13.5.06

Domi militiaeque II

[Agnolo Bronzino - São Sebastião]

Tenho de levar algo para ler. Κατέβην χθὲς εἰς Πειραιᾶ μετὰ Γλαύκωνος τοῦ Ἀρίστωνος ... A caminho de Coimbra. Inspecção. Somos muitos. Só rapazes. Enchemos o comboio. Não conheço ninguém. Mau feitio. Misantropo. Não é de agora. Agora apenas sofro as consequências. Há algumas caras que me são familiares. Mas nem um amigo, nem um conhecido. Sou o único sozinho. Todos os outros rapazes se juntam em grupos mais ou menos pequenos. Mas eu não conheço ninguém. Não me posso juntar a ninguém. Sinto-me perdido. Um antigo colega de escola. Mas já não nos falamos. Tanto melhor. Farei a viagem sozinho, a ler. Ainda não lamento a solidão.

*

Há dois grandes grupos. Há os que têm 12º ano ou mais. Há os que não. A fronteira é muito nítida. Nós vamos sentados, em silêncio. Ou conversando em voz baixa. Eles gritam. Riem alto. Passeiam-se pelas carruagens, destilando excesso de hormonas. A maneira de vestir. Mesmo as caras. Inconfundíveis. É chocante. Odi profanum vulgus et arceo. A fazer apreciações elitistas. Eu. Um homem de esquerda. Detesto-me. Racionalizo. Não tiveram condições para estudar. Não têm culpa. Muitos deles parecem ser bastante pobres. Odi me et arceo. Não consigo ler em paz. O dia desponta, quente. Chegaremos pela hora de almoço. Até lá tenho de aturar isto. Grotesco.

*

A ansiedade da véspera foi-se. Agora nervoso miudinho. Que será que me vão fazer? Já tirei os brincos? Já. Se calhar devia pô-los de novo. Não é normal um homem com tantos brincos nas duas orelhas, no início desta última década do século. Não queremos cá bichas. Paneleiros rua. Pode ser que... Se calhar devia pô-los. Não. É melhor não. Dizem que alegando homossexualidade eles dão-nos como inaptos. Ineptos, é assim que se deve dizer. Não sabem latim. Mas é melhor não. Mariquinhas. Aquele ali, de riso alvar, a olhar para mim com ar de gozo. É disto que tenho medo. E se gozam comigo, no quartel. Notam-se os buracos nas orelhas. Tentarei parecer o mais másculo possível. Que estupidez. Eu sei parecer másculo. Mas para quê. Que tolice. Chamavam-me mariquinhas, na escola, quando era miúdo. A minha melancolia. Os óculos. Sempre agarrado aos livros. Mariquinhas. E gordo. Também me chamavam gordo. Mariquinhas gordo. Mariquinhas gordinho. Gordinho mariquinhas. Não gostava de jogar à bola, como os outros miúdos. No recreio ficava isolado. Alegremente isolado. Misantropo de nascença? Depois cresci e tornei-me grande. Muito grande. Agora pensam duas vezes antes de me chamarem mariquinhas. Mas aquele está com os amigos. Não tem medo de mim. Cruzo as pernas. Exibo as minhas DocMartens. Sola ameaçadora voltada para ele. Baixo o livro e olho-o nos olhos. Não acredito que estou a fazer isto. Nunca me meti em brigas. Não sou capaz. Estou aterrorizado. A Cristiana tinha medo de mim. Achava que eu era um "skinhead". Não a censuro. Cabelo quase rapado. DocMartens. Calças de ganga rotas. Óculos pequeninos redondos. Apenas os brincos destoam. Pareço um oficial nazi saído de um filme de época. Eu. Homem de esquerda. Anti-nazi. O outro desvia os olhos. Retomo a leitura, triunfante. Aliviado. A minha presença é notada. Os grupos mais próximos olham-me com curiosidade. Aquele grupinho ali. Olhares gozões. Desconfortável. Era disto que eu tinha medo. Não arrisco novo desafio. Ainda estou a tremer. Levantar-me e espreguiçar-me. Sou o mais alto da carruagem. Não sou gordo, agora. Sou bastante encorpado. Pé em cima do banco. Ostensivamente desatar e tornar a atar os atacadores das DocMartens. Resultou. O grupinho parece ter desistido de me provocar. Demonstração de força estúpida. Fiz isto para quê? Idiota. Para me proteger. Criar a imagem do que não sou. Lanço olhares ameaçadores em volta, e volto a enterrar a cabeça no livro. Tenho medo. Agarro com força o livro para não perceberem as tremuras das minhas mãos. Sinto-me a sufocar. Como será no quartel? Vão-me chamar mariquinhas. Vão-me humilhar.

