O carro a pisar em cambaleios de hippopótamo os buracos da estrada e eu lá atrás despejado no banco com o estômago, não, com as tripas arregaçadas num nó que dura desde ontem ou anteontem ou. Já não sei. Há tanto tempo. E depois abriram a porta do carro e despejaram-me na feira popular. ficas bem. fico. fico. Porque tu já lá estavas e acenavas indolente e trancavas como sempre o sorriso atrás dos lábios. E depois a tarde a escorrer devagar e nunca mais acabava.
3.4.13
31.3.13
Like cortisone
can you lick my wounds please
can you make it numb
and kill the pain like cortisone
and grant me intimacy
( Massive Attack)
can you make it numb
and kill the pain like cortisone
and grant me intimacy
( Massive Attack)
Ouça. Talvez o senhor se tenha enganado. Talvez eu não seja quem o senhor pensa. E este sítio. Sabe onde está? Tem a certeza de que? Porque eu tenho estado a ouvi-lo com tanta amizade. Amizade sim. Não me olhe dessa maneira.
Ils ne bougent pas
ESTRAGON - Didi.
VLADIMIR - Oui.
ESTRAGON - Je ne peux plus continuer comme ça.
VLADIMIR - On dit ça.
ESTRAGON - Si on se quittait? Ça ira peut-être mieux.
VLADIMIR - On se pendra demain. (Un temps.) A moins que Godot ne vienne.
ESTRAGON - Et s'il vient?
VLADIMIR - Nous serons sauvés.
Vladimir enlève son chapeau - celui de Lucky - regarde dedans, y passe la main, le secoue, le remet.
ESTRAGON - Alors, on y va?
VLADIMIR - Relève ton pantalon.
ESTRAGON - Comment?
VLADIMIR - Relève ton pantalon.
ESTRAGON - Que j'enlève mon pantalon?
VLADIMIR - RE-lève ton pantalon.
ESTRAGON - C'est vrai.
Il relève son pantalon. Silence.
VLADIMIR - Alors, on y va?
ESTRAGON - Alons-y.
Ils ne bougent pas.
(Beckett, En attendant Godot)
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Samuel Beckett,
Verba aliena
2003
"Ahora la pesadilla continúa... Mi fracaso es definitivo, y me pongo a contar sueños. Quiero despertar, y encuentro esa resistencia que impide salir de los sueños más atroces."Adolfo Bioy Casares, La invención de Morel
O problema é despertar. deixar de contar sonhos. pousar. repousar. subir as escadas e cada degrau a contar um pesadelo novo. desenterrar a custo a chave do bolso. estes dias que não acabam nunca. e depois arrastar-me cuspir-me para cima da cama. o telefone não toca há. já não sei. já não há mais ninguém. pescar um livro porque era assim que afastava os pesadelos quando os óculos eram maiores do que eu e as noites eram câmaras de tortura e os dias. e os olhos a escorrer pela página sem poderem comer as letras. (Apocalipse de são João dez nove. λάβε καὶ κατάφαγε αὐτό καὶ πικρανεῖ σου τὴν κοιλίαν ἀλλ᾽ ἐν τῷ στόματί σου ἔσται γλυκὺ ὡς μέλι).
29.3.13
et quod uides perisse perditum ducas
[...]
Catulo VIII
Andreas R. suo s. p. d.
Quase me deixava enredar de novo. Agora arrumo os papéis de carta e deito fora a caneta partida aos bocadinhos (caiu, não dei por nada e depois pisei-a e assustei-me porque parecia que as paredes se rachavam e se abriam e se entornavam por cima de mim. Ou os armários esmagados de livros. Lembrei-me daquele sábio iraquiano medieval. Nunca te contei esta história. Que pagava aos livreiros de Bagdad para passar as noites a ler entre pilhas de livros que exumava de armários atulhados. Uma noite talvez tenha havido terramoto. Ou talvez tenha arrumado mal um al-Bukharî e cairam-lhe todos em cima.). Quase me deixava enredar de novo. Agora vou ter de me desenredar.
Lisboa anos 90
E depois o táxi a cambalear rua acima. A porta tombada à espera de que eu mergulhe lá dentro. O cheiro da cerveja a escorrer dos teus lábios. E depois as luzes mortas da rua afagam a janela e a música abafada a lembrar-nos que a noite vai funda funda porque de dia não a rádio não toca assim. Já está. Saio eu primeiro. Acabou. Trocar um olhar dormente. Não há beijo nem aperto de mão. Segues para casa. Sim. Até amanhã. E amanhã vou trepar outra vez até à rua da rosa e conter o sismo que me arrasa a razão quando chegas e me olhas com os teus lábios finos cerrados a trancar o sorriso.
28.3.13
a lonjura do nosso afastamento
Não te vás embora tão depressa. Ainda não te disse o que queria e não sei se um dia to direi. Por isso fica mais um bocadinho. Vês este livro que me deu o. Não interessa. Toma, lê. A dedicatória. Nunca ninguém me escreveu coisas tão bonitas. Não costumo mostrar a ninguém. Nem a ti. A ele todos o lêem. A mim ninguém. O que eu te diria e te escreveria se não fosse este terror que me esventra os dias. Por isso não te vás embora tão depressa. Pode ser que de repente se me desenrolem as palavras. Ou não te diga nada. E te pegue na mão e ta aperte na minha. E te diga por fim que.
