31.8.08

O monstro . 7 . Pitão

[Delacroix - Apolo matando a Pitão]

Impresso de 1726, achado na Biblioteca Nacional, com a quota H.G. 23767//7 P, encadernado entre outras coisas bem menos interessantes, posto que mais importantes. Transcreve-se respeitando ortografia e pontuação. Em episódios.
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«Esta me obrigou a acharme em varias montarias, que se fizeraõ no termo desta Cidade, para evitar o damno, que todos os dias padeciaõ os Camponezes; mas naõ tiveraõ o effeito, que se esperava estas diligencias, porque apenas o poderaõ affugentar para a parte de Jerusalem, onde emboscado nos matos circunvisinhos, sahia a fazer os mesmos insultos nas estradas, e nos campos. Só a figura deste animal impunha medo aos que a viaõ: a violencia com que acometia, desanimava o valor dos que o buscavaõ; e como todos na sua visinhança tinhaõ o perigo por certo, todos procuravaõ vello, mas de longe; e assim se naõ podia reconhecer a sua especie.

Entendia-se ao principio, que era algum Leaõ, que tinha sahido das terras da Hircania, obrigado pela indigencia do sustento: a outros lhes parecia ser Urso; porem a grandeza do seu corpo desmentia estas opinioens; porque era mayor, que nenhuma destas feras. Depois de morto nos confins de Jerusalem, se me mandou o seu retrato, de que vos envio a copia. Por ella vereis, que naõ tem semelhança com algum dos animaes, que nos descreve Plinio, e retrataõ Gesnero, e Aldrovando. Naõ faltou quem quizesse persuardirme, que era Grifo; animaes, que ainda que façaõ grande figura nos brazoens, tenho por taõ fabulosos, como a Ave Fenix. Tambem houve quem dissesse, que era Serpente, ao que eu me inclinava mais, porque como estas naõ multiplicaõ a sua especie, cada uma póde ter differente fórma; mas he necessario capacitarme primeiro, que ha Serpentes. Bem me lembro de haver lido, que produzio a terra huma, depois do diluvio de Deucalion, a que se deu o nome de Pithon, cuja prodigiosa grandeza, e deploraveis estragos referem os Poetas antigos, decantando o triunfo de Apollo, e a origem dos jogos Pithios; mas tambem sey, que os Naturalistas, comprovando a sua thesi com a significaçaõ da palavra Pithon, que na lingua Grega significa podridaõ, dizem, que a origem desta fabula foraõ os grossos vapores, e densas exalaçoens, que sahiraõ da terra depois daquele diluvio, e faziaõ morrer infinito numero de Povo; com que ja la vay esta Serpente, e este exemplo.»

[continua]

30.8.08

O monstro . 6 . Autor de tanto estrago

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor)]

Impresso de 1726, achado na Biblioteca Nacional, com a quota
H.G. 23767//7 P, encadernado entre outras coisas bem menos interessantes, posto que mais importantes. Transcreve-se respeitando ortografia e pontuação. Em episódios.
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«Traducção de huma carta escrita da Cidade de Alepo em 10. de janeiro de 1726.

Ha muito tempo, que desejava merecervos o gosto de me dar novas vossas, por meyo da diligencia de volas pedir; mas os embaraços, em que me tem posto os meus negocios, obrigandome a fazer hum giro por varias escalas da Asia, me impossibilitaraõ o procurar satisfaçaõ deste desejo. Naõ duvido, que esta carta depois de hum silencio taõ profundo, em que havemos estado, e de hum intervallo taõ grande, que tem tido a nossa correspondencia, vos parecerá, que vay do outro mundo; principalmente se por essas partes tem soado os estragos, que por estas tem feito taõ repetidas vezes o contagio; levando hum infinito numero de gente; mas para que vejaes, que ainda estou vivo, e que naõ quero estar morto na vossa memoria, me quero aproveitar da via do Capitaõ Justiniano, que aqui chegou de Alexandreta, onde se acha o seu navio de partida para esse porto; e dizervos, que depois de vos haver escrito de Astrakan os prodigiosos progressos de Mohaidin, me foy preciso atravessar a Georgia, ir a Asia Menor, e passar à Syria, e ao Egypto, donde voltey de Alexandria a esta Cidade, que he a mais populosa, e mais mercantil de toda a Syria; onde me parece, que farey huma residencia dilatada, por haver feito sociedade com huns negociantes Armenios, de cabedaes grossissimos, e vastissimas correspondencias; e assim espero nella largas noticias vossas, e de todos os amigos.

