. Quantos dias. Ah já sei. Não digas.

Fico contente. Não me interpretes mal. Não fico contente de te ver sofrer desta maneira cruel. Mas quando te fechares eu fico sozinho no teu coração. Não sim sim sim eu sei quais são os teus planos. Mas ouve. Eu sei que vou acabar sozinho no teu coração. Se não for agora será depois. Posição cómoda. Ficar com o fácil da relação. Tão bonito. E o resto adeus. Porque dá trabalho e eu não. Não. Não sou eu. Tu sabes. E eu sei. Tu já passaste por isto. Eu avisei-te. Mas eu sei que tu não deixas de sonhar. Que ainda aspiras o ar do teu quarto e sentes o cheiro que lá ficou e não sai. E eu sei coisas que tu não sabes. Eu sei que te viras na cama durante o sono e estendes os braços para o aninhares. Na tua protecção. E ficas de braços vazios porque já não está lá. Nem estará. Mete isso na cabeça de vez. Miser, misercule, desinas ineptire. Como o outro. E se não está nem estará o que esperas tu. Nunca esteve. Que esperas tu. Eu sei. Tu já decidiste. Já te vejo de cabeça tão erguida. Tão limpa. Não te arrependas. Porque já te vi chorar tanto. E não te ponhas com a alma triste até à morte. Porque aparecerá quem. Tu sabes. Há tanta gente a ler-nos. E se agora te parece tudo tão triste. Não te ponhas assim. Há quem precise de ti. Tu sabes. E expulsa da cabeça quem não precisa de ti. Porque quem não precisa de ti. Sim.


Não precisas de dizer que gostas de mim. Não o digas. Não to quero ouvir. Porque eu sei que sim. Não tens de mo lembrar todos os dias. Nunca to pedi. Porque eu também nunca te pedi nada. Só que estivesses ao meu lado quando eu precisasse de ti. Nem eu nunca te disse que gostava de ti. Disse. Disse que me fazias tão feliz. Mas isso não é dizer que gosto de ti. Não é preciso. Há coisas que se lêem nos olhos. Até nos mais duros. E tu sabes ler os olhos. E eu sei que é isso que te dói. E que então te doía. E que estás farto de ler nos olhos e depois. Acabas sempre sozinho. Mas tu sabes. Je n’ai pas peur de dire que tu me fais peur avec ton espoir et ton grand sens de l’honneur. Canta essa Lhasa. É verdade. Metes-me medo. Tão seguro por detrás dessa timidez e dessa tristeza. Tão forte. Sim sim sim eu sei que tu agora levantas vinte e oito quilos repetidamente. Mas tu sabes. Não é disso que estou a falar.

Entre toi et le diable j'ai choisi le plus confortable. Não negarei. E eu sei que também é isso que te dói. C'est que entre toi et le diable on choisit toujours le plus confortable. Talvez seja tempo de passares a ser confortável. Porque claramente o problema é teu. Porque ninguém atura um tipo como tu. Só eu. E tu sabes. Tu cansas. Tantas leituras. Tu não existes. Tu não és normal. Olha à tua volta. Desconfortável. És. E tu sabes. E tens de escolher. Porque assim não. Não tenhas a tentação de pensar que és melhor do que os outros. Não és. És desconfortável. Sozinho. Tu sabes. Para quê ainda.

You love a man who's afraid of you. Larga. Deixa. Deixa. Foge do deserto. Dos espinhos. Foge. Deixa. Porque tu também tens o direito. De fugir. De escolher o mais confortável. Não virei mais vez nenhuma dizer-to. Tu já sabes. E eu fico contente. É o primeiro passo para ficar sozinho no teu coração. Porque só eu suporto o teu desconforto. Porque eu já não sou. E por isso já não tenho conforto. Nem desconforto. E tu sabes que eu nunca tive medo de nada. Nem de ti.

Adoro-te
Ρ.Α.

