30.8.06

A arriba

[Teniers - Tentação de Santo Antão]

a J. B.


Não é que alguma vez me tenha esquecido de ti. Há momentos em que não és mais do que uma memória doce e vaga. Às vezes és recordação viva. Pungente. Sentado no alto da arriba olhava o mar. Abraçava-me a mim mesmo, procurando o meu próprio calor. Vento frio varrendo o areal deserto. Houve aquela madrugada, lembras-te. Um Inverno tremendo. Ou seria já Primavera. É-me tudo tão gelado. Aquele início de mil novecentos e noventa e oito. Tão negro. Sem esperança. Mas houve aquela madrugada. Agasalhados, olhando o mar. Lá tão longe. Tão medonho. Calados, olhando em frente. No cimo das arribas. Não devemos ter trocado mais do que meia dúzia de palavras. Eu sabia o que queria, mas não tinha coragem. Tão ferido, ainda. Tão inseguro. Tu, não sei. Talvez já soubesses o que querias. Tinhas mais medo do que eu. Muito. Muito mais. Nascia o dia. Enregelados. Podíamo-nos ter abraçado. Mas não. Tínhamos medo. Até que um dia. Até que uma noite.

29.8.06

O rugido

[Constable - Baía de Weymouth]

Tomado ainda pelo torpor estival. Caminhadas à beira-mar, as ondas lambendo-me as pernas. Já escrevi isto. Não me consigo cansar do mar. Ontem a praia estava deserta. Vento forte. Lá em baixo um enorme bando de gaivotas. Uma longa faixa branca e negra, da arriba até ao mar furioso. Desço. Ao encontro delas. O vento ensurdece-me. Areia compacta, não pisada. Gritam à minha chegada. Uma a uma levantam voo. Eu avanço devagar. Centenas de gaivotas. Um restolhar assustado. Guinchos. Afogam o rugido do mar. E do vento. Não há mais ninguém agora. Os guinchos das gaivotas, pousadas agora a uma distância segura. À minha volta troam vento e mar. Quando era miúdo detestava o Verão.

18.8.06

Ainda aqui estou

[Velde - Praia em Schveningen]

Não me fui embora. Por aqui ando todos os dias. Calado. Mente preguiçosa aquecida pelo Sol de Agosto. Salgada do Atlântico. Sem ideias. Sem palavras. Longos passeios na areia molhada. Pensando em nada. Deixo de ouvir o rugido do mar. De sentir a sua língua gelada contra as minhas pernas. Tudo me parece já passado. Esmagado pelas décadas. Três e meia, não mais. Mas parecem oito. Nove. Às vezes paro. Mãos atrás das costas. Mirando o oceano. Ou algo por detrás dele. Não sei. Depois volto à duna onde deixei toalha e mochila. Deito-me na areia quente. E durmo. Estou vazio.

11.8.06

Falhado de novo

[Bosch - Queda dos anjos rebeldes]

Mil novecentos e oitenta e quatro. Cheira a estrume. Uma camioneta de onde saíam uns senhores mal-encarados, armados de enxadas e outras alfaias. Manhã fria de Primavera. Ou seria Inverno. Sim, final de Inverno. O céu estava de chumbo. Não gosto de me levantar cedo. Chovia. Quero voltar para a cama. Para o calor. Abraçava-me a mim mesmo, tentando aquecer-me. Mesmo que a chuva me atacasse a cara enfiada dentro do capuz. Não conseguiria nunca aquecer-me. Apesar de tudo aquele cheiro forte. Estrume e terra molhada. Mal conseguia com a enxada. Atacava a terra com fúria. Não era aquilo que eu queria. Não era esta a vida. Olhava em volta e via-os a todos. Havia gritos de alegria. Risos. O estômago encolhia-se-me. Uma vontade incontrolável de chorar. Não era aquilo. Não pertencia ali. Tragédias de um quase adolescente. Parece tudo tão negro sempre. Agora às vezes também. Apoiava-me na enxada e pensava na melhor maneira de fugir dali e nunca mais ser visto. Haveria ali alguém que gostasse de mim. De quem eu gostasse. Não sei. Misantropo. Depois atiraram-me com a pequena árvore. Já está bom o buraco, rapaz, toca a plantar. Uma árvore pequenina. E eu tão grande. Grande, desajeitado, taciturno. Depois atei a árvore ao pau de suporte. Tão frágil. Olhava-a e não acreditava que vingasse. Batida pelo vento. Se isto fosse uma história cor-de-rosa eu agora escrevia que anos depois passei pela árvore que plantei em frente da escola e que ela estava grande, desajeitada e taciturna como eu. Maior do que as dos meus colegas, pois também eu era o maior de todos. Mas não. Poucos meses depois a minha árvore continuava raquítica, desfolhada, talvez morta. Ao contrário das dos meus colegas, que ganhavam as primeiras folhas primaveris. A minha não. Sim, estava morta. Eu passava todos os dias e parava, procurando um rebento, uma folha, alguma coisa que me dissesse que estava viva. Mas rebentos e folhas só no pau de apoio. Eu não tinha um pau de apoio seco e morto, como deve ser. Como tinham os meus colegas. Não. Eu tinha um pau de apoio cheio de vida. E uma árvore morta. Nem sempre passei ao lado do que realmente interessa, porém.

