3.5.06

ἄνδρα μοι ἔννεπε μοῦσα πολύτροπον ὃς μάλα πολλὰ


[Ulisses cegando Polifemo - fragmento de cerâmica. Argos, século VII a.C.]

Contei em tempos como um livro para crianças me marcou a ponto de ter acabado licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas. Uma Odisseia para crianças, com desenhos e palavras bonitas. Continua à venda, mas nunca a comprei, porque a "minha" Odisseia para crianças era um livro velho, que já fora da minha mãe. Capa amassada, folhas amareladas. Nunca me passarou pela cabeça pedi-la à minha mãe. Era dela. Oferecido pelo seu pai. Mas hoje, numa venda de livros usadas, encontrei um volume muito parecido. Velho. Lido. Relido. Usado. Comprei-o. Não para ler. Para isso há a deslumbrante tradução do Frederico Lourenço. Mas para tê-lo. Imaginar que é o livro que devorei numa tarde, enfiado numa despensa. Folheá-lo. Tê-lo.

1.5.06

Peregrinatio mediolanensis XI

[Hayley Lever - Barcos no porto]

Ventimiglia tem uma praia. É para lá que me dirijo. Tenho de esperar seis horas pelo comboio que me há-de levar a Irún. Mas agora isso não me importa muito. Vou-me embora. A cinzenta Milão já ficou para trás há muito tempo. Vou para casa. A praia não tem areia, apenas grossos calhaus negros. Pouco importa. O Mediterrâneo, azul forte, marulha docemente. Descalço-me e sento-me à beira-mar, com os pés dentro da água morna. Não há ondas. Apenas um suave vai e vem. Tudo parece tão distante. Agora a minha viagem começa a fazer sentido. Naquele fim de tarde quente, os pés lavados pela tépida água salgada, Milão já não me parece tão medonha. Rio, lembrando-me da mendiga genovesa que, na viagem para Milão, me amaldiçoou por não lhe ter dado as liras que insistentemente implorava. Passam-me pelos olhos todos os momentos vividos durante aqueles poucos dias. Agora tudo parece menos carregado. Foi, realmente, uma viagem iniciática. Não como a imaginei, é certo. Sinto que tinha de ter passado por tudo aquilo, que agora me parecia quase nada. Sinto-me um homem novo. Um homem. O Sol desce, começa a arrefecer. Mas eu deixo-me ficar, pés na água. Em paz. Finalmente.

Explicit. Deo gratias.

Peregrinatio mediolanensis X

[Piranesi - Torre redonda]

Aceno, no cais de embarque. Não. Tenho a mão levantada, mas não a movo, não aceno verdadeiramente. Mais parece um sinal de súplica. Não vás. Não me deixes de novo sozinho. Robson parte no comboio, para França. Eu decidi que volto para casa. Não tenho forças. Não era disto que eu estava à espera. Não é a viagem iniciática com que sonhava. Mochila às costas, resta-me esperar até ao fim do dia, e apanhar o comboio para Ventimiglia. Daí para Irún, e finalmente para Lisboa. Faço estes cálculos mentais e sinto-me tomado de desespero. Ainda falta tanto. De novo me arrasto por Milão. Ruas desconhecidas. Feias. Cinzentas. Gente antipática. Agressiva. Olham-me como se não estivesse ali, à sua frente. Pergunto a uma jovem onde há um jardim onde possa descansar. Vira lentamente a cabeça e olha através de mim. Como se tivesse ouvido algo e estivesse a tentar perceber de onde vinha o som. Depois continua o seu caminho, indiferente. Cinzenta. Caras fechadas, por todo o lado. Céu de chumbo. Desisto de tentar interagir com este povo. Até agora não consegui que alguém me respondesse a uma pergunta. Reagem todos da mesma maneira, como se programados para o efeito. Olham através de mim durante uns segundos, voltam a cara, e seguem o seu caminho. Por fim decido que o melhor sítio para descansar e fazer horas é o Duomo. Ali me sento, aliviado do peso da mochila, em posição de oração. Sou ateu. Mas quero descansar. Pensar. Correm-me lágrimas em torrente, mas não choro. Quantas horas ali terei passado, não sei. Ao fim do dia entro no comboio para Ventimiglia. Cabeça de fora da janela, lanço um último olhar a Milão. Até nunca mais.

