4.6.08

Seruum tuum

[Caravaggio - O martírio de São Mateus (pormenor)]

I guess this is it. We're gonna die today.
Yeah, I've never even kissed anybody. Have you?

Elephant
, de Gus Van Sant


Com os olhos remexia os lençóis. Vincos doridos vazios de uma cama acabada de acordar. E eu sabia que estavas ali. Ele está ali quer que o acorde. Não quero não quero. Onde é que. Porque um dia me disseste enquanto durmo não sinto a dor. A dor que agora te rasga em silêncio as tripas. Indiferente ao teu sono invisível. Já não vejo nem ouço. Ai o calor violento do teu quarto. E a cama a cama onde me sentava e me agarrava e doía sabes e doía para não te agarrar para não te abraçar com toda a força do meu terror e te dizer adoro-te adoro-te não me deixes. Adoro-te. Onde estás. Há uma mão que agarra o lençol como se. Estás ali. Como se lhe acusasse um a um os dias os anos os meses de medo da morte. Mais nada. E umas pernas. Agora sim agora consigo ver-te. Não eram vincos em lençóis enrodilhados. És tu. Uma ruga retorcida de dor. Recolhi os olhos. Não não não o acorde. Eu só queria ver-te.

A noite

[Goya - Fogo nocturno]
«Cada vez mais fui prolongando as madrugadas e encurtando os dias, na esperança de que uma noite perpétua me lançasse um púdico véu de sombra nas bochechas esverdeadas: esta cidade absurda, onde os azulejos multiplicam e devolvem a mínima parcela de claridade num jogo de espelhos sem fim, e onde os objectos vogam suspensos na luz como nos quadros de Matisse, obrigava-me a tropeçar de quarto em quarto à maneira de uma borboleta entontecida, passando uma palma mole pela lixa repelente da barba.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas

1.6.08

Nunc dimittis

[Caravaggio - O chamamento de São Mateus]

nunc dimittis seruum tuum domine secundum uerbum tuum in pace
Lc 2:29

Via-te em sonhos agora vejo-te em ruas pisadas de um tédio desesperado. Não é figura de. Não. Vejo-te mesmo. Os olhos brilhantes a barba dura de dois dias o andar gingão. E eu sei que és tu porque tu páras e deitas-me um sorriso perdido. Como quando me sentava ao teu lado na cama e te olhava e te via nos olhos o medo a comer-te as entranhas. Depois desistias. O corpo caído na cama fechavas os olhos para eu não te ver. Às vezes escorriam-te da boca sussurros roucos que eu não entendia. Depois viras a cara e então já não és tu. É outro. Tão diferente. Por isso eu sei que és tu. Não é uma miragem. És tu. E sabes. Nesses momentos em que me deitas o teu sorriso perdido. E te vejo de novo nos olhos a dor que te. A sério. Já não estou cá.

29.5.08

The frumious Bandersnatch!

[John Tenniel - Jabberwock]

`Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe:
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.

"Beware the Jabberwock, my son!
The jaws that bite, the claws that catch!
Beware the Jubjub bird, and shun
The frumious Bandersnatch!"

He took his vorpal sword in hand:
Long time the manxome foe he sought -
So rested he by the Tumtum tree,
And stood awhile in thought.

And, as in uffish thought he stood,
The Jabberwock, with eyes of flame,
Came whiffling through the tulgey wood,
And burbled as it came!

One, two! One, two! And through and through
The vorpal blade went snicker-snack!
He left it dead, and with its head
He went galumphing back.

"And, has thou slain the Jabberwock?
Come to my arms, my beamish boy!
O frabjous day! Callooh! Callay!'
He chortled in his joy.

`Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe;
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.

Lewis Carroll

24.5.08

Cobra

[Velázquez - Los Borrachos]

Enrolado em mim cobra de olhos mortos que olham para lado nenhum. O corpo mole pesado erguido do chão em soluços arrítmicos. Esmagando-me o peito enquanto me enlaça e me afagam as mãos

Como aquela vez em que. Sempre tive vergonha. Tu sabes. São coisas minhas. Nossas. Mas agora que importa. Em que não sei se era o álcool se um pretexto. Porque é que tu nunca me falaste disto. Porque é que nunca reagiste. Podias ter dito pára. Ou o que é que tu queres. E se só depois te tivesses dado conta. Não gostei. Que ideia foi a tua. Qualquer coisa. Gritar. Fugir. Mas não o silêncio. Como se nada. E eu despejava nos teus os meus. Os olhos. Suplicantes. À espera de um sim de um não. De um murro até. Sabes. Como aqueles que distribuías a estranhos. Eu nem a isso tive direito. E eu merecia. Podias ter-te virado para trás. Questamerda. Toma. Lembras-te. Eu não. Só do teu corpo cuspido no meu. E da pressão tu sabes a pressão. O meu pequeno embaraço. صغير . Rasgando-te as costas delírio impensado. E tu nem um pára nem um questamerda nem um. Um sonho sabes um sonho de merda. Para depois abrir os olhos e ver-te ali. Dois montinhos enrugando o lençol ao fundo da.

