31.1.06

A esplanada

[Van Gogh - Esplanada na 'Place du Forum']

Havia uma esplanada, em Torres Vedras, que se tornou o nosso ponto de encontro quase diário. Eu costumava chegar primeiro. Sentava-me e esperava ansioso que vocês chegassem. Tu costumavas trazer o maço de tabaco, surripiado do café da família. Ali nos sentávamos então os três, fumando cigarros à socapa, dizendo coisas sem sentido. Outras vezes apenas em silêncio, vendo o Sol pôr-se à nossa frente, num horizonte ainda em parte descoberto. Havia uma calma silenciosa. Apenas os tons laranja do fim da tarde. Ainda lá está, a nossa esplanada, quase vinte anos depois. Agora o seu único horizonte é uma fieira de prédios de muitos andares, do outro lado da rua movimentada. Agora o Sol só a ilumina a meio do dia, quando está bem alto. O resto do dia vive mergulhada na penumbra. E muito, muito barulho de carros e pessoas. Cheiro de escape. Gosto mais dela assim. Ainda que sinta a falta da vossa companhia.

The wind that shakes the barley

[Turner - Staffa: Fingal's Cave]


(Para ser ouvido cantado por Dead Can Dance, no album "Toward the within", onde a voz da Lisa Gerrard soa mais intensa do que na gravação em estúdio)


I sat within the valley green
I sat me with my true love
My sad heart strove the two between
The old love and the new love
The old for her, the new that made me
Think on Ireland dearly
While soft the wind blew down the glen
And shook the golden barley

Twas hard the woeful words to frame
To break the ties that bound us
But harder still to bear the shame
Of foreign chains around us
And so I said, "The mountain glen
I'll seek at morning early
And join the bold United Men"
While soft winds shook the barley

Sad I kissed away her tears
Her arms around me flinging
The foeman's shot burst on our ears
From out the wildwood ringing
The bullet pierced my true love's heart
In life's young spring so early
And there upon my breast she died
While soft winds shook the barley

I bore her to a mountain stream
And many's the summer blossom
I placed with branches soft and green
Around her gore-stained bosom
I wept and kissed her clay cold corpse
Then rushed o'er hill and valley
My vengeance on the foe to wreak
While soft winds shook the barley

It's blood for blood without remorse
I took at Oulart Hollow
And laid my true love's clay cold corpse
Where mine full soon may follow
Around her grave I wander drear
Noon, night and morning early
With breaking heart whene'er I hear
The wind that shakes the barley

Robert Dwyer Joyce

29.1.06

The carnival is over

[Honoré Daumier - Lendo no jardim]

"The Carnival is Over"
(Dead Can Dance)

Outside
The storm clouds gathering,
Moved silently along the dusty boulevard.
Where flowers turning crane their fragile necks
So they can in turn
Reach up and kiss the sky.

They are driven by a strange desire
Unseen by the human eye
Someone is calling.

I remember when you held my hand
In the park we would play when the circus came to town.
Look! Over here.

Outside
The circus gathering
Moved silently along the rainswept boulevard.
The procession moved on the shouting is over
The fabulous freaks are leaving town.

They are driven by a strange desire
Unseen by the human eye.
The carnival is over

We sat and watched
As the moon rose again
For the very first time.

No kissing

[Rockwell - No Swimming]

a R.