Peregrinatio mediolanensis IX

Há coisas bonitas, em Milão. O Duomo. Não gastarei palavras para descrever aquilo que só os olhos e os ouvidos podem sentir completamente. Aquele mesmo Duomo, que no dia anterior me passara despercebido, por entre a névoa cinzenta que então me cobria os olhos. As galerias Vittorio Emmanuelle. O castelo Sforzesco, com o seu museu. Sim, naquele dia fiz a típica passeata turística, acompanhado do meu novo amigo brasileiro. A noite foi bem passada. Conhecemos mais uma série de brasileiros, hospedados na nossa pousada. Muita conversa leve, risos, juras de amizade futura. Não fiz a barba nesse dia, para não reabrir a ferida que tanto tempo demorou a estancar. Sentia-me sujo, apesar de ter acabado de tomar banho. E voltavam as nuvens cinzentas. No dia seguinte o meu amigo partia. Eu não sabia o que fazer. Permanecer mais um dia, ir procurar de novo a Soledad? Partir, sozinho, para a Grécia? Voltar para casa. Sentia-me tomado de uma enorme angústia. O Robson deu-me uma leve palmada nas costas, quase um afago. Que tem você, que ar tão sombrio? Nada. Estou com sono. E cansado. Às 22 horas apagaram-nos as luzes, e dirigimo-nos às respectivas camaratas. Que faço? Para onde vou?

Peregrinatio mediolanensis VIII

[Pontormo - Rapaz nu sentado]

Tenho medo de balneários. Despir-me diante dos outros. Não consigo. Nem vê-los. Cabeça baixa. Bem enrolado na toalha. Cortei-me a fazer a barba. É um golpe fundo. Espero que ninguém tenha visto. Passeiam-se nus, parecem não dar por mim. Ou estão todos a olhar para mim. Ali, toalha furiosamente entolada à volta da cintura, a tentar conter o sangue que jorra sem parar. Hello, where are you from? É comigo? Sem que tivesse dado conta, o balneário tinha-se acalmado. Agora só lá estou eu, com um bocado de papel higiénico comprimido contra a bochecha sangrante, e um rapaz nu, acabado de sair do duche, rindo para mim. Portugal. Ah, eu do Brasil. Já tinha percebido pelo sotaque. Vinha sozinho. Como eu. Percebemos que só nos tínhamos um ao outro, e ainda por cima falávamos a mesma língua. Tacitamente decidimos tornar-nos amigos inseparáveis, pelo menos até amanhã. Amanhã ele parte para França. Sinto um enorme alívio. Agora tenho alguém. Companhia.

Peregrinatio mediolanensis VII

[Piranesi - Prisioneiros em plataforma]

Não sei o que fazer. Não sei da Soledad. Vim sem número de telefone nem morada. Apenas sei onde trabalha. Arrisquei ir a Varese, mas em Itália parece que fecha tudo ao Sábado. Regresso à cinzenta Milão. Apático. Não sei o que fazer. Nem para onde ir. Vagueio pela praça do Duomo. A pousada só reabre às cinco. Não tenho discernimento para apreciar a beleza monumental do Duomo. Sinto o estômago colado às costas. E não é de fome. Arrasto-me, abordado por pedintes romenas, a quem lanço olhares vazios. Só vejo cinzentos à minha volta. Olho para o Duomo e não o vejo. Não sei para onde ir. Nem o que fazer.

29.4.06

Peregrinatio mediolanensis VI

[Piranesi - Carceri d'Innenzione VII]

Soam como elefantes em fúria, bramindo pela camarata. Que é isto. Onde estou. Levanto-me assustado. Já sei. Estou na pousada da juventude de Milão. São sete da manhã. As sirenes furiosas recordam-nos que dentro de uma hora, no máximo, temos de ter o pequeno-almoço tomado. Olho em volta. Caras estremunhadas. Desconhecidos. Alguns olham-me com curiosidade. Não me tinham visto chegar, na noite anterior. Vamos em fila para os balneários, silenciosos, encontrando pelo caminho os residentes das outras camaratas. Duche. Não me lembro se havia água quente. Tenho fome e frio. Dos balneários para o refeitório. Ouvem-se alguns risos. Murmúrios. Respira-se um ambiente marcial. Pão, doce, leite. Bom. O Pão não tem miolo, só côdea. É seco, esfarela-se quando o tento abrir. Barro a côdea com o doce de laranja, amargo. O leite é razoável. Não era isto que esperava. Quero ir para casa. Mas pelo menos a fome passou. Um empregado com modos bélicos berra-nos que são quase nove horas, e que a essa hora temos de estar todos na rua. A pousada fecha entre as nove e as cinco da tarde. Que cada um se entretenha como puder, até lá. Raus!

