24.4.08

Epistolário XXX

[Brueghel o Jovem - Provérbios (pormenor)]
...
Eu por mim, continuei
Espojado, adormecido,
A existir sem viver.
...
Mário de Sá-Carneiro

André ao seu P. A.

Não deixaste de me habitar a memória. Não me fugiram para outras paragens as primeiras imagens do sono. Ainda és tu que me abres a porta. E me puxas a mão anda anda. Sem que mo digas. Os teus olhos entornados no chão de indiferença.

Quando eu olhava e havia uma luz que. Os dias correm e eu estou mais perto de ti. Havia aquele último peso vergando as estantes. Velho de anos medrosos. O papel e as letras a que me agarrava já têm destino. Agora tomar as forças. E fazer a viagem.

ٳلى اللقاء صديقي

22.4.08

Juvêncio

[El Greco - Retrato de dominicano]

Os teus doces olhos de mel, Juvêncio,
se alguém mos deixar beijar sem parar,
sem parar trezentas mil vezes os beijarei!
Não parecerei vez alguma satisfeito,
nem se mais basta que as secas espigas
for a ceifa dos nossos beijos.
Catulo, XLVIII
mellitos oculos tuos Iuuenti
si quis me sinat usque basiare
usque ad milia basiem trecenta
nec numquam uidear satur futurus
non si densior aridis aristis
sit nostrae seges osculationis

21.4.08

As ondas

[El Greco - Estudo]

Ahogarme en tu cuerpo de letras menudas y en tus olas morirme y vaciarme por fin.

20.4.08

Iterum noctua

[Dürer - Coruja]

(uma coruja, dei com uma coruja entre as copas ou talvez nem uma coruja autêntica mas aquela que o meu terror inventou a partir de um novelo num ramo, pinhas, coagulações de sombra, o que imaginamos em criança no terror de

deixemos isso de parte, já falei tanto de mim, se houver ocasião falo horas e horas quando estiver em Espinho)

António Lobo Antunes, Exortação aos crocodilos

Os olhos cuspidos em cima de mim. Por um segundo hesitei.

Se era do frio da noite. Não é. É mesmo assim. Não te importas. Eu não. E tu. Eu. Se te parasse agora e te sentasse ao meu colo. Agora vou contar-te. Como se diz às crianças. Uma história a minha história. Dos meus medos e das minhas manias. Mas agora não pares. Amanhã.

Se do medo.

17.4.08

Voltei

[El Greco - Frei Hortensio Félix Paravicino]

Como pude esquecer se é que esqueci esquecer-te a pele e os dedos. Que apoiam não apoiam. Tacteiam. Assim. E o teu hálito feroz deitado em mim tão perto. Deixar-te tocar-me pousar-me os teus dedos. Numa carícia veloz enquanto se me entornam na pele molhada.

16.4.08

Epitaphius quintus

[El Greco - El soplón]

não era a idade que a assustava, era a morte, ficar sozinha à noite e esse vento horrível nos choupos, há cadáveres que desaparecem dos cemitérios sabe-se lá para onde

António Lobo Antunes, Exortação aos crocodilos

e se eu te dissesse os gritos que pastam na minha cabeça como as focas no fundo do mar. E a mão que me arranca as entranhas e os dedos e os olhos cuspidos. E a terra na boca e o lodo. Tu sabes. Os dias e as noites. E o peso da terra pesando sobre os meus ossos. Devagargarinho.

Eu disse-te que me queimasses. E tu abriste um buraco em terra que não me tem sido leve.

10.4.08

Afeição

[Dürer - Auto-retrato]

ويهنيه إن مت السلو فإننـــــى

أموت ولي شوق اليه مبـــــرح
ابن عمار الأندلسي
... se eu morrer, fique contigo
uma réstia de consolação.
morrerei mas levarei comigo
a violência toda da minha afeição.

(Ibn 'Ammar al-Andalusi, século XI, Silves. Tradução de Adalberto Alves)

6.4.08

Areia

p1260029

[Redes de pesca. Peniche]
a J.P.