*

Há um que me olha de maneira diferente dos outros. Ruivo. Este não me mete medo. Desvia o olhar, embaraçado, quando o tento surpreender. É divertido. Este não diz mariquinhas com os olhos. Mas também não consigo decifrar o que diz. Bifurcação de Lares. Mudança de comboio. Isolado, no recreio. Às vezes brincava com as meninas. Mariquinhas. Estúpidos. Não sabiam que eu também brincava aos médicos, com elas. Aqui não há meninas. A estação é uma ilha cercada de arrozais a perder de vista. Isolamento absoluto. Temos de esperar. Uma hora. Ou mais. Não conheço ninguém. Caras familiares, apenas. Refugio-me no livro. Mariquinhas. O ruivo olha-me insistentemente. O que é que ele quer. Incómodo. Deixou de ter graça.

*

Comboio suburbano. Estamos a chegar, parece-me. Vamos em pé, apertados. O ruivo está mesmo à minha frente, quase lhe sinto o hálito. Os outros parecem ter-se habituado a mim, ignoram-me. O ruivo insiste. Não percebo aquele olhar. Não é de gozo. Não é de curiosidade. Não, não é de engate. Olha-me como se eu não estivesse ali. Acorda quando cruzo o meu olhar com o dele. Então baixa a cabeça e cora. Andamos neste jogo desde a Bifurcação de Lares. O que queres de mim?

*

À porta do quartel. Pânico. Calor ardente. Tenho medo. O que me farão? Vão-me obrigar a despir em público. A andar nu entre nus. E vão ver os furos nas minhas orelhas. Vão-me humilhar. Abro o livro mas não vejo as letras, só borrões. O estômago não existe. Estou banhado em suor. Calor. Que abram depressa a porta. Que isto acabe rapidamente. Sinto que posso começar a chorar a qualquer momento. Vão-me humilhar. Vão gozar comigo. Mariquinhas. Pé de salsa.

12.5.06

Fazes-me falta

[Rui Oliveira - Auto-retrato]

Todos os dias me lembro de ti. Mas há dias em que me lembro mais. Há dias em que as saudades são maiores. Este é um desses dias.

Domi militiaeque I

[Guercino - Estudo de rapaz sentado]

Amanhã vou para a tropa. Vou à inspecção. Enganei-me. Que importância tem. É a mesma coisa. Quartel. Tropas. Ordens. É a mesma coisa. Tropa. Inspecção. Vai ser um ponto de viragem na minha vida. Vou à inspecção. 1,85m. Robusto, mas não gordo. Serei dado como apto, com toda a certeza. E começará a contagem decrescente para a incorporação. O pesadelo que me persegue há tanto tempo. Desde a infância. Amanhã começa. Vou-me despedir da vida tranquila, esta noite. Tenho de me levantar muito cedo, para apanhar o primeiro comboio da manhã. Que importância tem. Nunc est uiuendum. Até logo, não venho tarde. Como será amanhã. Há um bar novo, talvez lá vá. Com recantos. Pouco iluminado. Uma casa antiga transformada em bar. Anos seguidos a pedir adiamentos. Mas agora estou a acabar o curso. Não há mais adiamento possível. Andamos pelos corredores sombrios do bar e escolhemos o compartimento que mais nos agrada. É um conceito interessante, Quem me dera viajar dois dias no tempo, não ter de passar por isto. Que sorte. Dois amigos neste compartimento. Vão estar lá centenas de rapazes. Não me sinto à vontade. Sabem que amanhã vou à inspecção? Nunc est bibendum. Tomamos uns copos. Vinho do Porto. Ou cerveja. Que importância tem. É a mesma coisa. Ouvi dizer que temos de nos despir em grupo. Não quero. Aproveito esta minha última noite de tranquilidade. Amanhã começa a contagem decrescente. Não são dois amigos, são dois conhecidos. Um deles acho que o vi apenas duas ou três vezes. Que importância tem. Preciso de beber. De conversar. Com amigos, com conhecidos. É a mesma coisa.Vai-se-me apertando o estômago. Amanhã a esta hora como estarei. Onde estarei. Tenho medo. Vou andando, amanhã tenho de me levantar cedo. Boa sorte. Obrigado. E se me obrigam a despir em frente dos outros todos. Não me apetece ir já para casa. Mas devia. Mas tenho de. Não me sinto confortável no meio de grupos exclusivamente masculinos. Como será, se me incorporarem. Não quero pensar nisso, agora. Limpo a mente. O que tiver de ser, será. Preocupo-me com a incorporação quando ela chegar. Que importância tem. É melhor ir dormir, amanhã tenho de me levantar cedo. Cada degrau é uma martelada na cabeça, que ameaça rebentar. As chaves. Não trouxe as chaves. Campainha. Alguém há-de abrir. É normal, a mãe demora sempre um bocadinho a vir abrir, tem de percorrer o corredor. É melhor tirar os brincos, ainda me arranjam problemas por causa disso. Não me abrem a porta. Campainha. Que livro levar. Sim, tenho de levar um livro. Ninguém. Não está ninguém em casa. E agora. Quase meia-noite. Platão. Levo Platão. República. O Miguel diz que serei um militar diferente. Que chegarei a um posto elevado. Que terei recrutas sob o meu comando. Que em vez de exercícios militares os sentarei debaixo de plátanos, e discutiremos Platão. Plátanos. Galiza. De onde me vem a Galiza, agora? Que estranho. Quero ir dormir. Sentar-me nas escadas e esperar. Onde terão ido todos. Sentar-me nas escadas. Esperar. Até que alguém venha e me abra a porta. Amanhã muda a minha vida. Tenho vontade de chorar. Mas é ridículo chorar por uma coisa destas. Que importância tem. Hoje, sentado nas escadas, à espera de que me abram a porta. Amanhã no quartel, à espera de que ma fechem. É a mesma coisa.

