10.6.08
9.6.08
Kill the pain . XIX . nondum explicit
And everything you got hoi-poloi like
Now you're lost and you're lethal
(cantado por Massive Attack)
Now you're lost and you're lethal
(cantado por Massive Attack)
'Já acabou senhor.'
'Já acabei o quê.'
'De sonhar.'
Sonho sono somnum. Habes somnum. Por isso as luzes nos olhos. Pirilampos picantes. E o anel de fogo. Nos meus olhos. Não agora. Agora não. Agora só os pirilampos pic pic pic. Por todo o lado. Dizem que é porque. Mas na altura. Se calhar porque me levantava tão cedo. Quê. Seis da manhã. Noite. E o frio frio. Depois fechava os olhos. Com força. Apagar o fogo. Que me esmagava as pálpebras. O anel de fogo. O que era aquilo. Uma doença. Não sei. Não sei nada. Depois abria. Os olhos. Entornava-me cama abaixo. Escorria pelo chão. Quarto tabágico sabes. O fedor das beatas destilando putrefacções. Sim e os pulmões amachucados doíam devagarinho. Uma morrinha negra de القطران pinga pinga. Negro viscoso. Que nojo. O que é. Alcatrão. Se me abrissem ai o cheiro. Abro a janela de noite e não serve de nada. Este fedor. Que me mastiga os pulmões. Já não tenho forças. Custa tanto. Respirar.
Se eu fechar os olhos. Embalado pelo ronronar do esquentador. Enquanto a banheira enche. E o estômago resmunga. Na cozinha há pão. Se eu. Não. Agora fechar os olhos. Sonhar que o dia acabou. E que isto é a minha cama. Não a borda dura da banheira. E que já cozi as minhas carnes na água quente. Cozi. Cozer parece um bacalhau. Quero dizer. O z. Era assim que eu pensava. O z manuscrito parece um bacalhau cortado ao meio. E o bacalhau coze-se. Não se cose. Porque o s parece uma agulha com a linha pendurada. O manuscrito. E o botão cose-se. Não se coze. E que a água já me arrancou as remelas teimosas. Para quê toda esta teoria de. Tirar os cheiros. Que ofendem o senhor militar. Já contei isto. Não me lembro. Abrir os braços e a cara de incómodo. Que foi. Cheiro mal. Eu sei. Não me deixaram tomar duche. Que queria o senhor. Acordaram-me com caralhos foda-se toca a despachar. Nem a cara me deixaram. E depois ontem sabe ontem estava tanto calor e à noite houve copos. Assim tome lá este fedor de suor e álcool requentado. Absinto. Podia ser pior. Imagine que entrei neste quartel nos braços de dois militares. Não não não se assuste. Eu não gosto de fardas. Mas não me aguentava em pé. Por isso tome lá este fedor de suor e álcool temperado com uma valente dor de cabeça. Mas eu não cheiro mal. Este gelo. Com a cara sobre a água quente. O vapor lambendo-me a pele. Entrar. De joelhos. O calor sonolento que me envolve as pernas. Como se fosse rezar. Até de manhã. Ficava aqui até amanhã.
Se eu fechar os olhos. Embalado pelo ronronar do esquentador. Enquanto a banheira enche. E o estômago resmunga. Na cozinha há pão. Se eu. Não. Agora fechar os olhos. Sonhar que o dia acabou. E que isto é a minha cama. Não a borda dura da banheira. E que já cozi as minhas carnes na água quente. Cozi. Cozer parece um bacalhau. Quero dizer. O z. Era assim que eu pensava. O z manuscrito parece um bacalhau cortado ao meio. E o bacalhau coze-se. Não se cose. Porque o s parece uma agulha com a linha pendurada. O manuscrito. E o botão cose-se. Não se coze. E que a água já me arrancou as remelas teimosas. Para quê toda esta teoria de. Tirar os cheiros. Que ofendem o senhor militar. Já contei isto. Não me lembro. Abrir os braços e a cara de incómodo. Que foi. Cheiro mal. Eu sei. Não me deixaram tomar duche. Que queria o senhor. Acordaram-me com caralhos foda-se toca a despachar. Nem a cara me deixaram. E depois ontem sabe ontem estava tanto calor e à noite houve copos. Assim tome lá este fedor de suor e álcool requentado. Absinto. Podia ser pior. Imagine que entrei neste quartel nos braços de dois militares. Não não não se assuste. Eu não gosto de fardas. Mas não me aguentava em pé. Por isso tome lá este fedor de suor e álcool temperado com uma valente dor de cabeça. Mas eu não cheiro mal. Este gelo. Com a cara sobre a água quente. O vapor lambendo-me a pele. Entrar. De joelhos. O calor sonolento que me envolve as pernas. Como se fosse rezar. Até de manhã. Ficava aqui até amanhã.
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Cold sweatin' as I dwell in my cell
Martina:
I got a letter from the government
The other day
Opened it and read it
It said they were suckers
They wanted me for their army or whatever
Picture me givin' a damn, I said never
Here is a land that never gave a damn
About a brother like myself
Because I never did
I wasn't wit' it, but just that very minute...
