10.2.06

Momentos

[Caillebotte - O jardim em Petit Gennevilliers no Inverno]

à memória do Rui

São feitas também de momentos simples as memórias que tenho de ti. São elas que me fazem sentir-te vivo no meu coração. E lembrar-me de ti todos os dias. E todas as noites. Sobretudo todas as noites.

A briga

[Cézanne - Banhistas]

à memória do Rui

Uma briga, lembras-te. Uns tipos num bar, e tu tinhas-te metido no meio. Partiste o nariz a um deles. Tinhas a camisola branca suja de sangue. Mandámos parar um táxi. Tínhamos ambos um ar pouco amigável. Sangue por todo o lado, em ti. Por detrás da barba de três dias desta vez não trazias o teu eterno sorriso trocista. Eu erguia-me do alto de botas com palaformas de mais de dez centímetros, atingindo assim perto de dois metros de altura. Coberto de negro, cabelo rapado, rosto inexpressivo. A estúpida pose habitual. O taxista pareceu hesitar. Não éramos clientes que lhe inspirássemos muita confiança. Para o Príncipe Real. Trocámos entre nós as poucas palavras do costume. O taxista lançava olhares nervosos pelo retrovisor. Nessa noite estávamos especialmente rudes no discurso, ainda excitados da briga recente. Ias mandando uma ou outra boca às raparigas, na rua. Lembras-te, o táxi passou então perto do Trumps, e o taxista rosnou "olh'òs lolós...". Entreolhámo-nos. O teu sorriso trocista estava lá outra vez. Explodi. Pedimos para parar. Eu não aguentava mais. Pagámos. Ríamos como dois miúdos. Uma tolice. Mas ríamos, e não conseguíamos parar.

Sonho

[Kandinsky - Improvisação 7]

à memória do Rui


E houve aquela madrugada em que ficámos à espera do primeiro autocarro. Na altura saíam do Saldanha. Nascia o dia. Vencidos pelo sono. Sentados na paragem. Eu encostei-me ao vidro. Esforço para não fechar os olhos. Procurava sempre manter a pose, em quaisquer circunstâncias. Lutava contra o sono, para me manter direito, encostado ao vidro da paragem. Tu não estavas preocupado com poses. Muito menos com o que os outros pudessem pensar. Tinhas sono. Faltava muito tempo ainda para o autocarro. Deitaste-te sobre as minhas pernas e dormiste. Havia quem passasse e olhasse. Eu sorria-lhes com desprezo, quando conseguia vencer o sono. Deixavam-se levar pelas aparências. Não é nada disso que estão a pensar, idiotas. Eles não percebiam nada. Nunca ninguém percebeu. Nem eu.

Noites longas

[Oscar Bluemner - Paterson centre]

à memória do Rui

Havia aquelas noites longas, em Lisboa. Não importava o destino. A saída era apenas um pretexto. Os lugares mais improváveis, as companhias mais inverosímeis. Havia sempre um piscar de olho, um sorriso cúmplice. Não precisávamos de palavras. Gozávamos o ridículo, mesmo quando os ridículos éramos nós. O regresso era imprevisível. Uma boleia. O primeiro autocarro. Pouco importava. O dia a nascer. O silêncio da noite terminada. O eterno sorriso trocista.

8.2.06

O telefonema

Rui Oliveira (1976.01.11 - 2003.02.08)

O telefone tocou. Acordei, estremunhado. O visor do telefone dizia que eras tu. Não, não podias ser tu. Eu sabia que não podias ser tu. Soube logo o que significava aquele telefonema. Tinhas morrido. Era isso que me queriam dizer. Não quis atender. Não queria acreditar. Não. Atendi. Tinhas morrido. Eu adorava-te. E tu tinhas morrido.

Os dias e as noites

Auto-Retrato
Rui Oliveira (1976.01.11 - 2003.02.08)

Não consigo deixar de pensar em ti. Todos os dias. Todas as noites. Não te esqueço. Deito lágrimas. Não consigo esquecer-te. Todos os dias. Todas as noites.

A saudade

Auto-Retrato
Rui Oliveira (1976.01.11 - 2003.02.08)


Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner

7.2.06

A deusa

[Klee - Abraço]

Achámos aquela parede demasiado nua. Pegámos em tintas e pincéis, e enchemo-la de desenhos, uns mais realistas do que outros. Aos poucos foi ganhando forma uma figura antropomórfica, rodeada de pinceladas menos precisas, no centro da parede. Tornou-se como uma deusa protectora da nossa arrecadação. Não tinha cara, apenas os contornos de uma cabeça com uns traços fazendo de olhos. Mas vigiava-nos. Não tirava de nós o seu olhar. Ainda lá está, quase invisível, desgastada pelo tempo e pela humidade. Lançando o seu olhar sobre quem entra e sabe que ela lá está.