22.5.07

Facilis difficilis

[Duccio - Aparição através de porta trancada]

je n’ai pas peur de dire que je t’ai trahi
par pure paresse par pure mélancolie
qu’entre toi et le diable
j’ai choisi le plus confortable
mais tout cela n’est pas pourquoi
je me sens coupable
mon cher ami

je n’ai pas peur de dire que tu me fais peur
avec ton espoir et ton grand sens de l’honneur
tu me donnes envie de tout détruire
de t’arracher le beau sourire
et même ça n’est pas pourquoi
je me sens coupable
c’est ça le pire

je me sens coupable parce que j’ai l’habitude
c’est la seule chose que je peux faire
avec une certaine certitude
c’est rassurant de penser
que je suis sûre de ne pas me tromper
quand il s’agit de la question
de ma grande culpabilité

je n’ai pas peur de dire que j’ai triché
j’ai mis le plus pur de mes pensées sur le marché
j’ai envie de laisser tomber
toute cette idée de vérité
je garderais
pour me guider
plaisir et culpabilité

(cantado por Lhasa de Sela)



Range lenta pesada. Ou é a força que me falta. Que me trai. Mas ainda hoje levantei vinte e oito quilos repetidamente. Vinte e oito. Um terço do meu peso. Mais. Custa tanto. Vai rangendo range range. Porque eu não quero mas tem de ser. E eu sou forte. Não escolho o fácil. Que esse é o caminho dos. Frágil. Traído. E por isso range range vai rangendo rangida. Relógio avança tic tic tic tic. Está quase lá. E quando o ponteiro bater no outro ponteiro. Então tudo se resolve. E os fracos. Quatro dias. E depois. Tant pis pour. Toada. Suave.

13.5.07

Epistolário II

[Evelyn Williams - Icarus]

porque el alma prende fuego cuando deja de amar
(cantado por Lhasa de Sela)

Π.Σ. a André

André? Ainda aí estás? Não te vejo há tanto tempo. Não não: não sou eu que estou a escrever, és tu. Mas é como se fosse eu. Porque os anos vão passando. E francamente não sei se ainda aqui estou. Seria irónico. Deixei de dar notícias. Quererá dizer que. Não sei. Não sabes. Não interessa. E depois. Lembras-te de quando nos conhecemos. Tu estavas de cama a recuperar de um acidente. Ah não consigo deixar de me rir. Não de ti. De mim. Quase não falava português. E tu olhavas-me e pensavas quem é este par de olhos azuis e estes cabelos louros quase brancos. Eu sei que era isso que primeiro chamava a atenção em mim. E tu reparaste. Em Portugal não há gente loura. Não. Há. Mas não é como na minha terra. Depois era o meu frenesi incontrolável. E já ninguém reparava nos meus olhos nem no meu cabelo.

O meu pai não me queria a minha mãe não me queria. Acho eu. Porque me empacotavam e enviavam para aqui e para ali. Ora fica tu com ele ora fica tu. E tu eras tão diferente. Tu gostavas de mim. E eu gostava da tua serenidade. Precisava dela. Lembras-te de quando eu começava a fingir que era deficiente mental e tu rias até às lágrimas e as pessoas olhavam para ti com ar de quem diz que vergonha a rir-se do pobre coitadinho. Era tão divertido. Depois deitava-me ao teu lado na cama e tu olhavas assustado a pensar o que que é que este quer. Eu tinha catorze e tu tinhas dezasseis. Ninguém me suportava porque eu nunca estava quieto e nunca me calava. Na altura era uma diferença de idades tão grande. Agora não. Tu trinta e cinco eu trinta e três. Mas tu tinhas paciência. Tinhas uma paciência sem limites. Quando a minha irmã se fartava de me aturar mandava-me para tua casa. E tu recebias-me com a tua cara serena.

Não sei se na altura já. Mas lembras-te. Eu queria tanto que ficasses a dormir comigo. Porque eu não gostava de dormir sozinho. Mas tu não querias. Não sei se tinhas medo. Isto já eu tinha dezasseis e tu dezoito. Fazemos anos no mesmo mês. Mas nunca os passámos juntos. E eu brincava contigo tanto. Ah, havia aquele jogo em que eu punha à frente da boca um plástico transparente e dizia agora dá-me um beijo. É por cima do plástico não há problema. E quando vinhas quase quase quase eu tirava o plástico. Mas tu davas por isso a tempo e paravas. Ah tu paravas e eu não queria que tu parasses. Não é que eu coiso por ti. Era pela experiência. Sim, está bem, não eras feio. Não és feio. Se calhar se eu tivesse pensado nisso. Mas era só pela experiência. E a ti nunca te percebi. Os teus olhos de aço não me diziam nada. Mas aquela coisa do plástico. Eu via-te hesitar. Pensaste algumas vezes em te deixar ir. Aliás só isso explica que continuasses a entrar num jogo cujo fim conhecias tão bem. E eu era tão bonito não era? Ainda sou. Eu bem te via mergulhado nos meus olhos azuis escuros.