It occurred to me
The suckers had authority
Cold sweatin' as I dwell in my cell
How long has it been?
They got me sittin' in the state pen
I gotta get out, but that thought was thought before
I contemplated a plan on the cell floor
I'm not a fugitive on the run
But a brother like me begun, to be another one
Public enemy servin' time, they drew the line y'all
They criticize me for some crime
I got a letter, I got a letter, I got a letter
Picture me given' a damn, I said never
Mmm...mmm...mmm
It occurred to me
The suckers had authority
Cold sweatin' as I dwell in my cell
How long has it been?
They got me sittin' in the state pen
I gotta get out, but that thought was thought before
I got a letter from the government
The other day
Opened it and read it
It said they were suckers
They wanted me for their army or whatever
Picture me givin' a damn, I said never
Here is a land that never gave a damn
About a brother like me and myself
Because I never did
I wasn't wit' it, but just that very minute...
It occurred to me
The suckers had authority
Cold sweatin' as I dwell in my cell
How long has it been?
They got me sittin' in the state pen
I gotta get out, but that thought was thought before
I contemplated a plan on the cell floor
I'm not a fugitive on the run
I'm not a fugitive on the run
Tricky:
Many switch in, switch on, switch off X5
Martina:
Nevertheless they could not understand
That I'm a black man, and I could never be a veteran.
On the strength of situations, I'm real.
I got a raw deal, so I'm lookin' for the steel
Looking for the steel.
I got a letter from the government
The other day
Opened and read it
It said they were suckers
They wanted me for their army or whatever
Picture me givin' a damn, I said never
Here is a land that never gave a damn
About a brother like me and myself
Because they never did
I wasn't wit' it, but just that very minute...
It occurred to me
The suckers had authority
Cold sweatin' as I dwell in my cell
How long has it been?
They got me sittin' in the state pen
I gotta get out, but that thought was thought before
I contemplated a plan on the cell floor
I'm not a fugitive on the run
I'm not, I'm not
I'm not a fugitive on the run
But a brother like me begun, to be another one
Public enemy servin' time, they drew the line y'all
To criticize me for some crime
I got a letter from the government
The other day
Opened it and read it
It said they were suckers
They wanted me for their army or whatever
Picture me givin' a damn, I said never
Here is a land that never gave a damn
About a brother like me and myself
Because I never did
I wasn't wit' it, but just that very minute...
Mmm...mmm...mmm...mmm
I got a letter from the government
The other day
Opened it and read it
It said they were suckers
They wanted me for their army or whatever
Picture me givin' a damn, I said never
Here is a land that never gave a damn
7.6.08
A noite
Ainda se me zanga o sangue nos ouvidos. E os móveis protestam de tédio em soluços aflitos. Esta noite nunca mais acaba.
A zanga
Um dia pensei que se me rebentava a cabeça. Não de dor. Naqueles tempos ainda não me doía a cabeça. Era só o zumbido. O rezingar do sangue mastigando o silêncio da noite. Vazando zanga de um ouvido para o outro. Dois ouvidos sussurrantes. Zangados. Um com o outro. Os dois comigo. A seguir sim a seguir doeu-me a cabeça. Quando me deitava e parecia que os miolos se lançavam sobre os lençóis. Como se o osso se abrisse. E me abandonassem. Entregue aos meus terrores. Sozinho. Sempre sozinho. Mas então não. Era só o zumbido. Sempre sempre mais alto. A subir-me pelas entranhas acima. Até não conseguir ouvir mais nada. Só a zanga do sangue a ferver-me a cabeça. Um dia rebenta. Pensava eu. E depois haverá miolos a pastar no branco enojado do meu lençol.
6.6.08
An itch of death
«Coffined thoughts around me, in mummycases, embalmed in spice of words. Thoth, god of libraries, a birdgod, moonycrowned. And I heard the voice of that Egyptian highpriest. In painted chambers loaded with tilebooks. They are still. Once quick in the brains of men. Still: but an itch of death is in them, to tell me in my ear a maudlin tale, urge me to wreak their will.»James Joyce, Ulysses
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4.6.08
Seruum tuum
[Caravaggio - O martírio de São Mateus (pormenor)]I guess this is it. We're gonna die today.
Yeah, I've never even kissed anybody. Have you?
Elephant, de Gus Van Sant
Yeah, I've never even kissed anybody. Have you?
Elephant, de Gus Van Sant
Com os olhos remexia os lençóis. Vincos doridos vazios de uma cama acabada de acordar. E eu sabia que estavas ali. Ele está ali quer que o acorde. Não quero não quero. Onde é que. Porque um dia me disseste enquanto durmo não sinto a dor. A dor que agora te rasga em silêncio as tripas. Indiferente ao teu sono invisível. Já não vejo nem ouço. Ai o calor violento do teu quarto. E a cama a cama onde me sentava e me agarrava e doía sabes e doía para não te agarrar para não te abraçar com toda a força do meu terror e te dizer adoro-te adoro-te não me deixes. Adoro-te. Onde estás. Há uma mão que agarra o lençol como se. Estás ali. Como se lhe acusasse um a um os dias os anos os meses de medo da morte. Mais nada. E umas pernas. Agora sim agora consigo ver-te. Não eram vincos em lençóis enrodilhados. És tu. Uma ruga retorcida de dor. Recolhi os olhos. Não não não o acorde. Eu só queria ver-te.
