21.4.07

Parate uiam Domini

[Bosch - São João Baptista]

Ἑτοιμάσατε τὴν ὁδὸν κυρίου, εὐθείας ποιεῖτε τὰς τρίβους αὐτοῦ
Lc 3, 4

O caminho. O gelo. E aquele ronronar das rodas esfregando os carris. Via a vida escapar-me pelos olhos. Enquanto os lançava contra o céu negro rasgado de branco. Nunca vira a Via. A Láctea. Tão branca. Os dedos dormentes. E aqueles pontinhos brilhantes. Furando-me a alma. E virava o pescoço e tirava a cabeça da janela e a imagem que me chegava à mente ainda era a da Via. A Láctea. Porque já não via nada. Negro. A escuridão pastosa. E havia aquele silêncio que me gelava o corpo. Louco. O silêncio. Cortado de branco. Enrolado no casaco gelado. E depois deixei de ver. E morri.

Rectas facite semitas eius. Abri os olhos. Novo. O céu cinzento negro pesado. Se calhar chovia. Havia humidade no ar. E a branca bola distante. Forçando o chumbo celeste. Casaco gelado lançado ao chão. Tanto frio. Sempre o ronronar. Dos carris acariciados. O vento forte entrando pelas frinchas. E depois acordei. Para a vida nova.

20.4.07

O tremor

[Leonardo da Vinci - Esquema de máquina voadora]

...maior que tudo quanto existe...

Vinícius de Moraes

Tremor na alma. Tinha-o dito às ondas. Quando fui ver o mar. Fustigado pelo vento de areia. Olhos lançados ao horizonte. E tremi. Pensei que fosse do abraço do vento. Do beijo molhado do mar. Tremendo. Murmurando às ondas.

Sem título

[Turner - San Giorgio Maggiore ao amanhecer]

Emudeço. Se pudessem palavras dizer descrever pintar. Por isso olho-te. Deixa-me olhar para ti. E não dizer nada. Porque não são precisas palavras. Porque.

19.4.07

totus tuus

[Turner - Colour beginning]

Nos meus braços. Não me canso de o escrever. De o dizer. Não me canso de te ter. Aninhado no meu abraço.
totus tuus
te ab omni malo protegam
quia quod in corde habeo
fortissimum me fecit hominum
quia quod in corde habeo
uerbis non possum describere
Embalando-te. Pele com pele. Alma na alma. Totus tuus.




18.4.07

ἡ ἀγάπη οὐδέποτε πίπτει

[Hemessen - Mulher pesando ouro]

Revolvendo a areia estéril. Mão dançante. Procuro não sei o quê. Um tesouro. Adormecendo os olhos sobre o mar. Não há ouro nestas praias. E não é ouro que procuro. Sei que que aqui está. Não sei onde. Mas está. Está aqui. O meu tesouro. Nascido da areia estéril. E depois lanço os olhos ao mar. Sussurro as palavras. E levo o meu tesouro no bolso. Não é ouro. É o meu tesouro.

16.4.07

Te tangere

[Bosch - O jardim das delícias (pormenor)]

Pele na pele. Arrepio. O teu toque. Morrem-me todos os sentidos. Fica o tocar-te. A tua pele. A minha alma cheia de ti. O tempo já não é. Nada mais. Só tu. Pele na pele. Ninguém mais. E há aqueles mutantes. Que nada podem. Porque. Na tua pele. Só nós.

15.4.07

até à última gota de mim

qalbî laka

até à última gota de mim
mesmo que me esvaeça rendido
onde em tempos prevaleci altivo
tenho agora o peito aberto e doce
e mostro-te o meu coração

14.4.07

Os instantes

[Dürer - Estudos de auto-retrato, mão e almofada]

Quando eu morrer voltarei para buscar

Os instantes que não vivi junto do mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Se não saísse nunca daqui. Face abrasada pelo Sol. E ficar o resto do tempo a olhar as ondas. Não cairia nunca a noite. Ou não daria eu por ela. O marrar das ondas. Isto é Sophia. As ondas. A marrar. Foi ela que escreveu. Porque só o marrar das ondas na areia dura me despertaria o olhar. Isto fui eu. Ficar aqui. Passando as mãos pela tua face. Pés lavados pela água salgada.


