8.1.06

Lisbon revisited (1926)

[Rubens, 1636 - Queda de Ícaro]


Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.

Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.

Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me náufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas coortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?

Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

Álvaro de Campos

6.1.06

O táxi

[Baglione - São Sebastião curado por um anjo]

a C.

Alguns minutos depois ligaste de novo. Pediste-me desculpa. Coisa espantosa. Depois da conversa tida pouco antes esperava tudo menos isso. No dia seguinte estava em tua casa. Jantámos sentados no chão, ouvimos música, conversámos sobre coisas mais e menos sérias. Pacificamente. Perto das 3 da manhã ficámos sem tabaco. O único sítio onde nos podíamos reabastecer era o Frágil. Chamámos um táxi, e lá fomos em direcção ao Bairro Alto. O taxista ouvia pregações evangélicas, não percebíamos se em "cassette" se no rádio. A custo retínhamos o riso, já meio embriagados do vinho do jantar. Ficámos no Frágil até fechar, depois voltámos para casa. Não eras tu que tinhas de pedir desculpa.

5.1.06

A esfinge

[Caspar David Friedrich, 1811 - Paisagem de Inverno com igreja]

a C.

Fartaste-te das minha indiferença. Eu devia ter uns 20 anos, tu mais alguns. Telefonaste-me e disseste que não suportavas mais a minha ausência. Que eu não te telefonava, nem ia ter contigo. Não sabias que eu sempre tinha sido assim, que nunca demonstrei claramente os meus sentimentos. Hoje sou outro. Cresci, amadureci. Na altura cultivava aquela "pose" esfíngica que a princípio te fascinou, mas que agora tanto te irritava. Disseste-me coisas desagradáveis, mas verdadeiras. Eu, atordoado, não sabia o que te responder, o que dizer em minha defesa. Mantive-me em silêncio, não te disse uma palavra. Calaste-te também, ficámos algum tempo calados, só a ouvir a respiração um do outro. Interpretaste o meu silêncio como a prova final da minha indiferença, e despediste-te, pedindo que não te tornasse a procurar. Ainda que o meu coração tenha parado, nem então o meu gelo quebrou. Despedi-me friamente, e desliguei o telefone, já com as lágrimas a correr pelo rosto, único sinal visível do meu desespero.

4.1.06

A fuga

[Murillo, 1670 - Rapariga e sua ama]

a A.

Um dia abordaste umas amigas minhas, com quem me passeava em Santa Cruz. Conheciam-te vagamente, nem nos apresentaram. Achei-te graça. Encontrámo-nos mais algumas vezes, na discoteca de Verão que ambos frequentávamos. Eu estava numa das minhas fases monacais, em que me entrego a um celibato convicto - mas sempre provisório. Tinha sofrido muito com a experiência anterior, e por culpa minha. Tu parecias diferente de tudo o que me tinha acontecido até então. Embarquei. No início acho que nenhum de nós dava muito por aquela relação. Depois pareceu-me que tu lhe davas mais importância do que eu. Como tantas outras vezes, acobardei-me. Na memória ficam-me os teus olhos tristes, quando fugi.

3.1.06

O sonho

[Turner - A manhã depois do Dilúvio]

a C.

Tinha medo. Agora que tinha aquilo que tanto havia desejado, tinha medo. Era noite. Dentro de poucas horas tinha de estar à porta da faculdade. Ia a uma visita de estudo, tinha gente à minha espera. Passámos aquela noite a passear por Lisboa, já não falando de coisas vãs, mas de nós. Querias retomar a nossa antiga convivência, agora assumindo e concretizando os nossos sentimentos recíprocos. Eu gostava de ti. Mas tinha medo. Pediste-me que não fosse à viagem, que ficasse contigo. Disse-te que não podia, que me tinha comprometido com um amigo que só ia por minha causa, pois não conhecia mais ninguém no grupo. Imploraste que, ainda assim, ficasse contigo, que não fosse. Em vez de passar aqueles dois dias em Mérida, que os passasse contigo. Disse-te que se tínhamos esperado mais de dois anos para confessarmos um ao outro os nossos sentimentos podíamos esperar mais dois dias. Na verdade tinha medo de que tudo não passasse de um capricho teu. Não estava certo dos teus sentimentos, apesar de tão evidentes. Acabaste por te conformar, e prometeste que me telefonavas dentro de dois dias. Poucas horas depois estava no autocarro a caminho de Mérida. O meu amigo perguntou-me que tinha eu, que ia tão ausente, quis saber onde tinha passado a noite. Respondi-lhe que estava a viver um sonho.

Frágil

[Dahl - Nuvens de tempestade sobre torre de palácio em Dresden]

a C.

Eu gostava de ti. Durante meses saímos regularmente. Percorríamos os bares do costume, no Bairro Alto. Invariavelmente parávamos no Nova, e acabávamos no Frágil. Durante meses a fio ansiei por cada uma dessas noites que passávamos em conversas vãs, bebendo copos e fumando cigarros. Eu gostava de ti. Um amigo comum dizia-me que avançasse. Impossível, nunca o faria sem ter alguma segurança. E tu parecias gelo, não deixavas escapar nenhuma emoção. Meses a fio. Do Nova íamos para o Frágil, e lá terminávamos a noite, fumando cigarros, bebendo copos e em conversas vãs. Tantas vezes desejei beijar-te, enquanto trocávamos mais umas palavras inócuas. Tantas vezes me apeteceu dizer "amo-te", interrompendo o teu discurso. Mas eu era incapaz de avançar sem ter alguma certeza. Tu parecias estar completamente ausente, ostentavas sempre aquele ar de quem quer dizer "estou aqui contigo, mas podia estar com qualquer outra pessoa". Numas férias escolares deixámos de nos ver e de nos falar. Eram aqueles tempos sem telemóveis nem correio electrónico, mais susceptíveis à quebra de contactos. Durante quanto tempo estivemos incontactáveis? Um ano? Mais? Um dia o nosso amigo comum disse que te tinha encontrado. Que lhe tinhas dito que gostavas de mim. Que durante aqueles meses a fio, enquanto trocávamos palavras vãs, enquanto bebíamos copos, enquanto fumávamos cigarros, durantes aqueles meses a fio desejaste beijar-me, enquanto falávamos de coisas mais ou menos importantes. Nesse dia voltou tudo aquilo que estava apenas latente, de forma voluntária, para me poupar a mim mesmo ao sofrimento. Durante todo aquele tempo tinha-me esforçado por te esquecer. Agora voltava tudo, com mais força ainda, agora não havia motivo para continuar a tentar esquecer-te. Pouco tempo depois reencontrámo-nos. Eu gostava de ti.

