22.4.06

Retratos

[El Greco - Retrato de dominicano]

à memória do Rui

Coisas de miúdos. Miúdos crescidos. Uma máquina automática, daquelas de tirar fotografias para documentos. Achámos que seria divertido tirar umas. Entrámos lá dentro, quase encavalitados um no outro, tão exíguo era o espaço. Não fizemos caretas - miúdos, mas crescidos. Fizemos caras de parvo. Sorrisos assumidamente artificiais. Olhares esgazeados. Bom, se calhar fizemos mesmo caretas. Mas isso é o que menos importa. Depois passámos a noite a exibir as nossas belas fotografias - havia um jantar qualquer, nesse dia, lembras-te a que propósito? Eu não. Mas estava muita gente. Que não achou assim tanta graça às nossas belas fotografias. Eu gostei delas. Captaram-nos. Naqueles sorrisos de gozo, assumidamente forçados. Naquele enorme divertimento a propósito de algo que à partida não teria qualquer graça. Éramos nós. Éramos assim. Acho que são as únicas fotografias em que estamos juntos. Tinha-as expostas na minha casa antiga, no quarto, num "placard". Empacotei-as, juntamente com todas as outras pequenas recordações que insisto em guardar para sempre, quando para aqui me mudei, há seis anos. Não consigo encontrá-las, agora. Já abri todas as caixas. Não sei onde estão. Não as posso ter perdido.

19.4.06

Noctua

[Bestiário de Aberdeen, pormenor do fólio 50r]

Que bicho é aquele, que às vezes me acorda de noite aos guinchos? É uma coruja, ou um mocho. O que é uma coruja? É um pássaro. Só que em vez de voar de dia, voa de noite. E faz mal, a coruja? Não! Quer dizer, faz mal aos ratos e a outros bichos, porque os mata e come. Eu gosto de ouvir os guinchos da coruja. És um valente! Agora vá, vamos dormir.


Não devia. Mas agora já está. Não resisto. Que se lixe. Já que começámos, vamos até ao fim. Um lugar escondido. Vamos em silêncio, tremendo de excitação. Onde queres parar? Não sei, onde quiseres, tu é que conduzes. Estou nervoso. Nunca tinha feito uma coisa destas. Era quase um engate. Quase, porque éramos amigos. Entre amigos não há engates. E eu nunca faria um engate. Nunca me tinha passado pela cabeça chegarmos a isto. Bem, na verdade no ano anterior tínhamos trocado uns beijos. Inconsequentes, mais induzidos pelo álcool do que por qualquer tipo de atracção sensual. Mas isto? Já não eram só beijos. Parou o carro. Não vamos passar a noite toda nisto, diz-me, onde? Estávamos num caminho rural. Do lado direito, uma cerca. Reparo então nuns olhos enormes que me observam, insistentes. Pousada num poste da cerca, mais ou menos ao nível dos meus olhos, uma coruja. Olha-me fixamente. Parece uma estátua. Aqui. Pode ser aqui.

18.4.06

Hic sunt leones

[British Library, Royal MS 12 C. xix, fólio 6r]

Não se pareciam com rugidos. Eram como lamentos. Ferozes. Cortavam a noite, arrepiantes. Às vezes pareciam estar mais perto, e eu encolhia-me na cama, gelado de medo. Quase lhes sentia o fedor. Imaginava-os cercando a casa, abanando as jubas fartas, rugindo naquele tom lúgubre. Prontos a atacar. Às vezes calavam-se. Durante alguns minutos regressava o silêncio da noite. Mas logo novo queixume feria as trevas, e o meu pequenino coração de miúdo parava, gelado. Um dia o circo acabava por partir, e regressava a paz.