Feras feridas

Vão partindo, os monstros. Ainda cá ficam alguns, mas por pouco tempo. Estão fracos. Feridos. Vão partindo, aos poucos. Devagarinho. Um a um. Ameaçando sempre voltar. Mas sem força. Monstros feridos de morte que olham para trás e rugem num último estertor. Vão partindo. Para morrer longe. Deixam um rasto de sangue e lágrimas. Destruição. Destroços. Um deserto de dor. Mas vão partindo. Não sei como recomeçar, agora. Se vale a pena recomeçar. Para quê. Podem voltar. Mas não. Não voltam. Vi-os feridos de morte. Encharcados em sangue negro viscoso. Arrastando-se para longe. Lentamente. Mas ainda cá ficam alguns, estrebuchantes. Fracos. Feridos. Em breve partirão. Em breve irão morrer longe, junto dos outros. Feridos de morte. Estarão mesmo feridos de morte? Estarão apenas a restabelecer-se, fora da minha vista, prontos para regressarem ainda mais ferozes? Feras feridas.

10.5.06

Ça me fait peur

[Caspar David Friedrich - Recife rochoso]

Ça me fait peur. Pourquoi? Noite escura. Sem Lua. Um promontório rochoso entrando suavemente oceano adentro. Não via o mar, mas sabia que ele estava ali, a poucos metros. Ouvia-o, ameaçador. Sentia na cara os salpicos das ondas. Fabrice não dizia palavra. Não sei para onde olhava. Não se via nada. À nossa frente apenas escuridão. Via-lhe o perfil, debilmente iluminado por luzes distantes. Cabeça erguida. Talvez olhasse as poucas estrelas que rompiam por entre as nuvens. Não sei. Não o quis acordar. Grossos salpicos. Salgados. Gelados. Sentia-me intranquilo. Na ponta do promontório, com o mar furioso encharcando-me, salgando-me. Fabrice sonhava. Mantinha-se imóvel, cabeça erguida em direcção ao céu. Depois acordou. Olhou-me e pareceu-me que sorria. Allons-y. Il fait froid.

9.5.06

Gelans intrinsecus

[Robert Henri - Cumulus clouds: East river]