Naõ faltaõ desta banda algumas, que poderaõ ser do vosso agrado; mas darvos-hey huma ao meu parecer muy rara; que he o haverse visto nesta Provincia hum animal monstruoso, que dos montes da Cilicia passou aos deste Paiz, e assim nas estradas, como nas Povoaçoens devorava todo o animal vivente, que encontrava, enchendo de consternaçaõ a todos estes moradores. O que se referia da ferocidade deste Bicho, a quantidade de gado, que despedaçava, o numero de pessoas, a que tirava a vida; ao mesmo tempo, que influia espanto, e causava terror, punha em mais alto grao a curiosidade de reconhecer o author de tanto estrago.»

[continua]

28.8.08

[Piotr Sokolov - Tchítchikov e Koróbotchka]

«- A sério, paizinho, nunca na vida me calhou ainda vender mortos. Vivos, isso sim, já tenho cedido alguns; ainda há dois anos vendi ao arcipreste duas raparigas, por cem rublos cada uma, e ele agradeceu-me muito, são boas trabalhadeiras, tecem-lhe as toalhas.
- Olhe, não se trata de vivos, os vivos que vivam com Deus. Estou a pedir-lhe mortos.
- A sério, como é a primeira vez, tenho medo de ser prejudicada. Tu, paizinho, às tantas estás a enganar-me, e o preço deles... de qualquer maneira... é superior.
- Oiça, mãezinha... irra, como a senhora é! O que podem eles valer? São simplesmente pó. Pegue numa coisa qualquer, um simples farrapo, e o farrapo tem o seu preço: ainda pode ao menos ser comprado por uma fábrica de papel, mas aquilo é perfeitamente inútil. Diga-me lá a senhora, que utilidade pode ter aquilo?
- É verdade, é mesmo isso. Não têm utilidade nenhuma, a minha dúvida, precisamente, é estarem mortos.»
Nikolai Gógol, Almas Mortas
Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra
Assírio e Alvim, 2002

27.8.08

Kill the pain . XXX . Sombra

[W. Blake - A descida da cruz]

Depois houve aquela vez. Aquelas vezes. Aquelas noites na avenida dos. E a cama era tão grande e fazia uma cova no meio onde nos entornávamos em poças de suor e saliva fermentada. Em silêncio xiu que se ela nos ouve. Ela era a velhota. A velhota que lhe alugava o quarto. Nunca a vi. Eu não via nada. Entrava de coração esmagado e lábios latejantes. Sentava-me na beira da cama e bebia-lhe o perfil. Sombra raiada pintada da luz que empurrava a persiana para dentro do quarto da cama. E ali eu já não sabia se eras homem se mulher. Os cabelos crescidos dançando danças de ventre de pêlos nas tuas costas pequeninas. Todo tu pequenino. Depois rastejavas para dentro dos lençóis. Arfando a cerveja azeda da noite. Não. Espere. Eu sei. Já contei. Repetir. A minha vida. A minha vida é um repetir de coisinhas pequeninas. Mas espere.