Lembras-te. Havia o mar e a areia dura molhada. No céu não sei. Sabes? Negro onde talvez houvesse estrelas e a Lua. Lembras-te. Eu não. Ou nuvens e pingos de água salgada. Não sei. Não interessa. E a areia dura dura. Disso sim. Molhada lambendo-me os pés calçados com botas negras pesadas. Um dia dei-te a areia dessa noite. E havia o tum tum tum tum do meu coração. Tu lembras-te. Porque me disseste. E eu disse é de estar ao pé de ti. E ficámos calados costas na areia e o frio salgado. Não vi se havia estrelas porque ali só havia o teu calor e o meu coração sem rédea. Depois abracei-te e o teu respiro e o meu. Lembras-te. E a noite morreu e nós com ela.

2.4.08

A profecia

[Bosch - Nauis Stultifera (pormenor)]

«E quando saturares de lágrimas a terra sob os teus pés e meio côvado para baixo, ficarás imediatamente feliz com tudo. E não mais existirá para ti qualquer tristeza. É esta a profecia.»
Dostoiévski, Demónios.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra

29.3.08

Kill the pain . XVIII . Explicit iterum

[Caravaggio - São João Baptista]

À noite havia gritos no ar e eram corujas que me arrancavam as tripas até. E quando eu soube que era uma coruja o medo morreu e as minhas noites tornaram à paz. Fantasmas que me arrancavam da cama e sombras geladas. E afinal uma coruja. Os olhos e o bico tão pequenino.

Havia aquele calor. Sabes. Molhado. E não era isso. Nem as mãos nos cabelos e a saliva morna. Borboletas gigantes e o doce gozo revolto no ventre quente. A culpa e a dor esmagadas vencidas numa luta suada. Pára pára pára. Não disse pensei. Não diria. Nunca. Ah não. Eu não falava. Apertei-lhe a cabeça e rosnei um soluço mudo. Pára pára. Não. Eu tenho uma barriga que vai rebentar de. Se eu não lhe tivesse dito que. A culpa é minha. Qual culpa. Parece que me vai rasgar o peito e saltar cá para fora esguichando vermelho por todo o lado. Arranco-te os cabelos um a um a um a um e tu não gemes. Se eu pudesse falar dizia-te pára pára. Porque agora. Agora agora agora. Depois deitei a cabeça contra o vidro embaciado. E havia uns olhos brancos e um bico.

Kill the pain . XVII . Explicit

[Fra Bartolomeo - Sagrada Família e São João Baptista]

Trinta tijolos trinta e cinco. Acabou.
Não há saída.
Acabou.

Não sei quantos dias se dias se noites. Este delírio de velhos sem boca e os narizes de rato. Se alguma coisa bebi ou cheirei. Pode ser esta falta de luz. Os bolores que se agarram nojentos às mãos podres. Fungos. E o raspa raspa que não pára. Ratos ou. Enrolar-me de novo na manta de malha. E as mãos metidas coladas às pernas. Pijama morno. Depois há uma névoa no ar que foge do copo cheio de chá quente. Preto. E o cheiro azedo do corpo cansado suado e a mão medrosa que sai do pijama e se queima no copo de chá. Coisa pior. Morcegos mochos corujas. Quando eu era pequeno. Já sabes. Um morcego. Ou uma coruja. Já te contei tantas vezes. Mas esta não. Por isso ouve. Saindo da biblioteca da escola com o Darwin na mão. Anda cá. Vem ver. E eu fui. Fazia raspa raspa. Não com a boca porque da boca não lhe sai nada que se possa ouvir. As unhas contra o cartão da caixa prisão. Um morcego negro e peludo. Pequenino. Anda. Dá-mo. Não disse. Pensei. Eu não falava. Só olhos e boca. E as pessoas olhavam com pena e pensavam coitadinho é parvinho. Às vezes diziam. E eu corava e apertava os lábios e não dizia nada. Um dia vais ver. Um dia vão ver todos. Desci as escadas com o Darwin e fui para casa enterrar-me no sofá ou na cama ou noutro sítio qualquer. Como um rato com asas. Se mo tivesse dado. Abria-lhe a caixa e soltava-o no meu quarto. De dia dormíamos os dois.

