8.4.07

O despertar

[Dürer - Auto-retrato]
ἡ ἀγάπη οὐδέποτε πίπτει
I Cor 13,8


enquanto desenrolava tecidos de algodão al-qutn
القطن ntuq-la. E depois lembrei-me. Porque não pensava que. Achava que nunca mais. Já escrevi isto. Não me canso de o escrever. Na palma da minha mão. Tibi, παῖ παρθένιον βλέπων. Achava que a tinha perdido para sempre. Branca brilhante amarfinada. O tempo todo. Enrolada em al-qutn. Para me fazer pensar que a tinha perdido. Afinal estava ali ἡ ἀγάπη meo in pectore escondida. À espera. De que a descobrisses في قلبي despertasses. Segurei-a na palma da minha mão. Agora aberta. Surpreendido. he agápe oudépote píptei. Estiveste aqui este tempo todo في قلبي in pectore meo. E não te via. E depois achei-te

7.4.07

Cor in oculis habitat

[Dürer - Auto-retrato com 22 anos]

osculetur me osculo oris sui

Cant 1, 1

Lembras-te. Não te conseguia olhar nos olhos. Medo de que me visses o coração. Animus in oculis habitat. Não. Cor. Cor in oculis habitat. É que não era o espírito que queria esconder. O meu espírito é transparente. Era o coração. Porque não achava possível que. Porque tinha vergonha. Achava que era só eu que. E fugiam-me os olhos. Conformados. Imaginava-te nos meus braços. As minhas mãos nos teus cabelos. Pousando-te beijos na face. Mas bastava-me a tua presença. A tua luz. Era o suficente para ser quase feliz. Saber que estavas ali. Mas faltava-me isto: conseguir olhar-te nos olhos. Como olho agora. Porque já não me fogem os olhos. Quia nouisti cor meum. Porque to abri. قلبي لك . Já não tenho medo. Cor meum tibi offero.

Tempus

[Bonington - Adriático]

Quantos dias passaram. Podia contá-los no calendário. Um dois vinte trinta. Foi ontem. Foi há tanto tempo. Lembras-te. Debaixo da oliveira. Et fructus eius dulcis gutturi meo. Uma cortina à nossa volta. Que mais ninguém nos visse. Que o tempo não passasse. E não passou. E não passa. Tudo pára. Só tu. Nos meus braços. Apertado. O resto não interessa. O tempo não passa. O tempo não importa. Só tu.

6.4.07

Os dias

[Avercamp - Paisagem fluvial]

Os dias passam. Lentos. Enquanto te espero. Sentado na margem húmida. Abraçado pelo vento. Lentos. Tão lentos. Os pés balançando no vazio. Beijados ao de leve pela água fria. Caem lentos os dias. Se calhar nem caem. Teria dado por isso. Daqui não tenho saído. E não os vejo cair. Os olhos postos no horizonte. Tão lentos. Como se não passassem. Às vezes apetece-me abaná-los. Saltar para a água. Vencer os dias. Nadar até ti. Nem que para isso gastasse as minhas últimas forças. Sem forças. E depois como te poderia abraçar. E volto a sentar-me. E cruzo as pernas e torno a olhar o horizonte. Tranquilo. Ganhando novas forças. Para quando voltares. Para te envolver então num abraço sem fim. Do tamanho da minha saudade. E venceremos estes dias. Que passam. Lentos. Mas passam.

3.4.07

mare inmensum


mare tranabo
ad te
inmensum
quia latius mari
est quod sentio

Cume

[Caspar David Friedrich - Nuvens passando]

suspendam cor aris tuis
Baudelaire

Lá em cima já não via nada. As aves de rapina voando em círculos. Seriam águias. Falcões. Não interessa. Não interessava. Já nada importava. Era o meu paraíso verde. Das árvores. E castanho da terra. Faltava-lhe a água. Havia o rumorejar das folhas. Não é a mesma coisa. Mas que importa. Não é por isso que aqui estou. Submerso pelo verde forte. A olhar o céu abrasado. As pernas dilaceradas pelas silvas. Que é preciso lançar-me no meio dos arbustos para aqui chegar. E depois este silêncio do ciciar das cigarras e dos chilreios das aves e do restolhar da vegetação. E se eu não me fosse embora. E se aqui ficasse o resto da vida. Deixar-me envolver. Inundado deste cheiro doce.