12.8.08

Kill the pain . XXIX . Mão

[Barent Fabritius - Circuncisão]

I remember you well in the Chelsea Hotel,
you were talking so brave and so sweet,
giving me head on the unmade bed,
while the limousines wait in the street.
(Leonard Cohen)
Moía-me uma dor pequenina e eu cruzava as pernas sem conforto. Mas com força. Para a esganar. Assim. Como se faz aos tordos. Depois mordia. Mordia-me. Primeiro devagarinho. Como quando as bolhas no fundo da cafeteira. Crescendo. E já não era aquele desconforto. Era assim como disse. Dentadinhas. De periquito. Assustam mais do que doem. E às vezes já não mordia. E eu descruzava as pernas e depois zás. Trinca. Afinal. Com mais força. Como. Ah. Lembras-te. Fugiam e depois eram horas. Aprenderam a abrir a porta da gaiola. Com os focinhos. Força força força já está. A mãe não gostava e dizia malditos ratos. Não eram ratos. Sem cauda. Lembras-te. Não eram ratos. Duas faquinhas com bigodes por cima. E doía. Sabe. Um dia sangrou. E nunca mais lhes peguei. E agora era assim. Só que não sangrava. Ainda. Apertar as pernas com força. O sangue zum zum nos ouvidos. Quando a noite me esmaga de silêncio. Só que agora. Autocarro. Não é noite. E há esta gente que me cospe os olhos no colo aflito. Sabem não sabem. Não podem saber. Impossível. Não se vê. Debaixo da roupa. Não se vê. A minha vida tem sido feita disto. De pequenas coisas pequeninas. E o calor senhor. O calor na cara e na testa. E esta dentada que já não é dentada. Porque agora era uma garra que me agarrasse e arrancasse a pele. Sem parar. Sem relaxar. Sempre a crescer. Torcendo-me no banco. A senhora do lado roncando suspiros obesos. Tocar. Ferrão. Verificar. Ajuda. Por favor. Pôr lá a mão. Sempre a mão. Morta. Maldita. Maldita mão.

20.7.08

Kill the pain . XXVIII . Cal

[Rembrandt - Circuncisão]
O que aqui pondera e sente muito a piedade dos santos, principalmente S. Bernardo, é que, nascido de oito dias, sujeitasse o Senhor aquele corpozinho tenro ao duro golpe da circuncisão. Tão depressa? Aos oito dias já derramando sangue? Desta pressa se espantam os Doutores; mas eu não me espanto senão deste vagar. Que venha Cristo a remir – e que espere dias? E que espere horas? E que espere instantes? Quem cuida que é pouco tempo oito dias, mal sabe o que é esperar pela Redenção.
Padre António Vieira, Sermão dos Bons Anos

Depois abriu a porta e eu saí e estrangulava a receita na mão humilhada. Esta pomada. De manhã e ao. Deitou-me os olhos caiados de. Não. Caiados não. Caiados seriam brancos. E estes eram roxos. Pintados de roxo. Senhor. Passou já passou. Isto dizia-me eu. Enquanto saía. E abria passagem por entre corpos naufragados em cadeiras agoirentas. E ela descolou as pálpebras das minhas e rosnou o nome a idade ao senhor de bengala e cheiro a cão. A cão. Ou talvez fosse a gato. Não sei. De animal. Ou talvez fosse ele. Dele. Há pessoas que cheiram a bicho. A cão ou a gato. Eu tinha cobras. Já lhe contei. Sim sim. Eu lembro-me. De água. Inofensivas. Deitam um cheiro. Nem queira saber. Quando se assustam. E não sai. Um dia saí com uma no bolso da camisa. Para meter medo às pessoas sabe. As coisas que eu fazia. Quinze anos. Mas quem teve medo foi ela. E a camisa nunca mais a pude vestir. Não saía. O cheiro. A farmácia. Não sei. Não cheira. Ou cheira. Cheia de gente abatida. Velhos de morte nos olhos e crianças caladas ao colo de mães de olhares vazios. Bocas afundadas num medo de morte. E no ar o cheiro a remédio. Xarope شراب xarâb. Bebida. Fermentada não bebem. Mas chá. Um dia vou ao deserto. E café. De camelo e turbante. E talvez um dia. Talvez. Já fui cristão. Mas sabe o que me assusta. Cortar o prepúcio. Boa noite é esta receita. Boa noite.

