27.4.07

pudoris potius memor quam doloris

[Vermeer - Leiteira]

Projecto falhado de tradução da Passio Perpetuae et Felicitatis

Para as raparigas preparou o diabo uma ferocíssima vaca, aprestada de forma diferente do normal, correspondendo ao sexo delas o da besta. Assim foram despidas e apresentadas cobertas de redes finas. Horrorizou-se o povo, ao ver a delicada rapariga, e a outra com as mamas gotejantes, ainda de parto recente. Foram então trazidas, e vestidas com túnicas largas. Perpétua foi arremetida, e caiu de costas. E quando se sentou, puxou a túnica, rasgada de lado, para cobrir a perna, mais preocupada com o pudor do que com a dor. Depois, tendo pedido um gancho, apanhou os cabelos soltos - na verdade não era próprio uma mártir morrer de cabelos soltos, não fosse parecer prantear na hora da sua glória. Assim, levantou-se, e ao ver Felicidade caída, chegou-se a ela, estendeu-lhe uma mão, e levantou-a. E ambas se ficaram de pé. E vencida a dureza do povo, foram levadas até à porta Sanavivária. Ali, Perpétua foi amparada por um catecúmeno, de nome Rústico, que se encostava a ela, e como que desperta do sono (até então estivera em êxtase), começou a olhar à volta, e, para espanto geral, disse: "Quando é que vamos ser levadas a essa tal vaca?". E ao ouvir que isso já acontecera, não acreditou até ver marcas de violência no corpo e na roupa. Então, chamando o irmão e aquele catecúmeno, disse-lhes: "Permanecei firmes na Fé, e amai-vos todos uns aos outros, e não vos escandalizeis com a nossa paixão".

Paixão de Perpétua e Felicidade, XX

puellis autem ferocissimam uaccam ideoque praeter consuetudinem conparatam diabolus praeparauit sexui earum etiam de bestia aemulatus. itaque dispoliatae et reticulis indutae producebantur horruit populus alteram respiciens puellam delicatam alteram a partu recentem stillantibus mammis ita reuocatae et discinctis indutae prior perpetua iactata est et concidit in lumbos et ubi sedit tunicam a latere discissam ad uelamentum femoris reduxit pudoris potius memor quam doloris dehinc acu requisita et dispersos capillos infibulauit non enim decebat martyram sparsis capillis pati ne in sua gloria plangere uideretur ita surrexit et elisam Felicitatem cum uidisset accessit et manum ei tradidit et suscitauit illam et ambae pariter steterunt et populi duritia deuicta reuocatae sunt in portam sanauiuariam illic perpetua a quodam tunc catechumeno rustico nomine qui ei adhaerebat suscepta et quasi a somno expergita adeo in spiritu et in extasi fuerat circumspicere coepit et stupentibus omnibus ait quando inquit producimur ad uaccam illam nescioquam et cum audisset quod iam euenerat non prius credidit nisi quasdam notas uexationis in corpore et habitu suo recognouisset exinde accersitum fratrem suum et illum catechumenum adlocuta est dicens in fide state et inuicem omnes diligite et passionibus nostris ne scandalizemini

Passio Perpetuae et Felicitatis, XX

É como te digo

[Francis Picabia - M'amenez-y]

Deusnossenhormacuda.
Não não não.
E no entanto.
Mas não pode ser.
É como te digo.
Mas quem te contou.
Está-se mesmo a ver.
Pode lá ser.
Não não não.
Ainhanossassenhora.

A dança

[Cézanne - Jardim em Les Lauves]

La vie, c'est comme une dent
D'abord on y a pas pensé
On s'est contenté de mâcher
Et puis ça se gâte soudain
Ça vous fait mal, et on y tient
Et on la soigne et les soucis
Et pour qu'on soit vraiment guéri
Il faut vous l'arracher, la vie

Boris Vian

Deixar de. Porque há dias que. Por mais que os tentemos colher não se deixam apanhar. Voltar à cela por porta angusta. Estendido sobre o catre. Rijo. Olhos no tecto baixo. Contar o tempo que passa e não pára de calcar قلبي . Vehementissime. E esta parede lisa. Tivesse ela rugas. Poderia trepá-la. Chegar ao tecto - e cair outra vez outra. Mas assim. Revolver-me na enxerga. E pensar que. E depois. Não vale a pena. Tentar olhar o céu. E bater com os olhos no tecto negro. E cair desamparado no catre. Porque não há espaço para cair no chão. Ainda que o houvesse. É que não há chão. Catre angusto porta paredes lisas que se beijam umas às outras em amplexo de morte. As quatro. حبيبي suspiram. Que ninguém as ouça. Prontas para me esmagarem em abraço fatal. E eu sinto o catre rijo e lanço os olhos ao tecto negro. Deixar-me ir. Abraço das quatro paredes lisas. Mas entre o catre negro. E o tecto rijo. Não sei. Desistir.

Quod si sal euanuerit

[Van Gogh - Campo de trigo sob céu ameaçador]

Corpo lançado à terra. Semeado de dor. Olhos fechados trancados. Mãos arrepanhadas de mágoa. Rasgar a terra com as unhas comidas. Dedos doridos de tanto rasgar. Regar a terra com lágrimas insípidas. Vos estis sal terrae. Perderam o sal. Gasto. Água só. Eivada de sangue. Que rega a terra rasgada. E o chumbo do céu desfaz-se em torrentes de aço. Carne rasgada de terra que ensopa a boca. Lábios abertos em respiração lenta pausada. Muda. Regam a terra torrentes de lágrimas. Sem sal. Que mais sal não tem o corpo de tanto aguar.

