21.2.10

Memento


Não é que me tenha esquecido de ti. Eu nunca me esqueço de ti. Não. O meu terror é que nunca me esqueço de ti. Nem quando fechava os olhos com força e te dizia desaparece. E tu não desaparecias. E quando os abria. Tu lembras-te. Do meu mau feitio matinal. A voz agarrada ainda à nicotina e ao alcatrão da noite de ontem. E depois tu chegavas-te a mim. Sentavas-te na cama e arranhavas-me a cara com a tua voz baixinha baixinha. rise and shine. E depois eu já não fechava os olhos nem dizia. Não. Eu nunca me esqueço de ti. Nunca. Nem agora. Quando. Os miolos espalhados na areia seca do meu cansaço. Destas queixinhas pequeninas. Porque os meus dias ainda são isto. Esta procissão interminável de insignificâncias. E é por isso que eu nunca me esqueço de ti.

8.2.10

A espera

obiit 2003.02.08

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner Andresen

1.12.09

Do Quinto Império

Faz hoje 369 anos.

Excerto de um sermão de Fr. Luís de Sá, pronunciado no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, logo a 16 de Dezembro de 1640, um dia depois da aclamação de D. João IV como novo Rei de Portugal.

«Dizei-me, animosos Lusitanos, qual de nós duvidou nunca de que havíamos de vir a ter Rei natural, que restaurasse este Reino próprio, Império de Deus, depois daquela célebre promessa, que Jesus crucificado nosso Deus fez na noite antes da memoranda batalha de Ourique àquele raio da guerra, que ali jaz (*), sempre testemunha viva desta promessa, e verdade nunca morta, o nosso primeiro Afonso, e primeiro Rei deste Reino: volo in te (lhe disse o Senhor falando de rosto a rosto com ele) et in semine tuo imperium mihi stabilire: quero em ti, e em teus descendentes fundar um Império (não Reino só não) próprio para mim, e se este reino e império do Senhor havia de ter esta larga interpolação de sessenta anos em que o governou Castela, também a restituição dele ficou profetizada logo deste tempo, pelo ermitão santo, nosso Samuel Evangélico, que naquela mesma noite falou ao nosso Rei: vinces, et non vinceris: posuit enim super te et super semen tuum post te oculos misericordiae suae usque in sextam decimam generationem in qua attenuabitur proles, sed in ipsa attenuata ipse respiciet et videbit (**), quem depois destas palavras (que no próprio original se guardam no cartório do real mosteiro de Alcobaça, cabeça da minha religião Cisterciense nestes reinos) firmadas com a própria mão Real daquele Rei que ali vedes: duvidou nunca, que havíamos de ter Rei Português, que nos livrasse do jugo de Castela? Ninguém certo: é bem verdade, que para em tudo ser profecia, e figura David do nosso felicíssim Rei, assim como os Hebreus variavam nas palavras, assim nós éramos vários nos discursos, acerca da pessoa, e mais do tempo, sendo, porém, sempre entre nós tão caseira esta profecia de nossa Restauração que havia quem a não tivesse pela primeira verdade.»

in João Francisco Marques (org.), A Utopia do Quinto Império e os Pregadores da Restauração. Quasi, 2007.
pp. 84-85 (emendei apenas os erros crassos no latim)

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(*) Recordemos: o sermão foi pronunciado no Mosteiro de Santa Cruz, onde está o túmulo de D. Afonso Henriques, para onde provavelmente o pregador estaria mesmo a apontar.

(**) Vencerás e não serás vencido: na verdade [Deus] pôs sobre ti e sobre a tua descendência os olhos da sua misericórdia, até à décima sexta geração, na qual se atenuará a descendência, mas sobre ela, atenuada, ele deitará os olhos, e verá.

29.11.09

Rise and shine


Se eu acreditasse que depois te achava outra vez posto deitado entornado sobre mim e os teus olhos quase a fechar e a tua voz bruta. rise and shine. então há muito teriam parado estes dias pastosos de me arrancarem as tripas.

