9.9.07

A far better expedient

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor do painel direito)]

«This hideous murder accomplished, I set myself forthwith, and with entire deliberation, to the task of concealing the body. I knew that I could not remove it from the house, either by day or by night, without the risk of being observed by the neighbours. Many projects entered my mind. At one period I thought of cutting the corpse into minute fragments, and destroying them by fire. At another, I resolved to dig a grave for it in the floor of the cellar. Again, I deliberated about casting it in the well in the yard - about packing it in a box, as if merchandise, with the usual arrangements, and so getting a porter to take it from the house. Finally I hit upon what I considered a far better expedient than either of these. I determined to wall it up in the cellar - as the monks of the middle ages are recorded to have walled up their victims.»

Edgar Allan Poe, The Black Cat

Kill the pain . IV . Bloodstains

[Bernardino Luini - Salomé com a cabeça de São João Baptista]
more sweet
more sweet

iconography fucks with me

you look great in bloodstains

(cantado por Massive Attack)

Sicut ouis. Sinto-lhe os olhos miúdos lambendo-me o corpo. E os lábios esmagados para não soltar o escárnio. Torce o nariz de rato e cospe um 'venha' quase inaudível. E eu vou. Porque não tenho para onde ir. E por isso tanto faz.

A dor. Lá está. Outra vez. Esmagando-me o peito. Nem aqui. Porque eu pensava que. Afinal. O frio. E a dor. Como lá fora. E o medo. Não. Isto sou eu. É o medo. O medo de. Basta. Tem de ser. Não há nada lá fora. Só o escuro. E o frio. Já chega. Que tenho eu a perder. Ou a ganhar. E a dor. E se um dia tem de ser. E a angústia. E este aperto que me rebenta as entranhas. Que seja agora. Para quê esperar. É a mesma coisa. Agora ou depois. Não. Não é. Se for agora custa menos. Não aquilo. Porque aquilo é igual. É sempre igual. Custa menos o resto. Se for agora. Porque se não podem ser anos. Décadas. De aperto. De medo. De dor. Mas e se. Não. Se até agora não. Trinta e seis. Mais outros tantos de acordo com as estatísticas. E eu não aguento. Não dá.

'Entre. Não tenha medo.'

Vai ser aqui então. Achava que ia ser diferente. Uma masmorra. No fundo de um poço fundo. Com correntes presas em argolas pregadas na parede. E musgo. Muito musgo em pedras gigantes. Não sei. Carceri d'invenzione na minha cabeça. Não era isto. Decepcionante. Uma cela nua. Nem uma corrente. Nada. Nem catre. Para quê. Se eu não vou dormir. Só vou. E depois acaba-se esta dor. As entranhas calcadas pisadas sem dó. Tudo. Ou não. Porque. E se. Não sei. Já não sei. Nada. E por isso o melhor é. Porque voltar lá para fora. Para a dor que me arranca as tripas. Não não não. Ad occisionem.

Walled up

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor do painel direito)]

«As I said these words I busied myself among the pile of bones of which I have before spoken. Throwing them aside, I soon uncovered a quantity of building stone and mortar. With these materials and with the aid of my trowel, I began vigorously to wall up the entrance of the niche.

A succession of loud and shrill screams, bursting suddenly from the throat of the chained form, seemed to thrust me violently back. For a brief moment I hesitated - I trembled. Unsheathing my rapier, I began to grope with it about the recess; but the thought of an instant reassured me. I placed my hand upon the solid fabric of the catacombs, and felt satisfied. I reapproached the wall. I replied to the yells of him who clamoured. I reechoed - I aided - I surpassed them in volume and in strength. I did this, and the clamourer grew still.

It was now midnight, and my task was drawing to a close. I had completed the eighth, the ninth, and the tenth tier. I had finished a portion of the last and the eleventh; there remained but a single stone to be fitted and plastered in. I struggled with its weight; I placed it partially in its destined position. But now there came from out the niche a low laugh that erected the hairs upon my head. It was succeeded by a sad voice, which I had difficulty in recognising as that of the noble Fortunato. The voice said -

"Ha! ha! ha! - he! he! - a very good joke indeed - an excellent jest. We will have many a rich laugh about it at the palazzo - he! he! he! - over our wine - he! he! he!"

"The Amontillado!" I said.

"He! he! he! - he! he! he! - yes, the Amontillado . But is it not getting late? Will not they be awaiting us at the palazzo, the Lady Fortunato and the rest? Let us be gone."

"Yes," I said "let us be gone."

"FOR THE LOVE OF GOD, MONTRESOR!"

"Yes," I said, "for the love of God!"

But to these words I hearkened in vain for a reply. I grew impatient. I called aloud -

"Fortunato!"

No answer. I called again -

"Fortunato!"

No answer still. I thrust a torch through the remaining aperture and let it fall within. There came forth in return only a jingling of the bells. My heart grew sick - on account of the dampness of the catacombs. I hastened to make an end of my labour. I forced the last stone into its position; I plastered it up. Against the new masonry I reerected the old rampart of bones. For the half of a century no mortal has disturbed them.

In pace requiescat!»