18.7.08

O monstro . 5 . Ânsias da morte

[Bosch - O Dia do Juízo (pormenor)]

Impresso de 1726, achado na Biblioteca Nacional, com a quota H.G. 23767//7 P, encadernado entre outras coisas bem menos interessantes, posto que mais importantes. Transcreve-se respeitando ortografia e pontuação. Em episódios.
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«Os que se tinhaõ retirado no principio da batalha para o bosque, tornáraõ a entrar em novo perigo, porque o Monstro, accrescentando à sua braveza natural, o furor, que lhe causou o medo, a tudo quanto encontrava, fazia em pedaços. Entre estes refugiados havia hum soldado, que vendo encaminharse o Monstro contra o seu cavallo, se lançou delle em terra; e vendose em termos de perder a vida, tirando dos desalentos forças, empunhou huma lança, com que se achava, e com taõ opportuno sucesso lha empregou na garganta, que logo subitamente desanimado o Monstro cahio por terra. À vista de taõ feliz accidente, começaraõ a animarse os que já se tinhaõ por mortos, e concorreraõ todo a empregar as suas armas na moribunda Fera; porém nem todos a feriraõ a seu salvo, porque com o mesmo movimento a que as ancias da morte a obrigavaõ, prostrou a alguns por terra, e naõ só com as unhas, mas com a cauda ferio, e matou outros, porque parecia hum tiro de bésta cada movimento da cauda.

Inexplicavel foy a alegria, que receberaõ todos os Povos circunvisinhos, com a noticia da morte de animal taõ cruel. O damno, que fez naquelles contornos he muito mayor, que o que se refere; porque só dentro de hum mez, naõ fallando em gados, faltaraõ de pessoas conhecidas quarenta e nove. Concorreraõ todos à montanha para o verem morto; e como em triunfo dos aventureiros, o trouxeraõ sobre hum carro a Jerusalem, onde se tiraraõ varios retratos, que se mandaraõ a differentes partes do mundo. Naõ falta quem ainda tenha o receyo, de que haja macho da mesma especie, e que tenha filhos, de que se possaõ receber semelhantes insultos.»

[continua]

16.7.08

O monstro . 4 . Porco Espin

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor)]

Impresso de 1726, achado na Biblioteca Nacional, com a quota H.G. 23767//7 P, encadernado entre outras coisas bem menos interessantes, posto que mais importantes. Transcreve-se respeitando ortografia e pontuação. Em episódios.
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«Se a vista de hum monstro semelhante intimidou os animos dos aventureiros, a sua primeira acçaõ os desanimou de todo; porque lançandose sobre a gente com tanta velocidade, como hum Falcaõ sobre qualquer ave, do primeiro assalto deixou dezassete homens mortos; porque só com huma unhada, que dava em algum, o despedaçava logo. As balas naõ tiveraõ effeito, porque tocandolhe nas conchas, deixando só o sinal do toque em alguma escara, salatavaõ fóra. Muitos dias se gastáraõ em dar caça a este animal, sem lhe fazer damno. O receyo de perderem os gados, e talvez as vidas, os fazia naõ largar a empreza; o temor de serem victimas da ferocidade do Monstro, os fazia entrar nesta diligencia com mais desordem, que acordo. Deuse parte de todo o succedido ao Baxá, o qual mandou a esta expediçaõ dous Regimentos, hum de Infanteria, outro de Cavallaria. Estes se formaraõ no sitio, onde se tinha visto apparecer mais vezes o Monstro; e huma tarde do dia 15. de Novembro do anno passado de 1725. pelas tres horas, sahio do bosque em que habitava, e vendo os cavallos, se lançou furiosamente sobre elles. Estes animaes intimidados de vista taõ horrivel, se espantáraõ de maneira, que sem obedecer ao freyo, nem temer a espora, lançaraõ por terra a mayor parte dos soldados, que os montavaõ. Destes acabaraõ muitos nas garras do Monstro, outros com mais fortuna poderaõ escapar nos bosques, onde mais mortos de temor, que vivos, eraõ testemunha do estrago, que padeciaõ os companheiros. A Infanteria formada em huma figura, que os Militares chamaõ Porco Espin, procurou a pé quedo salvar as vidas, naõ só oppondese ao impeto do Bicho, mas marchando muy unida, e cerrada contra elle. Este movimento, que lhe pareceo estranho, o fez tambem entrar em temor, e pouco a pouco começou a retirarse, fugindo para os bosques. Com o seu retiro tornaraõ a reanimarse os soldados; e começando a seguillo, o fizeraõ pôr em huma fugida taõ precipitada, que procurando intrincarse no intimo da floresta, rompia tudo o que encontrava, quebrando ramos de arvores taõ grossas como braços, e lançando urros taõ horriveis, que podiaõ causar temor aos coraçoens mais animosos.»