O tédio


[Steen - Lição de cravo]

Os dias arrastavam-se longos, demorados. Ambiente festivo à minha volta. Verão. Os sons são diferentes, abafados. Tal como eu me sentia. Ao longe o rugido do oceano, monótono. Chato. Passava estes dias inertes a ler. Não tinha escolha. De praia não gostava. Amigos, não os tinha ali. Restava-me a leitura, enquanto esperava mais ou menos pacientemente o fim do Verão. Levava alguns de casa, que em poucos dias consumia. Tinha então de arranjar mais. Em Santa Cruz o único sítio onde se podiam comprar livros era uma daquelas lojas que vendem de tudo, desde jornais a botões. Era uma loja mínima, onde caberiam no máximo cinco pessoas ao mesmo tempo. Do lado direito, duas estantes apertadas, com livros. Esgueirava-me para o pequeníssimo espaço entre elas, e percorria com dedos e olhos o seu conteúdo. Livros de aventuras, ficção científica, alguns clássicos portugueses. Tudo em quantidades reduzidas. Eram para mim tesouro sem igual. Impúbere, introvertido, nada me diziam então as longas noites balneares. Acordava cedo, ficava a ler na tenda, ou, em dias mais agitados, na praia. Agarrava-me aos Eças, aos Herculanos, aos Salgaris. Sem eles ter-se-iam tornado ainda mais arrastados, demorados, inertes, aqueles longos, insuportáveis dias de Verão.

17.4.06

Pietà

[Miguel Ângelo - Pietà]

à memória do Rui

Um grito partindo o ar pesado daquela manhã de Fevereiro. Não conseguira aproximar-me. Deixara-me ficar no meio da multidão. Ao longe. Não era capaz de ver aquilo. Ainda assim fizera questão de estar presente. Para despedir-me? Não sei. Não consegui fazê-lo, até hoje. Vi-o, no dia anterior. Os seus contornos, debaixo de um lençol. Imagem gravada para sempre. E naquela manhã não sei o que me levou ali. Não sou crente. Não acredito na vida depois da morte. Mas estava ali. Vejo-o sair da capela. Sinto-me sem forças, pronto a cair. Retenho as lágrimas, involuntariamente. Porquê? Tanta gente chora. Não consigo. Nó na garganta, cada vez mais apertado. É agora. É agora que vou chorar. Não. Não saem. E sufoco. Ardo por dentro. O trajecto é curto. Vou-me deixando ficar para trás. Perdido. E agora. Tudo se passa lá ao longe. Não me consigo aproximar. Deixo-me ficar aqui, no meio da multidão. Não quero ver aquilo. Não sou capaz. Percebo o que se passa apenas pelos silêncios da turba e pelos movimentos do padre e dos que o carregam, ao longe. Descem-no. Sinto-me a morrer. E depois o grito. De mulher desesperada. Partindo o ar pesado daquela manhã de Fevereiro.

Mater dolorosa

[Jusepe de Ribera - Mater dolorosa]

à memória do Rui

Vergada sobre a montra. Os olhos inchados de lágrimas perpétuas. Não sei o que olhava. Nada. Desesperada. Ali estava. Imóvel. Em que pensaria. Parei uns segundos. Para lhe perguntar por ele. Como estava. Soubera-o naquele mesmo dia. Não tive coragem de a acordar. Vergada sobre a montra. Não olhava para nada. Estátua de sal. Das lágrimas. Mater dolorosa.

14.4.06

Já não era tempo

[Redon - Barco vermelho com vela verde]

a C.

Já não era tempo de amar. Os dias da paixão há muito se tinham desvanecido. Tudo parecia agora um equívoco. Gostava de ti, é certo. Mas já tinha passado aquele incêndio que me consumira durante tanto tempo. Não partilhávamos quase nada. Eu achava que o ócio sem as letras era sepultura em vida. Tu veneravas a imagem, passavas bem sem livros. De que podíamos falar? Não me lembro de haver um único interesse que partilhássemos. Já não havia sequer a louca atracção física, que tudo compensara no início. Apesar disso eu não tinha força para dizer basta. Inércia. Chegáramos àquela fase dos longos silêncios pesados, de quem já nada tem para partilhar. Eu desistira, mas não o assumia. Tu parecias ter ainda esperança, mas esbarravas na minha indiferença. Arrastávamo-nos, sem solução nem fim. Até que um dia te fartaste da minha apatia. E também tu desististe. Já não era tempo.

