Não sei se já te disse que nos veremos em breve. Ou não. É maneira de falar. O vermo-nos. Não o ter-te dito. Porque na verdade. Quid est ueritas. Não sei se nos veremos.
21.1.09
2.1.09
Gothica . 02
eu vendia o meu cavalo
também me vendia a mim
para mandar dizer missas
tudo por alma de ti
Canção tradicional
interpretada por At-Tambur
Esta falta de força nas pernas e o medo a mastigar-me as tripas. E a cama que era o meu último refúgio e agora está encharcada de terror e a janela onde já não me cospes pedrinhas e eu abro e vou ver e lá em baixo não há nada só o escuro e o medo. E tu não estás lá. E a cova onde te enterraram e eu não sei onde fica porque não consegui porque esta falta de força nas pernas.
Como m'eu perdi por ti
- Tu que tens, ó D. Fernando,
que andas tão triste na guerra?
Ou te morreu pai ou mãe,
ou gente da tua terra.
- Não me morreu pai, nem mãe,
nem gente da minha terra:
vou triste por minha amada,
deixei-a e vim prá guerra.
- Aparelha o teu cavalo,
sete anos ao pé dela;
ao cabo de sete anos,
soldado, volta da guerra.
- Tua amada já é morta,
é morta, eu bem a vi;
- Dá-me os sinais que levava,
para m'eu fitar em ti.
Levava saia de seda,
blusa de carmesim,
o cinto que a apertava
era ouro e marfim.
- Eu vendia o meu cavalo,
também me vendia a mim,
para mandar dizer missas,
tudo por alma de ti;
- Não vendas o teu cavalo
nem te vendas tu a ti:
quanto mais bem me fizeres
mais pena se mete em mim.
De três filhas que lá temos
leva-as para o pé de ti,
que se não percam por homens
como m'eu perdi por ti.
---
Canção tradicional
interpretada por At-Tambur
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Verba aliena
27.12.08
Ninguém
Talvez nos tenham visto e por isso olham e riem. Riem de mim. Estás a ver. Quando me deixaste diante do prédio. Lembras-te. E eu deitei a mão à porta do carro. Não tenhas medo. Ninguém nos vê. A noite é funda e é nossa. Puxar a tranca arrojar-me escarrar-me no meio da rua. E é já ali. Sair do carro e atravessar sem olhar para um lado e para o outro porque a esta hora. Só os cães a rosnar e eu vou subir as escadas oito andares para não acordar ninguém porque o elevador. O barulho. E parar em cada patamar e tapar os pulmões e entornar os ouvidos escadas abaixo a ver se alguém. Porque se alguém me vir se alguém nos vê. Não não não não. Depois pegaste-me na mão. Devagarinho. Tiraste-ma do puxador e o teu corpo enorme esmagando-me o peito e o pescoço. Ninguém nos vê.
26.12.08
21.12.08
Gothica
Enterraram-na no dia de anos. Domingo.
Levantaram-lhe a tampa do caixão e puxaram-lhe os panos e não havia gritos. A cara velha e os cabelos amarelos dos anos. Não brancos. Amarelos. Sempre lhos vi amarelos. E a chuva cuspindo-lhe as rugas e os lábios secos. Disseram-lhe adeus e o vento e a chuva babando-nos as caras dormentes. Há sempre o vento e a chuva. E o frio tu lembras-te do frio. Não. Eu sim. Do céu azul de chumbo e de frio. E dos gritos que me arrancavam as tripas e do rapaz que passou por mim e me deitou os olhos vermelhos de tanto chorar e a boca torcida numa dor que eu sei. Fecharam-lhe a tampa do caixão e a chuva abrandou.
A tua não ta vi fechar. Nem abrir. Só os gritos.
Levantaram-lhe a tampa do caixão e puxaram-lhe os panos e não havia gritos. A cara velha e os cabelos amarelos dos anos. Não brancos. Amarelos. Sempre lhos vi amarelos. E a chuva cuspindo-lhe as rugas e os lábios secos. Disseram-lhe adeus e o vento e a chuva babando-nos as caras dormentes. Há sempre o vento e a chuva. E o frio tu lembras-te do frio. Não. Eu sim. Do céu azul de chumbo e de frio. E dos gritos que me arrancavam as tripas e do rapaz que passou por mim e me deitou os olhos vermelhos de tanto chorar e a boca torcida numa dor que eu sei. Fecharam-lhe a tampa do caixão e a chuva abrandou.
A tua não ta vi fechar. Nem abrir. Só os gritos.
10.12.08
Aflição
e se assim fosse, estando ele morto sem regresso, a sua vida seria uma lenta aflição por esperar quem nunca poderia voltar.
valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores
Deixa-me dizer-te que não estou louco. Eu sei que não podia ser. Que tu não estás cá. Que tu não. Mas ainda assim. Ainda assim entornei-me os olhos nos dele. Deixei-lhos ficar uns momentos. Pequeninos. E abri um sorriso. Ele também. Pensou que era alguém conhecido. Vagamente. Um conhecido destes. Dos que nos aparecem de vez em quando na rua e não sabemos quem são. Mas não. Depois caí em mim. E tirei os olhos dos dele. Era igual a ti. Mas não eras tu.
