12.5.08
6.5.08
Pastor
pastoreando bocados de medo enquanto a noite cornuda me esmaga em postas de garras tossindo o sangue e a dor de entranhas e olhos chovendo a pasta branca dos meus terrores e os urros senhores e os urros de um crânio apertado em tenazes de bronze vomitando a gosma negra da merda da minha sim e eu aqui
Maré
«Não apague a luz: quando você sair a casa aumentará inevitavelmente de tamanho, transformando-se numa espécie de piscina sem água em que os sons se ampliam e ecoam, agressivos, retesos, enormes, batendo-me violentamente contra o corpo como as marés do equinócio na muralha da praia, rolando sobre mim espumas foscas de sílabas.»António Lobo Antunes, Os cus de Judas
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1.5.08
O medo
à memória do Rui
«O prédio que constroem à minha frente emparedar-me-á em breve à maneira das personagens de Poe e somente os meus dentes cintilarão nas trevas, como os dos esqueletos antigos acocorados num ângulo de caverna, a abraçarem os ossos dos joelhos com os tendões amarelecidos dos cotovelos.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas
Quando a morte te perseguia pegavas no carro e ias deitar a cabeça fora. Depois chegavas lento de olhos esmagados de um medo ferrugento oxidado. Tiravas o pé do pedal e despejavas devagarinho o olhar. E assim quando os teus olhos alfim se punham nos meus eram duas bolas macias e mortas e a morte lambia-me o peito e rosnava venci.
30.4.08
Afogado
«Queria pedir-lhe que não saísse daqui, me acompanhasse, ficasse comigo deitada aguardando não só a manhã mas a próxima noite, e a outra noite, e a noite seguinte, porque o isolamento e a solidão se me enrolam nas tripas, no estômago, nos braços, na garganta, me impedem de me mover e de falar, me tornam num vegetal agoniado incapaz de um grito ou de um gesto, à espera do sono que não chega. Fique comigo até que eu, finalmente, adormeça, me afaste de si numa dessas inexplicáveis reptações frouxas com que os afogados oscilam nas vazantes, me estenda de bruços, de boca na almofada, babando na barriga da fronha palavras indistintas, me afunde no poço pantanoso de uma espécie de morte, a ressonar o meu grosso coma de pastilhas e de álcool.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas
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26.4.08
O sonho
Дверь, как и тогда, отворилась на крошечную щелочку, и опять два вострые и недоверчивые взгляда уставились на него из темноты. Тут Раскольников потерялся и сделал было важную ошибку.
Федор Достоевский, Преступление и наказание, 1, 7
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24.4.08
Epistolário XXX
...
Eu por mim, continuei
Espojado, adormecido,
A existir sem viver.
...
Mário de Sá-Carneiro
Eu por mim, continuei
Espojado, adormecido,
A existir sem viver.
...
Mário de Sá-Carneiro
André ao seu P. A.
Não deixaste de me habitar a memória. Não me fugiram para outras paragens as primeiras imagens do sono. Ainda és tu que me abres a porta. E me puxas a mão anda anda. Sem que mo digas. Os teus olhos entornados no chão de indiferença.
Quando eu olhava e havia uma luz que. Os dias correm e eu estou mais perto de ti. Havia aquele último peso vergando as estantes. Velho de anos medrosos. O papel e as letras a que me agarrava já têm destino. Agora tomar as forças. E fazer a viagem.
ٳلى اللقاء صديقي
Não deixaste de me habitar a memória. Não me fugiram para outras paragens as primeiras imagens do sono. Ainda és tu que me abres a porta. E me puxas a mão anda anda. Sem que mo digas. Os teus olhos entornados no chão de indiferença.
Quando eu olhava e havia uma luz que. Os dias correm e eu estou mais perto de ti. Havia aquele último peso vergando as estantes. Velho de anos medrosos. O papel e as letras a que me agarrava já têm destino. Agora tomar as forças. E fazer a viagem.
