13.1.06

A saudade

[Turner - San Giorgio Maggiore: amanhecer]

À memória do Rui

Nunca soube dizer "gosto de ti". Sempre guardei para mim os sentimentos que tinha para com os outros, mesmo quando eram óbvios, mesmo quando os outros eram pessoas que me eram demasiado queridas e mereciam ouvi-lo. Sempre tomei aquela atitude aparentemente despreocupada, talvez por defesa. Apenas em raras excepções de delírio sentimental deixei escapar algo. Mas em relação a ti não havia delírio sentimental desse género. Não era amor nem paixão o que eu sentia por ti. Era uma adoração imensa, intensa. Tínhamos quase nada em comum. Partilhávamos uma paixão clubística, era tudo. Tudo o resto nos separava. E no entanto, eu adorava-te. Pouco falávamos, de pouco podíamos falar, mas passávamos horas juntos, e tínhamos prazer nisso. Não tiveste nunca problemas em mostrar o que tu próprio sentias, em actos e em palavras, em momentos de maior emotividade - também os tivemos. Compreendeste-me sempre, aceitaste-me como eu era. E nunca tiveste pejo em mostrar e dizer que gostavas de mim, apesar disso. Eu ficava com um nó na garganta e não conseguia dizer tudo o que sentia. Nunca soube sequer dizer "gosto de ti". E se eu gostava de ti. Tanto que chegava a ser sufocante. Agora é tarde. Mas eu sei que tu sabias o quanto eu te adorava. Não era preciso dizê-lo por palavras. É que eu nunca soube dizer "gosto de ti". E tantas vezes to quis dizer.


Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner

12.1.06

A saudade

[Turner - Pôr do Sol sobre um lago]

À memória do Rui

No dia 6 de Agosto de 2003 eu estava na inauguração do Estádio de Alvalade. Emocionei-me, como praticamente todos os que lá estavam, em vários momentos do espectáculo. Não por fervor clubístico. Emocionei-me sobretudo porque queria que estivesses ali também.

As velas

[Redon - Barque mystique]

À memória do Rui

Lembras-te, uma vez convidaste-me para passarmos uns dias na tua "roulotte" do Baleal. Era por alturas da Páscoa, eu estava de férias. Não pensei duas vezes, disse que sim. Eu adorava-te. Levámos velas, lembras-te? Era a nossa tara da altura. Passávamos horas a derreter a cera de velas antigas para criar novas formas de cera. Normalmente aproveitávamos castiçais sem graça, e reformulávamo-los completamente, dando-lhes um ar centenário, cobertos de grossas camadas de cera, cainda como longas lágrimas petrificadas. Uma vez trouxeste uma garrafa enorme, bojuda, e transformámo-la num castiçal magnífico. Éramos capazes de passar uma tarde inteira nisto, trocando poucas ou nenhumas palavras. E assim nos entretivemos durante grande parte do tempo em que estivemos no Baleal. O frio não convidava a passeios pela praia. Também jogávamos xadrez. Tu ganhavas sempre, eras exímio. Estes dias no Baleal foram dos mais agradáveis de que tenho memória. E no entanto não trocámos muitas palavras. Pouco tempo depois, num bar de Lisboa, entre música alta, risos e outros ruídos, disseste-me coisas muito bonitas sobre a nossa amizade e o tempo que estávamos a passar juntos. Eu fiquei com um nó na garganta, sem saber o que te responder. Foram tempos fantásticos. Tínhamos uma amizade estranha, intensa, bela.

A amizade

[Klee - Som antigo]

À memória do Rui

Um dia eu estava já um pouco alegre, tinha bebido uns copos. Tu estavas sóbrio. Abraçámo-nos, já não sei porquê, e eu dei-te um beijo na cara. Eu gostava tanto de ti. Imediatamente foi como se a bebedeira incipiente tivesse passado. Fiquei desesperado. Tive medo de que levasses a mal. Ainda que a nossa amizade estivesse mais sólida de dia para dia, não sabia como reagirias a um gesto tão íntimo. Gostava demasiado de ti para poder sequer imaginar a possibilidade de perder a tua amizade. Pedi-te desculpas. Vivemos num mundo em que dois homens não podem exprimir a sua amizade a não ser com apertos de mão ou, em dias de festa, com um abraço. Mas eu dei-te um beijo na cara. Podias achar que se tratava de uma intimidade intolerável. Olhaste-me com aqueles teus olhos ingénuos, e disseste que não fazia mal, que éramos amigos, que estas coisas entre amigos eram normais. Não, não são normais. Mas tu, tu sim, tu eras extraordinário.