1.4.07

L'amoureuse

[Dürer - Mein Agnes]


Elle est debout sur mes paupières
Et ses cheveux sont dans les miens,
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la couleur de mes yeux,
Elle s'engloutit dans mon ombre
Comme une pierre sur le ciel.

Elle a toujours les yeux ouverts
Et ne me laisse pas dormir.
Ses rêves en pleine lumière
Font s'évaporer les soleils,
Me font rire, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien à dire.

Paul Éluard

Hoje vou ver o mar

[Dürer - Sonho]

Hoje vou ver o mar. Não sei se vai estar feroz. Se estará cinzento. Se abraçará precipitado as rochas negras. Se me salpicará a cara de espuma salgada. Não é por isso que vou ver o mar. Vou vê-lo para te ver. Porque nos une. Porque é nossa testemunha. Porque é nosso confidente. Vou vê-lo para te sentir. Para lhe dizer aquelas palavras que há algum tempo me dançam na garganta agora apertada de saudade. Sei que as ouvirá. Sei que tas dirá. Levadas a ti pelas ondas. Que quando eu tas disser já as terás sentido. Que já as sentiste.


قلبي لك

31.3.07

Oceano

[Pormenor de painel de azulejos do Convento da Graça - Torres Vedras]

o utinam liceat collo complexa tenere
braciola et teneris oscula ferre labellis
CIL IV 5296

O sussurro que me embala. Madeira a estalar. Não pára. Pendular. Vai e vem. Às vezes parece que se parte. Mas não. Chapinha na água. Com preguiça. Não vejo nada. Só a madeira a ranger. Som cavo. Abafado. E o marulhar suave. O cheiro intenso a mar. E o silêncio da noite. Não há estrelas. Lua embaciada por nuvens espessas. E o raaaac raaaac da madeira a estalar devagarinho. Embarcar. Entregar-me. Não o vejo mas ele está ali. Imenso. Orla branca beijando com beijos de espuma lenta o pontão. Regularmente. Noite perfeita. O frescor oceânico afagando-me a pele arrepiada. Embarcar. Aos dezasseis anos não se vê o oceano. E ele está ali. Imenso.

E tu estás ali. Não te vejo. Mas sinto-te.


قلبي لك

Vou ficar a olhar o mar

[Kuindji - Mar com barco à vela]

Vou ficar a olhar o mar. Sentado como um buda. A procurar-te no horizonte. Ali mesmo junto às ondas. Estás a ver-me. Receber-lhes a espuma que também te tocou. O sal a escorrer na minha face. As mãos enterradas na areia morna. O doce arrepio da saudade. Não vou ficar triste. Vou sentir-te ao meu lado. E aquela alegria pacífica que só contigo conheci. A luz. Lembras-te da luz. Vou vê-la no mar. Sereno. Olhando para o teu regresso. Para te apertar de novo nos meus braços. Vou ficar a olhar o mar. Os olhos no horizonte. À espera de ti. De te ter ao meu lado. Para te dizer que.

قلبي لك

28.3.07

ego dormio et cor meum uigilat

[Leonardo da Vinci - Estudo de mãos]

Abraçar-te nos meus braços a vida toda. Dizer-te as palavras que me bailam na boca tímidas receosas de sair. Cor tibi offerre meum.

قلبي لك

26.3.07

Calmaria

[Capelle - Calmaria]

Vou serenando. Ainda mais. Aquela doce vaga que me envolveu. Submerso neste sal morno. Para a frente e para trás. Rebolando debilmente. Roçando com preguiça a areia do fundo. Sem respirar. Embalado pelas águas mornas. Não me falta o ar. Respiro a água e o sal. Aquela doce vaga que me submergiu neste sal morno. Toca-me o corpo. Como nunca nenhuma. A calmaria. Vejo-a cá de baixo. A superfície quieta. Mas tão. Só aquela corrente. Serena. Mas forte. Mais forte agora do que a doce vaga que primeiro me inundou.


قلبي لك

24.3.07

أحبك

[Dürer - Lago na floresta]

Percorre-me o corpo um arrepio. O vento gela-me a pele. Mas não tenho frio. Há ali um lago. Devia ouvir-lhe os murmúrios da água. Os passos das pessoas que passam. Os suspiros cúmplices dos amantes escondidos em recantos batidos pelo vento. O sussurro das folhas. O estalar dos ramos. Não ouço nada. Nem o Sol a desaparecer por detrás das copas das árvores. Nem este vento frio. Nem a cidade à nossa volta. Só a tua presença me importa. Já não tenho frio.


قلبي لك

21.3.07