19.9.08

Ainda

[Trabalho sobre caligrafia árabe, de Samîr Malik]

مازلْتِ يا مُسَافِرَةْ
مازلْتِ بعدَ السَنَةِ العَاشِرَةْ
مَزْرُوعةً.. كالرُمْح في الخَاصِرَةْ
نزار قباني
ainda, viajante,
ainda, dez anos depois,
és dardo cravado no meu flanco
Nizâr Qabbânî
(tradução minha a partir do original árabe)

mazlati yâ musâfira
mazlati s-sanati l-ʿâšira
mazrûʿatan ka-r-rumh fî l-ḫâṣira

Maldito

[Bruegel o Velho - A morte da Virgem]

«há uma maturidade muito grande na morte, pensava a maria da graça. uma sabedoria qualquer que nos acode. sentiu-se muito calma tão rente à felicidade e compreendeu que era só o que queria. nem lhe importava absolutamente que existisse deus e ele a julgasse também para uma vida além do corpo. era só importante que pusesse um fim ao quotidiano cansativo que vivia e a morte estava diante de si como um passo apenas em determinada direcção. depois disto, pensava também, não estarei em lugar nenhum. e até o querer que exista o maldito, em alguma nuvem à minha espera, vai deixar de fazer sentido no momento em que eu própria desapareça de todo e não puder pensar nisso nem no contrário.»
valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores

18.9.08

Respirar

[Gian Lorenzo Bernini - Auto-retrato em jovem]

«Não sei porquê - noto-o subitamente - estou sozinho no escritório. Já, indefinidamente, o pressentira. Havia em qualquer aspecto da minha consciência de mim uma amplitude de alívio, um respirar mais fundo de pulmões diversos.»
Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

17.9.08

Kill the pain . XXXV . Aflição

[José Antolínez - Morte da Madalena]

e se assim fosse, estando ele morto sem regresso, a sua vida seria uma lenta aflição por esperar quem nunca poderia voltar.
(valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores)


Não sei se lhe contei. Eu conto sempre isto. Quer dizer. Eu conto sempre o que aconteceu antes. Nunca o que aconteceu. Mas a si. O senhor é diferente. É o senhor que me vai arrancar a esta merda. Esta merda. Era assim que ele dizia. Esta merda. Aquela merda. Já não tenho aquela merda. Já me passou aquela merda. Lembras-te daquela merda. Conseguiram tirar tudo. E depois morreu. Com aquela merda. Mas não. Não é dele que lhe quero falar. Um dia إن شاء الله um dia falarei dele. Sabe que não há um dia uma noite em que não me afague a memória. Há sempre uma cara na rua. Um olhar um rir. Um gingar. E o peito deixa de me subir e descer e os olhos e a boca. Seco tudo seco. Como se eu morresse ali. Às vezes passa-me pela cabeça. Sabe. Se calhar não é por causa do olhar e do rir e do. Se calhar não é isso. Se calhar é ao contrário. Se calhar fui eu que morri um bocadinho. Assim uns segundos. E por isso consigo vê-lo outra vez. Os dois memória sem corpo. Juntos. Como antes. Antes daquela merda. Se calhar. Já tem tem passado pela cabeça. Se calhar quando o senhor me. Sabe. Porque eu estou farto desta merda. E afinal não lhe contei o que aconteceu. Quer dizer. O que aconteceu mesmo. Não aquilo que eu conto sempre. E que também aconteceu. Mas foi antes.

