17.12.05

Sebastianus

[El Greco - São Sebastião]

Ainda assim continuo. Já não interessa, mas ainda assim continuo. Já devia ter parado, já devia ter percebido. Ainda assim...

10.12.05

Sísifo

[El Greco - Soplón]

Não era surpresa. Contei com isto desde o primeiro momento. Ainda assim, mantenho sempre a chama acesa. Não arrisco, e ainda bem. Não atinjo a felicidade, mas também não sofro. Anos de desilusão criaram crosta dura, difícil de quebrar. Arrisco pouco. Não, não arrisco nada. Já não me desiludo. Espero, fico sempre à espera, sem desesperar. Um dia parece que vai acontecer. Alimento a ilusão, parece que chego lá perto. Estou quase. Saboreio já os doces frutos. Mas logo desaparecem mal me afloram os lábios. Tântalo! Um aperto breve no estômago, e recomeçar, tudo de novo. Uma, duas, três vezes. E mais outra. E outra. Procurar, esperar. Afinal não me posso queixar, eu decidi assim. Podia ser tudo tão mais fácil. Prefiro manter-me no meu mundo de ilusão. Irreal. Esta chama, apesar de tudo, não se apaga. Espero, fico sempre à espera. Sem desesperar.

2.12.05

Não sei


[Caravaggio - São João Baptista]

Não quero mais. Não estou preparado para isto de novo. Já penei demasiado, ao longo dos anos. Agora, que me achava livre, liberto de tudo. Agora regressa. Não estou preparado para isto de novo. Ou então estou. Se calhar já passou tempo suficiente, talvez agora esteja pronto. Ou não. Se calhar não estou preparado para isto de novo. Não sei.

Partem tão tristes, os meus olhos


[Leonardo da Vinci - Cabeça de rapariga]

Cãtygua sua partindosse

Senhora partem tã tristes
meus olhos por vos meu bẽ
que nũca tam tristes vistes
outros nenhũs por ninguem.

Tam tristes tam saudosos
tam doentes da partyda
tam canssados tã chorosos
da morte mays desejosos
çem myl vezes que da vida.
partem tam tristes os tristes
tam fora de desperar bem
que nunca tam trystes vistes
outros nenhũs por ninguem.

Joam Rroiz de Castellbranco

30.11.05

Que nenhuma estrela queime o teu perfil


[Leonardo da Vinci - La Scapigliata]

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Não, não é cansaço


[Turner, 1845 - Norham Castle, Sunrise
]

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...


Álvaro de Campos

1.11.05

Iris



[Albrech Dürer, c. 1503 - Iris]

De novo. Devia lutar contra. Mas não quero. É torturante, mas ao mesmo tempo agradável. Não leva a nada. Não me interessa.

29.10.05

Chuva

[Albrecht Dürer, 1503 - Tufo de erva]

Volta a chuva. O cheiro da pedra molhada, os dias frescos. Os passeios pelo campo em tempo de Outono. Comprávamos botins de borracha, que fazíamos questão de baptizar chapinhando nas poças de lama. Às vezes, á tarde, íamos aos Cucos. Com que prazer corríamos pela erva húmida, saltando para ouvir a terra molhada chiar e borbulhar debaixo dos nossos pés. Passávamos a mão pelas ervas encharcadas, e corríamos, corríamos sempre.

31.8.05

Pescadores


[Hendrick Avercamp - Paisagem fluvial]

Estava a passar uns dias no Baleal com uns amigos. Naquela noite tínhamos decidido não dormir. Depois de algumas horas em casa, a ouvir música, fartámo-nos, e decidimos ir até Peniche. Naqueles anos 80 não havia praticamente vida nocturna, em Peniche. Assim fomos para o porto de pesca, ver chegar os barcos. Ali nos deixámos ficar horas, sentados no molhe, a ver chegar e partir os barcos de pesca. Entusiasmados, implorámos a vários pescadores que nos levassem com eles para o alto mar. Todos recusaram, alguns argumentando que o mar estava muito agitado e que não se responsabilizavam por um bando de adolescentes com vontade de experiências novas.

30.8.05

Barco à vela



[Arkhip Kuindji - Mar com barco à vela]

Íamos para a praia de barco. Tínhamos ido viver para o Algarve, mas por azar naquela cidade não havia praia. Assim, apanhávamos o barco, e íamos para a ilha. O caminho era curto, as águas tão baixas que em dias de maré viva baixa o barco encalhava, e tínhamos de esperar que voltasse a encher. Quando as coisas corriam bem, o barco sulcava as águas baixas, cortadas pelas barbatanas dorsais dos cações, pequenos tubarões inofensivos. O barco era feio, chato, largo. Quando espreitava para baixo, para as águas cheias de peixe, pensava que bom seria entrar num barco à vela, e sulcar aquelas águas frescas. O barco deixáva-nos do lado interior da ilha - do lado da cidade. Às vezes atravessávamos a ilha, e íamos ver as praias do outro lado, as praias oceânicas. E era então mais forte o meu desejo por um barco à vela. Eram dias cheios.