[continua]

O monstro . 3 . Grifo

[Bernardino Parenzano - As tentações de Santo Antão]

Impresso de 1726, achado na Biblioteca Nacional, com a quota H.G. 23767//7 P, encadernado entre outras coisas bem menos interessantes, posto que mais importantes. Transcreve-se respeitando ortografia e pontuação. Em episódios.

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«Convindo todos na proposta, se ajuntou hum grande numero de gente, provida de toda a sorte de armas, levando por guia o passageiro, de quem haviaõ recebido esta noticia; chegaraõ até ao sitio, onde elle vio despedaçar o caminhante, de cujo truncado cadaver acharaõ ainda os vestigios; e occupando algũs postos na circunferencia da montanha, dentro de poucas horas viraõ apparecer o horrendo Bicho, que buscavaõ.

Era este monstruoso animal, na grandeza como hum Cavallo, mas com a cabeça de Leaõ, e nella duas pontas de hum palmo de comprimento como de Boy; na extremidade do nariz lhe sahia hum bico como de Aguia; os dentes eraõ de Leaõ, mas as prezas como de Javali, com meyo palmo de comprido; as orelhas cahidas como de Elefante, e de dous palmos cada huma; quatro tetas como de Vaca de hum palmo de comprimento; o peito povoado de pello muy denso, e forte como de Leaõ, mas muito mais comprido, os pés com garras muy longas, e fortes como Grifo; a cauda como Basalisco, do tamanho de seis pamos, repartida em nós, e farpada na ponta; do espinhaço lhe saiaõ seis esporoens como de Gallo, porém mayores, os quaes continuavaõ por toda a anca até aos pés; duas azas nervosas, como de Serpente; e todo o corpo cuberto de conchas do mesmo feitio, que as que chamamos commummente de madre perola; mas taõ juntas, e dobradas humas sobre as outras, que se fazia impenetravel aos tiros.»

[continua]

15.7.08

Kill the pain . XXVII . Erde from erde

[Francisco de Zurbarán - Virgem com o Menino e João Baptista]
Quero acabar com minha vida porque tenho a ideia, porque não quero ter medo da morte, porque... porque neste assunto o senhor não tem nada que saber... O quê? Quer chá? Está frio. Trago outro copo.
Dostoiévski, Demónios
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra


Abrir a porta e afogar-me até ao fundo do corredor. Depois há uma porta. Outra. Que vomita línguas de luz. Pente. Pelas frinchas pegajosas. É o medo sabe. Nas costas. É como se lá estivesse outra vez. É o medo sim. E o embaraço. É. É sobretudo o embaraço. A minha vida amigo. Senhor. Meu senhor. Perdão. É feita de coisinhas pequeninas e sem importância. E eu de olhos enrolados nas mãos escondidas. Bêbedo da luz crepuscular. Morna. Que lambe o consultório. E o embaraço escorria-me pelas bochechas escaldadas. Mal lhe via a careca inquisitiva. Como foi. Estava sozinho ou acompanhado. Sozinho. A caneta escarrando desprezo na folha na ficha de doente. Goza. Dói-lhe. Não. Mas doía. Cá dentro. E essa dor não ma pode ver. Lembras-te. Bairro Alto. Entre cervejas maçadas. Os olhos pretos de dor. Que tens tu. Sempre tão triste. Nada. Não te preocupes. Depois abria muito os olhos e dizia que só a morte o. Houve aquela madrugada gelada. Na Estrela. Lembras-te. Estás aí. Diz qualquer coisa. Sentados no chão. E os teus braços mornos e o teu hálito. E dizias tu não és como os outros. Não sou. Por isso estou aqui. À espera da. E tu já estarás livre. Eu em breve.
إن شاء الله