Peregrinatio mediolanensis V

[Münch - Ansiedade]

Milão. Não a vejo ainda, mas pressinto-a nos subúrbios industriais. Na mancha negra, lá ao fundo. Poluição. Céu cinzento. Chumbo. Deixei uma Lisboa solarenga, morna, dois dias antes. Milão surge-me agora monstruosamente cinzenta. Anoitece, quando chego à belíssima estação central. Tenho a morada da pousada de juventude onde me alojarei. Posso apanhar o metro, tenho todas as indicações necessárias para isso. Mas estou derreado, teria de andar a pé ainda algumas centenas de metros. Táxi. Consigo explicar em "italianês" para onde quero ir. Parece simpático. Olho pela janela, sorvendo esta paisagem nova e surpreendente. Milão é, com as ressalvas que mais adiante farei, uma cidade medonha, contrariando cruelmente todas as minhas expectativas. Ruas desertas. Cinzentas. Blocos de apartamentos uniformes, frios, feios. Sinto um vazio cada vez mais opressor. Não era para aqui que eu vinha. Aproximano-nos da pousada, diz o taxista. Vejo uma prostituta a entrar num carro. Tenho sono. Sinto-me pesado, vejo tudo turvo. Já nada me parece atingir. Nem quando o taxista me engana no troco. Protesto durante alguns segundos. Para quê. Encolho os ombros, faço um gesto de desprezo e sigo para a pousada. Finalmente poderei descansar. Tomar um banho. Dormir. Levam-me ao quarto. Não, não é um quarto. É uma camarata, com vários beliches. Sempre tive horror a partilhar a minha intimidade com outros homens. Seja num balneário, seja partilhando um quarto. Dormir é, para mim, um acto íntimo, que só consigo fazer sozinho. E agora tenho de dormir numa camarata, com vários desconhecidos. Sinto que vou vomitar. Apetece-me sentar em cima da cama e chorar convulsivamente. Gritar. Mas não tenho forças. Cansado de dois dias de viagem. Sujo. Mal cheiroso. Roubado. Humilhado. Desiludido. Submeto-me, conformo-me. Sou informado de que as luzes se apagam às 22 horas. Recolher obrigatório. Não quero saber. Estou demasiado cansado. Duche. Cama. Por fim paz. Quebrada às 7 da manhã com o atroar de sirenes, como as dos bombeiros, que bramem através da instalação sonora das camaratas. Às 8 é servido o pequeno-almoço, às 9 temos de estar todos na rua, pois a pousada encerra até às 17 horas. É Sábado. Só na Segunda poderei tentar encontrar a Soledad. Não sei para onde vou.

Peregrinatio mediolanensis IV

[Escher - Répteis]

Em Hendaye sinto todo o peso da solidão, pela primeira vez nesta viagem. Do desespero. Tenho de mudar de comboio. São seis horas de espera. Mochila às costas, vagueio pelas ruas da cidade. Vem-me aos olhos a imagem da mãe a chorar em Santa Apolónia. Revoltam-se-me as entranhas. Que ideia a minha. A cidade agride-me. Arrasto-me, vergado pelo peso da mochila. Não sei onde parar. As pessoas olham para mim. Ainda falta tanto tempo. Pudesse eu voltar já para Lisboa. Não quero saber de Milão. Nem do resto da viagem. Quero parar. Sentar-me. Mas não consigo. É como se parar significasse desistir. E eu não quero desistir. Ando, ando sem parar, pela cidade. Até me faltarem as forças. Até que ver forçado a sentar-me no chão. Saltam-me as lágrimas. Ainda faltam tantas horas para o comboio. E eu já não quero ir. Quero voltar para casa. Tenho fome, mas não tenho forças para abrir a mochila e procurar comida. Não sei para onde vou, não sei.