15.9.08

Kill the pain . XXXIV . Janela

[Caravaggio - Madonna del Rosario (pormenor)]

irrumabo uos ego et pedicabo
Catulo


Metia a chave na porta e olhava para trás e punha o dedo nos lábios e dizia xiu. Xiu para quê. Não havia velha nenhuma. Só tu e eu e a cama não rangia. Como se eu não existisse. Se eu não estivesse ali. Despido e humilhado. Rasgando as entranhas de medo. Deitando-lhe mãos invejosas. E a cama nada. Como se eu nem. E eu não. Em silêncio. Puta. A cama. Conspirava com ele. Para me humilharem. Os dois. Os três. Ele e a cama e a velha que não existia. Não faças barulho. E eu não fazia e mordia os lábios e a língua enquanto os dele os lábios e a dele a língua. Sabe. Não sabe. Como pode saber. Não fosse eu rosnar ou gemer. Mas eu nunca. Sempre calado. Para quê para quê mentir para quê a velha. Sempre em silêncio. Mesmo quando. Devagar pára. Já está.

vergonha

Não tive a culpa. Os teus lábios e a língua e as. Chega. Não aguentei. O senhor sabe. Tem de saber. Uma toalha. Se eu queria uma toalha. Para me limpar. Ou talvez fosse para me tapar. Para não me ver. Era isso. Tinha nojo de mim. Porque depois virava-se de costas e até amanhã. E o que eu queria era uma janela. Abrir a janela. Vomitar vomitar-me lá para baixo. Fugir do calor e do meu embaraço. O meu pequeno embaraço. Molhado lambido e a barriga peganhenta. E as mãos. Uma toalha. Não. O que eu quero é que. Quê. Um décimo ou décimo primeiro andar. Não sei. Não me lembro. Não interessa. Já passou.

14.9.08

Kill the pain . XXXIII . Toalha

[G. Macchietti - Banhos em Pozzuoli]


quae si scribantur per singula nec ipsum arbitror mundum capere eos qui scribendi sunt libros

Io. 21:25

Se eu queria uma toalha. E eu não não queria. O que eu queria era abrir a porta. A janela. Abrir a janela. Porque estava tanto calor. E a porta não se podia abrir por causa da velha. Não nos podia ouvir. Não me podia ver. E eu nunca a vi. Podia nem. Já me passou pela cabeça. Sabe. Podia ser mais uma humilhação. Eu ser a puta. Que entra em segredo em silêncio xiu. Clandestino. Trancado naquele quarto quente tão. E se calhar nem havia velha nenhuma. Se calhar era só mais uma humilhação. Sabe. Na faculdade fugia-me. Sim sim. Ele mesmo mo disse. Fugia de mim. Via se eu estava no bar. E se estivesse. Não se ria. Mas ele. O que ele se deve ter rido. Sim. Ele sim. Trepando escadas ridículas. Cuspindo olhares de desprezo por cima do ombro. Imaginar-me despido na sua cama. Eu. A sua puta. A quem telefonava quando mais ninguém estava. E eu dizia sempre que sim. Odiando-me a cada novo sim. Porque eu sabia. Porque eu gostava tanto dele. Sabe. Não sabe. Quando os dias são feitos a olhar para o telefone. E cada minuto é uma mão que nos abre a barriga e nos arranca as tripas. Devagarinho. Quando cuspimos a última vírgula de dignidade e dizemos sim outra vez sim sim. Subir as escadas e cheirar-lhe a indiferença no hálito azedo. Ler-lhe nos olhos a mole maçada de ter de me abrir a porta e a cama e. E ainda assim. Porque eu achava que. Sabe. A esperança parva dos apaixonados. Não. Não sabe. Como poderia saber. E esmagar na boca um riso medonho. O gozo. E eu o gozado. E eu sabia. E ainda assim.