A noite
«Cada vez mais fui prolongando as madrugadas e encurtando os dias, na esperança de que uma noite perpétua me lançasse um púdico véu de sombra nas bochechas esverdeadas: esta cidade absurda, onde os azulejos multiplicam e devolvem a mínima parcela de claridade num jogo de espelhos sem fim, e onde os objectos vogam suspensos na luz como nos quadros de Matisse, obrigava-me a tropeçar de quarto em quarto à maneira de uma borboleta entontecida, passando uma palma mole pela lixa repelente da barba.»António Lobo Antunes, Os cus de Judas
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1.6.08
Nunc dimittis
nunc dimittis seruum tuum domine secundum uerbum tuum in pace
Lc 2:29
29.5.08
The frumious Bandersnatch!
Did gyre and gimble in the wabe:
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.
"Beware the Jabberwock, my son!
The jaws that bite, the claws that catch!
Beware the Jubjub bird, and shun
The frumious Bandersnatch!"
He took his vorpal sword in hand:
Long time the manxome foe he sought -
So rested he by the Tumtum tree,
And stood awhile in thought.
And, as in uffish thought he stood,
The Jabberwock, with eyes of flame,
Came whiffling through the tulgey wood,
And burbled as it came!
One, two! One, two! And through and through
The vorpal blade went snicker-snack!
He left it dead, and with its head
He went galumphing back.
"And, has thou slain the Jabberwock?
Come to my arms, my beamish boy!
O frabjous day! Callooh! Callay!'
He chortled in his joy.
`Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe;
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.
Lewis Carroll
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24.5.08
Cobra
Enrolado em mim cobra de olhos mortos que olham para lado nenhum. O corpo mole pesado erguido do chão em soluços arrítmicos. Esmagando-me o peito enquanto me enlaça e me afagam as mãos
Como aquela vez em que. Sempre tive vergonha. Tu sabes. São coisas minhas. Nossas. Mas agora que importa. Em que não sei se era o álcool se um pretexto. Porque é que tu nunca me falaste disto. Porque é que nunca reagiste. Podias ter dito pára. Ou o que é que tu queres. E se só depois te tivesses dado conta. Não gostei. Que ideia foi a tua. Qualquer coisa. Gritar. Fugir. Mas não o silêncio. Como se nada. E eu despejava nos teus os meus. Os olhos. Suplicantes. À espera de um sim de um não. De um murro até. Sabes. Como aqueles que distribuías a estranhos. Eu nem a isso tive direito. E eu merecia. Podias ter-te virado para trás. Questamerda. Toma. Lembras-te. Eu não. Só do teu corpo cuspido no meu. E da pressão tu sabes a pressão. O meu pequeno embaraço. صغير . Rasgando-te as costas delírio impensado. E tu nem um pára nem um questamerda nem um. Um sonho sabes um sonho de merda. Para depois abrir os olhos e ver-te ali. Dois montinhos enrugando o lençol ao fundo da.
pesadas torpentes de vinho cansado. E o doce húmido que te escorre da boca e eu devia virar a cabeça e fugir-te os murmúrios etílicos. Sinto-te o corpo molhado uma lata de cerveja bebida trepando-me sem parar sem pudor. Os teus anéis fortes expulsando-me as entranhas do lugar e cada vez me é mais difícil res. Respirar e não é do teu aperto quer dizer sim é do teu aperto mas não é a força que tu fazes é o teu calor e o meu embaraçoصغير sim sim o meu pequeno embaraço espero que não repares. E se reparares. A culpa é tua. Dos teus lábios. Os teus lábios cheiram a mosto e a fumo e àquele cheiro azedo do fim da noite e se eu pudesse morder-tos até gemeres outra vez como agora enquanto me entornas os teus olhos vermelhos garganta abaixo. Sabem a vinho negro pastoso. Os lábios de carne tremida que se abrem e se fecham colados quase quase colados aos meus. Pára por favor. Porque se tu não queres então porque me torturas assim.
21.5.08
A sombra
«One by one, they were all becoming shades. Better pass boldly into that other world, in the full glory of some passion, than fade and wither dismally with age.»
James Joyce, The Dead
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18.5.08
17.5.08
13.5.08
Maré baixa
É uma solidão feita de lama amassada no recolher da esperança. A parede negra do fumo dos teus cigarros, um bolor entediado escorrendo dedos de medo. E eu os olhos despejados no dia pastoso que me esmaga o peito. Do copo o cheiro da morte que vem hoje amanhã não sei. Porque enquanto esfrego a mesa com o olhar e penso no dia na hora em que tu e eu. Descem-me as horas sobre a cabeça e eu vou-me dormindo à espera de que o dia passe. Este e o outro. O de amanhã. Porque enquanto os dias não deixarem de passar.
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