O monstro . 2 . Fera

[Pieter Bruegel o Velho - A queda dos anjos rebeldes (pormenor)]

Impresso de 1726, achado na Biblioteca Nacional, com a quotaH.G. 23767//7 P, encadernado entre outras coisas bem menos interessantes, posto que mais importantes. Transcreve-se respeitando ortografia e pontuação. Em episódios.

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«No territorio de Jerusalem, quatorze milhas desta antiquissima, e famosa Cidade, para a parte do monte Foresta, se havia notado por muitos dias hum notavel estrago de homens despedaçados, boys, gado miudo, cavallos, e outros animaes, dos que pastavaõ naquelles contornos, meyos comidos, sem nunca se poder averiguar, qual fosse a causa de taõ grande damno; porém caminhando hum passageiro por huma estrada, pouco distante da montanha vio, que outro, que hia mais adiante, fora assaltado por hum animal monstruoso, o qual com as suas garras o dividira em dous; e cheyo de hum temor igual a perigo tamanho, retrocedeo o caminho, fugindo para uma Povoaçaõ visinha, onde contado o successo, encheo de medo a todos os ouvintes, que reconheceraõ o ignorado motivo de tantos estragos; e considerando o modo, com que podiaõ livrarse dos insultos desta Fera, deraõ parte aos Povos circunvisinhos, pedindolhes que, como interessados no beneficio de extinguir hum inimigo taõ formidavel, e commum, quizessem concorrer com elles a fazer huma grande montaria, com que podessem, cercando a montanha, e batendo os matos, darlhe caça, e tirarlhe a vida.»

[continua]

O monstro . 1 . Bicho

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor)]

Impresso achado na Biblioteca Nacional, com a quota
H.G. 23767//7 P, encadernado entre outras coisas bem menos interessantes, posto que mais importantes. Transcreve-se respeitando ortografia, pontuação e disposição gráfica. Em episódios.

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RELAÇAM

DE HUM FORMIDAVEL,
e horrendo

MONSTRO SILVESTRE,

QUE FOY VISTO, E MORTO
nas vizinhanças de Jerusalem,

TRADUZIDO FIELMENTE DE HUMA, QUE
se imprimiu em Palermo no Reyno de Sicilia, e se reim-
primio em Genova, e em Turim; a que se accrescen-
ta huma carta, escrita de Alepo sobre esta
mesma materia.

Com o retrato verdadeiro do dito Bicho.

LISBOA OCCIDENTAL
Na Officina de JOSEPH ANTONIO DA SYLVA

M. DCC. XXVI

Com todas as licenças necessarias, e Privilegio Real.

12.7.08

Kill the pain . XXVI . Isges to isges

[Andrea del Sarto - Madona com o menino e João Baptista]
Countlessness of livestories have netherfallen by this plage, flick as flowflakes, litters from aloft, like a waast wizzard all of whirlworlds. Now are all tombed to the mound, isges to isges, erde from erde
James Joyce, Finnegans Wake


Esperar olhar deixar as mãos pousar respirar devagar. Há quanto tempo. Que importa. Que será. O sangue. Ela sabe. Sorri escarninha e rosna a ficha de outra pessoa. Nome idade. A doença não pede. Mal seria. Em voz alta. Doente. Que lhe dói. Dormente. Se ele se rir. Ao ver. Sabe. A minha vida feita de coisinhas pequeninas. Por isso estou aqui. À espera. De si. Dos seus tijolos. Trinta e cinco. Não se ria. Mas então dizia eu. Revista na mão puxando páginas lambidas. Passar o tempo. Os olhos nas letras e o estômago a crepitar. Sabe. Quando se lê e não se entende. E se volta atrás. Uma duas três vezes quatro ou mais. Ler reler a mesma frase e perder-se a meio e sentir-se que se está a perder e não conseguir parar voltar à superfície. Quia animus alias res agit. Sabe latim. Sim. Já mo disse. Desculpe. E depois desistir. Viras as páginas em ritmo constante. Sem ler sem ver. Passar o tempo. Depois ouvir o meu nome escandido ao longe e uma mão que me arranca as tripas. Já está. Agora eu. Apanhar os olhos de dentro da revista.