pesadas torpentes de vinho cansado. E o doce húmido que te escorre da boca e eu devia virar a cabeça e fugir-te os murmúrios etílicos. Sinto-te o corpo molhado uma lata de cerveja bebida trepando-me sem parar sem pudor. Os teus anéis fortes expulsando-me as entranhas do lugar e cada vez me é mais difícil res. Respirar e não é do teu aperto quer dizer sim é do teu aperto mas não é a força que tu fazes é o teu calor e o meu embaraçoصغير sim sim o meu pequeno embaraço espero que não repares. E se reparares. A culpa é tua. Dos teus lábios. Os teus lábios cheiram a mosto e a fumo e àquele cheiro azedo do fim da noite e se eu pudesse morder-tos até gemeres outra vez como agora enquanto me entornas os teus olhos vermelhos garganta abaixo. Sabem a vinho negro pastoso. Os lábios de carne tremida que se abrem e se fecham colados quase quase colados aos meus. Pára por favor. Porque se tu não queres então porque me torturas assim.

21.5.08

A sombra

[Bosch - O Dia do Juízo (painel direito)]

«One by one, they were all becoming shades. Better pass boldly into that other world, in the full glory of some passion, than fade and wither dismally with age.»

James Joyce, The Dead

18.5.08

حب

[Bosch - Santa Inês e o doador (pormenor)]

Enquanto me afogas no aço cru dos teus olhos e a onda que eu cria morta se ergue de novo e me esmaga em areias de fúria.

17.5.08

Sítio

A série Purga foi publicada, em versão sequencial e completa, no número 4 da revista Sítio, ontem apresentada na livraria Trama, em Lisboa.

13.5.08

Maré baixa

[Bosch - Santa Inês e o doador (pormenor)]

É uma solidão feita de lama amassada no recolher da esperança. A parede negra do fumo dos teus cigarros, um bolor entediado escorrendo dedos de medo. E eu os olhos despejados no dia pastoso que me esmaga o peito. Do copo o cheiro da morte que vem hoje amanhã não sei. Porque enquanto esfrego a mesa com o olhar e penso no dia na hora em que tu e eu. Descem-me as horas sobre a cabeça e eu vou-me dormindo à espera de que o dia passe. Este e o outro. O de amanhã. Porque enquanto os dias não deixarem de passar.

12.5.08

Agonia

[El Greco - Agonia no Horto (pormenor)]
«Como quando se tosse nas garagens à noite, pensei, e se sente o peso insuportável da própria solidão, nas orelhas, sob a forma de estampidos reboantes, idênticos ao pulsar das têmporas no tambor do travesseiro.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas

6.5.08

Pastor

[Bosch - Inferno (pormenor)]

pastoreando bocados de medo enquanto a noite cornuda me esmaga em postas de garras tossindo o sangue e a dor de entranhas e olhos chovendo a pasta branca dos meus terrores e os urros senhores e os urros de um crânio apertado em tenazes de bronze vomitando a gosma negra da merda da minha sim e eu aqui

Maré

[Blake - Hécate]
«Não apague a luz: quando você sair a casa aumentará inevitavelmente de tamanho, transformando-se numa espécie de piscina sem água em que os sons se ampliam e ecoam, agressivos, retesos, enormes, batendo-me violentamente contra o corpo como as marés do equinócio na muralha da praia, rolando sobre mim espumas foscas de sílabas.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas

1.5.08

O medo

[Caravaggio - Flagelação]

à memória do Rui

«O prédio que constroem à minha frente emparedar-me-á em breve à maneira das personagens de Poe e somente os meus dentes cintilarão nas trevas, como os dos esqueletos antigos acocorados num ângulo de caverna, a abraçarem os ossos dos joelhos com os tendões amarelecidos dos cotovelos.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas


Quando a morte te perseguia pegavas no carro e ias deitar a cabeça fora. Depois chegavas lento de olhos esmagados de um medo ferrugento oxidado. Tiravas o pé do pedal e despejavas devagarinho o olhar. E assim quando os teus olhos alfim se punham nos meus eram duas bolas macias e mortas e a morte lambia-me o peito e rosnava venci.

30.4.08

Afogado

[Van Gogh - Caminho com choupos]

«Queria pedir-lhe que não saísse daqui, me acompanhasse, ficasse comigo deitada aguardando não só a manhã mas a próxima noite, e a outra noite, e a noite seguinte, porque o isolamento e a solidão se me enrolam nas tripas, no estômago, nos braços, na garganta, me impedem de me mover e de falar, me tornam num vegetal agoniado incapaz de um grito ou de um gesto, à espera do sono que não chega. Fique comigo até que eu, finalmente, adormeça, me afaste de si numa dessas inexplicáveis reptações frouxas com que os afogados oscilam nas vazantes, me estenda de bruços, de boca na almofada, babando na barriga da fronha palavras indistintas, me afunde no poço pantanoso de uma espécie de morte, a ressonar o meu grosso coma de pastilhas e de álcool.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas

26.4.08

O sonho

[J. J. Grandville - Sonho de Crime e Castigo]

Дверь, как и тогда, отворилась на крошечную щелочку, и опять два вострые и недоверчивые взгляда уставились на него из темноты. Тут Раскольников потерялся и сделал было важную ошибку.
Федор Достоевский, Преступление и наказание, 1, 7