Esperava-te no cimo das escadas às vezes em pijama e gritava-te olá. Depois já não me lembro o que fazíamos. Fumávamos e dizíamos disparates até tu te ires embora apesar dos meus pedidos para dormires comigo. Não sei porque é que me estou a lembrar destas coisas todas. Depois houve aquela vez em que foste para Lisboa para a faculdade e me disseste até logo. E quando voltaste à noite já eu ia a caminho do meu país. Porque me tinham empacotado e enviado de novo de repente. E naquela época não havia telemóveis para nos avisarmos. Depois depois já não me lembro. Ah, lembras-te de quando eu apareci anos depois com um telemóvel e ficava toda a gente a olhar para mim porque aí ainda não se usava. Ah ah ah. Depois estivemos anos sem nos vermos.

Já viste que te estou a escrever uma carta e só falo de mim e não falo de ti. Ao contrário daquele rapaz ali em baixo (é um rapaz não é?) que te escreveu e falou de ti. Ele dizia que não tinha saudades mas eu não percebi o que ele queria dizer. O meu português já está tão esquecido. Se não fosses tu a escrever esta carta eu não seria capaz de a escrever. Se visses a tua cara quando tantos anos depois toquei à campainha e tu abriste e viste esta torre loura de olhos azuis escuros e físico imponente e riso aberto. Tão diferente de quando nos tínhamos visto pela última vez. Foi o quê. Há onze anos. Já tinha tantas saudades tuas. Notei logo alguma coisa diferente em ti. Mais sereno. Não sei, talvez fosse isso. Estavas mais sereno ainda do que eu me lembrava. Então ganhei coragem para te dizer aquilo que já sabias e que quem está a ler isto também já percebeu. E tu fizeste um silêncio longo e riste e disseste que tu também. Foi tão divertido. Eu cheio de medo e tu afinal também. Sim sim sim. Sacana. Aquele silêncio foi só para me meteres medo. Mas depois havia mais outra coisa que eu tinha de te contar mas que não quero contar aqui em frente a esta gente toda. E aí não nos rimos. E o teu silêncio foi sentido. Depois acompanhaste-me a casa da minha irmã e eu dei-te um beijo na cara. Não, não foi na boca. E desta vez não precisámos de plástico. E tu não recuaste. Ficaste a olhar para mim tão atrapalhado. E aquela noite em que te telefonei a chorar descontrolado. Porque não queria morrer. E tu disseste-me que eu não ia morrer. E eu disse que não fosses parvo que eu sabia que ia morrer. Eu era tão novo e tão bonito. Depois fui-me embora. Mas vimo-nos no ano seguinte. E no outro. E depois nunca mais.

Aquele rapaz ali em baixo diz que perdeste peso. Quando nos vimos pela última vez eras normal, não estavas gordo. O que te aconteceu para engordares tanto? E de que fala ele quando fala de tristeza? Os olhos que te vejo são os mesmos de quando nos vimos pela última vez. A não ser que da última vez. Mas não. Eram os teus olhos de aço. Eu conheço-os bem. Talvez estejam agora mais tristes. Mas nós estamos mais velhos. E com a idade vem a tristeza. Pois pois pois. E um dia ver-nos-emos outra vez. Espero que continues como eras. Sereno. Tranquilo. Adoro-te.

Beijo grande
Π.Σ.

Epistolário I

[Frank Hunter - Negative 230: Stairs]

hoy cruzo la frontera
(cantado por Lhasa de Sela)
Ρ.Α. ao seu André

Esta carta nunca a poderia ter escrito eu. Porque aqui onde estou não estou em lugar nenhum. Aqui não há lugar nem tempo. Só o nada. E no nada não posso viver. Porque eu não vivo. Estou nas memórias tuas e dos que se lembram de mim. E também por isso nunca poderia ter escrito esta carta. Sabes o que é o nada? Eu também não sei. Porque morrer, amigo, é como adormecer sem sonhar e não acordar. Agora estás aqui e sentes e sonhas. No segundo seguinte acabou. Nem negro nem luz. Nada. E depois ficamos como recordação. Até também ela morrer. À medida que os que nos recordam vão morrendo.