Edgar Allan Poe, The Cask of Amontillado

6.9.07

Kill the pain . III . Narcosis

[Mattia Preti - São João Baptista diante de Herodes]

back to sleep

yeah more sweet narcosis

(cantado por Massive Attack)

Bom bom e se agora o homúnculo. Porque é que me olha desta forma. Não é pena. E não é bem curiosidade. É como se. Sicut ouis ad occisionem. Tão óbvio. Havia uma cabeça de boi e cheirava a sangue. E o homem de avental branco tinto de vermelho escuro. Abria a boca e ria-me os dentes amarelos. Assim. Cutelo na direita. A esquerda varrendo a bancada e o cheiro a morte. Se era das mãos se do ar. Não sei. E eu olhava para cima e via os cornos. E eu tão tão cá em baixo. Da cabeça de boi empalhada. Ou seria. A kidney oozed bloodgouts on the willowpatterned dish: the last. Joyce. Tenho os Dubliners para acabar antes de. Em inglês. Porque em tradução já. Depois fechava a boca seca e afiava o cutelo num espeto de ferro. Zinczinczinc. E eu já não estava ali. Esquecido. Deitando os olhos para cima. E o cutelo telo. Pegava num monte de carne e. Baque seco que me estoirava os ouvidos. Cortava nacos sangrentos. E olhava para trás e mostrava-me os dentes. Estás a ver. E eu via. Outra vez ali. Depois a mão de sangue pegava num naco de carne. Oozing bloOd. Bloodgouts. Lombo. Queres lombinho. Toma. Prenda do avô. Sabes como se matam as vacas. Não sabes. Eu explico. E eu chorava e agarrava-me às pernas da mãe. E ele deitava-me este olhar. Não era pena. Nem bem curiosidade. Era assim.

5.9.07

O nevoeiro

[Bosch - A adoração dos magos (pormenor)]

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner Andresen

4.9.07

ألم

[Munch - Luar]

في شُباكي ضَوء القَمَرِ
إنّي تَعْبانُ جداً وقَلبي جُرْحٌ
لعلّي مَريضٍ
لعلّي سالمٍ
أرَى دَمي ومَوتي

3.9.07

Frio frio frio

[Dürer - Auto-retrato]

Frio frio frio. E se eu ficasse mais um bocadinho. É pior. Enfiar a cabeça debaixo dos cobertores pesados e não sair daqui. E se eu nunca mais saísse daqui. Amarrado a esta cama. Como aquelas santinhas que nunca se levantam e passam a rezar o tempo todo da vida que o seu deus lhes deu. Isso não queria. Mas a ler. Enrolado nos cobertores a vida toda. A ler. Não ter de me levantar. E a dormir. Quem me dera ser santinho. Mas sem rezar. Levantar-me para quê. Outro dia. Se eu pudesse saltar os dias. Mas saltar para onde. Amanhã será a mesma coisa. E depois de amanhã. Saltar para onde. Saltar para quê. Isto nunca mais acaba. Estes dias angustiados. Não há solução.

Burro

[Goya - Semana Santa en tiempo pasado en España]

- Quando eu morrer batam em latas,

Rompam aos berros e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro

Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro...

Mário de Sá-Carneiro.


Puxar os lábios para cima não chega. E mostrar os dentes. Há todo um processo. Esquecer. Os dias pastosos. E as noites duras. A solidão que me esmaga o peito. Devagar. Tortura malvada. Um bocado bocadinho agora e outro depois. Devagarinho. Abrir os olhos e não ver. A boca e não dizer. Porque há esta luz medonha que me cega e me rouba as palavras. E depois arrancar o corpo da cama quente. Um bocadinho agora. Outro depois. Perder a vontade de. Deixar-me cair. E não me levantar mais. Por isso não chega. Puxar os lábios para cima. E mostrar os dentes. Porque um sorriso não é isto. Isto é um esgar.

2.9.07

A hora da partida

[Mattia Preti - São Sebastião]
A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

1.9.07

Kill the pain . II . Ventimiglia

[Pieter Bruegel o Velho - Sermão de São João Baptista (pormenor)]

my head's between my knees again
got needle set to zero
and you can shoot me hurricanes
don't spare me the details
(cantado por Massive Attack)

'Sim. Vim para aquilo. Embora não saiba se.'
'Já cá está. É tarde demasiado tarde para.'
'Era o que me dizia a mim mesmo.'
'Então afinal sabe que.'
'Sei.'