16.10.09

you just don't believe


e quando não eras tu e era o cheiro a cerveja refogada a acordar-me a meio da noite e os teus lábios eram duas cobras grossas que se remexiam e de cada uma não de cada um pingava a tua indiferença e as tuas mãos as tuas eram duas tenazes que me pregavam aos lençóis e me esmagavam uma as tripas a outra a garg e quando tu acordares eu já não estou cá


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[este texto faz parte da sequência The carpeted stairs of terror e não pode ser entendido fora dela]

12.10.09

Pentecostes


Subir as escadas do teu sótão e à espera de te ver outra vez à porta a deitar fogo às calças de pijama. E tu sabes que isto não é uma metáfora de mau gosto. Tu lembras-te do isqueiro e das tuas gargalhadas e das chamas azuis. Do meu susto a escalar os degraus e do coração a cair-me no estômago e afinal não era nada. Nunca me explicaste como o fazias. Porque as chamas morriam sozinhas em poucos segundos. E eu já não sei se vou conseguir arrancar os pés da plataforma da estação. E subir a rua e depois desenterrar os dedos dos bolsos e picar a campainha da tua casa. Subir as escadas do teu sótão e agarrar o coração para não se afogar nas tripas.


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[este texto faz parte da sequência Kussen e não pode ser entendido fora dela]

11.10.09

Alsjeblieft

ANTHONISZ, Cornelis
depois vi-o abrir a porta e descer as escadas do teu sótão e cuspir-me na cara um riso sacana porque ele sempre teve um riso sacana. E tu não soubeste nunca o ódio que lhe tive e a mim. Porque a culpa foi. Se te tivesse dito que. Não. Em vez disso rastejei até casa com os teus olhos de chumbo a furar-me a cabeça a martelar-me os sonhos a. Isso. A arrancar-me as tripas. A culpa foi minha. E quem ficou contigo foi. Tem paciência. Ouve-me até ao fim. Alsjeblieft. Porque eu nunca tive força para te dizer nem agora. A saltar do comboio ainda em andamento e a deixar cair os olhos na plataforma sem força sem coragem.

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[este texto faz parte da sequência Kussen e não pode ser entendido fora dela]

14.9.09

Deserto

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

26.8.09

O sótão

[David Bailly - Auto-retrato com símbolos de 'vanitas']

na estação no comboio no walkman thisbeatisthisbeatis e quando chegar vou saltar para a plataforma e depois houve aquela noite. Lembras-te. Não te lembras. A sugar os cigarros. SG que picávamos com agulhas para não fazerem tanto mal. Porque entrava mais ar e menos. E depois perguntavas-me se eu queria dormir amanhã em tua casa no teu sótão porque tu dormias no sótão e eu. Não te lembras tu não te lembras e eu tinha tive medo. E disse que não podia amanhã porque tu tinhas medo. De dormir sozinho. Isto dizias tu. Eu talvez tenha dito que

26.7.09

Talho

[J. Beuckelaer - Porco no matadouro]

e pesar cada uma das palavras que te vou dizer. Porque eu peso. Tudo. Antes de. Para não me sair nada que me possa depois matar. Tu sabes. Uma palavra que me possa ficar agarrada à garganta e a puxar e a puxar. E depois ficam-me garras cravadas na língua. Ou ganchos. Os ganchos do talho das minhas manias. E a pensar no que disse e no que ficaram a pensar e no que eu não devia ter dito e nas explicações que vou dar porque agora vou ter de dizer agora vou ter de esclarecer e dizer que afinal. Porque repara. E as tripas agarradas à língua arrancada. Porque depois eu não durmo eu não. A remoer a ruminar como as vacas a ruminar medos e manias. E por isso. Se calhar não te vou dizer nada.