Mas não te quero entristecer. É que te escrevo porque te vejo de novo tão. E lembro-me de quando começámos a nossa amizade. Também então te tinham. Está bem, eu não digo. Dói-te e eu sei. E eu sou teu amigo. Os amigos não se magoam. Lembras-te. Tu é que costumas escrever lembras-te. Mas lembras-te. Falávamos no IRC. E tu estavas tão triste. E eu brincava contigo e perguntava-te se te animava se eu fosse ter contigo só com uma tanga de Tarzan. E tu riste tanto. Imagino eu, pois não estava ao teu lado para ver. Mas não acreditavas que eu fosse mesmo ter contigo. E eu fui. E depois pus-me debaixo da tua janela a mandar pedrinhas. E vieste à janela e eu estava ali a rir para ti. No meio da estrada. Não ia de tanga de Tarzan. Mas que importava. Tu riste outra vez tanto. Começou ali a nossa amizade.

Então dizia-te que ele não merecia que chorasses assim. Quer dizer, tu não choravas. Nunca te vi chorar. Nem tu a mim. Mas eu sabia que choravas por dentro, como se costuma dizer. De resto só te via os olhos frios. E os lábios apertados numa angústia sem tamanho. O teu silêncio esmagado. Como te vejo agora. Dez anos depois. Como é possível teres caído no mesmo erro. Mas deixa-me dizer-te primeiro que me afligia tanto ver-te assim. Tu sabes. Nunca consegui fingir. Os meus olhos diziam-te tudo. E aquelas vezes em que não dizíamos nada e ficávamos uma tarde inteira só a sentir a presença um do outro. Isto é amizade. E. Não, eu não digo. Tu sabes. Nunca falámos disto. Mas eu sabia. E fingia que não sabia. Fingia mal. Porque eu não sabia fingir aquilo que não sentia. E dizia-te que ele não te merecia. E os teus olhos deitavam fogo. Fogo azul frio. Eu dizia-te olha para ti e olha para ele. Olha o que tu és e olha o que ele é. E tu calavas-te com um olhar tão zangado. Sorria-te e calava-me. Não valia a pena. Haverias de descobrir por ti. E descobriste. Demasiado tarde. Mas o que importa é que descobriste.

Agora vejo os teus olhos mortos e a tua boca arrepanhada num desespero sem nome. E sinto-te tão perto de mim. E não te quero. Porque isto é nada. E no nada não há perto nem longe. Outra vez. Dez anos depois. Devias ter aprendido. Lembro-me de me dizeres que a tua vida era tão estúpida. Porque. Não. Eu não digo. Se tu quiseres contar a estas pessoas que te vêm ler a alma conta tu. Nunca te achei capaz disto. Eras tão reservado. A tua palavra preferida era o silêncio. E ninguém te conseguia ler a alma. Nem eu. Quase nunca. Porque às vezes. Aqueles teus olhos de aço. Aço frio esverdeado. Ou assim às vezes parecia. Porque é que te entregaste dessa maneira. Tu já sabias. Já passaste por isto. Há dez anos. E se calhar. Não me leves a mal. Eu não o conheço. Mas será que. Já pensaste se não estarás de novo a chorar em vão? Eu sei que vais ficar muito zangado. Mas gostava que pensasses nisto. Promete-me. Lembra-te do que aconteceu há dez anos. Pensa nisto. Olha para ti. Levanta-te e vai olhar para ti. E vai ver se valerá a pena.

Despeço-me com um abraço forte forte. Daqueles que só tu sabias dar. Não tenho saudades tuas. Porque aqui é o nada. E eu só estou na tua memória.

Teu,
Ρ.Α.

P.S.: Quase não te reconheci. Quantos quilos perdeste? Trinta? Quarenta? Estás tão bonito. Como eras quando.