13.9.08

As moscas

[Trabalho sobre caligrafia árabe, de Samîr Malik]

(Um poema de Mahmûd Darwîsh traduzido do árabe por mim. Não é o meu preferido. É o que consigo traduzir.)


salmo 3

no dia em que as minhas palavras foram
terra
fui amigo de espigas de trigo

no dia em que as minhas palavras foram
fúria
fui amigo de grilhões

no dia em que as minhas palavras foram
pedra
fui amigo de arroios

no dia em que as minhas palavras foram
revolta
fui amigo de terramotos

no dia em que as minhas palavras foram
cabaças azedas
fui amigo do optimisma

quando as minhas palavras se tornaram
mel
as moscas cobriram-me
os lábios

Mahmûd Darwîsh

12.9.08

Kill the pain . XXXII . Quid est ueritas

[Daniele Crespi - Pietà]

للحقيقة وجوه كثيرة
(provérbio árabe)

Mais uma ginja e vamos. E íamos e voltávamos. Não sei para onde. Não interessa. A noite media-se pelo tempo que faltava para. Tu sabes. Por isso íamos e voltávamos. E se nem fôssemos. Se só voltássemos. Voltar a beber-te a boca morna e enterrar-me as mãos no ninho dos teus cabelos. Escalar as escadas. A avenida dos. Lembras-te. Unidos num abraço medonho. Medo. O medo. De que fosse a última noite. Sabe. Eu achava que aquela era sempre a última noite. Que amanhã a noite morria e eu com ela Não se ria. Se me visse na minha ridícula nudez. Os olhos esmagados e a boca seca. Sabe. Não sabe. Se soubesse. Se o senhor me visse. Depois enrolava-me no lençol suado. Sudário. Era um sudário. Onde apodrecia. Devagarinho. Todas as noites. Em silêncio. Sem saber quem és tu. E ainda assim eu dizia-te sempre que sim. A tua puta. Não faça essa cara. Sem uma vírgula de dignidade. Porque eu só queria trepar as escadas e abrir a porta devagarinho e entrar e entornar-me na tua cama em silêncio. E depois sentir-te a pele na minha e as mãos e. A noite media-se assim. O tempo que faltava até me amarrotar e me deitar fora até outro dia outra noite.

Transe

6.9.08

Misalignments

[William Blake - Songs of Innocense]
and look at this prepronominal funferal, engraved and retouched and edgewiped and puddenpadded, very like a whale's egg farced with pemmican, as were it sentenced to be nuzzled over a full trillion times for ever and a night till his noddle sink or swim by that ideal reader suffering from an ideal insomnia: all those red raddled obeli cayennepeppercast over the text, calling unnecessary attention to errors, omissions, repetitions and misalignments
James Joyce, Finnegans Wake

Kill the pain . XXXI . Humiliate uos

[Giotto - Lamentação sobre Cristo morto]
humiliate uos ad benedictionem
(do rito moçárabe)


Lembras-te. A mão descia e. Sempre a mão. Até ao fim até ao. E eu já não sabia se o suor era teu se era meu. Mas agora não era para me fazer mal. A mão. A minha. Ou talvez. Talvez sim. A verdade é que. Lembras-te. Foi mau. Muito mau. E nunca mais passava. Primeira vez. A minha. A tua não. Tu avisaste-me entre risos envergonhados. Mas nada do que viesse de ti era mau. Ou era. Era. Foi. Tanto faz. Já passou. Mas naqueles dias. Naquelas noites. Nada que viesse de ti. Mesmo quando não me vias nem me telefonavas. E depois veja lá. Aparecia-me. Assim. Como se ontem e anteontem e na semana passada. Percebe. Como se nos víssemos todos os dias. Como se fosse uma rotina. Uma rotina boa. De namorados. Mas dois que se viam de vez em quando. Quanto tu querias. Porque eu. Eu queria-te todas as noites. Beber beber-te os lábios e a língua agarrar-te morder-te o pescoço insultar-te as nádegas beijar-te entornar-me dentro de ti. Percebe. Era a primeira vez que eu. Até então a mentira. Há tantos que. A vida toda. Mentindo-se a si e aos seus. Mas eu. Eu não. Quer dizer. Ainda me minto. Mas não nisso. Ou. E ele aparecia. Como se. E dizia-me. Então hoje à noite às tantas horas no tal sítio. O tal sítio era um bar ou uma tasca daquelas. Sabe. Ginginha com elas. O chão tem cola e os sapatos fazem nhac nhac. E eu ia. Sicut ouis ad occisionem. Sem um protesto sem um tive saudades sem uma vírgula de dignidade. Ontem não me quiseste nem anteontem nem na semana passada. Hoje aqui me tens. Até ao fim.

