20.3.07

Mare serenitatis

[Brooking - Navegando na calmaria]

É como a brisa morna na cara salgada. A areia quente aconchegando-me o corpo. Serenidade. Tanta. Tanto.

قلبي لك

18.3.07

Mare tranquilitatis

[Klimt - O beijo]

Há aqueles tempos em que o tempo é indefinido. Em que o dia não parece dia e a noite não parece noite. Em que o dia e a noite se misturam num momento único intenso e tão curto. Há aqueles tempos de tranquilidade. Há aqueles tempos em que. Há aqueles tempos em que não me saem as palavras pelos dedos. Porque há coisas que as palavras não conseguem dizer.

16.3.07

Κύριε καλόν ἐστιν ἡμᾶς ὧδε εἶναι

[Bril - Lago na floresta]

Domine bonum est nos hic esse
.
Mt 17, 4


É bom estarmos aqui. Sem medos. E depois há os teus olhos. E as tuas mãos. E perco-me. Sem pressa.

10.3.07

قلبي لك

[Caravaggio - São João Baptista]


Achava que um dia. Mas nunca pensei que. Assim tão de repente. Tanta luz.
قلبي لك

Acordar

[Klimt - Mulher com chapéu]

Mal começámos a conversar pediu-nos caneta e papel. Rabiscou a morada com vigor. Quando voltarem a Madrid ficam em minha casa. E ria-se. Não sei quantos anos teria. Talvez tantos quantos tenho agora. Ou menos. Eu tinha pouco mais de vinte. A velhice começava aos trinta. Portanto era velha. Saía em. Não me lembro. Uma cidade de fronteira. Daquelas pouco importantes. Alcântara de qualquer coisa. القنطرة. A ponte.

E nós ficámos sozinhos. E eu fiquei sozinho. E eu nunca tive tanto frio. Pensava que morria. Mas também nunca tinha visto a Via Láctea. Tanta luz. Tanto gelo. O toque toque das rodas nos carris. Aquele céu negro rasgado de luz. Dormente. Via o mundo a fugir. Tinha de me mexer. De aquecer. Dormência. E havia aquela luz. Tinha de acordar. Acordar.

8.3.07

O brilho

[Caravaggio - Cupido dormindo]

De novo se me ilumina o espírito com brilho novo e inesperado.

4.3.07

O silêncio

[Correggio - Ganimedes]

Lembras-te daquele dia. Daquele jantar. Daquele silêncio. Não gosto de falar. Jantar a dois. Já não me lembro porquê. Por acaso. Porque estávamos sozinhos. Porque não havia mais ninguém. Não me lembro. Mas havia aquele silêncio. Húmido. Agradável. Sentíamo-lo à nossa volta. Opressivo. Hipnótico. Não era aquele silêncio de quem não tem o que dizer. Era um silêncio cheio. Não de palavras. Cheio de amor. Acho. Não sei. Já não sei nada. Brincava com o garfo. Recortava figuras toscas na toalha de papel. E tu olhavas. Sempre aquele riso trocista. Silencioso. Onde estás. Preciso de ti agora. Quando aqui estás não penso.

26.2.07

Sustine diem

[Crónica de Nuremberga, Cato Vticensis]

Não se pode viver assim. Um dia inteiro. Interminável. Depois a noite. Curta. E se não nascesse nunca o dia. Sempre a dormir. Se pudessem os deuses parar a marcha do Sol e fazer a noite maior. Já li tanta coisa. Para quê. Sabe-me mal a pasta de dentes. Voltar para a cama. Não. Para quê insistir. Já não posso voltar atrás. Agora é enfrentar o dia. Ou não. Podia mesmo dizer que estava doente. E depois? Ia ver o mar. Já que não consigo voltar para a cama. Despachar-me. Adormecia com o copo de leite na mão. Como estou agora. Estátua de granito com copo de leite na mão. Porquê granito. É frio. Não sei. E passava o dia a dormir com a cara em cima da mesa. E depois só acordava à noite. E voltava a dormir. E nunca mais acordava. Não tinha de suportar o dia.

8.2.07

Foi há quatro anos

[Rui Oliveira - Auto-retrato]

Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner


Foi há quatro anos. Era Sábado de manhã e eu dormia. E depois disseram-me que tinhas morrido. E depois fui ver-te tapado por um lençol branco. Não te esqueço.

6.2.07

E no entanto

[Dürer - Auto-retrato]

Já se me cobre a cabeça de branco. Mas não tenho rugas. Respiro como nunca. O coração responde com eficácia ao esforço. Tenho mais força. Estou mais ágil. Mais leve. Resistente. Descubro músculos e ossos de cuja existência nem suspeitava. Tenho, aos trinta e cinco anos, o corpo que devia ter tido aos vinte e cinco. E no entanto.

20.1.07

ὦ παῖ παρθένιον βλέπων

[Pátroclo e Aquiles]

ὦ παῖ παρθένιον βλέπων
δίζημαί σε σὺ δ'οὺ κλύεις
οὐκ εἰδὼς ὅτι τῆς ἐμῆς
ψυχῆς ἡνιοχεύεις

(Anacreonte, frg. 15 Page)

16.1.07

Noli me tangere

[Duccio - Noli me tangere]

Não me toques. Não lho disse. Ou disse. Lançava-se sobre o meu corpo mole. Faz de mim o que quiseres. Já contei isto. Não faz mal. Faz. Faz de mim o que quiseres. E se eu não quiser nada. Não lho disse. Se calhar disse. Disse. Hoje não. Estou cansado. Parece mentira. Mas foi o que eu disse. Portanto disse. Que não queria nada. Entre gemidos. Ofegava-me no pescoço. Amanhã. Amanhã também vais estar cansado. Não. Amanhã prometo que não estou. Amanhã não vou aparecer. Isto não lhe disse.

E no entanto

[Delacroix - Tasso no hospício]

Começo a perder a esperança de que algum dia. Se alguma vez. Nunca tive esperança. Não se pode perder o que não se tem. De que algum dia acorde. Às vezes parece que. Não sei. Se calhar um dia. Só depende de mim. E no entanto.

13.1.07

Data

[Caravaggio - A ceia de Emaús]

à memória do Rui

Não sei se faz sentido comemorar os teus aniversários. Ainda que o tenha vindo a fazer desde que morreste. É que nunca dei grande importância a aniversários. Nem ao meu. Só a saudade me impele a lembrar-me de ti com mais veemência nos dias onze de janeiro. Mas dói-me mais a data da tua morte.

5.1.07

Quase parei

[Picasso - Rapaz com cachimbo]

à memória do Rui

Encontrei-as. Assim. Sem que as procurasse. Já as pensava perdidas para sempre. Mas não. Espaço para mais livros. Talvez em cima daquele armário. No meio do pó. Dentro de uma capa de plástico amarrotada. E havia outras duas fotografias tuas. Uma imprimimo-la no meu antigo quarto. Lembras-te. Toda negra. Depois apareces tu, meia cara iluminada. Havia também aquela em Fátima. Claro que te lembras. Sabes que não consigo voltar lá. Nem ao. Tu sabes. E aquela que tiraste à Eunice Muñoz. E aquela à A. Tão bonita. E depois aquela outra tua. Olhei para elas e doeu tanto. Não foi no coração. Foi um aperto terrível na garganta. Um murro no tórax. Pus no quadro de cortiça aquela tirinha tirada na máquina automática. Quase parei de respirar. Já lá vão quatro anos. E ainda dói tanto.