11.1.06

Ausência

Auto-Retrato
Rui Oliveira (1976.01.11 - 2003.02.08)

À memória do Rui

Hoje farias anos. Já lá vão quase 3 anos, e continuo sem conseguir deixar de sofrer a tua morte. Penso em ti todos os dias, sobretudo quando me deito, naqueles momentos antes de dormir. É-me até difícil escrever estas poucas palavras. Não consigo acreditar que morreste.


Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner

Os olhos

[Klee - 1914]

Não sei quando foi. Eu teria uns 4 anos, ou até menos. É a primeira recordação mais ou menos coerente que tenho. Tinha sido posto a dormir a sesta num cubículo da nossa antiga casa. Não tinha porta, pois a sua função primeira era a de ser uma despensa, ou uma arrecadação, como de facto veio a ser, anos mais tarde. Era mínima, quase totalmente preenchida pela pequena cama onde dormia as minhas sestas. À laia de porta, tinha uma cortina de tecido grosseiro às riscas verticais, em diversos tons de laranja. Lembro-me perfeitamente. Nessa tarde eu estava deitado, naquela sonolência que não é ainda sono, mas também já não é vigília. Então vi dois círculos enormes, que avançaram contra a cortina. Devo ter gritado e chorado. Pareciam dois olhos gigantes do lado de fora, tentando entrar para o cubículo. Não sei o que seria. Podia ser qualquer coisa perfeitamente inócua e banal, transformada em monstro pela imaginação prodigiosa de uma criança de 3 ou 4 anos. A minha mãe veio imediatamente, confortando-me e dizendo que não era nada, que eu tinha sonhado. Se calhar sonhei mesmo. Hoje, trinta anos depois, consegui recuperar aquelas mesmas cortinas laranja, que agora estão na minha casa, na janela do escritório.

O medo

[Redon - O ciclope]

Decidimos tomar um dos caminhos secundários, em vez de seguirmos directamente para a "cratera". Era estreito e tortuoso, como deve ser qualquer caminho secundário de floresta. Em vez de subir em direcção ao cume, antes parecia rodeá-lo, ora descendo, ora subindo. Parecia ir dar a lado nenhum. Não lhe víamos o fim, não lhe víamos o início. A sensação de estarmos num mundo alternativo era cada vez mais intensa, à medida que avançávamos. Rapazes da cidade, não estávamos acostumados a estas paisagens campestres, apesar das nossas visitas regulares à "cratera". É que o caminho para a "cratera" era relativamente largo e directo, um caminho de inequívoca feitura humana. Este não. De tão estreito e irregular poderia perfeitamente ter sido feito pela passagem regular de um animal de grande porte. Receámos perder-nos. Para onde quer que olhássemos, árvores altas e mato denso. A luz era difusa, filtrada pelas copas altas. Não parecia haver qualquer vestígio de presença humana. Parecia nem haver vida animal. O silêncio opressor só era quebrado pelo leve restolhar das folhas. Falávamos pouco e baixinho, assustados, mas não tanto que pensássemos em voltar para trás. Estávamos convencidos de que tínhamos entrado numa zona proibida. Esperávamos a qualquer momento dar de caras com algum ser fantástico. De vez em quando ouvíamos a erva alta restolhar. Estacávamos, olhávamos assustados um para o outro e esperávamos. A uma certa altura pareceu-nos ouvir passos. Estávamos já a ficar bastante assustados. Qualquer pequeno ruído nos fazia parar. Qualquer estalido vindo do meio de um qualquer arbusto fazia-nos acelerar o coração. Então vimo-la. Estava debaixo de uma árvore. Num primeiro momento não lhe demos atenção, estava perfeitamente camuflada com a vegetação circundante, parecia um arbusto. Mas à medida que nos aproximávamos começou a tornar-se cada vez mais nítida. Uma cabana rudimentar, ou então um ninho gigante. Era feita de ramos e folhas. Suficientemente elaborada para não se poder confundir com um natural amontoado de ramos secos. Demasiado tosca para poder ter sido feita por homens. Não podia ter sido feita por um homo sapiens. Ou assim nos pareceu. Era suficientemente grande para abrigar um homem de estatura média. Mas não parecia feita por um homem. Pelo menos não por um homem convencional. Estávamos tomados de um intenso terror. Passaram-nos pela cabeça leituras recentes sobre seres fantásticos. Voltámos para trás, aterrorizados, passo rápido, sem trocar uma palavra até chegarmos ao caminho principal. Não voltámos à "cratera" durante muito tempo.