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Mário de Sá-Carneiro
22.4.08
Juvêncio
Os teus doces olhos de mel, Juvêncio,
se alguém mos deixar beijar sem parar,
sem parar trezentas mil vezes os beijarei!
Não parecerei vez alguma satisfeito,
nem se mais basta que as secas espigas
for a ceifa dos nossos beijos.
Catulo, XLVIII
mellitos oculos tuos Iuuenti
si quis me sinat usque basiare
usque ad milia basiem trecenta
nec numquam uidear satur futurus
non si densior aridis aristis
sit nostrae seges osculationis
si quis me sinat usque basiare
usque ad milia basiem trecenta
nec numquam uidear satur futurus
non si densior aridis aristis
sit nostrae seges osculationis
21.4.08
20.4.08
Iterum noctua
(uma coruja, dei com uma coruja entre as copas ou talvez nem uma coruja autêntica mas aquela que o meu terror inventou a partir de um novelo num ramo, pinhas, coagulações de sombra, o que imaginamos em criança no terror de
deixemos isso de parte, já falei tanto de mim, se houver ocasião falo horas e horas quando estiver em Espinho)
António Lobo Antunes, Exortação aos crocodilos
Os olhos cuspidos em cima de mim. Por um segundo hesitei.
Se era do frio da noite. Não é. É mesmo assim. Não te importas. Eu não. E tu. Eu. Se te parasse agora e te sentasse ao meu colo. Agora vou contar-te. Como se diz às crianças. Uma história a minha história. Dos meus medos e das minhas manias. Mas agora não pares. Amanhã.
Se do medo.
Se era do frio da noite. Não é. É mesmo assim. Não te importas. Eu não. E tu. Eu. Se te parasse agora e te sentasse ao meu colo. Agora vou contar-te. Como se diz às crianças. Uma história a minha história. Dos meus medos e das minhas manias. Mas agora não pares. Amanhã.
Se do medo.
17.4.08
Voltei
Como pude esquecer se é que esqueci esquecer-te a pele e os dedos. Que apoiam não apoiam. Tacteiam. Assim. E o teu hálito feroz deitado em mim tão perto. Deixar-te tocar-me pousar-me os teus dedos. Numa carícia veloz enquanto se me entornam na pele molhada.
16.4.08
Epitaphius quintus
não era a idade que a assustava, era a morte, ficar sozinha à noite e esse vento horrível nos choupos, há cadáveres que desaparecem dos cemitérios sabe-se lá para onde
António Lobo Antunes, Exortação aos crocodilos
e se eu te dissesse os gritos que pastam na minha cabeça como as focas no fundo do mar. E a mão que me arranca as entranhas e os dedos e os olhos cuspidos. E a terra na boca e o lodo. Tu sabes. Os dias e as noites. E o peso da terra pesando sobre os meus ossos. Devagargarinho.
Eu disse-te que me queimasses. E tu abriste um buraco em terra que não me tem sido leve.
e se eu te dissesse os gritos que pastam na minha cabeça como as focas no fundo do mar. E a mão que me arranca as entranhas e os dedos e os olhos cuspidos. E a terra na boca e o lodo. Tu sabes. Os dias e as noites. E o peso da terra pesando sobre os meus ossos. Devagargarinho.
Eu disse-te que me queimasses. E tu abriste um buraco em terra que não me tem sido leve.
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Sequentiae
10.4.08
Afeição
ويهنيه إن مت السلو فإننـــــى
أموت ولي شوق اليه مبـــــرح
ابن عمار الأندلسي
... se eu morrer, fique contigoابن عمار الأندلسي
uma réstia de consolação.
morrerei mas levarei comigo
a violência toda da minha afeição.
(Ibn 'Ammar al-Andalusi, século XI, Silves. Tradução de Adalberto Alves)
6.4.08
Areia
[Redes de pesca. Peniche]
a J.P.2.4.08
A profecia
«E quando saturares de lágrimas a terra sob os teus pés e meio côvado para baixo, ficarás imediatamente feliz com tudo. E não mais existirá para ti qualquer tristeza. É esta a profecia.»
Dostoiévski, Demónios.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
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