E se não é nada. Se o que as mãos aflitas. Se as pudesse cortar. Se me pudesses cortar. Em postas grossas. Poucas. Para dar menos trabalho. Menos porcaria. Menos tripas menos sangue. E depois embrulhavas-me em sacos pretos. Não. Azuis. Sacos azuis. Porque pretos. Preto sempre fui eu. Os olhos e os terrores diurnos. Pretos. Que de noite não dói. Ou dói e eu não sei porque quando durmo não dói. E cada noite é um prólogo de terror. Preta. E há quem diga que nunca mais acaba. A noite. E eu digo que ela nunca mais chega. Porque o dia é tão. Tu sabes. Nunca mais acaba. Procissão de terrores. E depois tu chegas. Vens salvar-me. Tu vens sempre salvar-me. Mesmo agora. Depois de. Tu sabes. E eu estou sentado a olhar para ti e para as lesmas das palavras que te escorrem dos olhos e as mãos não me param. Não param nunca. À procura. Aflitas. E se não é nada. Vês. Estou doudo.
4.4.09
17.3.09
Sem parar
Pregou o cigarro nos lábios. Abriu a janela. Depois entornou-se aos bocadinhos. Não. Cuspiu. Melhor do que entornar. Cuspir Porque entornar entorna-se um copo de água. E cuspir cospe-se um cuspo. Um nojo um incómodo um excesso. Não um copo de água ou de vinho. Um copo de água entorna-se por acidente. Vá lá. Por capricho. Mas não por nojo nem incómodo nem. E um de vinho pode ser por amor aos deuses. Ou medo. Ou medo. Se calhar. Talvez entornar. Sim. Porque cuspir é assim uma coisa de repente. Um rosnar um revolver da garganta e depois um explodir e um calar. E entornar não. Entornar começa devagarinho e continua a morrer a morrer e parece que não vai acabar e quando acaba parece que ainda não acabou. Mas dizia eu lá em cima. Que dizia eu lá em cima.
27.2.09
Cinza
as manhãs que me moem e me matam aos bocadinhos e se me entornam bêbedas de tédio nas costas e me molham me encharcam numa baba pastosa da cinza dos meus dias mortos e eu abomino
يا حبيبي يا حياتي
يا حبيبي يا حياتي
يا حبيبي يا حياتي
يا حبيبي يا حياتي
Meu amor minha vida meu amor minha vida. É um refrão. Umm Kulthum.
8.2.09
Deserto
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Etiquetas:
Sophia de Mello Breyner Andresen,
Verba aliena
1.2.09
Sete
Sete dias. Não espero mais. Vazado em cadeira de plástico podre. E as mãos pingadas na mesa e as vozes delas piando esquecidas de ti e da terra que agora te esmaga as tripas rotas. Podia arrancar os olhos da mesa e dizer-lhes o grito que me revolve os miolos. Em vez disso. Em vez disso escarrei um sorriso míope e disse um vamos embora baixinho e cobarde como eu. Não espero mais.
21.1.09
Et adhuc tecum sum
Não sei se já te disse que nos veremos em breve. Ou não. É maneira de falar. O vermo-nos. Não o ter-te dito. Porque na verdade. Quid est ueritas. Não sei se nos veremos.
2.1.09
Gothica . 02
eu vendia o meu cavalo
também me vendia a mim
para mandar dizer missas
tudo por alma de ti
Canção tradicional
interpretada por At-Tambur
Esta falta de força nas pernas e o medo a mastigar-me as tripas. E a cama que era o meu último refúgio e agora está encharcada de terror e a janela onde já não me cospes pedrinhas e eu abro e vou ver e lá em baixo não há nada só o escuro e o medo. E tu não estás lá. E a cova onde te enterraram e eu não sei onde fica porque não consegui porque esta falta de força nas pernas.
Como m'eu perdi por ti
- Tu que tens, ó D. Fernando,
que andas tão triste na guerra?
Ou te morreu pai ou mãe,
ou gente da tua terra.
- Não me morreu pai, nem mãe,
nem gente da minha terra:
vou triste por minha amada,
deixei-a e vim prá guerra.
- Aparelha o teu cavalo,
sete anos ao pé dela;
ao cabo de sete anos,
soldado, volta da guerra.
- Tua amada já é morta,
é morta, eu bem a vi;
- Dá-me os sinais que levava,
para m'eu fitar em ti.
Levava saia de seda,
blusa de carmesim,
o cinto que a apertava
era ouro e marfim.
- Eu vendia o meu cavalo,
também me vendia a mim,
para mandar dizer missas,
tudo por alma de ti;
- Não vendas o teu cavalo
nem te vendas tu a ti:
quanto mais bem me fizeres
mais pena se mete em mim.
De três filhas que lá temos
leva-as para o pé de ti,
que se não percam por homens
como m'eu perdi por ti.