5.8.06

A agressão

[Rembrand - Leão deitado]

Mil novecentos e oitenta e um. A preto e branco. Pequena. Iluminava a sala sombria onde nos acotovelávamos. Tinha-a comprado pouco antes da nossa vinda para Olhão. Alívio no inferno. Único calor daquela casa. Esquecíamos quase tudo. Ou não. Entretenimento e companhia. Alívio. O terror da pequena casa escura e silenciosa. Estranha. Deitava-me cedo. Para adormecer enquanto a televisão ainda lançasse alguma luz débil sobre a noite. Algum ruído que abafasse a angústia do silêncio. Tinha medo daquele silêncio. Daquelas trevas. Um dia falarei disto.

Mil novecentos e oitenta e dois. Talvez fosse noite. Ou não. Já não sei. Eram dias negros. Uma noite sem fim. Naquele dia. Não. Naquela noite. Houve naquela noite um lampejo de alegria. Futebol na televisão. Coisa rara naqueles tempos. Sporting Benfica. Não nasci sportinguista, fiz-me. Naquela noite já era. Naquela noite tornei-me definitivamente. Não por o Sporting ter ganho três a um e ter praticamente assegurado o título. Não foi por isso. Senti-me sportinguista a sério quando vibrei quase às lágrimas com cada um dos golos do Sporting. Três golos. Todos marcados pelo Jordão. Foi aquela alegria que me disse que a partir daquele dia eu era um sportinguista a sério. Jogo célebre, aquele. A agressão do Bento ao Manuel Fernandes. Ou ao Jordão. Já não me lembro. Mas lembro-me da expulsão e do golo de penálti. E da mãe a acordar do seu torpor e a perguntar então quem ganhou. E de nós, a minha irmã e eu, gritarmos de alegria que foi o Sporting. E de a mãe suspirar um ora bolas. E de lhe ver o olhar ainda mais triste. Como se tivesse levado outra bofetada.

4.8.06

Faz favorrr

[Capa do primero volume d'As Farpas]

Batia-se a porta. Parece-me que não havia campainha. Sim, batia-se à porta. Depois apareciam umas barbas louras. Faz favorrr. Alemão, de certeza. Cerrrteza. Não sei por que razão lhe saía sempre aquele faz favorrr interrogativo. Já sabia ao que vinha. Deixei de responder. Dava-lhe os bons dias e entrava. A luz era pouca. Apertado. Per angusta ad augusta. Isto sou eu a pensar agora, não tem nada que ver com a história. Já não sei se esta névoa é o pó que se acumula em nuvens espessas quebradas por feixes de luz fraca. Ou então é a minha memória a falhar. Já foi há tanto tempo. Subia umas escadas rodeadas de estantes embutidas nas paredes. Às vezes começava logo ali a minha demanda. Não sei o que queria exactamente. Talvez não procurasse nada em concreto. O cheiro dos livros. Do pó de décadas. Séculos. Talvez isso. Visitava regularmente o velho alemão do Bairro Alto. Às vezes levava um livro. Mas só depois de acesa batalha verbal. Tem cerrrteza de que não encontrrra nas livrrrarrrias? Uma tarde quase chorei para que me vendesse uma primeira edição do primeiro volume d'As Farpas. Não lhe vendo, pode encontrrrarrr edições moderrrnas melhorrres do que esta numa livrrrarrria. Não sei se entendeu o meu desespero. Desesperrro. Não sei se lhe consegui explicar que o meu interesse não era apenas no conteúdo. Que o que procurava era exactamente a edição original. Ter nas mãos aquele mesmo pequenino volume manuseado pelos contemporâneos do Eça e do Ortigão. Olhava-me apiedado e abanava a cabeça. Duzentos e cinquenta escudos, é o meu prrreço mínimo, mas eu se fosse a si comprrava uma edição moderrrna. Por pouco não lhe caí aos pés. Dei-lhe os duzentos e cinquenta escudos. Mãos a tremer. Depois fugi rapidamente do velho alemão. Com medo de que se arrependesse da venda. Desci a Calçada da Glória a correr. Só parei no comboio. Saltava-me o coração pela boca.