26.3.13
saxa loquuntur
A solidão das noites em que acordo e o corpo seco sem pinga de suor. Levantar os olhos deixá-los cair pelo quarto. Esta pinga de luz a escorrer da janela. Pica pica pica. E eu levantava os cobertores e despejava-me na alcatifa. Há tanto tempo. Agora é chão nu. Os pés aram as roupas espalhadas porque eu estava tão e só queria era. E pica pica pica as pedrinhas a cantarem na janela. Agora não. Remar remar. Não. Bambolear como um petroleiro oxidado comido pelo tempo. Até à janela. Na solidão destas noites em que acordo e queria ouvir pica pica pica as pedrinhas a cantarem na janela.
13.3.11
Delito
[Orazio Gentileschi - Lot e as filhas]
27.6.10
Ruminação de ideia antiga
22.4.10
Pulsar
e os músculos das pernas a pulsar e de vez em quando é como se deixasse de as ter. Porque saber que nunca mais te vou ver a balouçar por cima da minha cama. E o teu hálito rijo a roer-te os dentes amarelos de. E é por isso que. É também por isso que os meus dias. E é por isso que me vês a andar sempre a andar
21.2.10
Memento
Não é que me tenha esquecido de ti. Eu nunca me esqueço de ti. Não. O meu terror é que nunca me esqueço de ti. Nem quando fechava os olhos com força e te dizia desaparece. E tu não desaparecias. E quando os abria. Tu lembras-te. Do meu mau feitio matinal. A voz agarrada ainda à nicotina e ao alcatrão da noite de ontem. E depois tu chegavas-te a mim. Sentavas-te na cama e arranhavas-me a cara com a tua voz baixinha baixinha. rise and shine. E depois eu já não fechava os olhos nem dizia. Não. Eu nunca me esqueço de ti. Nunca. Nem agora. Quando. Os miolos espalhados na areia seca do meu cansaço. Destas queixinhas pequeninas. Porque os meus dias ainda são isto. Esta procissão interminável de insignificâncias. E é por isso que eu nunca me esqueço de ti.
8.2.10
A espera
Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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1.12.09
Do Quinto Império
Faz hoje 369 anos.
Excerto de um sermão de Fr. Luís de Sá, pronunciado no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, logo a 16 de Dezembro de 1640, um dia depois da aclamação de D. João IV como novo Rei de Portugal.

«Dizei-me, animosos Lusitanos, qual de nós duvidou nunca de que havíamos de vir a ter Rei natural, que restaurasse este Reino próprio, Império de Deus, depois daquela célebre promessa, que Jesus crucificado nosso Deus fez na noite antes da memoranda batalha de Ourique àquele raio da guerra, que ali jaz (*), sempre testemunha viva desta promessa, e verdade nunca morta, o nosso primeiro Afonso, e primeiro Rei deste Reino: volo in te (lhe disse o Senhor falando de rosto a rosto com ele) et in semine tuo imperium mihi stabilire: quero em ti, e em teus descendentes fundar um Império (não Reino só não) próprio para mim, e se este reino e império do Senhor havia de ter esta larga interpolação de sessenta anos em que o governou Castela, também a restituição dele ficou profetizada logo deste tempo, pelo ermitão santo, nosso Samuel Evangélico, que naquela mesma noite falou ao nosso Rei: vinces, et non vinceris: posuit enim super te et super semen tuum post te oculos misericordiae suae usque in sextam decimam generationem in qua attenuabitur proles, sed in ipsa attenuata ipse respiciet et videbit (**), quem depois destas palavras (que no próprio original se guardam no cartório do real mosteiro de Alcobaça, cabeça da minha religião Cisterciense nestes reinos) firmadas com a própria mão Real daquele Rei que ali vedes: duvidou nunca, que havíamos de ter Rei Português, que nos livrasse do jugo de Castela? Ninguém certo: é bem verdade, que para em tudo ser profecia, e figura David do nosso felicíssim Rei, assim como os Hebreus variavam nas palavras, assim nós éramos vários nos discursos, acerca da pessoa, e mais do tempo, sendo, porém, sempre entre nós tão caseira esta profecia de nossa Restauração que havia quem a não tivesse pela primeira verdade.»
in João Francisco Marques (org.), A Utopia do Quinto Império e os Pregadores da Restauração. Quasi, 2007.
pp. 84-85 (emendei apenas os erros crassos no latim)
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(*) Recordemos: o sermão foi pronunciado no Mosteiro de Santa Cruz, onde está o túmulo de D. Afonso Henriques, para onde provavelmente o pregador estaria mesmo a apontar.
(**) Vencerás e não serás vencido: na verdade [Deus] pôs sobre ti e sobre a tua descendência os olhos da sua misericórdia, até à décima sexta geração, na qual se atenuará a descendência, mas sobre ela, atenuada, ele deitará os olhos, e verá.
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