29.6.09

"As"

[Cornelis de Baellieur - Virgem e Menino entronizados]

e eu passei a tarde nas aulas a pensar na morte do dia porque quando o dia morrer eu vou dizer-te o que não te disse ontem e anteontem e nos outros dias, uma vírgula, já viste, e vou remar remar nas escadas rolantes, eu não uso vírgul. Onde ponho o ax. Dizias e tiravas um cigarro do bolso das calças. Tu tinhas os cigarros soltos nos bolsos como se. E eu pensava que tu que era e abri-te os olhos e levantei-me para te dizer que aqui não. Mas doía-me tanto a cabeça porque quando me deitava era como se não tivesse crânio e os miolos cobertos de pele fina de encontro à almofada. E quando levantava a cabeça os miolos a colar à almofada e doía-me tanto tanto. E por isso não disse nada. Torci a boca de dor e espalhei os miolos de novo em cima da almofada. Tu não percebeste o meu terror. De voltar ao hospital à cama do hospital à enfermaria e aos doentes da cabeça que se passeiam nus com uma bata à frente. E aos banhos de esponja e ao enfermeiro que quando durmo me põe a mão. E empurraste-me e sentaste-te ao meu lado na cama e repetias, onde ponho o ax, e eu pensava que era um que o que tu querias era. Tu eras um chato. Naqueles primeiros dias tu eras um chato. Mas não. Um cinzeiro. Cinza. As. Nederlands. Ax. Chamar a tua irmã dizer-lhe que não me voltasse a despejar irmãos que eram iguais a ela tu eras igual a ela os mesmos cabelos de palha e os olhos. Não me lembro. Azuis verdes de aço qualquer coisa assim uma verruma que me verrumava os olhos e me abria a cabeça e os miolos para. E depois já não eras chato e eu já não conseguia. Já não consigo. Agora quando puseres o invólucro de plástico entre os teus lábios e meus já não vou ficar de olhos entreabertos a ver-te tirá-lo no último segundo e não vou deixar cair a cabeça para trás e fugir de ti e da verruma dos teus olhos de aço. É isto que vou dizer. Por isso quando o dia morrer eu vou remar com força até ao comboio

16.6.09

Bloomsday . IV


Happy. Happier then. Snug little room that was with the red wallpaper, Dockrell’s, one and ninepence a dozen. Milly’s tubbing night. American soap I bought: elderflower. Cosy smell of her bathwater. Funny she looked soaped all over. Shapely too. Now photography. Poor papa’s daguerreotype atelier he told me of. Hereditary tast.

Ulysses. Bodley Head, 1966. Página 196.

13.6.09

Brincadeira

[Pieter Brueghel o Velho - Provérbios (pormenor)]

E depois eu trotava os degraus de boca aberta até te agarrar o braço e te arrancar o isqueiro e tu rebentavas os diques do teu riso e dizias. Isto é só a brincar isto não me queima isto só faz este fogo azul mas só queima os pêlos do pijama isto é só a brincar isto é como quando te pedia que. Tu sabes. Tu lembras-te. E depois quando tu te chegavas e estavas quase. Anda. Não te zangues. E já te sentia o calor da respiração a arrepanhar o plástico o invólucro de plástico do marlboro.

12.6.09

A chama

[Bosch - Tentações de Santo Antão (pormenor)]

Tocava à campainha e subia as escadas e tu estavas lá em cima e havia uma chama e eras tu que de isqueiro na mão e o pijama a arder me despejas em cima o riso dos teus dentes largos. E eu pensava se é hoje que.

7.6.09

Fecha os olhos

[Hendrick Terbrugghen - Rapaz a tocar flauta-doce]

Tiravas o invólucro de plástico que amortalhava o marlboro e dizias agora vamos dar um beijo. Eu fumava sg ventil porque era mais fraquinho e depois assustava-me. Tu rias poucochinho. Assim só um abrir de lábios a mostrar uns dentes largos que ainda não estavam amarelos de nicotina. Porque tu eras puto. Eu tinha dezasseis. Tu catorze. Ou quinze. A voz a escorrer-te dos olhos de aço. Agora vamos dar um beijo. E eu não sei se era o medo se era o. E o perceber-te as formas debaixo do turco do pijama (Πλάτων, Χαρμίδης). Os teus olhos de aço a rasgar-me as entranhas. E depois abanavas o invólucro de plástico e fechavas os lábios e matavas o sorriso. Coçavas os cabelos de platina e era como se agora não tivesses quinze mas vinte e cinco ou trinta ou. Agora vamos dar um beijo. O sotaque nórdico e o calor que te escorria da boca. E punhas o plástico em frente dos teus lábios e dizias não tenhas medo que não é a sério. E não era a sério porque tu punhas o plástico à frente dos lábios. Mas fecha os olhos.