Uma destas noites cairam-me nas mãos, enquanto reorganizava a minha biblioteca. As Farrrpas.

3.8.06

O desodorizante

[Bosch - São Jerónimo rezando]

Há aqueles cheiros que nos trazem memórias sem nexo. Passou por mim uma destas noites. Um casal abraçado. Cheiro. Não sei se dele se dela. Não interessa. Veio-me à memória aquele antigo aroma. Prateleiras escuras até ao tecto. Arrumar novos livros da minha cada vez maior biblioteca. Mil novecentos e noventa e dois. Ou um. Ou três. Há um rádio com dois leitores de cassette sempre sintonizado na Antena 2. Pilhas. Pilhas de cassettes de várias cores. Passava as noites agarrado ao rádio, a gravar. Música barroca de certeza. É ao que me cheira. Mas podia até ser clássica. Há música na minha memória. E há livros. Não uns livros quaisquer. Há um dicionário de latim dedicado ao ilustríssimo e excelentíssimo Sebastião José Carvalho Melo, Marquês de Pombal. Naqueles tempos percorria os alfarrabistas do Bairro Alto, Chiado, Trindade. Por algumas centenas de escudos levava para casa livros sem valor material. Tantas selectas latinas dos séculos XVII e XVIII. E edições oitocentistas do Eça e do Herculano. Um dia achei uma segunda edição d'As Cidades e as Serras. Tinha pertencido a um inglês. Páginas repletas de palavras sublinhadas com a tradução inglesa em cima. Tantos achados. Arrumava-os ciosamente nas prateleiras escuras. O meu tesouro. Infância e adolescência. Guardei-os quase todos. Juntava-lhes os primeiros livros da incipiente idade adulta. Uns velhos catados de alfarrabistas. Outros respigados da livraria da faculdade. Mas eram as selectas setecentistas que tinham aquele cheiro. Não. Talvez houvesse no meu velho quarto aquele cheiro. Talvez eu próprio cheirasse assim. A alfarrabista e a música barroca. Ao meu velho quarto iluminado pelo Sol poente. Subiam-me o nariz aquelas memórias com quinze anos. Abrandei o passo. Era um desodorizante barato. Daqueles de spray. Talvez fosse dele. Ou dela. Tanto faz.

31.7.06

Serenidade

[Gerrit Dou - Velha regando plantas]

A maior parte da vida passei-a entre a angústia e o sobressalto. Procurando a serenidade. Ansioso. E então escrevo. E quando a encontro não mais consigo escrever. E tanta serenidade me traz a escrita. Agora parece que a conquistei. Não definitivamente. Às vezes gostava de a perder por uns momentos, só para voltar a escrever. Perdê-la e no instante seguinte recuperá-la. Só para conseguir escrever meia dúzia de linhas que me satisfizessem.

29.7.06

Falhado

[Jacob de Il Gheyn - Quatro estudos de rãs]

Livros nunca escrevi. Suponho que esporádicas publicações científicas e literárias em revistas e jornais não contem. Tem de ser mesmo um livro. Com o meu nome na capa. Não sei se algum dia o farei. Duvido. Não tenho vocação para textos longos. Prefiro as frases curtas. Concisas. Destinado às colaborações esporádicas e a este e outros blogues.

Filhos nunca os tive. Agora podia acrescentar o previsível "que eu saiba". Mas não. Não tenho mesmo. De certeza absoluta. Nem quero ter. Deus me livre, diria, se fosse crente. Não é que não goste de crianças. Gosto. Caladinhas ou longe de mim. Ou maiores de dezoito. Muitas coisas falharam na constituição do meu património genético, esta é uma delas. Não tenho nem sequer vestígios de instinto paternal. Nada. São-me indiferentes. Pequenas bolas de carne hiantes. Por vezes mordem. Não, obrigado. Respeito muito quem gosta delas, porém.