31.8.08

O monstro . 7 . Pitão

[Delacroix - Apolo matando a Pitão]

Impresso de 1726, achado na Biblioteca Nacional, com a quota H.G. 23767//7 P, encadernado entre outras coisas bem menos interessantes, posto que mais importantes. Transcreve-se respeitando ortografia e pontuação. Em episódios.
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«Esta me obrigou a acharme em varias montarias, que se fizeraõ no termo desta Cidade, para evitar o damno, que todos os dias padeciaõ os Camponezes; mas naõ tiveraõ o effeito, que se esperava estas diligencias, porque apenas o poderaõ affugentar para a parte de Jerusalem, onde emboscado nos matos circunvisinhos, sahia a fazer os mesmos insultos nas estradas, e nos campos. Só a figura deste animal impunha medo aos que a viaõ: a violencia com que acometia, desanimava o valor dos que o buscavaõ; e como todos na sua visinhança tinhaõ o perigo por certo, todos procuravaõ vello, mas de longe; e assim se naõ podia reconhecer a sua especie.

Entendia-se ao principio, que era algum Leaõ, que tinha sahido das terras da Hircania, obrigado pela indigencia do sustento: a outros lhes parecia ser Urso; porem a grandeza do seu corpo desmentia estas opinioens; porque era mayor, que nenhuma destas feras. Depois de morto nos confins de Jerusalem, se me mandou o seu retrato, de que vos envio a copia. Por ella vereis, que naõ tem semelhança com algum dos animaes, que nos descreve Plinio, e retrataõ Gesnero, e Aldrovando. Naõ faltou quem quizesse persuardirme, que era Grifo; animaes, que ainda que façaõ grande figura nos brazoens, tenho por taõ fabulosos, como a Ave Fenix. Tambem houve quem dissesse, que era Serpente, ao que eu me inclinava mais, porque como estas naõ multiplicaõ a sua especie, cada uma póde ter differente fórma; mas he necessario capacitarme primeiro, que ha Serpentes. Bem me lembro de haver lido, que produzio a terra huma, depois do diluvio de Deucalion, a que se deu o nome de Pithon, cuja prodigiosa grandeza, e deploraveis estragos referem os Poetas antigos, decantando o triunfo de Apollo, e a origem dos jogos Pithios; mas tambem sey, que os Naturalistas, comprovando a sua thesi com a significaçaõ da palavra Pithon, que na lingua Grega significa podridaõ, dizem, que a origem desta fabula foraõ os grossos vapores, e densas exalaçoens, que sahiraõ da terra depois daquele diluvio, e faziaõ morrer infinito numero de Povo; com que ja la vay esta Serpente, e este exemplo.»

[continua]

30.8.08

O monstro . 6 . Autor de tanto estrago

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor)]

Impresso de 1726, achado na Biblioteca Nacional, com a quota
H.G. 23767//7 P, encadernado entre outras coisas bem menos interessantes, posto que mais importantes. Transcreve-se respeitando ortografia e pontuação. Em episódios.
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«Traducção de huma carta escrita da Cidade de Alepo em 10. de janeiro de 1726.