29.8.05

As ondas


[Turner, 1833 - Quillebeuf na foz do Sena]

O mar já está no Inverno. As ondas estão violentas, cinzentas e espumosas. Em terra o Verão continua, mas em fase decadente.

21.8.05

Война и мир


[Vassili Tropinin, 1815 - Retrato do Príncipe Bagration]

Já devia ter lido este livro há muitos anos, mas a minha convicção em preferir sempre traduções directas do original obrigou-me a esperar estes anos todos. Agora vou lendo, poucochinho por dia, saboreando cada palavra desta obra belíssima, com medo de que acabe. Há livros que, quando os acabamos, nos fazem ficar com saudades das personagens, dos lugares, das situações. Que nos deixam um vazio, durante dias, às vezes semanas. Desconfio de que este será um desses. Ganhei o hábito de ler à noite, na cama. Ando a deitar-me cada vez mais cedo, com vontade de pegar nele e ler. Sempre com medo de que acabe. Guerra e Paz, de Lev Tolstói.

15.8.05

O rio


[Turner, 1835-1840 - Paisagem com rio e baía]

Sinto-me muito perto do pânico, quando estou demasiado longe do mar, quando o calor é muito. O calor do interior espanhol é próximo do insuportável. Salamanca parecia então um enorme forno a céu aberto. Do pequeno terraço da pensão podia ver o céu sufocantemente azul. Quente. Demasiado quente. O silêncio opressivo do calor. Os sons são abafados por este intenso silêncio, parecem sair de um recipiente fechado. Os edifícios ocres parecem fumegar. Nas ruas pouco mais se ouve do que o silêncio escaldante e abafado. Há um rio nas margens de Salamanca, atravessado por uma velha ponte romana. É o rio Tormes, que desde logo me cativou pelas ressonâncias queirosianas do nome. No dia anterior já havíamos atravessado a ponte. A vista era magnífica, com a velha Salamanca erguendo-se maravilhosa. Mas hoje o que nos preocupava era a vista de baixo: as margens arenosas e convidativas do Tormes. Descemos por uma encosta, e fomos dar a uma pequena praia fluvial, rodeada de mato denso. O cenário era espantoso. Havia arbustos e árvores de médio porte, que nos forneciam a desejada sombra. Deitámo-nos na areia grossa, apanhando o Sol que agora já nos parecia convidativo. Quando o calor era excessivo, chapinhávamos nas águas mornas do Tormes, por entre peixes e lagostins. Ou refugiávamo-nos na sombra da vegetação. E ali nos deixámos ficar toda a tarde, quase sempre sem falar, esmagados pelo silêncio estival, apenas quebrado pelo monótono ciciar dos insectos e pelo rumorejar das águas mornas do Tormes.

9.8.05

As cegonhas


[Albrecht Dürer, 1515 - Cegonha]

O Sol inclemente queimava, assava-nos vivos. Vínhamos fugidos de Madrid, onde os termómetros subiam acima dos 45 graus. Ali, em Salamanca, estava um pouco mais fresco. Mas apenas um pouco. Refugiámo-nos na pensão que acabáramos de contratar, depois de uma primeira noite numa espelunca que só com muito boa vontade podia merecer o nome de "pensão", em plena Plaza Mayor. Esta nova pensão tinha o convidativo nome de "Lisboa". Era asseada e acolhedora. O meu quarto tinha um extra surpreendente: situado no último andar, aquilo que de início me pareceu ser a porta de acesso a uma varanda era na verdade o acesso a um terraço bastante grande, com vista para a parte velha da cidade - a Plaza Mayor ficava a poucas dezenas de metros. Ainda me sentei lá fora, debaixo do chapéu-de-sol, durante uns minutos. O calor era, porém, insuportável, e não sentia condições para me manter muito mais tempo ali, a admirar a bela cidade ocre. Voltei para dentro, e deitei-me, pronto para uma retemperadora (assim o esperava) "siesta". Não tardei a adormecer, ainda atordoado por uma noite mal dormida na espelunca da Plaza Mayor, onde não conseguira descansar de uma esgotante viagem de comboio desde Madrid. No entanto, passado algum tempo fui despertado por um barulho que na altura me pareceu de castanholas. Achei estranho. Era verdade que estava em Espanha, mas... Não precisei de ir para o terraço, bastou-me espreitar pela janela para perceber de onde vinha: numa torre sineira de uma igreja (ou assim me parecia, vista do quarto), um casal de cegonhas, que ali tinha feito o seu ninho, era o responsável pelo barulho, abrindo e fechando rapidamente os bicos, numa espécie de dança. Até hoje é essa a imagem que me vem é mente, sempre que vejo cegonhas ou os seus ninhos.

3.8.05

A casa do lago


[Albrecht Dürer, c. 1496 - Casa no lago]

Gostava de ter uma casa no meio de um lago. Um lago cheio de vida, com peixes, rãs, tritões, cobras de água, tudo. De águas frescas, para poder mergulhar quando acordasse, nos dias de quentes Verão. Em cujas margens cheias de vegetação alta me pudesse sentar, a ouvir os ruídos dos insectos estivais, sentindo o calor intenso, com os pés mergulhados na água fresca.