Kill the pain . XXV . My killer

[El Greco - A virgem e o menino com as santas Martina e Inês]

and what can I tell you my brother, my killer
what can I possibly say?

(Leonard Cohen)

Da tosse e dos pulmões e de todas as maleitas que me esmagavam as manhãs. E olhe. Que lhe interessa. Que me interessa isto. Coisinhas pequeninas. Que importância. Uns pulmões e uma tosse. Se calhar esperava. O senhor. Não eu. Que eu viesse para aqui falar de coisas elevadas. Sobre a morte e a vida. Afinal se quero morrer às suas mãos. Repare que pouco falei ainda da morte. E o senhor se calhar gostava que lhe citasse Joyce e Borges. Uns romanos ou uns gregos. Um Séneca. Em vez disso uns pulmões e uma tosse. Porque é isto que me consome. Estas coisinhas. Ridículas. Tenho vergonha. Se o senhor soubesse. Às vezes as manhãs são terra que me entra pelo nariz pela boca pela pele. Como se o caixão tivesse cedido. E depois abro os olhos e penso o que é isto. E não é nada. Uns pulmões e uma tosse. E um dia por encher. Com coisinhas pequeninas. Muitas. E depois amanhã. E às vezes não tenho vontade. Não. Às vezes não. Isso era dantes. Agora não. Porque a tosse já se foi e os pulmões estão como novos. Sabe que me sinto tão forte. E por isso agora não tenho vontade nunca. Porque dantes havia a tosse e os pulmões rasgados. Agora nem isso. Um dia tossi e saiu sangue. Sabe. Não sei de onde. Se da garganta se dos pulmões. Talvez tivesse ferido uma gengiva. E ficou ali o sangue a escorrer na banheira. Umas gotinhas. Pequeninas. Se calhar a garganta. De tanto tossir. Tinha a tosse e tinha os pulmões rasgados. Agora não tenho nada. Só coisinhas. Desembrulhar o dia e não ter nada para pôr lá dentro. Por isso chega. Nem fui ao médico. Dessa vez. Nem pensei mais nisso. Descia-se uma escada interior e havia uma secretária com uma senhora velhota que rosnava e preenchia a ficha de doente. Depois esperar. Chegar depressa a minha vez e acabar-me o pesadelo. Sabe. Não. Não sabe. Se soubesse não estava aqui. A olhar para mim como se eu já estivesse morto. Não não se zangue.

To do all the diddies in one dedal

[Leonardo da Vinci - Dama com arminho]

«The answer, to do all the diddies in one dedal, would sound: from pulling himself on his most flavoured canal the huge chesthouse of his elders (the Popapreta, and some navico, navvies!) he had flickered up and flinnered down into a drug and drunkery addict, growing megalomane of a loose past. This explains the litany of septuncial lettertrumpets honorific, highpitched, erudite, neoclassical, which he so loved as patricianly to manuscribe after his name. It would have diverted, if ever seen, the shuddersome spectacle of this semidemented zany amid the inspissated grime of his glaucous den making believe to read his usylessly unreadable Blue Book of Eccles, édition de ténèbres, (even yet sighs the Most Different, Dr. Poindejenk, authorised bowdler and censor, it can't be repeated!) turning over three sheets at a wind, telling himself delightedly, no espellor mor so, that every splurge on the vellum he blundered over was an aisling vision more gorgeous than the one before t.i.t.s., a roseschelle cottage by the sea for nothing for ever, a ladies tryon hosiery raffle at liberty, a sewerful of guineagold wine with brancomongepadenopie and sickcylinder oysters worth a billion a bite, an entire operahouse.»

James Joyce, Finnegans Wake