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15.9.08

Kill the pain . XXXIV . Janela

[Caravaggio - Madonna del Rosario (pormenor)]

irrumabo uos ego et pedicabo
Catulo


Metia a chave na porta e olhava para trás e punha o dedo nos lábios e dizia xiu. Xiu para quê. Não havia velha nenhuma. Só tu e eu e a cama não rangia. Como se eu não existisse. Se eu não estivesse ali. Despido e humilhado. Rasgando as entranhas de medo. Deitando-lhe mãos invejosas. E a cama nada. Como se eu nem. E eu não. Em silêncio. Puta. A cama. Conspirava com ele. Para me humilharem. Os dois. Os três. Ele e a cama e a velha que não existia. Não faças barulho. E eu não fazia e mordia os lábios e a língua enquanto os dele os lábios e a dele a língua. Sabe. Não sabe. Como pode saber. Não fosse eu rosnar ou gemer. Mas eu nunca. Sempre calado. Para quê para quê mentir para quê a velha. Sempre em silêncio. Mesmo quando. Devagar pára. Já está.

vergonha

Não tive a culpa. Os teus lábios e a língua e as. Chega. Não aguentei. O senhor sabe. Tem de saber. Uma toalha. Se eu queria uma toalha. Para me limpar. Ou talvez fosse para me tapar. Para não me ver. Era isso. Tinha nojo de mim. Porque depois virava-se de costas e até amanhã. E o que eu queria era uma janela. Abrir a janela. Vomitar vomitar-me lá para baixo. Fugir do calor e do meu embaraço. O meu pequeno embaraço. Molhado lambido e a barriga peganhenta. E as mãos. Uma toalha. Não. O que eu quero é que. Quê. Um décimo ou décimo primeiro andar. Não sei. Não me lembro. Não interessa. Já passou.

22.4.08

Juvêncio

[El Greco - Retrato de dominicano]

Os teus doces olhos de mel, Juvêncio,
se alguém mos deixar beijar sem parar,
sem parar trezentas mil vezes os beijarei!
Não parecerei vez alguma satisfeito,
nem se mais basta que as secas espigas
for a ceifa dos nossos beijos.
Catulo, XLVIII
mellitos oculos tuos Iuuenti
si quis me sinat usque basiare
usque ad milia basiem trecenta
nec numquam uidear satur futurus
non si densior aridis aristis
sit nostrae seges osculationis

16.8.07

Solis putatis esse mentulas uobis


XXXVII

Lasciva taberna e vós, companheiros,
nona coluna dos irmãos do píleo,
pensais que só vós tendes piça,
que só a vós é permitido foder
tudo o que é miúda e julgar bodes os outros?
Ou, pois vos sentais, sem graça, em fila,
cem ou duzentos, não me julgais capaz
de foder de uma vez a boca aos duzentos?
E pensai nisto: é que vos rabiscarei
caralhos na frente de toda a taberna!
Pois a minha miúda, que do colo me fugiu,
amada tanto como nenhuma outra será amada,
por quem grandes batalhas lutei,
aí se sentou. A ela vós todos,
nobres e ricos, e sem dúvida, o que é indigno,
todos tacanhos e fodilhões de beco, amais.
Mais que todos tu, um dos cabeludos,
filho da coelhosa Celtibéria,
Inácio, que uma grossa barba torna nobre,
e os dentes esfregados com urina ibera.


salax taberna uosque contubernales
a pilleatis nona fratribus pila
solis putatis esse mentulas uobis
solis licere quidquid est puellarum,
confutuere et putare ceteros hircos
an continenter quod sedetis insulsi
centum an ducenti non putatis ausurum
me una ducentos irrumare sessores
atqui putate namque totius uobis
frontem tabernae sopionibus scribam
puella nam mi quae meo sinu fugit
amata tantum quantum amabitur nulla
pro qua mihi sunt magna bella pugnata
consedit istic hanc boni beatique
omnes amatis et quidem quod indignum est
omnes pusilli et semitarii moechi
tu praeter omnes une de capillatis
cuniculosae Celtiberiae fili
Egnati opaca quem bonum facit barba
et dens Hibera defricatus urina