---
Canção tradicional
interpretada por At-Tambur
Etiquetas:
At-Tambur,
Phonotheca,
Verba aliena
27.12.08
Ninguém
Talvez nos tenham visto e por isso olham e riem. Riem de mim. Estás a ver. Quando me deixaste diante do prédio. Lembras-te. E eu deitei a mão à porta do carro. Não tenhas medo. Ninguém nos vê. A noite é funda e é nossa. Puxar a tranca arrojar-me escarrar-me no meio da rua. E é já ali. Sair do carro e atravessar sem olhar para um lado e para o outro porque a esta hora. Só os cães a rosnar e eu vou subir as escadas oito andares para não acordar ninguém porque o elevador. O barulho. E parar em cada patamar e tapar os pulmões e entornar os ouvidos escadas abaixo a ver se alguém. Porque se alguém me vir se alguém nos vê. Não não não não. Depois pegaste-me na mão. Devagarinho. Tiraste-ma do puxador e o teu corpo enorme esmagando-me o peito e o pescoço. Ninguém nos vê.
26.12.08
21.12.08
Gothica
Enterraram-na no dia de anos. Domingo.
Levantaram-lhe a tampa do caixão e puxaram-lhe os panos e não havia gritos. A cara velha e os cabelos amarelos dos anos. Não brancos. Amarelos. Sempre lhos vi amarelos. E a chuva cuspindo-lhe as rugas e os lábios secos. Disseram-lhe adeus e o vento e a chuva babando-nos as caras dormentes. Há sempre o vento e a chuva. E o frio tu lembras-te do frio. Não. Eu sim. Do céu azul de chumbo e de frio. E dos gritos que me arrancavam as tripas e do rapaz que passou por mim e me deitou os olhos vermelhos de tanto chorar e a boca torcida numa dor que eu sei. Fecharam-lhe a tampa do caixão e a chuva abrandou.
A tua não ta vi fechar. Nem abrir. Só os gritos.
Levantaram-lhe a tampa do caixão e puxaram-lhe os panos e não havia gritos. A cara velha e os cabelos amarelos dos anos. Não brancos. Amarelos. Sempre lhos vi amarelos. E a chuva cuspindo-lhe as rugas e os lábios secos. Disseram-lhe adeus e o vento e a chuva babando-nos as caras dormentes. Há sempre o vento e a chuva. E o frio tu lembras-te do frio. Não. Eu sim. Do céu azul de chumbo e de frio. E dos gritos que me arrancavam as tripas e do rapaz que passou por mim e me deitou os olhos vermelhos de tanto chorar e a boca torcida numa dor que eu sei. Fecharam-lhe a tampa do caixão e a chuva abrandou.
A tua não ta vi fechar. Nem abrir. Só os gritos.
10.12.08
Aflição
e se assim fosse, estando ele morto sem regresso, a sua vida seria uma lenta aflição por esperar quem nunca poderia voltar.
valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores
Deixa-me dizer-te que não estou louco. Eu sei que não podia ser. Que tu não estás cá. Que tu não. Mas ainda assim. Ainda assim entornei-me os olhos nos dele. Deixei-lhos ficar uns momentos. Pequeninos. E abri um sorriso. Ele também. Pensou que era alguém conhecido. Vagamente. Um conhecido destes. Dos que nos aparecem de vez em quando na rua e não sabemos quem são. Mas não. Depois caí em mim. E tirei os olhos dos dele. Era igual a ti. Mas não eras tu.
3.12.08
Retorno
Se é o cheiro do mar. Se o da porcaria da merda que se acumula no porto. Que queres que te diga. Não sei. Há um cheiro forte. E eu não sei do que é. Pode ser do barco. Aquilo é um barco. Saberei mais tarde que aquilo é um barco. Agora é uma montanha se eu soubesse o que é uma montanha. E as mãos são as mãos da minha mãe que me apertam o choro. Tenho fome ou estou farto de estar aqui. Ou tenho medo. Olha a montanha olha o barco. Ou uma vaca. É uma vaca gigante que muge aflita. E lá dentro da vaca vêm pessoas de África e cheiram a leão. E ela tem medo. E há caixas muito grandes. Que queres que te diga. Não me lembro de mais nada. Só do colo da minha mãe e do mugido do barco.
2.12.08
Cuspir
Eis um homem perdido, aqui está um homem que se perde a si mesmo e não consegue deter-se a si próprio.Dostoiévski, O duplo
Pôr a cabeça de fora. E cuspir os olhos para o chão. Que porcaria. Cuspir para o chão. E os olhos. Cuspir os olhos para o chão. Não se faz. Eu sei. E eu fiz. Depois fechei a janela. Despejei-me no sofá. Sem apagar a luz. Agora não vejo. E se não vejo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