28.3.08

As algas

[Munch - Desespero]

Sacode as mãos assim. Depressa. O que é isso. Onde as. Há-de haver maneira. No mar. Lá em baixo. E uma noite ان شاء الله uma noite assim daquelas de céu cinzento. Para me poder ver. Os braços partidos ao longo do corpo. E a espuma salgada indo e vindo lambendo-me a cabeça. Negra de. Porque se beijasse não era assim. Sangue podre e algas.

27.3.08

Hic fuimus cari duo nos sine fine sodales

[George Calec Bingham - Comerciantes de peles descendo o Missouri]

à quoi bon les sanglots inonder les coussins
(cantado por Alex Beaupain)

Se fosse apenas a memória uma memória suja num rio. Se eu tivesse a ingenuidade de achar que não podia viver sem. Mas posso. E não quero. E por isso as noites já não me são o que. As águas calmas de esquecimento. De lama.

Dantes era o riso traquinas. Morno morno afagando-me as mãos e o queixo e os lábios que nunca beijei. Quando a pele encostada na tua. E o quente do teu hálito morno e a barriga tremente vibrando a tua voz baixa. Lembras-te. Agora. Os teus olhos negros gelados. E a barba negra longa tão longe da lixa que me arrancava a pele quando. Os teus lábios nunca me tocaram. Tão perto.

Sem ti.

Levantaste-os quieto. Porque sabes. Quando durmo não sinto dor. Sei. A que derramas sem parar. E as noites eram-me a fuga. Quando o mundo parava e era como se. Tu sabes.

À quoi bon les sanglots. Et pourtant. Je ne peux pas m'empecher de.

25.3.08

Ma mémoire sale



Lave
Ma mémoire sale dans ce fleuve de boue,
Du bout de ta langue nettoie-moi partout,
Et ne laisse pas la moindre trace
De tout
Ce qui me lie et qui me lasse
Hélas!

Chasse,
Traque-la en moi, ce n'est qu'en moi qu'elle vit,
Et lorsque tu la tiendras au bout de ton fusil,
N'écoute pas si elle t'implore,
Tu sais
Qu'elle doit mourir d'une deuxième mort
Alors,
Tue la... encore.

Pleure!
Je l'ai fait avant toi et ça ne sert à rien,
À quoi bon les sanglots inonder les coussins?
J'ai essayé, j'ai essayé
Mais j'ai
Le coeur sec et les yeux gonflés
Mais j'ai
Le coeur sec et les yeux gonflés

Alors brûle!
Brûle quand tu t'enlises dans mon grand lit de glace
Mon lit comme une banquise qui fond quand tu m'enlaces
Plus rien n'est triste
Plus rien n'est grave
Si j'ai...
Ton corps comme un tourrent de lave
Ma mémoire sale dans son fleuve de boue
Lave!

Lave!
Lave!
Ma mémoire sale dans ce fleuve de boue
Lave!

Alex Beaupain

22.3.08

Περίλυπός ἐστιν ἡ ψυχή μου ἕως θανάτου

[Munch - Auto-retrato no inferno]

Harto de tanta porfia

sostengo bevir tan fuerte
qu'es triste el anima mia
fasta que venga la muerte
(anónimo espanhol, s. XV/XVI)


περίλυπός ἐστιν ἡ ψυχή μου ἕως θανάτου
Mc. 14:34

Farto de tanto lutar de tanto viver esta guerra sem descanso. E olhar-me as mãos e querer arrancá-las uma e a outra. Com os dentes que me ardem. Os dentes não ardem. Os meus ardem. Devagarinho. De fora para dentro. E abrir os olhos e ver afinal está ali. Nunca esteve. E agora o que resta. Quando já nem as noites dormidas.