13.8.07

Cinaede Thalle mollior cuniculi capillo



XXV

Talo, paneleiro, mais fofinho que o pêlo do coelho,
ou o fígado do ganso, ou o lobo da orelha,
ou a murcha pila de um velho e uma teia de aranha:
e tu mesmo, Talo, mais ladrão que uma violenta tempestade,
quando a deusa revela os mulherengos bocejantes,
devolve-me o pálio que me roubaste,
e o lenço de Sétabe e as tabuinhas da Bitínia,
meu estúpido, que descaradamente exibes como herdados.
Descola-os já das tuas unhas e devolve-os,
não te vão chicotes ardentes o tenro rabinho
e as mãos delicadas indignamente rabiscar,
e agitares-te tu de modo insólito, qual pequena nau
apanhada em mar alto por vento furioso.



cinaede Thalle mollior cuniculi capillo
uel anseris medullula uel imula auricilla
uel pene languido senis situque araneoso
idemque Thalle turbida rapacior procella
cum diua mulierarios ostendit oscitantes
remitte pallium mihi meum quod inuolasti
sudariumque saetabum catagraphosque thynos
inepte quae palam soles habere tanquam auita
quae nunc tuis ab unguibus reglutina et remitte
ne laneum latusculum manusque mollicellas
inusta turpiter tibi flagella conscribillent
et insolenter aestues uelut minuta magno
deprensa nauis in mari uesaniente uento

28.6.07

Culo filius est uoraciore



XXXIII

Ó tu, o melhor dos ladrões de balneário,
pai Vibénio e filho paneleiro
(que mais porca é a mão do pai,
mais guloso o cu do filho):
porque não ides exilados para o raio
que vos parta, pois conhecidas são de todos
as pilhagens do pai, e as nalgas peludas,
filho, não podes traficar nem por um tostão!

o furum optime balneariorum
Vibenni pater et cinaede fili
nam dextra pater inquinatiore
culo filius est uoraciore
cur non exilium malasque in oras
itis quandoquidem patris rapinae
notae sunt populo et natis pilosas
fili non potes asse uenditare

Ne finem facias sed irrumatus



XXI

Aurélio, pai de fomes,
não só destas de hoje, mas também de quantas foram
ou são ou serão em outras idades,
queres encavar o meu miúdo.
E nem disfarças: estás com ele, brincas com ele,
colado ao seu lado tudo tentas.
Em vão: é que a ti, que me tentas tramar,
primeiro te comerei eu com bela foda de boca.
E se ao menos o saciasses, calava-me.
Mas o que me dói, ai eu ai eu!,
é que o rapaz só aprenderá a passar fome e sede.
Por isso desiste, enquanto podes fazê-lo com honra,
não vás tu acabar de boca fodida.

Aureli pater esuritionum
non harum modo sed quot aut fuerunt
aut sunt aut aliis erunt in annis
pedicare cupis meos amores
nec clam nam simul es iocaris una
haerens ad latus omnia experiris
frustra nam insidias mihi instruentem
tangam te prior irrumatione
atque id si faceres satur tacerem
nunc ipsum id doleo quod esurire
me me puer et sitire discet
quare desine dum licet pudico
ne finem facias sed irrumatus

31.5.07

Pertundo tunicamque palliumque

[Fresco de Pompeios representando Príapo]

Por favor, minha doce Ipsitila,
minha linda, minha doçura,
manda te visite à hora da sesta.
E se o mandares bom será que
ninguém ponha tranca na porta,
nem te apeteça ir à rua,
mas que fiques em casa e nos prepares
nove fodas seguidas.
A sério, se te apetece mesmo, manda depressa,
pois, almoçado e cheio, de barriga para o ar
já rasgo e a túnica e o pálio!

(Catulo, carme 32)

amabo mea dulcis Ipsitilla
meae deliciae mei lepores
iube ad te ueniam meridiatum
et si iusseris illud adiuuato
ne quis liminis obseret tabellam
neu tibi lubeat foras abire
sed domi maneas paresque nobis
nouem continuas fututiones
uerum si quid ages statim iubeto
nam pransus iaceo et satur supinus
pertundo tunicamque palliumque

Et excrucior

[Rubens - Prometeu agrilhoado]

Odeio e amo. Porque o faço, talvez perguntes.
Não sei. Mas sinto-o. E morro-me.

(Catulo, carme 85)

odi et amo quare id faciam fortasse requiris
nescio sed fieri sentio et excrucior

30.5.07

Da mi basia mille

[Klimt - O beijo]

Vivamos, Lésbia minha, e amemos.
A má-língua dos velhos mais sisudos
não mais do que um tostão nos valha.
Podem os dias morrer e nascer:
quando a breve luz de vez morrer
noite perpétua devemos juntos dormir.
Dá-me beijos mil, e depois cem,
e depois mil outros, e depois mais cem,
e depois ainda mais mil, e depois cem.
Depois, quando muitos dermos,
baralhá-los-emos para não sabermos quantos,
ou não possa homem mau invejar-nos,
ao saber quantos beijos démos.