Árvores já as plantei. Ou melhor, plantei uma. Lembro-me dessa manhã. Primavera chuvosa. O cheiro a pedra molhada. Doces dias. Enfiava os botins de borracha e corria até à escola, chapinhando nas poças de água. Ainda havia campo ao pé de casa. Por isso talvez não fosse cheiro a pedra molhada. Terra. Era a aula de hortofloricultura. Havia disciplinas com nomes destes, dantes. Escolhera-a porque vivia na terra. Encharcado na lama. Para desespero da mãe. Saltavam répteis e batráquios dos meus bolsos. Uma vez uma cobra deixou um cheiro forte numa camisa. Nunca mais saiu. Mas naquele dia não havia cobras. Nem rãs. Naquele dia havia aula prática.

Mais tarde contarei o que aconteceu. Agora não me apetece. Já vai longo este texto. Demasiado.

24.7.06

O sofá

[Fragonard - Aula de música]

Estava quase na hora. Pegava num bom livro. Tinha de ser bom. Mas não demasiado bom. Não me podia absorver em demasia. A escolha era por isso difícil. Um Eça, por exemplo, estava fora de questão. Demasiado bom. Olhava desencorajado as prateleiras onde se empilhavam tantos livros que nunca teria tempo de ler. Alguns demasiado bons. Acabava muitas vezes por escolher uma enciclopédia. Ou um livro de arte. Algum que pudesse folhear indolente pela noite dentro. Com prazer. Mas não em demasia. Ou um policial. Qualquer coisa. Só não podia ser demasiado bom. Raramente o mesmo livro passava de uma noite para a outra. Ao contrário dos livros mesmo bons, que me acompanhavam durante dias sem fim. Às vezes semanas. Não, estes não podiam ser tão bons. Tinham de ser interessantes. Mas não em demasia. Não fosse ficar demasiado absorvido pela leitura. Acabava por escolher quase aleatoriamente. Tanto tempo. Tanta hesitação. Para nada. Às vezes levava dois ou três, para ir folheando, para ir lendo com sossego e sem demasiada atenção. Sentava-me no sofá castanho ao lado da aparelhagem, procurava os auscultadores, sintonizava na Antena 2. Música na Madrugada. Começava à uma da manhã, se bem me lembro. Havia sempre uma voz feminina, não demasiado doce, que declinava monótona as obras a ouvir até o dia raiar. Dava pulos o meu coração quando reconhecia algum nome barroco. Não tinha nunca grandes esperanças de ouvir nomes renascentistas. Nem medievais. A Antena 2 nunca foi muito amiga da música antiga. Os barrocos já me deixavam perfeitamente satisfeito, porém. Um J. S. Bach, um Haendel, um Vivaldi, um Couperin, um Charpentier. Às vezes havia um Monteverdi. Anotava numa folha de papel a hora prevista para as obras que mais me interessavam e lançava-me sobre o livro. Auscultadores ligados. Ouvia mais do que lia. É que não estava ali para ler. Isso fazia durante o dia. Queria ouvir música. E sentia aquela necessidade inexplicável de me fazer acompanhar de um livro. Não demasiado bom, claro. Não fosse absorver-me em demasia, não fosse distrair-me da música.

22.7.06

As mãos

[Ânfora ateniense do século V a.C.]

As luzes não se apagavam na enfermaria. Era difícil dormir. Os gemidos dos outros. Sempre aquela dor indefinida na cabeça. E a incerteza do que me ia acontecer. Às vezes adormecia. Um sono leve. Breve. Logo se me abriam de novo os olhos. À minha volta imagens difusas. Como se dentro de uma sauna. Mas sem o calor. Permanecia num estado que não era nem de vigília nem de sono. Vencido pelo cansaço. Não o suficiente para um sono profundo. Então senti que me acariciavam. Havia uma mão. Ou duas. Por cima do lençol. Não havia dúvida. Acariciavam-me. Primeiro pensei que estava a sonhar. Mas despertei e a mão continuava ali. Levantei a cabeça para ver quem era. Uma bata branca desfocada fugiu rapidamente do meu olhar. Deixei cair de novo a cabeça sobre a almofada. Tinham-me acariciado. Agora tudo era nítido. Acordara de vez. Com os olhos semicerrados tentava surpreender de novo a bata branca fugidia. Nunca ninguém me tinha acariciado daquela maneira. Um aperto no estômago mantinha-me acordado. Suava. Cheirava mal. Queria ir para casa. Maldita hora em que decidi esticar as pernas.