3.12.08
Retorno
Se é o cheiro do mar. Se o da porcaria da merda que se acumula no porto. Que queres que te diga. Não sei. Há um cheiro forte. E eu não sei do que é. Pode ser do barco. Aquilo é um barco. Saberei mais tarde que aquilo é um barco. Agora é uma montanha se eu soubesse o que é uma montanha. E as mãos são as mãos da minha mãe que me apertam o choro. Tenho fome ou estou farto de estar aqui. Ou tenho medo. Olha a montanha olha o barco. Ou uma vaca. É uma vaca gigante que muge aflita. E lá dentro da vaca vêm pessoas de África e cheiram a leão. E ela tem medo. E há caixas muito grandes. Que queres que te diga. Não me lembro de mais nada. Só do colo da minha mãe e do mugido do barco.
2.12.08
Cuspir
Eis um homem perdido, aqui está um homem que se perde a si mesmo e não consegue deter-se a si próprio.Dostoiévski, O duplo
Pôr a cabeça de fora. E cuspir os olhos para o chão. Que porcaria. Cuspir para o chão. E os olhos. Cuspir os olhos para o chão. Não se faz. Eu sei. E eu fiz. Depois fechei a janela. Despejei-me no sofá. Sem apagar a luz. Agora não vejo. E se não vejo.
25.11.08
O encoberto
«Morto buscava a Madalena a Cristo na sepultura, e a perseverança e amor com que insistiu em o buscar morto, foi causa de que o Senhor lhe enxugasse as lágrimas e se lhe mostrasse vivo. Grande exemplar temos entre mãos! Assim como a Madalena, cega de amor, chorava às portas da sepultura de Cristo, assim Portugal, sempre amante de seus reis, insistia ao sepulcro de el-rei D. Sebastião, chorando e suspirando por ele; e assim como a Madalena no mesmo tempo tinha a Cristo presente e vivo, e o via com seus olhos e lhe falava e não o conhecia, porque estava encoberto e disfarçado, assim Portugal tinha presente e vivo a el-rei nosso senhor, e o via e lhe falava e não conhecia. Porquê? - Não só porque estava, senão porque ele era o encoberto.»
Sermão dos Bons Anos, IV
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18.11.08
Esponja
Quando estas manhãs pastosas. Sabes. Estas manhãs que me enfiam os dedos mortos na boca e sabem a peixe cru. E me lavam os olhos e me lambem a cara. Porque é como se tivessem uma grande língua de esponja nojenta. De esponja cinzenta. Porque não há luz não há Sol. Só esta pasta cinzenta. E depois há a tua mão que me afaga há a tua mão que limpa e me diz rise and shine. Shine. Lembras-te. Era assim que. E depois veio aquilo.
11.11.08
África 2
Talvez não não sei espera se alguém nos aqui aqui está bem aqui ninguém nos vê e o escuro tão escuro vês não te e se e se sim e se não me vês então ninguém nos vê. xxx xxx xxx. Silêncio. Respira. Assim. Isso. Sossega. Só eu e tu. Ninguém nos vê. Só eu e tu. Ninguém te faz mal. Anda. A tua mão. Dá cá. Anda. na minha. Devagarinho. Anda. És tão bonito. Calado x x x x x calado. A tua mão. Na minha. Anda. Mais. Vá. Não tenhas medo. Anda. x x x x.
X.
8.11.08
Kill the pain . XLII . Explicit
Cortizona. Se lhe pudesse matar a dor com. Mas não. Tenha calma. Não há tubarões. Aqui. Aqui não. Mas no mar. No mar há. No mar há tantos. São bichos espantosos. Sabe. Não podem parar. Se param morrem. O ar não lhes passa pelas. E morrem. Tenha calma. Isso. Isso. Vamos. Quer um copo de água. Então. Juro-lhe que não há tubarões. Já imaginou. Um tubarão num copo. Não pode ser. Vamos. Para a semana. Quero vê-lo para a semana. Sem tubarões. Nem tijolos. Que ideia. Tijolos e tubarões. Quer ajuda. Mais um bocadinho. Deixe-se estar. Se lhe pudesse matar a dor. Se lhe. Venha cá. Não. A sério. Venha cá.
explicit
deo gratias
والحمد لله
deo gratias
والحمد لله
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31.10.08
Kill the pain . XLI . Requiem Aeternam
Para lhe dizer que já vi que j'ai vu mon requin. Je l'ai vu dans votre nez de rat. Ou então não. Ou então era o anel de fogo. O anel de fogo que me rasgava os olhos se acordava demasiado cedo. Se acordava e a manhã ainda babava as janelas de uma gosma azul negra. E as costelas me diziam força força mais uma vez. Já chega. Venha cá. Eu já vi. Je l'ai vu. Os dentes. Um anel de dentes. Como nos filmes. Documentários. Vindos do abismo. Um anel de fogo. Venha cá. Não tenha medo. Je l'ai vu. Mon requin.
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30.10.08
Arabiya
Os poemas traduzidos do Árabe passam a ser publicados num novo blogue: Pausa sobre as ruínas - الوقوف على الأطلال
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