(Catulo, carme V)

uiuamus mea Lesbia atque amemus
rumoresque senum seueriorum
omnes unius aestimemus assis
soles occidere et redire possunt
nobis cum semel occidit breuis lux
nox est perpetua una dormienda
da mi basia mille deinde centum
dein mille altera dein secunda centum
deinde usque altera mille deinde centum
dein cum milia multa fecerimus
conturbabimus illa ne sciamus
aut ne quis malus inuidere possit
cum tantum sciat esse basiorum

O miselle passer

[Everdingen - Baco com ninfas e cupido]

Chorai, ó Vénus e Cupidos,
e quantos homens há sensíveis:
morreu o pardalito da minha miúda,
o pardalito, o mais-que-tudo da minha miúda,
que ela mais do que os seus olhos amava.
Era na verdade doce, e a dona conhecia
tão bem como menina a sua mãe.
E não saía do seu colo,
mas, saltitando ora para aqui ora para ali,
só para a sua dona pipilava sem parar.
Vai ele agora por caminho tenebroso
para esse lugar, donde dizem nunca ninguém voltou.
Malditas vós, trevas funestas
do Orco, que todas as coisas belas devorais:
tão belo pardalito me arrebatastes!
Ó maldade! Ó pobrezito pardalito!
Por tua causa vermelham de chorar
os olhinhos inchadinhos da minha miúda!
(Catulo, carme III)

lugete o Veneres Cupidinesque
et quantum est hominum uenustiorum
passer mortuus est meae puellae
passer deliciae meae puellae
quem plus illa oculis suis amabat
nam mellitus erat suamque norat
ipsam tam bene quam puella matrem
nec sese a gremio illius mouebat
sed circumsiliens modo huc modo illuc
ad solam dominam usque pipiabat
qui nunc it per iter tenebricosum
illuc unde negant redire quemquam
at uobis male sit malae tenebrae
Orci quae omnia bella deuoratis
tam bellum mihi passerem abstulistis
o factum male o miselle passer
tua nunc opera meae puellae
flendo turgiduli rubent ocelli
(Catulo, carme III)

28.5.07

O rem ridiculam

[Terbrugghen - Rapaz tocando flauta]

Ó coisa risível, Catão, e divertida,
e digna do teu ouvido e da tua gargalhada!
Ri, Catão, se realmente gostas do Catulo.
É coisa risível e muito engraçada:
apanhei há pouco um miúdo a dar
numa miúda. Ora eu, com a ajuda de Dione,
caí sobre ele com a minha tusa como arma!

(Catulo, carme 56)

o rem ridiculam Cato et iocosam
dignamque auribus et tuo cachinno
ride quidquid amas Cato Catullum
res est ridicula et nimis iocosa
deprendi modo pupulum puellae
trusantem hunc ego si placet Dionae
pro telo rigida mea cecidi

27.5.07

Omnia si facias

[Salomon de Bray - Retrato de jovem]

Até aqui desceu por culpa tua minha alma, Lésbia,
e de tal maneira se perdeu ela do seu mester
que já não pode bem querer-te, tornasses-te tu a melhor,
nem deixar de te amar, ainda que por isso tudo faças.

(Catulo, carme 75)

huc est mens deducta tua mea Lesbia culpa
atque ita se officio perdidit ipsa suo
ut iam nec bene uelle queat tibi si optima fias
nec desistere amare omnia si facias

Bene uelle minus

[Jan de Bray - Retrato de jovem]

Dizias tu outrora que só Catulo conhecias,
Lésbia, que nem Júpiter em vez de mim querias.
Amei-te então não como homem a amante,
mas como ama pai filhos e genros.
Agora conheço-te. Por isso, se mais muito mais ardo,
para mim és tão mais vulgar e inconstante.
Como é possível? - perguntas. É que injúria tal
obriga o amante a amar mais, mas a querer bem menos.