10.1.06

A janela

[Gustave Courbet - Costa marítima]

Da janela da minha sala não se vê o mar.

O pântano

[Alfred Sisley - L'automne: bords de la Seine près Bougival]

Íamos para aquela várzea perto de minha casa. Era um terreno plano, extenso, juncado de poças mais ou menos profundas, resguardadas por tufos de plantas de pântano. Havia também um canal cimentado por onde escorria lentamente uma água imunda e escassa, ao longo de uns bons 500 metros. Era aí que concentrávamos a nossa atenção. O canal fervilhava de vida: rãs de todos os tipos, cobras de água, tritões, um sem número de pequenas criaturas aquáticas e anfíbias. Ali nos entretínhamos, a ver e, às vezes, a apanhar rãs, cobras e tritões. Depois regressávamos a casa, felizes, com lama dos pés à cabeça, para desespero conformado das nossas mães. Silêncio. Grande parte do tempo que passávamos juntos era em silêncio. Éramos dois adolescentes introvertidos, de poucas palavras. Éramos capazes de passar uma tarde trocando pouco mais do que monossílabos. Mas éramos os melhores amigos, e não trocávamos essas tardes silenciosas por nada. Eram dias longos e intensos.


Neste Verão regressei à antiga várzea. Já não é a nossa várzea. A cidade abraçou-a. De um lado uma imensa avenida com 4 faixas de rodagem. Do outro a circular da cidade. No meio, um gigantesco parque verde, separado da avenida por lombas relvadas, que o isolam do ruído da cidade. O parque é magnífico. Longas extensões relvadas. Verde a perder de vista, pontuado por árvores e cortado por sinuosos caminhos de terra batida. O canal ainda existe. Mas agora é cruzado por várias pontes de madeira, agora a água é limpa, agora há patos a nadar por entre os juncos, agora há peixes. Atravessando as pontes há um belo circuito de manutenção. Essa zona nós não conhecíamos, pois eram terrenos agrícolas. Agora é uma das zonas mais belas do novo parque, com suaves colinas relvadas e arborizadas. É tudo magnífico. Há bancos de madeira por todo o lado. Sentei-me e fiquei longos minutos naquela paz, vendo a cidade ao longe, silenciosa. É tudo magnífico. Mas eu não trocava as nossas tardes silenciosas por isto. Eram dias longos e intensos.

O nascer do Sol

[Monet - Impressão: nascer do Sol]

Depois de uma longa noite sem sono, decidimos todos ir ver o nascer do Sol. Para mim era a primeira vez. A casa onde deveríamos ter dormido era um prédio de vários andares, isolado nos areais do Baleal. Subimos até ao último andar. As escadas exteriores permitir-nos-iam ver esse espectáculo que se anunciava esmagador. Quase vencido pelo sono, ainda assim esforçava-me por manter os olhos bem abertos. Sabia que os meus hábitos nocturnos tão cedo não me proporcionariam nova oportunidade para assistir a tão celebrado acontecimento. A leste começou a surgir uma luz fraca. Depois, o Sol nasceu. E eu fiquei profundamente decepcionado com tão pobre espectáculo.

9.1.06

A cheia

[Alfred Sisley - Cheia em Port-Marly]

No final de 1983 o rio saltou das margens e inundou as partes mais baixas da cidade. Em certas zonas a profundidade ultrapassava em muito a altura de um homem. Para nós, miúdos, foi uma festa - não éramos capazes de perceber a imensidão tragédia. Fomos pela linha do comboio ver a cheia. O espectáculo era impressionante. A água quase chegava lá a cima. Mas nós não tínhamos medo, a excitação era demasiada. A cidade ficou isolada durante dias, até as águas começarem a baixar. Não havia electricidade, e água potável só aquela que era distribuída em grandes camiões-cisterna. Também não havia escola, o que foi a maior alegria de todas. Naquele ano mudava de escola. Saía do então chamado Ciclo Preparatório, e ia para o "Liceu". Estava um pouco apreensivo, era tudo novo, demasiado novo. Aquela paragem era um pequeno alívio.