Peregrinatio mediolanensis III

[Turner - Auto-retrato]

Je lisais, peut-être. Ou dormia, não sei. Era noite. Não, é pouco provável que estivesse a ler. Gosto demasiado do ronronar do comboio nos carris, à noite. Quando não se vê nada pela janela senão negrume, quando não há habitações por perto e as nuvens cobrem a Lua. Abre-se a porta do compartimento. Tu parles français? Ouais, enfin, je me débrouille. Ah, c'est bien. C'est que mon copain il dort, et je m'embête, ça te gêne si je reste ici avec toi? Senta-se em frente. Simpatizamos imediatamente um com o outro. Na altura eu era bilingue quase perfeito. Conta-me a sua história, que vai para Burgos com um amigo. Entrou em Coimbra, várias horas antes. Até ali teria rezado, se acreditasse em deuses, para ficar sozinho o resto da viagem. Porém em poucas horas criáramos laços, que se viriam a tornar fortes e duradouros. Mas isso ficará para outra história. O que interessa agora é que naquele momento fiquei triste. Tinha vontade de continuar o resto da viagem a conversar com ele. E Burgos estava quase. Depois chegou o amigo, estremunhado. Trocamos moradas, prometemos correspondência. Saem ambos. Dizem-me adeus da plataforma. E eu sigo, sozinho. Vazio. Não sei para onde.

Peregrinatio mediolanensis II

[Caravaggio - São João Baptista]

Lento, lentinho, lentamente. Devagar. Muito devagar. C'est ça, le mythique Sud Express? Cabina de seis pessoas. Vou sozinho. Tant mieux. Entra um casal alemão. Olham-me com um misto de repugnância e medo. Orelhas multifuradas (coisa pouco comum na época). Cabelo quase rapado, com sulcos "à máquina zero" formando riscas e desenhos. Calças de ganga rotas e manchadas. Botas militares. Óculos redondos, pequeninos. Não os censuro. Admito que o meu aspecto fosse muito pouco convencional, naquele início dos anos 90. Poucos minutos depois levantam-se e vão para outra cabina. Não sem antes levarem algumas baforadas de fumo, acompanhadas de olhares provocadores. Je veux être seul, vous ne voyez pas? Allez. Foutez le camp. Abro a mochila, e preparo-me para longas horas de leitura. Levava A Jangada de Pedra. Je l'ai lu trois fois. Aujourd'hui je lirais Dostoïevski, Umberto Eco, Borges, Joyce, Tolstoï. Mais à l'époque c'était Saramago qui m'enthousiasmait. Coimbra B. Ou será Coimbra A? Não importa. A custo dei pela passagem sobre o Mondego, tão embrenhado ia na leitura. Coimbra.

Peregrinatio mediolanensis I

[Turner - Rain, Steam and Speed The Great Western Railway]

Mochila às costas, um pé no comboio, outro na plataforma, mais um beijo de despedida à mãe. Um último adeus e entro na carruagem. Tenho ganas de partir, de conhecer o mundo. Um formigueiro insuportável no estômago. Sento-me. Olho pela janela. Ela chora. Eu volto a cara para não ver, para não chorar também. Pegar na mochila e saltar de novo para a plataforma. Não ir. Ficar. Ficar com a mãe. O comboio parte. Demasiado tarde. Agora vou mesmo. Tem de ser. Sinto-me homem pela primeira vez. Naquele dia o mundo mudou. Mochila às costas. Parto à aventura. Sozinho. Não tenho destino preciso. Só sei que vou para Milão, encontrar-me com a Soledad, de quem não tenho nem o telefone nem a morada. Sei onde trabalha, mas chegarei a Milão num sábado. Terei de esperar dois dias. Não importa. Parto. Sozinho. Depois, se encontrar a Soledad, se decidirá o rumo da viagem. Agora só sei que vou. Para onde, não importa.

25.4.06

Odi et amo

[Pontormo - Alabardeiro]
a J.

Não te amo. Salpicos salgados trazidos pelo vento. Avançávamos, lado a lado, junto ao mar. Sabia que mo dirias, um dia. Já o pressentia há muito. Olhava as vagas, cinzentas, revoltas. Estava frio. Não sabia o que dizer. E tu continuavas, impassível. Pensei que te amava. Pensei que eras "o tal", mas não. Gosto de ti. Mas não és "o tal". Percebes? Não, não percebia nada. Não me lembro se chorei. Talvez tenha deixado cair uma lágrima. Disfarçada pelos salpicos, agora mais grossos, trazidos pelo vento furioso. Não me lembro do que senti. Vazio. Talvez. Revolta. Porque achava que me amavas, apesar de tudo. Porque eu te amava. Ou achava que te amava. Tu percebeste-o. Eu, tolo, não. Perguntei-te se era o fim. Era uma pergunta retórica. O fim já estava a acontecer há algum tempo. Mas queria ouvi-lo da tua boca. Queria que mo dissesses claramente. Que deixasses finalmente cair o machado sobre o meu pescoço. Olhaste-me perplexo. Não, não é o fim. Eu gosto de ti. Não és "o tal", mas eu gosto de ti. Percebes? Não, não percebia nada. Um turbilhão de sentimentos. Eu queria o fim. Porque não aguentava mais. Porque te sentia fugir a cada dia que passava. Porque chorava todos os dias, vendo que te perdia. Queria o fim. Queria a sentença final. E tu não ma davas. Arrojar-me-ia aos teus pés implorando o fim desta agonia. Que tu me recusavas. Não sabia o que dizer. Não estava preparado para isto. Não queria ser eu a sentenciar esta relação morta. Não seria capaz. Nunca. Porque não desistia de ti. Porque achava que te amava perdidamente. E não disse nada. Sentado agora no pontão, encharcado, olhava o mar cinzento, e não via nele sofrimento nem humilhação nem falta de amor-próprio. Achava que te amava, e que entre agonizar e não te ter, a escolha era óbvia. As ondas molhavam-me os pés. Mas eu não dava por nada.