Ha muito tempo, que desejava merecervos o gosto de me dar novas vossas, por meyo da diligencia de volas pedir; mas os embaraços, em que me tem posto os meus negocios, obrigandome a fazer hum giro por varias escalas da Asia, me impossibilitaraõ o procurar satisfaçaõ deste desejo. Naõ duvido, que esta carta depois de hum silencio taõ profundo, em que havemos estado, e de hum intervallo taõ grande, que tem tido a nossa correspondencia, vos parecerá, que vay do outro mundo; principalmente se por essas partes tem soado os estragos, que por estas tem feito taõ repetidas vezes o contagio; levando hum infinito numero de gente; mas para que vejaes, que ainda estou vivo, e que naõ quero estar morto na vossa memoria, me quero aproveitar da via do Capitaõ Justiniano, que aqui chegou de Alexandreta, onde se acha o seu navio de partida para esse porto; e dizervos, que depois de vos haver escrito de Astrakan os prodigiosos progressos de Mohaidin, me foy preciso atravessar a Georgia, ir a Asia Menor, e passar à Syria, e ao Egypto, donde voltey de Alexandria a esta Cidade, que he a mais populosa, e mais mercantil de toda a Syria; onde me parece, que farey huma residencia dilatada, por haver feito sociedade com huns negociantes Armenios, de cabedaes grossissimos, e vastissimas correspondencias; e assim espero nella largas noticias vossas, e de todos os amigos.

Naõ faltaõ desta banda algumas, que poderaõ ser do vosso agrado; mas darvos-hey huma ao meu parecer muy rara; que he o haverse visto nesta Provincia hum animal monstruoso, que dos montes da Cilicia passou aos deste Paiz, e assim nas estradas, como nas Povoaçoens devorava todo o animal vivente, que encontrava, enchendo de consternaçaõ a todos estes moradores. O que se referia da ferocidade deste Bicho, a quantidade de gado, que despedaçava, o numero de pessoas, a que tirava a vida; ao mesmo tempo, que influia espanto, e causava terror, punha em mais alto grao a curiosidade de reconhecer o author de tanto estrago.»

[continua]

28.8.08

[Piotr Sokolov - Tchítchikov e Koróbotchka]

«- A sério, paizinho, nunca na vida me calhou ainda vender mortos. Vivos, isso sim, já tenho cedido alguns; ainda há dois anos vendi ao arcipreste duas raparigas, por cem rublos cada uma, e ele agradeceu-me muito, são boas trabalhadeiras, tecem-lhe as toalhas.
- Olhe, não se trata de vivos, os vivos que vivam com Deus. Estou a pedir-lhe mortos.
- A sério, como é a primeira vez, tenho medo de ser prejudicada. Tu, paizinho, às tantas estás a enganar-me, e o preço deles... de qualquer maneira... é superior.
- Oiça, mãezinha... irra, como a senhora é! O que podem eles valer? São simplesmente pó. Pegue numa coisa qualquer, um simples farrapo, e o farrapo tem o seu preço: ainda pode ao menos ser comprado por uma fábrica de papel, mas aquilo é perfeitamente inútil. Diga-me lá a senhora, que utilidade pode ter aquilo?
- É verdade, é mesmo isso. Não têm utilidade nenhuma, a minha dúvida, precisamente, é estarem mortos.»
Nikolai Gógol, Almas Mortas
Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra
Assírio e Alvim, 2002

27.8.08

Kill the pain . XXX . Sombra

[W. Blake - A descida da cruz]

Depois houve aquela vez. Aquelas vezes. Aquelas noites na avenida dos. E a cama era tão grande e fazia uma cova no meio onde nos entornávamos em poças de suor e saliva fermentada. Em silêncio xiu que se ela nos ouve. Ela era a velhota. A velhota que lhe alugava o quarto. Nunca a vi. Eu não via nada. Entrava de coração esmagado e lábios latejantes. Sentava-me na beira da cama e bebia-lhe o perfil. Sombra raiada pintada da luz que empurrava a persiana para dentro do quarto da cama. E ali eu já não sabia se eras homem se mulher. Os cabelos crescidos dançando danças de ventre de pêlos nas tuas costas pequeninas. Todo tu pequenino. Depois rastejavas para dentro dos lençóis. Arfando a cerveja azeda da noite. Não. Espere. Eu sei. Já contei. Repetir. A minha vida. A minha vida é um repetir de coisinhas pequeninas. Mas espere.