9.4.06

Chispas


[Pontormo - Hermafrodita]

Uma noite sonhei contigo. Sugavas-me a alma. Possessiva. Na vida como no sonho. Eu rebolava-me no chão, em convulsões, enquanto a minha alma me saía pelos olhos, azul, com chispas eléctricas. Uma amiga comum tentava salvar-me de ti. Não me lembro se conseguia. Acordei assustado. Percebi que tinha de dar um rumo à minha vida. Onde tu não estarias.

6.4.06

Dizem?

[Henry Moore - Standing figures]

Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Disseram.

Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.

Porquê
Esperar?
- Tudo é
Sonhar.

Fernando Pessoa

4.4.06

A estrada de Damasco (II)

[Fra Angelico - Iluminura representanto a conversão de Paulo na estrada de Damasco]

Faz de mim o que quiseres. Ofegante. Sentia-lhe a língua húmida a percorrer-me o pescoço. Excitava-me. Beijava-lhe o pescoço, os lábios, quando os apanhava. Sussurrava-me coisas ininteligíveis. E eu suava, descontrolado. Enrolava-se em mim. Serpente. Ofegava. Eu reagia instintivamente, respondia com o corpo. Percorria-me com mãos ávidas, mordia-me as orelhas. Em delírio. Faz de mim o que quiseres, rouquejava. E eu percebi, finalmente, que não queria fazer-lhe nada.

O tesouro

[Andrea del Sarto - Cabeça de rapaz]

Havia sempre uma mais solta. Com uma faca, previamente surripiada da cozinha, verificava se tinha folga suficiente. Que tesouro haveria lá no fundo, desta vez? Agachado entretinha-me a escavar, cuidadosamente, não fosse espantá-los. Esgravatava à volta, tentando soltar o obstáculo que se interpunha entre nós. Finalmente cedia. Tremia de emoção. Pousava a faca, excitado. Esperava uns segundos, estudando o melhor processo de o fazer sem os assustar. Finalmente espetava os dedos no buraco que abrira a toda a volta, e, lenta mas seguramente, retirava a pedra da calçada. Se tivesse sorte, lá estaria ele, o meu tesouro. Não o levava nunca para casa. Ficava ali, a admirá-lo, antes de recolocar a pedra no lugar: uma miríade de besouros, bichos-de-conta, minhocas... todo o tipo de animaizinhos que, como eu, adoram a escuridão húmida e quente.

1.4.06

Penélope

[Alexandre Archipenko - Coquette]

Um dia nunca mais nos vimos. Não de repente. Tínhamo-nos indo, aos poucos, deixando de nos ver. Mas naquele dia percebi que não nos voltaríamos a encontrar. Era apenas a minha segunda namorada a sério, e eu tinha já 18 anos. Não que fosse feio, dizem até que na altura era um belíssimo rapaz - testemunhos que me vão consolando nesta trintona decadência física. Não, não era feio. Não me interessava por namoros, era isso. Pelo menos não por estes namoros. E éramos estranhos, ambos. Invertíamos, por assim dizer, as convenções estabelecidas. Eu era espiritual, profundamente platónico. Ela era carnal, tremendamente libidinosa. Um dia, no metro, em hora de ponta, disse que tinha sido apalpada por um desconhecido durante vários minutos. Disse. Não se queixou. Em casa, no quarto, lançava-se sobre de mim, seminua, gemebunda. Eu reagia quase maquinalmente, fazendo o que me ia solicitando. E ela não era feia. Não, longe disso. Era uma daquelas raparigas de fazer parar o trânsito, passe o lugar-comum. Tinha uns olhos enormes, magnéticos, enquadrados por largos caracóis despenteados. É tudo o que recordo dela, hoje, década e meia volvida. Ah, sim, tinha um peito bastante desenvolvido, no qual me sufocava, em momentos de maior paixão. Eu inventava bebedeiras, más disposições e dores de cabeça. Tinha acabado de entrar no curso de Línguas e Literaturas Clássicas, descobria, fascinado, Umberto Eco, e devia ser um miúdo tremendamente chato. Além disso cultivava, ainda, a pose frígida e distante que criara no início da adolescência, para contrabalançar um físico que, então, era no mínimo repelente (o acne, os primeiros esparsos pêlos da barba...). Não era homem para ela. Não era homem ainda, sequer. Começou a procurar paixão noutros lugares menos frios. Eu sabia que ela me traía. Fê-lo até com um amigo meu, que me veio pedir, educadamente, autorização prévia. Quando começámos o nosso improvável namoro ela tinha vários pretendentes, que rejeitara em meu favor. Agora estava arrependida. Via-se na maneira como me olhava. Recomeçou a recebê-los. Nunca assumimos a ruptura. Apenas deixámos de nos beijar, passámos a relacionar-nos como simples conhecidos. Quando, não sei exactamente. Foi aos poucos. Eu continuei a frequentar a casa, por amizade a uma das outras moradoras. Os pretendentes enxameavam agora a sala, e também o quarto que fora testemunha da minha frigidez. E isso não me entristecia. Sentia mesmo um suave alívio, quando a via mais romântica para com algum deles. A indiferença foi-se instalando entre nós. As visitas outrora regulares passaram a ser cada vez mais espaçadas. Ela entretanto tinha iniciado uma tórrida relação com um dos rapazes que rejeitara em meu favor. Os injustificados ciúmes dele tornaram as nossas já frias relações ainda mais distantes. Um dia nunca mais nos vimos.