Era tudo novo para mim. Não havia entre nós paixão. Havia uma atracção, uma irresistível atracção pela transgressão. Nunca tal me acontecera, nunca mais voltou a acontecer. Nunca desejei envolver-me com ninguém por quem não estivesse de facto apaixonado. Mas contigo era diferente. Era tudo novo. Era a primeira vez. Havia aquela sensação irresistível de transgressão, espicaçada por comportamentos tantalizantes de parte a parte. Às vezes sentávamo-nos a ver televisão, em tua casa, e quando nos apanhávamos sozinhos dávamos as mãos. Assim ficávamos por vezes em silêncio, apenas olhando para a televisão, de mãos dadas, até alguém entrar. Então desenlaçávamos rapidamente as mãos. Não era necessário disfarçar mais nada. Mantínhamo-nos sempre pudicamente afastados um do outro. Apenas as mãos se juntavam. Eu ardia de desejo. Mas não passávamos daí. Jogámos este jogo ambíguo durante tanto tempo. Não desesperava, porém. Não deixei nunca de dormir por não concretizarmos esta estranha relação. Bastava-me esta inebriante sensação de transgressão. As mãos dadas que se desenlaçavam rapidamente quando alguém entrava. Não precisava de mais nada.

O desejo

[Cézanne - L'enlèvement]
a R.

Dormia muitas vezes em tua casa. Em camas separadas, evidentemente. Não voltámos a beijar-nos, depois aquela noite no Frágil, quando sob o pretexto de querermos chatear um amigo comum acabámos a fazer aquilo que havia tanto desejávamos. Depois disso regressámos à mais ortodoxa relação de colegas de faculdade que saíam juntos de vez em quando. Falávamos algumas vezes sobre aquela noite, porém como se tivesse acontecido a outras pessoas, não a nós. Mas havia entre nós uma cumplicidade que fazia prever novas experiências. Dormia muitas vezes em tua casa. Tratavas-me como um miúdo. Eu tinha 18 anos, era realmente um miúdo. Mas tu tinhas quê, 19? Quando me deitava, vinhas ajeitar-me os cobertores, certificavas-te de que estava bem resguardado, e davas-me um beijo na testa ou na cara. Ias-te então embora, e deixavas-me a arder de desejo.

Sonhos

[Klee - Jardins do Sul (Tunisinos)]

Os meus sonhos têm cores vivas. Mesmo os sonhos maus. Os meus sonhos têm verdes fortes. Vermelhos. Laranjas. Têm outras cores. Mas sobretudo verdes fortes. Vermelhos. Laranjas. Os meus sonhos têm cores vivas.

27.1.06

Com que voz

[Caillebotte - Jardim em Petit Gennevilliers no Inverno]

(Para ser ouvido cantado por Rita Blanco no filme "Ganhar a vida", de João Canijo)


Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que o sofre e sente!

De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dela aventuro.

Camões

Porfia

[Van Gogh - Caminho com choupos]

Harto de tanta porfía
sostengo bevir tan fuerte
qu'es triste el ánima mía
fasta que venga la muerte

En tus manos la mi vida
encomiendo condenado.
O piedad mereçida!
Por qué m'as desanparado?

Fin hará la profecía
dada por mi mala suerte
qu'es triste el ánima mía
fasta que venga la muerte

(anónimo espanhol, s. XV/XVI)

24.1.06

A indecisão

[Correggio - Retrato de jovem]

