A solidão das noites em que acordo e o corpo seco sem pinga de suor. Levantar os olhos deixá-los cair pelo quarto. Esta pinga de luz a escorrer da janela. Pica pica pica. E eu levantava os cobertores e despejava-me na alcatifa. Há tanto tempo. Agora é chão nu. Os pés aram as roupas espalhadas porque eu estava tão e só queria era. E pica pica pica as pedrinhas a cantarem na janela. Agora não. Remar remar. Não. Bambolear como um petroleiro oxidado comido pelo tempo. Até à janela. Na solidão destas noites em que acordo e queria ouvir pica pica pica as pedrinhas a cantarem na janela.
26.3.13
13.3.11
Delito
[Orazio Gentileschi - Lot e as filhas]
27.6.10
Ruminação de ideia antiga
22.4.10
Pulsar
e os músculos das pernas a pulsar e de vez em quando é como se deixasse de as ter. Porque saber que nunca mais te vou ver a balouçar por cima da minha cama. E o teu hálito rijo a roer-te os dentes amarelos de. E é por isso que. É também por isso que os meus dias. E é por isso que me vês a andar sempre a andar
21.2.10
Memento
Não é que me tenha esquecido de ti. Eu nunca me esqueço de ti. Não. O meu terror é que nunca me esqueço de ti. Nem quando fechava os olhos com força e te dizia desaparece. E tu não desaparecias. E quando os abria. Tu lembras-te. Do meu mau feitio matinal. A voz agarrada ainda à nicotina e ao alcatrão da noite de ontem. E depois tu chegavas-te a mim. Sentavas-te na cama e arranhavas-me a cara com a tua voz baixinha baixinha. rise and shine. E depois eu já não fechava os olhos nem dizia. Não. Eu nunca me esqueço de ti. Nunca. Nem agora. Quando. Os miolos espalhados na areia seca do meu cansaço. Destas queixinhas pequeninas. Porque os meus dias ainda são isto. Esta procissão interminável de insignificâncias. E é por isso que eu nunca me esqueço de ti.
8.2.10
A espera
Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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Verba aliena
1.12.09
Do Quinto Império
Faz hoje 369 anos.
Excerto de um sermão de Fr. Luís de Sá, pronunciado no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, logo a 16 de Dezembro de 1640, um dia depois da aclamação de D. João IV como novo Rei de Portugal.

«Dizei-me, animosos Lusitanos, qual de nós duvidou nunca de que havíamos de vir a ter Rei natural, que restaurasse este Reino próprio, Império de Deus, depois daquela célebre promessa, que Jesus crucificado nosso Deus fez na noite antes da memoranda batalha de Ourique àquele raio da guerra, que ali jaz (*), sempre testemunha viva desta promessa, e verdade nunca morta, o nosso primeiro Afonso, e primeiro Rei deste Reino: volo in te (lhe disse o Senhor falando de rosto a rosto com ele) et in semine tuo imperium mihi stabilire: quero em ti, e em teus descendentes fundar um Império (não Reino só não) próprio para mim, e se este reino e império do Senhor havia de ter esta larga interpolação de sessenta anos em que o governou Castela, também a restituição dele ficou profetizada logo deste tempo, pelo ermitão santo, nosso Samuel Evangélico, que naquela mesma noite falou ao nosso Rei: vinces, et non vinceris: posuit enim super te et super semen tuum post te oculos misericordiae suae usque in sextam decimam generationem in qua attenuabitur proles, sed in ipsa attenuata ipse respiciet et videbit (**), quem depois destas palavras (que no próprio original se guardam no cartório do real mosteiro de Alcobaça, cabeça da minha religião Cisterciense nestes reinos) firmadas com a própria mão Real daquele Rei que ali vedes: duvidou nunca, que havíamos de ter Rei Português, que nos livrasse do jugo de Castela? Ninguém certo: é bem verdade, que para em tudo ser profecia, e figura David do nosso felicíssim Rei, assim como os Hebreus variavam nas palavras, assim nós éramos vários nos discursos, acerca da pessoa, e mais do tempo, sendo, porém, sempre entre nós tão caseira esta profecia de nossa Restauração que havia quem a não tivesse pela primeira verdade.»
in João Francisco Marques (org.), A Utopia do Quinto Império e os Pregadores da Restauração. Quasi, 2007.
pp. 84-85 (emendei apenas os erros crassos no latim)
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(*) Recordemos: o sermão foi pronunciado no Mosteiro de Santa Cruz, onde está o túmulo de D. Afonso Henriques, para onde provavelmente o pregador estaria mesmo a apontar.