29.3.06

O bolso roto

[Agnolo Bronzino - Estudo de ciúme]

a E.

Não disfarçavas. Queria-lo. E era-te indiferente que eu estivesse ali, ao teu lado. Agias como se já nada houvesse entre nós. A nossa relação estava moribunda, era verdade. Ainda assim eu tinha esperança. Sempre tive esperança. Sou um optimista. E era um ingénuo. Achava que não me irias deixar, que acabarias por reconhecer que eu era o homem da tua vida. Por isso, embora com um nó na garganta, ia sorrindo, para ti e para ele. Em vão. Para vocês eu já não estava ali. Ignoravam-me. Ou sorriam-me com condescendência. Entretinham-se ambos num óbvio jogo de sedução. Ele queria-te. E era-lhe indiferente que eu estivesse ali, ao teu lado. Eu ia bebendo. Fumando. Num desespero mudo. Ele era mais feio do que eu - e naqueles meus quase imberbes 19 anos a beleza era algo a que dava suma importância. Era feio, ele, sim. Mas poderia dar-te outras coisas que eu não estava pronto nem disposto a dar. Tu sabia-lo. E para ti a beleza era o menos importante. Eu sorria, tentava entrar na conversa. Mas para vocês era como se eu há muito tivesse deixado a mesa. Estavam só os dois, sozinhos. Era escritor, dizia. Os teus olhos brilhavam. Pediste-lhe uma dedicatória. Num guardanapo escreveu-te uma história (quantas destas terá escrito, sentado em mesas de bares?). E, convenientemente, rabiscou o número de telefone. Depois encenou uma saída repentina e misteriosa, com uma última sequência de olhares de sedução, e veladas promessas de prazeres sem fim. Então fizeste uma coisa muito estúpida. Pediste-me que te guardasse o papel até ao fim da noite. E eu guardei-o. Num bolso roto. Eu tinha sempre os bolsos rotos, lembras-te?

23.3.06

Madrugada


[Münch - Desespero]

Não quero ir para cama. Sei que lá me aguardam os monstros. Que não existem. Ainda assim não quero ir para a cama. Não tenho sono. O cansaço domina-me. Mas não quero ir para a cama. Madrugada fora, fazendo tudo, fazendo nada. Sei que estão lá. Sei que estão à minha espera. Só me apanham se eu quiser. Resisto. Ao sono, não aos monstros. Que não existem. A esses entrego-me sem hesitar. Não quero ir para a cama. Sei que me vão apanhar.

21.3.06

Vaga, no azul amplo solta

[Pontormo - Estudo para Vertumno e Pomona]


Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma,

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.


Fernando Pessoa