29.4.07

Tempo

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor)]

Gracias a tu cuerpo doy

Por haberme esperado
Tuve que perderme
Pa'
llegar hasta tu lado
Gracias a tus brazos doy
Por haberme alcanzado
Tuve que alejarme
Pa'
llegar hasta tu lado
Gracias a tus manos doy
Por haberme aguantado
Tuve que quemarme
Pa' llegar hasta tu lado

(cantado por Lhasa de Sela)

Não era tempo. E no entanto. Há dias em que penso se. Agora fecho os olhos e não vejo nada. Nem negro. É como se o tempo. As horas. Os dias da serenidade. Deitava-me na areia e ouvia as ondas. E o Sol morno nas pálpebras. Mas não era tempo. E não são essas as memórias que me assaltam. Não não. Não tenho memórias. Ainda que me lembre daqueles dias mornos. Mas não é uma memória. Agora não vejo nada. Não me resta nada. Só o tempo. Que parece que.

Soon this space will be too small



Soon this space will be too small

And I'll go outside
To the huge illside
Where the wild winds blow
And the cold stars shine

I'll put my foot
On the living road
And be carried from here
To the heart of the world

I'll be strong as a ship
And wise as a whale
And I'll say the three words
That will save us all
And I'll say the three words
That will save us all

Soon this space will be too small
And I'll laugh so hard
That the walls cave in

Then I'll die three times
And be born again
In a little box
With a golden key
And a flying fish
Will set me free

Soon this space will be too small
All my veins and bones
Will be burned to dust
You can throw me into
A black iron pot
And my dust will tell
What my flesh would not

Soon this space will be too small
And I'll go outside
And I'll go outside
And I'll go outside

Cantado por Lhasa de Sela

4.3.06

El desierto

[Vieira da Silva - Et puis voilà]

(para ser ouvido cantado por Lhasa de Sela, no album "La llorona")


He venido al desierto para irme de tu amor,
¡Que el desierto es más tierno y la espina besa mejor!
He venido a ese centro de la nada
pa' gritar,
Que tú nunca mereciste lo que
tanto quise dar...
¡Que tú nunca mereciste lo que
tanto quise dar !

He venido al desierto para irme de tu amor,
¡Que el desierto es más tierno y la espina besa mejor!
He venido a ese centro
de la nada pa' gritar,
Que tú nunca mereciste...

He venido yo corriendo,
olvidándome de ti,
¡Dame un beso pajarillo
no te asustes colibrí !
He venido encendida al desierto
pa quemar,
Porque el alma prende fuego
cuando deja de amar...
Porque el alma prende fuego
cuando deja de amar.

He venido yo corriendo y olvidándome de ti,
¡Dame un beso pajarillo,
y no te asustes colibrí!
He venido encendida al desierto
pa quemar,
Porque el alma prende fuego...

He venido yo corriendo olvidándome de ti,
¡Dame un beso pajarillo,
y no te asustes colibrí!
He venido encendida al desierto
pa quemar,
Porque el alma prende fuego cuando
deja de amar...
Porque el alma prende fuego cuando
deja de amar...

He venido al desierto para irme de tu amor,
¡Que el desierto es más tierno
y la espina besa mejor!
He venido a ese centro de la nada
pa' gritar,
¡Que tú nunca mereciste lo que tanto quise dar !
He venido yo corriendo olvidándome de ti,
¡Dame un beso pajarillo,
y no te asustes colibrí!
He venido encendida al desierto
pa' quemar,
Porque el alma prende fuego...

11.2.06

El árbol del olvido

[Cézanne - Casas na colina]


(para ser ouvido cantado por Lhasa de Sela, no album "La llorona")


En mi pago hay un árbol,
Que del olvido se llama,
Donde van a consolarse,
Vidalita,
Los moribundos del alma.
Para no pensar en vos,
En el árbol del olvido,
Me acosté una nochecita,
Vidalita,
Y me quedé bien dormida.
Y al despertar de aquel sueño,
Pensaba en vos otra vez,
Pues me olvidé de olvidarte,
Vidalita,
En cuantito me acosté..

De cara a la pared

[Mondrian - Árvore cinzenta]


(para ser ouvido cantado por Lhasa de Sela, no album "La llorona")


Llorando …
De cara a la pared,
Se para la ciudad.
Llorando …
Y no hay más,
Muero quizás.
Ha! Dónde estás ?
Soñando …
De cara a la pared,
Se quema la ciudad.
Soñando …
Sin respirar,
Te quiero amor.
Te quiero amor.
Rezando …
De cara a la pared,
Se hunde la ciudad.
Rezando …
Santa María,
Santa María,
Santa María.
Muriendo.