26.4.07

Porfia

[Van Gogh - Caminho com choupos]

Harto de tanta porfía
sostengo bevir tan fuerte
qu'es triste el ánima mía
fasta que venga la muerte

En tus manos la mi vida
encomiendo condenado.
O piedad mereçida!
Por qué m'as desanparado?

Fin hará la profecía
dada por mi mala suerte
qu'es triste el ánima mía
fasta que venga la muerte

(anónimo espanhol, s. XV/XVI)

Caminhos II

[Memling - Vir dolorum]

Não ir. Por ali. Porque. Este vento. Feroz. Veloz. Fosse ele mais forte. E me levasse a alma. Ab immo. E me lavasse a alma. Não. Por ali. Silêncio. Folhas dançantes. Lá vem. Silenciosa. Rasgando-me as entranhas. Sinto-lhe as garras de aço. Outra vez. Sempre. Para sempre. Por ali. Não ir. Não voltar. Estou cansado. Ficar.

Caminhos I

[Memling - Vir dolorum]

Trilhando os caminhos que trilhámos juntos no primeiro dia batidos os caminhos não nós pelo vento que empurra puxa pontapeia mas não dói tanto como esta garra que agora me agarra rebenta o coração sangrante.

Manhã

[Caspar David Friedrich - Mulher à janela]

Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

25.4.07

Imago

[Bosch - Nauis stultifera]

Porque as noites não custam tanto. Porque há o escuro e com o escuro não se vê nada. E quando não se vê nada. Porque a memória é feita de imagens. E as imagens não se vêem no escuro. No escuro só há sono. Depressa vem. O sono. Quando não se vê nada. Porque estão à minha volta. As imagens. E não as vejo nas trevas. E os cheiros. Apagados. Agora já não me atormentam. Porque desapareceram. Mas as imagens. Ai as imagens. Pudesse eu apagá-las. Então escondo-as. Na escuridão. E enrolo-me no ninho. E não vejo nada. Porque as trevas.

As manhãs são o pior. Porque está liberta. A mente. Solta e selvagem. Sem freio. Tomar tomar. Já. Um copo de água. Mas demora a prendê-la domá-la. Cavalo negro indómito arrastando a alma. Platão. No Fedro. Cavalo branco cavalo negro. Alma com rédeas. Anacreonte. Mas sabe. Agora sabe. Mas não interessa. Agora não interessa. Lançar as mãos à alma. Domá-la. A indómita. Agora sossega. Sim. Até à noite.

Porque à noite regressam as trevas e escondem-se as imagens. E vem o sono. E com ele a paz. Não dói. O Rui dizia que não doía. Que dormia para não doer. Mas era uma dor diferente, a dele. Pior. E quando me dói lembro-me dele. E sei que esta dor. Não é uma dor. Não é. Porque não mata. Porque esta dor é uma cócega comparada com a dele. Mas. Pois. Pudesse dormir eu o resto da vida. É que. O pior são as manhãs.

Enquanto não

[Preti - São Sebastião]

Antes de os químicos. Enquanto não controlo. Dura manhã. Pesada. Chumbo no céu. Na alma. Grossas flechas rasgando-me a carne. Voltar aos lençóis. Gelados. Não mais sair. Sangrar o dia. Parar o tempo.

Viagem

[Bosch - Nau dos loucos em chamas]

Porque eu trazia rios de frescura

E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão

E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão

Sophia de Mello Breyner Andresen


Recolher. As velas. Barco atracado. Preso na areia. Velas rasgadas de tempestades muitas. Vela rota espessa de remendo sobre remendo. Embalado pelo vento já não pelo mar. Range rouco rouco. Louco. Dançando lento no vazio. Seco. Beijado pela areia já não pela onda. Velas recolhidas. Acabou. A viagem.

24.4.07

Acordar

[El Greco - El soplón]

Acordar. Abrir os olhos pesados. De sal. Voltar ao frio pesadelo. Apagar a luz. E depois. Voltar ao ninho quente. Agora frio. Molhado.

23.4.07

retrorsum

[Münch - Noite em S. Cloud]

Há dias em que. Se me perguntassem se. Não sei. Talvez. É que. Às vezes parece que tudo. Não sei. Quando já parecia. E agora. Outra vez. Não sei. Ponho-me a pensar se. Porque. Porquê. Há dias em que.

Vou ficar a olhar o mar

[Caspar David Friedrich - Monge junto ao mar]

moi je t'offrirai

des perles de pluie
venues de pays
où il ne pleut pas
je creuserai la terre
jusqu'après ma mort
pour couvrir ton corps
d'or et de lumière
Jacques Brel

Ferida rasgada de novo. Cicatriz arrancada. E agora. Esperar que feche. Mais espessa. Mais feia. E este vazio. Que me sufoca. Olhando à volta. À procura. De quê. Não vale a pena. Gotas salgadas de mar. Plangente. Lavam-me a cara fria marcada do vento. Mãos enterradas na areia. Não vale a pena. Olhos ardentes queimados do Sol. Do sal. Recolher à cela. Não. Vou ficar aqui. A olhar o mar. À espera de nada. Não tenho de esperar. Não voltará. Mas vou ficar. A olhar o mar.

As mãos

[Delacroix - Mar visto de Dieppe]

Mãos


Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Glosa. Côncavas de quem não tem. Mas dá. Porque. Aquele quadro do Arpad. Le seul cadeau que je peux t'offrir. Isto é o que ele diz. Ce que j'ai de plus précieux. Côncavas de tocar. Leves. Longas. De. Não é. Não é de desejo. As mãos não sentem. As mãos não desejam. Falam. As mãos dizem. E não é desejo. É حب. Abandonadas sobre o teu corpo. Quentes. Murmuram. أحبك. Sossegadas. Não prendem. Nunca. Só tocam. Leves. Quietas.