(Catulo, carme 72)


dicebas quondam solum te nosse Catullum
Lesbia nec prae me uelle tenere Iouem
dilexi tum te non tantum ut uulgus amicam
sed pater ut gnatos diligit et generos
nunc te cognoui quare etsi impensius uror
multo mi tamen es uilior et leuior
qui potis est inquis quod amantem iniuria talis
cogit amare magis sed bene uelle minus

26.5.07

Lesbia nostra Lesbia illa

[Fresco de Pompeios]

A nossa Lésbia, Célio, aquela Lésbia,
aquela Lésbia, a única que Catulo
mais do que a si mesmo e aos seus amou,
agora em esquinas e vielas
esfrega os netos do nobre Remo.

(Catulo, carme 58)

Caeli Lesbia nostra Lesbia illa
illa Lesbia quam Catullus unam
plus quam se atque suos amauit omnes
nunc in quadriuiis et angiportis
glubit magnanimi Remi nepotes

19.5.07

Pedicabo ego uos et irrumabo

[Velázquez - Los borrachos]

O cu e a boca vos foderei eu,
Aurélio minha bicha, Fúrio meu paneleiro,
que pelos meus versinhos me julgam,
por tão delicadinhos serem, pouco virtuoso.
É que casto deve ser o bom poeta,
não têm de o ser os seus versinhos,
que além do mais têm picante e graça,
sendo tão delicadinhos e pouco virtuosos,
e se podem provocar comichões,
não digo aos miúdos, mas a estes peludos
que não conseguem mexer as duras piças.
Vocês, porque "muitos milhares de beijos"
me leram, acham que eu sou pouco macho?
O cu e a boca vos foderei eu!

(Catulo, carme XVI)

pedicabo ego uos et irrumabo
Aureli pathice et cinaede Furi
qui me ex uersiculis meis putastis
quod sunt molliculi parum pudicum
nam castum esse decet pium poetam
ipsum uersiculos nihil necesse est
qui tum denique habent salem ac leporem
si sunt molliculi ac parum pudici
et quod pruriat incitare possunt
non dico pueris sed his pilosis
qui duros nequeunt mouere lumbos
uos quod milia multa basiorum
legistis male me marem putatis
pedicabo ego uos et irrumabo

In uento et rapida scribere oportet aqua

[Kolb - Mimosa leaves]


Com nenhum outro diz a minha amada querer casar-se
senão comigo, nem se lho pedisse o próprio Júpiter.
Diz ela, mas o que diz mulher a amante apaixonado,
no vento e na água revolta convém escrever.

(Catulo, carme 70)

nulli se dicit mulier mea nubere malle
quam mihi non si Iuppiter ipse petat
dici sed mulier cupido quod dicit amanti
in uento et rapida scribere oportet aqua

Miser Catulle desinas ineptire

[Bosch - Tentação de Santo Antão]

Pobre Catulo, deixa-te de loucuras,
e o que vês finado considera-o perdido.
Luziram-te outrora sóis brilhantes,
quando ias e vinhas para onde te levava uma miúda,
amada por mim como nenhuma outra será amada.
Então tantas brincadeiras havia,
que tu querias e
a miúda não dizia que não.
Luziram-te sem dúvida sóis brilhantes.
Agora ela já não quer. Tu, delirante, não queiras também,
nem corras atrás de quem foge, nem vivas infeliz,
mas sofre de ânimo firme e endurece.
Adeus miúda, já Catulo endureceu,
e não te procurará nem te implorará contrariada.
Mas tu lamentarás, quando ninguém te procurar.
Ai de ti, desgraçada, que vida te resta?
Quem se chegará agora a ti? A quem parecerás bela?
Quem amarás agora? De quem dirás ser?
Quem beijarás? De quem morderás os lábios?
E tu, Catulo, determinado endurece.

(Catulo, carme 8)


miser Catulle desinas ineptire
et quod uides perisse perditum ducas
fulsere quondam candidi tibi soles
cum uentitabas quo puella ducebat
amata nobis quantum amabitur nulla
ibi illa multa cum iocosa fiebant
quae tu uolebas nec puella nolebat
fulsere uere candidi tibi soles
nunc iam illa non uult tu quoque impotens noli
nec quae fugit sectare nec miser uiue
sed obstinata mente perfer obdura
uale puella iam Catullus obdurat
nec te requiret nec rogabit inuitam
at tu dolebis cum rogaberis nulla
scelesta uae te quae tibi manet uita
quis nunc te adibit cui uideberis bella
quem nunc amabis cuius esse diceris
quem basiabis cui labella mordebis
at tu Catulle destinatus obdura