Olhos pequeninos de rato ou de galinha. E se eu lhe virasse as costas. A porta. Abri-la. Voltar. Da entrada vê-se o mar ao longe. Fita azul no horizonte. E se o vento estiver de feição sente-se-lhe o cheiro. E o calor da areia grossa. A fina mete-se-nos pela pele adentro. Como açúcar. E nos olhos. Por isso areia grossa. Branca. Ou negra. Tanto faz. Houve aquele fim de tarde em Ventimiglia. Os pés postos no mar morno sentado sobre duros seixos negros. E a água ia e vinha devagar sem ondas devagarinho. Mare nostrum. Como um rio ou um lago. O Sol rebolando lento no horizonte. Nem cá nem lá. As horas não passam o tempo morreu. E eu ficava o resto da vida os pés postos no mar morno. Sentado na pedra negra. Tão cansado. Há um comboio para apanhar. Depois durmo. Até Irún. Tantas horas. E a barba crescida e os olhos fundos pisados. E se me distraio e perco o comboio fico aqui. Preso. Há quantos dias não me. Ah sim. No dia em que cheguei. Cortei-me. E o sangue não parava. Porque eu estava tão tão cansado e era noite funda funda. Não gosto de fazer a barba. Chorei tanto. Porque eu queria ter sempre a cara nua. Não queria rapá-los. Queria que nunca nascessem. E recusava-me. E ia para a escola cheio de pêlos uns maiores do que os outros. Mal semeados. Tufo aqui tufo ali. Depois rendi-me. Peguei na lâmina e rapei a cara e fiquei cheio de sangue. Borbulhas cortadas. No balneário de Milão eu não tinha borbulhas. Vinte e. Já não me lembro. Estava frio e não se ouvia nada senão os pingos ping ping de água no chão. A angústia. E a lâmina a raspar a cara. Voltar para casa. Já. Que faço eu aqui. Golpe fundo. Achei que ia ficar com uma cicatriz. E agora passo a mão na cara e não há nada. De Milão só o medo. Sem cicatriz. E eu punha a cabeça de fora da janela e sentia o ar. Negro. Sufocando-me a alma. Como estes dias. Pastosos. Sem fim sem paz sem. E eu só queria.

Ausência

[Rui Oliveira - Auto-retrato]

Existir sem viver

[Van Gogh - Velho desesperado]

...
Ai! mas um dia, tu, o grande corajoso,
Também desfaleceste.
Não te espojaste, não. Tu eras mais brioso:
Tu morreste.

Foste vencido? Não sei.
Morrer não é ser vencido,
Nem tão pouco é vencer.

Eu por mim, continuei
Espojado, adormecido,
A existir sem viver.

Foi triste, muito triste, amigo, a tua sorte -
Mais triste do que a minha e mal-aventurada
... Mas tu inda alcançaste alguma coisa: a morte,
E há tantos como eu que não alcançam nada...

Mário de Sá-Carneiro, A um suicida (excerto)

31.8.07

Destróis todas as pistas que nos salvam

[Hopper - Morning sun]

Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas

Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam

Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança
Rejeitas a matriz
E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

Sophia de Mello Breyner Andresen

30.8.07

Kill the pain . I . Homúnculo

[Bartolomé González y Serrano - São João Baptista]

can you lick my wounds please
can you make it numb
and kill the pain like cortizone
and grant me intimacy
(cantado por Massive Attack)


Puxa-se a corrente e soa a sineta ao longe. Depois a espera. Paciente. Ou não. Há aqueles que desistem. Eu não. Porque para aqui chegar. Não posso parar. Não há retorno. Enfim. Alguma coisa lá dentro. Ruge-ruge mas não é saia de senhora. Aqui não há. Creeeeeeec. Pesada. A porta. Abre-te. Devagar. Eu espero. Já esperei tanto. Já está. Lá em baixo. Quase no chão. Um homúnculo seco. Pele de cera. Franzindo o nariz. Testando o ar. Para um lado e para o outro. E guincha. Como um rato. 'Faça favor. Vem para aquilo não é'. Hesito. É tarde. Já cá estou. Abro a boca. O homúnculo funga. Não me quer resposta. Vira-me as costas e lá vai ruge-ruge. 'Venha comigo'. Passo a porta. Grossa. Como consegue aquela sombra de homem abri-la. Não sei se a fecho. Se a deixo assim. Haverá alguém que. Já está. Não vou olhar. Isto não é um filme de. Outro homúnculo. De certeza. E não vou olhar para trás. Porque eu não. Porque não há retorno. 'Então'. O homúnculo. Está à minha espera. Ao fundo do corredor. Como é que lá chegou tão. Bate-me forte forte. O coração. Não sei se. Mas agora é tarde. Já cá estou. Mão na parede de pedra fresca banhada sempre de sombra. Por isso a pele de cera. O Sol não entra aqui.

29.8.07

Epistolário XXIX

[Caravaggio - São João Baptista]

... E as janelas abertas, sempre... sempre fechadas...

Encalhei dentro de mim.
Nem me concebo já.

Mário de Sá-Carneiro, Eu-Próprio o Outro

Ρ.Α. ao seu André

Estou com pressa. Deixa-te de sonhos. E de delírios. E de loucuras. Recolhe-te em ti mesmo. Anda. Fecha a porta. Fecha os olhos. Vai-te embora. Esquece. Pára. Para quê. Ainda não percebeste que. O que fazes aí ainda. Já é tempo. Ou ainda achas que. Anda. Custa menos do que parece. Eu sei. Tu sabes. E depois nada. Ataraxia ἀταραξία. Ou preferes isto. Os dias rebolando vazios para a frente e para trás. E essa solidão atroz que te esmaga o peito. Não. Chega. Pára. E deixa-te de sonhos. Anda. Estou com pressa.