21.7.06

A angústia

[Bosch - Cristo carregando a cruz]

Disse-se que eu tinha morrido. Ou que estava moribundo, ligado a uma máquina. Inventaram-se os pormenores mais extraordinários sobre o meu acidente e sobre o meu estado. Vivo ainda ou já morto. Era essa a dúvida que pairava sobre a escola. E de repente eu ganhara o estatuto de assombração heróica. Foi sem capacete. Ele é dos duros. O grandalhão esquisito está entre a vida e a morte. Não, já morreu. Estão só à espera da autorização da família para desligar as máquinas. Ele até era fixe. O meu nome ecoava pelos corredores da escola. Ganhara o respeito de todos, estatuto que só se consegue quando se morre ou se está perto disso. E eu, para todos os efeitos, estava morto ou perto disso. Chegavam-me estas notícias da minha morte ao remanso do meu quarto, onde, por mera precaução, teria de permanecer uma ou duas semanas em repouso absoluto. Sem televisão. Sem música. Sem livros. As dores de cabeça eram intensas. Explicaram-me que eram os líquidos do cérebro ainda abalados pelo choque. Ou coisa parecida. A minha memória não é já a mesma. Por isso não sentia a falta de nenhuma daquelas coisas. Aborrecia-me de morte. Para me distrair imaginava o regresso à escola. Seria tudo tão diferente. Deixaria de ser um adolescente isolado. Passaria a ser apaparicado por toda a gente. Pedir-me-iam que contasse o acidente com todos os pormenores. Seria o centro das atenções. Conhecido por todos. Finalmente popular. Talvez até houvesse por fim raparigas interessadas em mim. Seria tudo tão diferente. Uma angústia invadia-me o coração. Maior do que a dor de cabeça. Enfiava-me debaixo dos lençóis. Fechava os olhos furiosamente e amaldiçoava o momento em que tinha decidido esticar as pernas montado numa mota sem capacete.

19.7.06

As pernas

[Terbrugghen - Rapaz tocando flauta]

Tinha as pernas demasiado grandes. Incomodavam-me. Já não sabia onde as meter. Mil novecentos e oitenta e sete. Encolhido. Agarrava-me a C., sem saber onde meter as pernas. Cócegas no estômago. Sabia que estava a fazer algo proibido. Ousadia. A primeira vez. E aquelas minhas pernas enormes a estragar tudo. Não sabia se as encolhia. Se as enrolava à volta das suas. Desconforto. Enorme desconforto. Quase tão grande como as minhas pernas. Suava de excitação. Talvez arfasse. Tão tolo, sem protecção. Não quisera desperdiçar aquela oportunidade. Entregara-me por completo. E agora o meu problema eram as pernas. Dormentes. Dolentes. De bom grado as teria deitado fora. Sentia-me a cair. Uma tremenda vertigem. Será que é sempre assim. Não. Tinha de me agarrar a C. com mais ardor. E depois estiquei as malditas pernas.

Abri os olhos e já estava em pé. Todo eu doía. Sobretudo a cara do lado direito. E a cabeça. A cabeça. Como me doía a cabeça. Tão tolo, sem protecção. Procurei C. com o olhar. Mal conseguia mexer o pescoço. Levei a mão à testa e retirei-a vermelha de sangue. O lado direito da cara ardia-me tanto. Devo tê-la arrastado pelo alcatrão. Sabia-me a alcatrão. Tinha o lábio rasgado. Não sei como caí. Nem como me levantei. Abri os olhos e já estava em pé. Onde estás, C.? Ali está. Parou a mota e correu na minha direcção. Caíste pá. Estás bem? Dizia-o com os olhos, não com a boca. Não respondi. Não sei se era capaz de falar. Aquela dor de cabeça. Ia morrer. Olhávamo-nos mudos. Assustados. Talvez me tenha posto a mão no ombro. Tão tolo, sem protecção. No dia seguinte acordaria com a cara inchada. Com uma dor de cabeça insuportável. Ficaria várias horas em observação no hospital. Seria transferido para Lisboa. Ficaria internado em observação. Passaria semanas com aquela dor insuportável na cabeça. Pensaria que morria. Mas agora apenas tentava perceber o que me acontecera. Levava a mão à cara ardente e olhava C. nos olhos. Não sei durante quanto tempo. Se calhar nenhum. Mas pareceram horas.