(**) Vencerás e não serás vencido: na verdade [Deus] pôs sobre ti e sobre a tua descendência os olhos da sua misericórdia, até à décima sexta geração, na qual se atenuará a descendência, mas sobre ela, atenuada, ele deitará os olhos, e verá.
29.11.09
Rise and shine
16.10.09
you just don't believe
e quando não eras tu e era o cheiro a cerveja refogada a acordar-me a meio da noite e os teus lábios eram duas cobras grossas que se remexiam e de cada uma não de cada um pingava a tua indiferença e as tuas mãos as tuas eram duas tenazes que me pregavam aos lençóis e me esmagavam uma as tripas a outra a garg e quando tu acordares eu já não estou cá
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[este texto faz parte da sequência The carpeted stairs of terror e não pode ser entendido fora dela]
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[este texto faz parte da sequência The carpeted stairs of terror e não pode ser entendido fora dela]
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The carpeted stairs of terror
12.10.09
Pentecostes
Subir as escadas do teu sótão e à espera de te ver outra vez à porta a deitar fogo às calças de pijama. E tu sabes que isto não é uma metáfora de mau gosto. Tu lembras-te do isqueiro e das tuas gargalhadas e das chamas azuis. Do meu susto a escalar os degraus e do coração a cair-me no estômago e afinal não era nada. Nunca me explicaste como o fazias. Porque as chamas morriam sozinhas em poucos segundos. E eu já não sei se vou conseguir arrancar os pés da plataforma da estação. E subir a rua e depois desenterrar os dedos dos bolsos e picar a campainha da tua casa. Subir as escadas do teu sótão e agarrar o coração para não se afogar nas tripas.
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[este texto faz parte da sequência Kussen e não pode ser entendido fora dela]
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[este texto faz parte da sequência Kussen e não pode ser entendido fora dela]
11.10.09
Alsjeblieft
depois vi-o abrir a porta e descer as escadas do teu sótão e cuspir-me na cara um riso sacana porque ele sempre teve um riso sacana. E tu não soubeste nunca o ódio que lhe tive e a mim. Porque a culpa foi. Se te tivesse dito que. Não. Em vez disso rastejei até casa com os teus olhos de chumbo a furar-me a cabeça a martelar-me os sonhos a. Isso. A arrancar-me as tripas. A culpa foi minha. E quem ficou contigo foi. Tem paciência. Ouve-me até ao fim. Alsjeblieft. Porque eu nunca tive força para te dizer nem agora. A saltar do comboio ainda em andamento e a deixar cair os olhos na plataforma sem força sem coragem.
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[este texto faz parte da sequência Kussen e não pode ser entendido fora dela]
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[este texto faz parte da sequência Kussen e não pode ser entendido fora dela]
14.9.09
26.8.09
O sótão
na estação no comboio no walkman thisbeatisthisbeatis e quando chegar vou saltar para a plataforma e depois houve aquela noite. Lembras-te. Não te lembras. A sugar os cigarros. SG que picávamos com agulhas para não fazerem tanto mal. Porque entrava mais ar e menos. E depois perguntavas-me se eu queria dormir amanhã em tua casa no teu sótão porque tu dormias no sótão e eu. Não te lembras tu não te lembras e eu tinha tive medo. E disse que não podia amanhã porque tu tinhas medo. De dormir sozinho. Isto dizias tu. Eu talvez tenha dito que
26.7.09
Talho
e pesar cada uma das palavras que te vou dizer. Porque eu peso. Tudo. Antes de. Para não me sair nada que me possa depois matar. Tu sabes. Uma palavra que me possa ficar agarrada à garganta e a puxar e a puxar. E depois ficam-me garras cravadas na língua. Ou ganchos. Os ganchos do talho das minhas manias. E a pensar no que disse e no que ficaram a pensar e no que eu não devia ter dito e nas explicações que vou dar porque agora vou ter de dizer agora vou ter de esclarecer e dizer que afinal. Porque repara. E as tripas agarradas à língua arrancada. Porque depois eu não durmo eu não. A remoer a ruminar como as vacas a ruminar medos e manias. E por isso. Se calhar não te vou dizer nada.
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