Encolhido no seu banco, no recanto mais escuro do bar, o jovem não sabia como reagir. Enquanto beberricava o gin tónico olhava alternadamente para ele e para ela. Era evidente que ela estava apaixonada por si. Não lho dissera, mas as mulheres não costumam dizer essas coisas facilmente. Nem é preciso. Ele sim, ele dissera-lho, envergonhado. Mas dissera-lho. Calhara sairem os três naquela noite. O ambiente era tenso. O jovem sabia o que ia na cabeça dos dois amigos. Eles sabiam também que, naquela ocasião, eram rivais, ainda que tivessem consciência de que nunca poderiam alcançar o que desejavam. O jovem, por seu lado, beberricava gin tónico, e não sabia como reagir. A pose inacessível que tão laboriosamente criara ao longo dos anos não o podia salvar agora. Pelo contrário, parecia atiçar ainda mais os ânimos dos dois amigos, já exaltados pelo álcool e pelo ambiente sensual do bar. Passaram alguns minutos em conversas banais e esparsas, cheias de longos silêncios preenchidos pela música do bar. Ele levantou-se, ia buscar mais uma bebida. O jovem olhou para ela. O gin começara a desfazer-lhe a pose, trazendo à superfície a sua verdadeira natureza, calorosa e impulsiva. Não eram necessárias palavras. O jovem também a desejava. Não estava apaixonado, mas desejava-a. Sem palavras abraçou-a e beijou-a. Uma, duas, várias vezes. Ela soltava um ou outro gemido de prazer. Depois chegou ele. Bebia a sua vodca, simulando total indiferença. Mas era óbvia a sua decepção. O jovem alimentara-lhe a esperança de poder vir a ceder aos seus desejos. Fazia-o frequentemente. Largou a amiga. Bebera já demasiado gin. Estava numa situação imprevista. Não sabia como reagir. O amigo atacava a vodca. Olhava para o jovem como que dizendo "não te prendas por mim, é como se eu não estivesse aqui". Mas não era verdade. O seu sofrimento era óbvio. O jovem comoveu-se com o desgosto na cara do amigo. Também o desejava, ainda que de forma inconfessável. É ténue a fronteira entre a admiração intensa e o desejo. Acariciou-lhe a face. Nunca o teria feito, não fosse o gin libertador. Não era capaz de expressar publicamente as suas emoções. Mesmo em privado era-lhe difícil fazê-lo. Mas ali parecia haver uma força maior que o controlava. Abraçou o amigo, e beijou-o. Depois inclinou-se para trás, desesperado. O gemido da amiga fê-lo perceber o horror do que acabara de fazer. Desejou desaparecer. Acontecera tudo o que não podia ter acontecido.

A máscara

[Agnolo Bronzino - Retrato de Lodovico Capponi]

Dele diziam que era um rapaz por quem era impossível não se sentir atraído. Não porque fosse especialmente bonito, mas pela artificial aura enigmática que de si emanava. Era esse o seu segredo. Depois cresceu, tornou-se adulto, deixou cair a máscara que tanto proveito lhe tinha trazido durante tantos anos. Mostrou-se como de facto era, como sempre tinha sido. Deixou de se dizer que era impossível não se sentir atraído por ele. Mas agora é muito mais feliz.

A cisterna

[Cézanne - Château noir]

Inclinava-me aterrorizado para o vazio. Era uma cisterna. Ou um poço. Tinha grampos metálicos cravados na parede, que permitiam descer até ao fundo. Mas eu apenas me inclinava aterrorizado. Não me passaria nunca pela cabeça descer. Atraía-me, apesar do terror. Era sempre para ali que me dirigia, quando subia ao castelo, ainda antes de subir ao torreão, e admirar a espantosa vista sobre a cidade velha. Nunca havia ninguém no castelo. Sozinho avançava rapidamente em direcção à cisterna. Ajoelhava-me, e inclinava-me aterrorizado para o vazio. Não sei o que receava ver. Não sabia para que tinha servido. Tinha 12 anos, e uma imaginação fértil. Via soldados franceses, dos tempos das Invasões, amarrados, lançados lá para dentro, deixados a apodrecer naquela escuridão húmida. Vinha, de facto, um bafo frio e molhado lá de dentro. Não sei o que esperava ver. Um esqueleto, ainda dentro da sua farda. Ou um fantasma. Uns olhos brilhantes surgindo da escuridão húmida. Não sei. Mas inclinava-me, aterrorizado, atraído pelo abismo. Até que um dia pareceu-me entrever uma bota, que atribuí imediatamente ao soldado francês morto de fome e sede. Arrastei-me rapidamente para longe da entrada da cisterna, tomado de terror intenso, ergui-me, e corri o mais depressa que pude para fora do castelo. Não voltei durante anos.