24.4.06

O desejo

[Boudin - Costa de Portrieux]

a J.

Deitados, de costas, nas areias finas como farinha. Olhávamos as poucas estrelas e não dizíamos palavra. Era apenas a terceira vez que nos víamos. Mas era como se fosse de novo a primeira. Silêncio. Sabíamos o que estava no coração de cada um. Perto, demasiado perto, o marulhar das ondas, que quase nos lambiam os pés descalços. Não se via quase nada. Sentíamos apenas a presença um do outro. Sabíamos o que queríamos. Mal nos conhecíamos. Sabíamos, porém, que naquele momento não podíamos conceber a vida um sem o outro. Era arrebatador. Não ousávamos confessá-lo. Bons amigos, com medo de deitar tudo a perder com um gesto mais imprudente. Deitados de costas, olhando as estrelas esparsas, cobertas por uma neblina densa que nos humedecia os cabelos e a roupa. Sem dizer palavra. Desejando-nos intensamente.

Édipo

[Emil Nolde - Mar de Outono VII]

Ainda sabíamos a sal, o banho estava atrasado. Que belo dia de praia. A casa de férias, alugada, era pequena, desconfortável, mas tinha algo imensurável: uma vista imensa sobre o oceano, do alto das escarpas. À janela do quarto espreitávamos talvez os reflexos dourados do Sol a desaparecer dentro do mar. Um fim de tarde digno de um postal piroso. Ainda não tínhamos sido chamados para jantar. Na sala, as vozes elevavam-se ríspidas, ladradas. Fomos brincar, para cima da cama, rindo e falando alto, para tentar não ouvir a tempestade que se levantava. Em vão. A voz do nosso pai ribombava-nos nas entranhas, cada vez mais alta. A mãe chorava e gritava. Ouvia-se também a voz da outra mulher, da amante do nosso pai. A minha irmã começou a chorar baixinho. Abracei-a. Aos gritos dos adultos juntava-se agora o choro do meu irmão, bebé de colo. Ao colo da minha mãe. A noite caíra, entretanto, e a tempestade crescia de intensidade. Não sei os motivos. Eram normais as discussões. Mas esta adquiria proporções nunca vistas. Parece que a mãe os tinha apanhado em flagrante, e atirava-lho o cara. Nós, agarrados um ao outro, chorávamos baixinho, aterrorizados com cada novo berro colérico do nosso pai. Angustiados com cada novo queixume da mãe. Depois faltou a luz. A minha irmã gritou muito. Da sala deixámos, de repente, de ouvir o nosso pai e a sua amante aos berros. Agora apenas nos chegavam os gritos desesperados da mãe, o choro aflitivo do meu irmão bebé, o som de algo a rebolar no chão. E sons secos. Pontapés. Murros. Empurrões. Estão a bater na mãe! Estão a matá-la! Agarrados um ao outro chorávamos descontrolados. Não me lembro de mais nada. Não sei como nem porque acabou o espancamento. A mãe entrou no quarto, a chorar, vermelha dos murros e dos pontapés, com o bebé ao colo. O bebé que tinha rebolado pelo chão enquanto o nosso pai e a amante a espancavam. Disse-nos que a abraçássemos, e saímos de casa, descalços, numa terra desconhecida, à procura de quem nos desse abrigo, de quem nos levasse para casa.

Fez ontem 60 anos de idade, e, apesar de não ter sido poupada pelas agruras da vida, é hoje uma mulher muito mais feliz, forte e digna do que os que a espancaram covardemente naquela noite de Verão, há cerca de 30 anos.