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20.6.07

Eu baixava os olhos

[Caravaggio - Cupido dormindo]

«She raised herself up on one elbow to get a better view of his face, and they held each other's gaze. It was still a novel and vertiginous experience for them, to look for a minute on end into the eyes of another adult, without embarrassment or restraint. It was the closest they came, he thought, to making love.»

Ian McEwan, On Chesil beach

Porque eu baixava os olhos e não sabia porquê. Mesmo quando te vi entrar e não sabia quem eras. Podia ter-te seguido com o olhar. Mas não. Porque. Não sei. Olhei para ti. Não foram os teus olhos. Não foi o teu corpo. Não é o teu corpo. És tu. E depois olhavas-me e rias o teu riso lindo. Eu ficava vermelho e ria pateta. Baixava os olhos e não sabia porquê. Sabes que eu tenho medo dos olhos das pessoas. Medo de que me dispam. E portanto baixo os olhos. Mas eu não tinha medo de que me despisses. Não tenho. Por isso não sei porque baixava os olhos quando me olhavas.

2.6.07

Epistolário XVI



«I sat on the lavatory a long time and decided then not to move till I had planned what to do next. I remained there over two hours, staring at my knees till they lost their meaning as limbs. I thought of cutting my fingernails, that would be a start. But I had no scissors! I commenced to prowl from room to room once more, and then, torwards the middle of the evening, I fell asleep in an armchair, exhausted with myself.»
Ian McEwan, Psychopolis

Ρ.Α. ao seu André.

Quid plura. Já percebeste tudo. Não é preciso falarmos mais disto. Já sabias. Já te tinha dito. Só histórias. It's not you, it's me. Bullshit. Porque é que as pessoas inventam. Tu não inventaste quando. E doeu. Tu sabes. Não não a verdade não dói mais. Quem o disse nunca foi ferido pela mentira. Mas olha o lado bom. Tu olhas sempre o lado bom. Agora já sabes. Não há razão para mais sofrimento. Porque agora já sabes. Não te merecia. Não és tu quem fica a perder. E não voltemos a falar disto. Morreu. Status indifferens. Quid plura.

Pega na vida. Pega em ti. Já te vejo queixo erguido costas direitas. Olhos abertos. Não olhes para baixo. Não olhes para trás. Não te agarres a mim. Eu morri. Não te posso dar. Tu sabes. Digo-to a cada carta enviada. Mas tu não me ouves. E continuas deitado na minha sepultura. E não percebes que foges do mundo. Que também tu escolhes o mais confortável. Andas a perder tanto tanto. Enquanto te agarras a mim morto há uma vida que te passa ao lado. E vais passando tu ao lado de tanta gente que te merece. Quid plura.

Eu estava lá na tua memória. Eu senti. Eu senti-te. Tu sentiste.

Adoro-te.

1.6.07

Bright body under water

[Leonardo da Vinci - Desenhos anatómicos]

«That night Stephen Cooke had a wet dream, the first in many years. Afterwards he lay awake on his back, hands behind his head, while its last images receded in the darkness and his cum, strangely located across the small of his back, turned cold. He lay still till the light was blueish-grey, and then he took a bath. He lay there a long time too, staring sleepily at his bright body under water.»
Ian McEwan, In Between the Sheets


a E.
Silêncio que nos ouvem.
Então pára por favor.
A culpa é tua.
E se tu parasses.
E se tu te calasses.
É que se não paras.
É que se eu paro.
Se tu paras o quê.
Tu sabes.
O quê.
Cala-te.
Não pares.
Foda-se cala-te.
Eu não faço barulho.
Cuidado.
Cuidado.
Parvo.
Desculpa.
Vou buscar uma toalha.
Não é preciso.

31.5.07

Epistolário XV

[Cecco del Caravaggio - Mulher com pomba]

«Is it true? I lie in the dark... it is true, I think it is over. She sleeps, there was no end, the suspension came unnoticed like sleep itself. Yes, the ancient to and fro rocked her sleep, and in sleep she drew me to her side and placed her leg over mine. The dark grows blue and grey and I feel on my temple, beneath her breast, the ancient tread of her heart to and fro.»

Ian McEwan, To and Fro


André ao seu querido Ρ.Α.
Queria saber o que é ser nada. Não não não ralhes comigo. Porque ser nada é tão melhor do que ser isto. Tu sabes. É que ser isto. Ver os dias caindo uns sobre os outros. Iguais. Chumbados. Noites pegajosas lambem-me com línguas de sal as feridas do corpo partido. Et excrucior. As horas choradas à espera do fim. Eu quero saber o que é ser nada. Porque eu sei nada. Senão os dias de chumbo rebolando sobre as noites de visco. Et excruciabor. Não sei o ser corpo frio descarnado em caixa escura. Mas sei o ver corpo frio amado sem vida. Sei o ouvir a terra cair pesada sobre corpo frio amado sem vida. Não sei a dor horrenda que te arranca as entranhas e te mata devagar devagarinho com data marcada. Mas sei a dor medonha que me devora a alma e ma mata devagar tão devagarinho. Não ralhes não por favor. Porque eu sei. A tua dor não tem igual na minha. Porque a tua rasgou-te e sangrou-te e comeu-te a carne e matou-te. E a minha não rasga nem sangra nem come nem mata. Porque a minha está na alma não está no corpo. Tu sabes. Mas tenho esta outra dor que tu não sabes. O ver-te estendido quase invisível branco sem vida. E nem esta mata nem come nem sangra nem rasga. Mas dói dói tanto e nunca mais pára nunca mais morre. Assombra-me as noites e os dias e os sonhos. E eu sei que não me deixa a alma enquanto tem corpo que a alimente. Por isso, amigo, às vezes gostava de ser nada. Porque ser isto.

Eras Sol forte quente que me ardia o corpo. Não Lua statu uariabilis que vai minguando com o passar dos. E um dia será Lua Nova. Sabes. Invisível. Está lá mas a gente não a vê envolta em sombra. Como se ali não estivesse. Agora vai minguando minguando já quase não se vê. Porque quer. Podia ser astro quente tão quente como os. Mas enrola-se conformado derrotado no seu leuis status uariabilis. Porque eu sei. Um dia breve breve ser-me-á status indifferens. Et exultabit anima mea. Até lá vou virando lento as costas e olhando para o horizonte de onde nascerás tu Sol forte quente. Statu stabilis. Não sei para quem escrevo. Não sei quem és tu. Não sei quem espero. Porque tu não voltas a nascer. E tu morreste.

Vale

29.5.07

Oh dear...

[Goya - La maja desnuda]

«The door opened, and Lucy and Pauline carried in a small, low table. Through his fear O'Byrne felt excitement once more, horrified excitement. They arranged the table close to the bed. Lucy bent low over his erection. 'Oh dear... oh dear', she murmured. With tongs Pauline lifted instruments from the boiling water and laid them out in neat silver rows on the starched white tablecloth she had spread across the table. The leather noose sliped forwards fractionally. Lucy sat on the edge of the bed and took the large hypodermic from the bowl. 'This will make you a little sleepy', she promised. She held it upright and expelled a small jet of liquid. And as she reached for the cotton wool O'Byrne's arm pulled clear. Lucy smiled. She set aside the hypodermic. She leaned forwards once more... warm scented... she was fixing him with wild red eyes... her fingers played over his tip... she held him still between her fingers. 'Lie back, Michael, my sweet'. She nodded briskly at Pauline. 'If you'll secure that strap, Nurse Shepherd, then I think we can begin.'»

Ian McEwan, Pornography