O fogo

[El Greco - São João Evangelista]

Não, não era a primeira vez. Mas agora era diferente. Radicalmente diferente. Até então eu sempre achara que não era normal, que não era como os outros. Já me apaixonara várias vezes, achava eu. Até amara. Mas nunca sentira aquele fogo a consumir-me as entranhas, aquele ardor de que tantos falavam. Achava que era por ter um carácter frio e reservado. Sentia-me até orgulhoso desta minha frieza. Mas agora sentia-me atropelado pelos sentimentos. Uma revolução interior. Avassaladora. Era como se sensações e desejos durante tantos anos reprimidos resolvessem manifestar-se, todos, de repente, ao mesmo tempo, de uma vez só. Emudecia. Cegava. Não. Basta. Para quê tentar descrever? Era uma revolução de sentidos, avassaladora. Chega. Não era correspondido, não poderia ser nunca, nem isso me preocupava. Bastava-me aquele êxtase. Não sofria, pois sabia que não alcançaria nunca o objecto da minha paixão. Sentia-me inundado de uma felicidade estúpida. E de uma enorme decepção: afinal eu era normal, afinal eu era como os outros.

6.2.06

A luta

[Goya - El sueño de la razón produce monstruos]

Procuro viver governado pela razão. Procuro dominar as paixões da alma. As paixões são inimigos temíveis. Formidáveis. Cada dia soçobro um pouco mais. E vou lutando, cada vez mais desesperadamente, para me manter em vigília.

5.2.06

O soldadinho

[Cézanne - Paysage à Auvers]

Sentava-me naquela saliência, um desnível entre o muro do quintal e a parede da casa do lado. Fazia como que um degrau, alto, muito mais alto do que eu. Trepava com a ajuda de caixotes empilhados uns em cima dos outros. Depois sentava-me ali durante horas. Esgravatava suavemente a parede, enquanto imaginava o que poderia estar do outro lado. Na minha cabeça de miúdo de 8 ou 9 anos aquela era uma casa misteriosa. Nunca vira ninguém sair nem entrar. Na verdade devia ser uma espécie de arrecadação, muito velha. Mas eu não pensava nisso. Intrigava-me aquela aparente ausência de vida. Não tinha janelas, na parede virada para o quintal. Apenas umas frestas. Às vezes via luz, lá dentro, o que só aumentava o mistério. Por isso entretinha-me, sentado naquela saliência, esgravatando suavemente a parede, imaginando o que poderia haver do outro lado. Coberta de musgo, desfazia-se facilmente a camada exterior, em mau estado. Era estranho. Nunca chegava ao tijolo. Parecia coberta de uma densa camada de areia fina. Um dia, em vez de uma pequena chuva de areia, caiu-me nas mãos um pedaço maior, um torrão. Na parede ficou um pequeno buraco. Lá dentro estava um soldadinho. Não me lembro se de chumbo. Mas era um soldadinho. Retirei-o, extasiado. Era como uma mensagem da casa misteriosa. Algum menino ali estivera, muitos anos antes, a esgravatar a parede, como eu. Apertei o soldadinho entre as mãos, saltei para o chão e corri para casa, com o coração a bater mais depressa.

A sombra

[Picasso - Rapaz conduzindo cavalo]

À memória do Rui

Uma silhueta indefinida prostrada na cama. Os teus pais tentavam acordar-te, para me veres. Tu não reagias. Eu estava mudo, um nó na garganta. Eu só queria ver-te outra vez. Tentar acreditar no inacreditável. Olhava para aquilo que tinha sido o teu corpo. Despedi-me atabalhoadamente, com as lágrimas a quererem saltar dos olhos. A garganta apertada. O estômago estrangulado. Foi a última vez que te vi vivo. Se era estar vivo, aquilo.

2.2.06

Oblívio

[Mondrian - Composition nº II: composition in line and color]

Bebemos umas cervejas. Depois trocámos uns beijos. Vagueámos pelo castelo. Mais um arraial académico. Não tinha grande importância. Não deixaríamos de ser amigos por isso. Eram tempos despreocupados e inconsequentes. Éramos miúdos. Trocámos mais uns beijos. Bebemos mais umas cervejas. E no dia seguinte tudo não passou de uma recordação vaga e ressacada.