8.1.06

Na cratera

[Jacques Louis David, 1780 - Pátroclo]

Há cerca de vinte anos aproveitávamos todos os tempos livres para passear. Um dos nossos trajectos preferidos consistia em ir aos Cucos. Mas não íamos pelo caminho mais ortodoxo. Preferíamos acompanhar a linha do comboio quase até ao primeiro túnel. Depois, tomávamos um estreito caminho de terra batida, por entre árvores e arbustos, à beira do rio. Nenhum de nós era muito falador. Fazíamos grande parte do caminho em silêncio, ouvindo os pássaros e os insectos, se era o tempo deles. Havia uma ponte metálica sobre o rio, que dava acesso ao recinto termal, e que marcava o final da primeira etapa da nossa viagem. Tu gostavas de saltar, para fazer a ponte abanar. Avançávamos depois por entre os gigantescos plátanos, entrevendo os edifícios termais, neo-góticos, com aspecto abandonado. Sempre achei que era o cenário ideal para um Drácula português. Às vezes parávamos um pouco naquele extraordinário jardinzinho, com aquela bizarra fonte no meio do laguinho, deformada por décadas de acumulação de detritos calcários, coberta de avencas. Mas na maior parte das vezes iniciávamos imediatamente a segunda etapa do nosso passeio. Abandonávamos o parque termal, e começávamos a subir o monte no sopé do qual se situa. É um monte impressionante, com uma forma tal que corre a lenda de que é um vulcão extinto. Coberto de árvores e arbustos, não parece ser de escalada fácil. Mas nós tínhamos descoberto um caminho de terra batida. Durante algumas dezenas de metros a caminhada era fácil. Até que, de repente, o caminho pára. É como um beco sem saída, em que no lugar das paredes temos arbustos altos e espessos. Acabámos também por descobrir que, embrenhando-nos nos arbustos durante alguns metros, havia um novo caminho, mais largo, que levava ao cume do monte, por entre floresta densa. De vez em quando surgiam caminhos secundários, mais estreitos, que se embrenhavam no meio da floresta. Nunca os tomámos, seguíamos sempre a direito, o nosso objectivo era subir até ao cume. A caminhada terminava naquilo a que chamávamos "a cratera", o cume do monte: uma clareira plana, de forma vagamente circular. Dali a vista era espantosa e estranha, para rapazes da cidade como nós. Mato a perder de vista, numa sucessão de montes e colinas que nos parecia infinita. Não víamos nem casas, nem pessoas, nem estradas. Apenas mato. Um silêncio cheio de ruídos de animais e de plantas agitadas pelo vento. Ali nos deixávamos ficar, a olhar aves de rapina voando em círculo, a ouvir o sussurro das folhas e as ervas. Um dia fizeste-me o pedido mais inesperado. Olhei-te longamente, a tentar perceber se estavas a falar a sério. Mas tu mantinhas a impassibilidade que te é tão característica, mesmo quando brincas. Que hipóteses tinha eu? Podias estar a brincar, e eu corria o risco de cair no ridículo para o resto da vida, até de perder a tua amizade. Mas podia ser a sério, e, se eu achasse que era a brincar e o ignorasse, podia estar a perder a oportunidade única de obter algo que desejava havia muito. Ou arriscava, ou jogava pelo seguro. Ri-me, abanei a cabeça como quem diz "quase me enganavas". Tu também te riste. Voltei a olhar-te longamente, tentando perceber que tipo de riso tinha sido o teu. Mas já só via a habitual impassibilidade da tua expressão. Alguns minutos depois fomos embora, e nunca mais falámos daquilo.