Rapaz de brinco de arame

[Bruegel - A queda dos anjos rebeldes]

Era uma daquelas alturas do ano em que recebemos prendas. Não sei se foi quando fiz quinze anos. Se foi no Natal desse ano. Sei que me perguntou a mãe que prenda queria eu. Já tinha a resposta há muito preparada. Aliás, já há muito me passeava pela cidade com orgulhosas argolas de arame apertadas na orelha esquerda, que retirava cautelosamente enquanto subia as escadas de casa. Parecia mesmo furado. Mas não. E no entanto era um escândalo. E eu adorava escândalo. Hoje, quando os rapazes exibem grossos brilhantes em ambas as orelhas, parecerá ridículo. Em meados dos anos oitenta, na província portuguesa, era um escândalo tremendo. Uma ousadia, uma afronta às regras da sociedade. E eu, como qualquer adolescente, passava os dias a inventar novas maneiras de afrontar a sociedade. Essa entidade então abominada, mas que hoje não consigo sequer identificar. Naquela idade era tudo tão mais fácil. Havia a sociedade opressora e chata. E havia eu. Desafiador. Adolescente. Recusava-me a vestir roupas normais. Tinham de ser esquisitas. De preferência negras. Depois valia tudo. Botas militares. Calças rotas. Penteados bizarros. Tudo o que pudesse chocar. E usava argolas de arame na orelha esquerda. Era eu mesmo quem as fazia, enrolando arame num marcador. Com uma tesoura forte cortava-as, e ia variando o número a cada dia. Não tivera, no entanto, a audácia de as usar na orelha direita. No rígido código indumentário dos anos oitenta usar brincos na orelha direita implicava homossexualidade assumida. Coisa que na altura não me apetecia nada fazer. Rebelde dentro de limites estreitos. Mas agora dava o passo mais difícil. Deitar fora as argolas de arame. Furar de facto a orelha. Definitivo. Não mais poderia arrancar os brincos a subir as escadas. Não ouviria mais condescendentes "ah, não são brincos a sério, não está furado". Não. Agora queria mesmo furar. Usar brincos a sério. Era, repito, um passo arriscado, na província portuguesa de meados dos anos oitenta. Já sabia o que me esperava. Já tinha diariamente uma pequena amostra, na escola. Já não seria apenas o grandalhão esquisito de ar deprimido vestido de preto com cabelo cheio de gel (outra novidade na época). Passaria a ser o grandalhão esquisito dos brincos. Com todas as conotações que isso tinha na província portuguesa dos anos oitenta. Ganharia fama de maricas. Talvez até de drogado. Perderia quase todos os poucos amigos. Seria um pária na escola, admirado por uma minoria, gozado e excluído por quase todos. Os pais dos amigos sobreviventes proibi-los-iam de se dar comigo. Acabaria só. Pensava nisto todos os dias, enquanto subia as escadas de casa e tirava os brincos de arame. Imaginava-me sozinho. Vestido de negro. Com brincos a sério na orelha esquerda. Expulso de todo o lado. Isolado. Portanto, quando a mãe me perguntou que prenda queria eu, não hesitei. Quero furar a orelha.

17.7.06

O rapaz do sorriso

[Caravaggio - São João Baptista]

Ginga rua acima sorriso aberto. É quase um riso. Um sorriso a perder o sub. De que se ri. Ninguém sabe. Nem ele. Saberá, afinal ninguém se ri de nada. Não. Juro que não sabe. Não olha para ninguém, avança decidido. De vez em quando leva o cigarro aos lábios semperssorridentes. Abana a cabeça expele o fumo. Abana a cabeça chupa o cigarro. Sempre a sorrir. Sempre a rir. Nunca o vi de outra maneira. Todos os dias. Há anos. Pode lá ser. Juro. Todo ele ri. Os olhos. A boca. Os caracóis. É sorriso sentido. Mas não sabe do que ri. Não sabe por que sorri. Como sabes que não sabe. Porque ninguém sorri se não está feliz. E ninguém está feliz todos os dias. Lá vai ele gingando. O rapaz do sorriso. Que se ri não sabe de quê.