2.1.06

Os três túneis

[Turner - Chuva, vapor e velocidade no Great Western Railway]

a E.

Uma vez disse-lhe que não, que não podia sair no dia seguinte. Mas fiquei a pensar naquilo. Entrei no comboio, a caminho de casa, sempre a pensar. Que talvez lhe parecesse mal. Que podia zangar-se comigo. Ou, pior, que podia fartar-se de mim. Um calor súbito percorreu-me o corpo, enquanto olhava pela janela e via a paisagem a passar. Deixei de ver. Que disparate, por que raio lhe fui dizer que não podia sair. Claro que podia, era só querer, nada me impedia. Que me teria passado pela cabeça. Estava a estragar tudo. Era óbvio que se ia desinteressar de mim. Não havia telemóveis na altura, não podia remediar o mal enquanto não chegasse a casa. Em longa angústia sofri o resto da viagem. E se não atendesse. E se não estivesse em casa. E se fosse demasiado tarde. Sofri. Até o comboio abrandar, após passar o primeiro de três túneis que anunciam a chegada a Torres Vedras, de quem vem de Lisboa. Depois fui em passo acelerado até casa, peguei no telefone e desejei ardentemente que estivesse em casa, que me atendesse, que se interessasse de novo por mim.

1.1.06

Iterum Sebastianus

[Mattia Preti, 1660 - São Sebastião]

Não me arrependo de nada. Não voltaria atrás, não deixaria de me pôr a caminho, na minha estrada de Damasco. Não tem sido uma caminhada fácil. Mas haverá alguma estrada fácil? Tenho a certeza de que o outro caminho seria ainda mais penoso, embora pareça mais direito.

A estrada de Damasco

[Caravaggio, 1600 - Conversão na estrada de Damasco]

a R.

Que era só para o chatear, dizias. Que era divertido, que ele ficava irritado. Estávamos naquela transição da adolescência para a idade adulta. Achávamos divertido irritar os outros. Eu até tinha furado as orelhas, anos antes, só para chatear o pessoal. A tua ideia não me parecia má, também porque era algo que desejava havia muito tempo. Não era nem o local nem a ocasião que tinha sonhado, mas isso na altura não parecia ter qualquer importância. Acedi. Na verdade não era só para o chatear.

26.12.05

Calmaria

[Jan van de Capelle - Calmaria]

Liberdade


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

A praia

[Caspar David Friedrich, 1809 - Monge junto ao mar]

As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen

A ilha

[Richard Parkes Bonington, 1826 - No Adriático]

Acho que já contei isto. Havia um barco que nos fazia passar para a praia de areia fina, na ilha. A viagem era curta. Meia hora, talvez. Não tirávamos os olhos da água. Barbatanas dorsais de pequenos tubarões acompanhavam o barco. A água era escassa e transparente, víamos perfeitamente o fundo. Um dia a maré baixou tanto que ficámos presos nos bancos de areia, talvez a meio caminho. Tivemos de esperar que voltasse a encher. A praia nesse dia foi mais curta, mas a viagem foi muito mais excitante. Não, ainda não tinha contado isto.

24.12.05

Noite de Natal

[Ostade - Taberna de aldeia com quatro figuras]

Na noite de Natal a minha irmã e eu jantávamos, abríamos as prendas, telefonávamos a uma amiga, e íamos, a partir das dez horas da noite, para um bar, beber copos. Nunca fomos natalícios. Eu sou ateu, a minha irmã não me consta que seja crente (tem graça, sei que ela é do Sporting, mas não sei se acredita em deuses). Assim passávamos a parte mais substancial da noite de Natal, a beber copos, a rir, entre gente a quem, como a nós, o Natal não dizia grande coisa. Agora ela mora longe, tem a sua própria família. Provavelmente bebe copos e ri com o marido. Eu envelheci, amoleci. Não sou ainda natalício, mas já não me custa tanto.

23.12.05

O calor

[Karl Blechen, 1829 - Gruta no Golfo de Nápoles]

O Verão tarda. Não é só do calor que tenho saudades. O que queria era sentar-me de novo a ver o mar, confortável, quente. Terei de esperar mais uns meses. Até lá, vou lendo Sophia.


Mar

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.


Sophia de Mello Breyner Andresen

O frio

[Karl Blechen, 1833 - Passagem alpina no inverno com monges]

Já não passo sem o aquecedor. Não era assim, quando era miúdo. Lembro-me de passar um Inverno inteiro sem vestir um casaco, de me bastar uma boa camisola de lã. Agora o frio é mais intenso. Ou assim me parece. Se calhar não está mais frio. Se calhar sou eu que penso que está. Mas a verdade é que já não passo sem o aquecedor.