23.1.06

Sedução

[Dongen - Le coquelicot]

Não andava, serpenteava. Era fabulosamente bonita. Tinha uns olhos grandes, magnéticos. Lábios grossos ornavam uma boca pequena sempre entreaberta. Vestia-se nas melhores lojas de Lisboa. Falava de maneira afectada, modulando uma voz rouca, sensual. Fumava cigarros como se estivessem na ponta de imensas cigarrilhas. Tinha estilo. Bebia imperiais sentada ao colo do Fernando Pessoa da Brasileira, e arrotava sedutoramente.

21.1.06

A flor

[Oscar Bluemner - Vénus]

À memória do Rui

Estavas sentado, em silêncio, como tantas vezes. Apreciávamos a companhia um do outro, sem necessidade de palavras. Bastava-nos a presença do outro. Tinhas pegado numa folha de papel, abandonada sobre a caótica mesa do meu quarto. Dedos ágeis. Minutos depois era uma flor, pequena. Estendeste-ma. Coloquei-a num copo de shot. Ali amareleceu com o tempo e o fumo dos nossos cigarros. Eram dias felizes.

A prenda

[Rafael - Estudo para Adão]

À memória do Rui

Uma garrafa de vinho. Sem rótulo. Nua. Escura. Parecia demasiado pesada nas tuas mãos fracas. Estendeste-ma com o teu sorriso ingénuo. Era a tua prenda de Natal. Tinhas sido tu a fazer aquele vinho, tinhas sido tu a engarrafá-lo, dizias com orgulho. Coloquei-a no armário da sala, na porta de vidro. Perguntaste-me várias vezes se o vinho era bom. Dizia-te sempre que só abriria a garrafa numa ocasião especial. Que a abriria quando estivesses bom, e então bebê-la-íamos juntos.



Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner

17.1.06

As rua das amendoeiras

[Van Gogh - Ramos de amendoeira em flor]

Quando nos mudámos para aquela nova rua, em Olhão, o que mais nos espantou foi não estarem os passeios calcetados. Eram de terra batida, vermelha, com amendoeiras plantadas a intervalos regulares. Não. Pensando melhor, o que verdadeiramente nos espantou foi a extraordinária largura dos passeios de terra batida, pelo menos o dobro da largura da estrada sem movimento. Era uma rua de gente, não de carros. O meu irmão, então com 3 anos, aproveitava a mínima distracção da minha mãe, despia-se e corria nu para a rua. Rebolava-se na terra vermelha, alegre, eufórico. A minha irmã e eu andávamos sempre descalços. Era uma rua de gente, e para gente. Sem carros. Tradicional. Feita de típicas casas algarvias, brancas, todas iguais, de açoteia e chaminé rendilhada. Eram lindas. Era uma rua direita, comprida, de onde saíam ruas perpendiculares mais pequenas, também elas dominadas por largos passios de terra batida semeados de amendoeiras. A nossa casa era simples e bonita, igual a todas as outras casas da rua. Uma sala de onde irradiavam as cinco divisões pequenas. Havia o quintal, grande, de onde partia a escadaria que dava acesso à açoteia. No Inverno a nossa rua era indescritivelmente bela. As amendoeiras floriam. A perder de vista manchas brancas e róseas. Visto da açoteia, então, era um espectáculo inolvidável. Nem quando murchavam as flores a rua deixava de ser linda. Então a terra vermelha ficava coberta de um tapete de pétalas brancas e rosa, que durava vários dias, talvez semanas. Era assim a nossa rua. Nós não gostávamos de estar ali. As circunstâncias eram penosas. Pudéssemos escolher, e não estaríamos naquela terra que nos era odiosa. Não fosse o espectáculo das amendoeiras em flor, e teria sido pior ainda o pesadelo. O dia em que voltámos para casa, odia em que abandonámos a rua das amendoeiras, esse foi um dos dias mais felizes da minha vida. Voltei à rua das amendoeiras recentemente, 22 anos depois de lá ter vivido um penoso ano. Já não tem passeios de terra batida mais largos do que a estrada. Já não tem amendoeiras. Apenas as casas de belas açoteias permanecem, ainda.