A arrecadação

[Gerrit Dou - Escola nocturna]

Havia uma arrecadação no quintal da nossa casa. Estava cheia de tralha, que eu achava fascinante e que adorava revolver, até ao dia em que lá descobri um pombo morto. Repugnado, não voltei lá durante muitos anos. Até que, no início da adolescência, achei que aquele espaço era óptimo para reunir amigos, para ouvir música e fumar cigarros. Deitámos mãos à obra, o Carlos e eu, e em pouco tempo limpámos a tralha que ali se acumulara durante anos. Pintámos as paredes de vermelho escuro, o Carlos trepou ao telhado e consertou as telhas partidas. Depois fizemos a instalação eléctrica, puxada de minha casa através de uma longa extensão. Estávamos nos anos 80, não podiam faltar as lâmpadas coloridas e as bolas de espelhos. Um pequeno telheiro e um balcão, feitos por nós, davam-lhe um aspecto de discoteca. Por fim, o gira-discos, peça essencial para a construção deste nosso espaço mágico. Durante largos meses (anos?) foi o nosso refúgio. Aos poucos fomos decorando as paredes, ora com pinturas decorativas, ora com colagens imaginativas: maços de tabaco, cinzeiros, tudo aquilo de que nos lembrávamos. Ali passávamos grande parte do dia e da noite, ouvindo música, num ambiente acolhedor, cheio de suaves luzes coloridas e reflexos de bolas de espelhos. Depois deixámos de lá ir, quase de repente. O Carlos foi viver para outra cidade, eu e os restantes amigos do grupo fomos estudar para Lisboa. O quintal ficava nas traseiras, longe da vista. Além disso, eu tinha crescido. Luzes vermelhas e azuis reflectidas em bolas de espelhos, acompanhando música pop, já não tinham para mim qualquer importância. Há meses atrás voltei à arrecadação. Já não entrava lá há uns 15 anos. A humidade destruiu as pinturas e as colagens. Do pequeno telheiro e do balcão, apenas alguns fragmentos espalhados pelo chão. Tralha, tralha por todo o lado.

A luz

[Rembrandt, 1632 - Filósofo em meditação]

Na casa da minha tia, na aldeia, havia no primeiro andar um quarto ou uma salinha, não me lembro bem. Era pouco iluminado, talvez tivesse janelas pequenas, ou então cortinas grossas. Ou então são as minhas memórias que estão turvadas pelos muitos anos que passaram. Ou talvez fosse Inverno, e por isso a luz fosse fraca. Ou Outono. Depois do almoço, a minha irmã deve ter ido brincar para a rua, e a minha mãe foi ajudar a minha tia com a louça. Ou talvez se tenham apenas sentado a conversar. Eu subi ao primeiro andar, com um livro. Passei a tarde a lê-lo, naquela penumbra quente e confortável. Talvez fosse Primavera. Ou mesmo Verão. Estava um ambiente morno, próprio para horas seguidas de leitura. Ou talvez fosse apenas o conforto daquela luz mortiça, o prazer da leitura. Era "O príncipe e o pobre", de Mark Twain. Lembro-me perfeitamente.

O livro gigante

[Rembrandt - Titus]

Gostava de livros. Não de algum tipo de livro em especial: gostava de qualquer coisa com forma rectangular e letras impressas, ainda antes de aprender a ler. Aprendi a fazê-lo sozinho, para escândalo e susto das educadoras e da minha mãe. Tinha 5 anos, e na minha sala de aula pré-primária havia um daqueles livros gigantes, com letras enormes, usados para ensinar os meninos da 1ª classe. Mas eu não podia esperar. Provavelmente fingia-me ocupado nas actividades para os meninos de 5 anos, enquanto na verdade prestava atenção à aula da 1ª classe, que funcionava na mesma sala. A minha mãe conta que aperfeiçoei a leitura quase em segredo, através dos jornais que se liam em casa. Aos 6 anos achei que não podia guardar aquele tesouro só para mim, e decidi revelá-lo a minha irmã, então com 5 anos. Renovado foi susto das educadoras e da minha mãe, quando perceberam o que se passava. Demasiado tarde: ela já lia os títulos dos jornais. Éramos inseparáveis, e os 13 meses de diferença faziam com que nos comportássemos como gémeos. Não podia deixar de partilhar com a minha irmã esta riqueza tremenda. Não me lembro de nada disto. Não, lembro-me do livro gigante - que se calhar não era assim tão grande.