قلبي لك

13.4.07

Ἕρος



Ἕρος δ'αὖτ᾽ ὲτίναξεν ἔμοι φρένας,
ἄνεμος κατ᾽ ὄρος δρύσιν ἐμπέσων.

(Safo)

de novo me agita Eros o coração,
vento pela montanha lançando-se sobre os carvalhos

قلبي لك

11.4.07

Sentido

Agora que te vejo tudo volta a fazer sentido.

O portão

[Caravaggio - São João Baptista]

Tenho passado perto de ti e pensado em ir dizer-te bom dia. Sim. Eu sei. Tenho escrito que não consigo. Entrar. Procurar. Já não sei onde estás. Não te vejo há quatro longos anos. Desde aquela manhã de Fevereiro. Lembras-te. Havia tanta gente. Claro que te lembras. Não me lembro de onde te deixaram. Não quis ver. Bom, mas já começo a divagar, como é hábito. Lembras-te. Dizias que eu seria feliz um dia. E eu sorria e mirava os teus olhos ingénuos. E eu dizia-te que já era feliz. Que tu. Isto não dizia. Claro. Não era preciso. Tu percebias. E dizias que não com a cabeça com aquele teu ar trocista. Tu sabias. Que não serias tu que eu. E é isso que te quero ir dizer. Começo a ganhar coragem para franquear aquele portão. Para ir ter contigo. E dizer-te tu sabias.

Mundo novo


[Dürer - O mestre-escola]

Cheirava a terra molhada. Doce da chuva recente. Talvez fizesse frio. A pele arrepiada do gelo matinal. Não me lembro bem. Havia aquele Sol fraco de Outono. Ou não. Só me lembro do cheiro da terra molhada. E da novidade. O gradeamento verde. Ou se calhar não. Não sei se era verde. Talvez fossem apenas os arbustos que o abraçavam. Verdes pontuados de bagas vermelhas. Sim sim. Havia molhos de bagas vermelhas. E aquele arrepio de entusiasmo. Ou de frio. Já falei do gelo matinal. Que não me lembro se. Porque aquilo de que me lembro é da terra molhada. Do cheiro. Do meu mundo novo. Como era. Não me lembro. Foi há demasiado tempo. E no entanto. Sempre aquele cheiro a terra molhada. E a frio. Sim. Estava frio. Muito frio. E era bom.

10.4.07

O abraço

[Wright - Vista do lago de Nemi]

am fuaim mara
Canto de Amergin


Repouso. Braço de mar. Espelho verde tranquilo. Mesmo quando fervilha por dentro. Fiorde. Balança a superfície. Mas tão. Ondas suaves. Afagando as paredes de rocha escura. Quase não mexe. Embalado pelo choro das gaivotas. Ansiando o abraço do grande mar salgado. O beijo das ondas trazidas do oceano. Para se tornarem num só.

9.4.07

Sub arbore

[Claude Lorrain - Árvores]

illa sub arbore ut primum dedimus basium iam firmus eras in pectore meo

Tilia grandifolia

Cheira a futebol. Não sei. A Domingo à noite. Pijama quente. Na televisão os golos do dia. Chávena fumegante. Não sei se é nostalgia. Esta sensação morna no estômago. Quando se jogava ao Domingo à tarde. Agora não. Cheiro doce. Para dormir melhor. Tinha tanto medo. A angústia do dia seguinte. Noites curtas. Adiando o deitar. Como se. Medo do dia. A cama opressiva. E aquele silêncio. Sufocante. Os pensamentos. Não sei em que. Frio no estômago. Os medos. Não passava. A noite. A noite não passava. E eu fugia-lhe. Agarrado àquelas imagens. Preso. O golo. A classificação. A próxima jornada. O golpe no estômago quando acabava a emissão. A chávena fumegante. E depois aquele corredor. O quarto. Não sei se é nostalgia.