1.2.06

O mel

[Leonardo da Vinci - Dama do arminho]

Eu ardia de desejo por ti. Andávamos lado a lado, sem dizer palavra. Não sei para onde íamos nem porquê. Mas eu ardia de desejo por ti. Não eras bonita. A tua androginia afastava-te dos padrões de beleza. Mas eu ardia de desejo por ti. O resto do grupo seguia à nossa frente. Tínhamo-nos deixado ficar para trás. De vez em quando entreabria a boca para dizer algo, mas logo emudecia, quando te olhava. Tu parecias ignorar-me, como sempre, entregue ao teus pensamentos. Já não sei para onde íamos. Era o dia dos meus anos. Talvez fôssemos lanchar. Tinha 16 anos, e ardia de desejo por ti. Praguejaste por algum motivo, se calhar tinhas ficado sem tabaco. Paraste e eu parei, a olhar para ti, como fazem os cachorrinhos quando os donos param no meio da rua, a ver uma montra. Olhavas através de mim, como se eu não estivesse ali. De repente pareceste descer à terra, e reparar que eu estava ali, a olhar embasbacado para ti. Dá-me um mel, disseste. Dou-te o quê? Um mel, estúpido. Abraçaste-me e deste-me um longo beijo. Era um sonho. Um sonho de que depressa fui acordado. Anda que já lá vão à frente, ainda nos perdemos deles, dizias. Eu ardia de desejo por ti, cada vez mais, até à loucura.

Golias



[Beckmann - Jogadores de rugby]


Mais tarde ela disse que tinha aceitado o meu pedido de namoro por piedade. Talvez tenha sido realmente por isso que namorámos durante aquela meia dúzia de semanas. Embora na verdade tenha sido ela que me pediu em namoro. Ou melhor, foi ela quem me atacou, num momento de distracção, beijando-me furiosamente. Eu cedi. Tinha 16 anos, muitas borbulhas e um ego ferido por anos de rejeição feminina. Gostava dela, mas sem paixão. Não pude, porém, resistir ao seu assalto. Nem podia recusar o seu pedido de namoro. A perspectiva não me desagradava. Podia, finalmente, exibir uma namorada. Até aí, eu era sempre o único do grupo sem histórias de raparigas para contar. Todos tinham namoradas, mais ou menos regulares. Menos eu. O meu papel era sobretudo o de conselheiro amoroso das suas namoradas. Achavam-me inofensivo, debaixo daquela grossa camada de acne e gordura. Naquele dia tudo mudou. Não era a primeira vez que beijava uma rapariga. Não tinha uma vida sentimental assim tão pobre. Era já a terceira vez. Mas as anteriores experiências tinham sido esporádicas. Esta era a primeira relação a sério. Inundava-me uma felicidade sem descrição possível. Não por ela, mas pela situação em si. Eu tinha uma namorada. Podia passeá-la, mostrá-la aos amigos, exibi-la na escola. Mas foi alegria que durou pouco. Logo no dia seguinte soube que a minha felicidade era motivo de infelicidade furiosa de outra pessoa. Um pretendente, um rapaz de outra escola que cortejava a minha namorada há algum tempo. Não fiquei demasiado preocupado, de início. Eu era grande. Aos 16 anos teria já perto de 1,80 de altura e uns quilos a mais. Desde miúdo sempre fora o mais alto da turma. Ao contrário do que seria normal num rapaz com quilos a mais, nunca fui abertamente gozado. Nunca me chamaram nomes. Não. Houve um que uma vez me chamou "gordo". Não precisei de lhe bater. Um empurrão, e foi projectado a vários metros de distância. A minha presença impunha respeito. Portanto não fiquei demasiado preocupado. Tive algum receio apenas quando me vieram dizer que o pretendente pretendia espancar-me assim que me apanhasse a jeito. Ainda assim, continuei mais ou menos tranquilo. Sabia que o meu porte físico me defenderia com maior ou menor deificuldade. Apenas receava a violência em si. Sempre evitei e abominei a violência. Por isso o idílio que prometia ser este meu primeiro namoro depressa se transformou em felicidade moderada. Cada vez mais moderada, à medida que me iam chegando os recados do pretendente, que ameaçava não me deixar osso nenhum intacto. Um dia fartei-me. Quis saber quem era esse que me ameaçava, que me impedia de gozar convenientemente esta minha nova condição de namorado. Levaram-me a vê-lo, ao café que frequentava. Fiquei estarrecido. Era um ciclope. Gigantesco, a ponto de, se me aproximasse, ter de inclinar a cabeça para trás para poder encará-lo. Era enorme. Esmagar-me-ia, se me apanhasse a jeito. Felizmente não me viu. Voltei aterrorizado para casa. De repente este namoro deixara de ter graça.