Debruçado sobre o muro, olhando o mar calmo de Agosto. Maresia. Maré vazia. Lá em baixo os últimos banhistas arrumam as suas coisas. Começa a cair a noite. A minha hora preferida. Crepúsculo. Céu laranja. Brisa fria. Arrepio-me. A escarpa negra invade-me agora a alma. Já não vejo o mar. Apenas ouço o seu marulhar suave. Não conseguia suportar. Tinham sido duas semanas de descoberta. Uma nova amizade. Ao longo dos anos o meu carácter reservado e alguma misantropia tinham-me tornado um homem isolado. Tinha os amigos da faculdade, pouco mais. O que não me fazia qualquer diferença. Gostava deste isolamento. De ficar fechado em casa a ler. Gostava de sair, é verdade, mas uma ou duas vezes por mês bastavam-me. Encontrar-me com amigos, de vez em quando. Mas nada substituía uma tarde ou noite de leitura, em absoluta e desejada solidão. Agora descobria uma nova amizade. Forte. Que revolucionava a minha existência. Nascera e fortalecera-se em cartas trocadas mensalmente entre Marselha e Torres Vedras. Fabrice. Conhecera-o na minha viagem a Milão, algures entre Coimbra e Burgos. Naquelas poucas horas juntos criámos laços fortes. Trocámos moradas. Nunca mais perdemos o contacto. Cartas. Longas cartas, de velhos amigos que se tinham visto uma única vez. Ao fim de dois anos de palavras escritas decidimos rever-nos. Sentíamos saudades um do outro. Duas semanas numa tenda. Os laços criados em papel e caneta tornavam-se agora reais, sólidos, aparentemente inquebráveis. Mas agora ele partia. Na manhã anterior viera despedir-se de mim. Apertei-lhe a mão, ainda estremunhado. Que estúpido. Um aperto de mão. Numa noite de maior intimidade dissera-me que que tinha ficado surpreendido e chocado por o ter recebido com um simples aperto de mão e um sorriso contido. Esperava um mediterrânico abraço com palmadas nas costas. Expliquei-lhe que de mediterrânico eu só tinha a fisiologia. Riu-se e chamou-me "germano". Sabia do que falava, filho de mãe alemã. E eu, idiota, cometia pela segunda vez o mesmo erro. Despedi-me com um aperto de mão, frouxo. Partia. E eu regressava à minha solidão misantropa. Mas desta vez doía. Muito. Agora tudo parecia sem sentido. Está frio. Deixei de ouvir o mar. Apenas lhe sinto o cheiro salgado. À minha frente negrume, salpicado por luzes fracas e distantes de barcos de pesca. Esparsas. Acabou.

7.5.06

Aestuans intrinsecus

[Valentin de Boulogne - São João Baptista]

a A.

É aqui que vivo. Era um anexo, num quintal. Um quarto, era tudo. Escuro. Um calor abafado oprime-me a respiração. Pergunta-me se gosto da "casa". Gosto. De ti. Sentamo-nos na cama, não há cadeiras. Tento resistir a mim mesmo. Não falamos. Ambos sabemos ao que vimos. Sem ter sido preciso dizê-lo. Mas eu não quero. Não. Eu quero. Mas tenho medo. O que tens? O suor encharca-me o corpo. Calor sufocante. Como consegues dormir aqui? Habituei-me. Nova pausa. Longa. Não dizemos nada. Durante intermináveis minutos. Ardo por dentro. Olha-me significativamente. Estás a pensar em quê? Não respondo. Sinto-me desfalecer. O calor ardente. O ar pesado. Deito-me, sem forças. Interpretou isto como um assentimento. Inclina-se devagarinho sobre mim. Olhos nos olhos. Sinto-lhe os lábios ardentes por toda a cara, até encontrarem os meus. As mãos percorrem-me o peito abrasado. Entrego-me. Sem resistência.

6.5.06

O silêncio

[Caravaggio - São João Baptista]

a E.

Cuidado, ela pode ouvir-nos. Entra depressa. Fechava silenciosamente a porta da rua. O quarto era logo ali. Escuro. Morno. Despíamo-nos em absoluto silêncio. Enlaçados, silenciosos. Trocávamos beijos sem dizer palavra. Afagava-lhe o peito glabro, devagarinho, com medo de fazer barulho denunciador. Eram noites sem sexo. Bastavam os corpos enrolados. Os beijos longos. O calor do corpo do outro. Eram noites sem sono. De paixão contida. Amanhece. Amo-te muito. Levantava-se, certificava-se de que a senhoria não estava por perto e fazia-me sinal. Corre, depressa. Sai. Adoro-te. Até logo.

4.5.06

Gritos

[Pissarro - Camponesa dando de comer a uma criança]

Não percebia a razão dos gritos. Era uma casa minúscula. Não. Seria talvez uma garagem. Não me lembro. Foi há vinte e quatro anos. Um quarto com uma cama de casal. Disso lembro-me perfeitamente. Dormíamos os quatro naquela cama. A mãe e o mano, virados para um lado, a mana e eu virados para o outro. Pés com cabeças. Não havia alternativa. Uma sala com algumas cadeiras, onde a mana gritava regularmente, sem eu perceber porquê. A cozinha não permitia mais do que uma pessoa dentro. A mãe cozinhava vergada, pois o tecto era demasiado baixo. Um vão de escada servia de casa de banho. Lembro-me muito bem de que a sanita não estava presa ao chão, e de que lá de dentro saíam baratas voadoras. Esses gritos eu percebia. Do lavatório um dia saíram lagartas. Curioso. Como teriam ido lá parar. Depois da felicidade indizível que fora o divórcio dos meus pais, vinham agora os dias de pesadelo. A mãe ficara colocada numa escola algarvia, na ressaca do divórcio. Não houvera oportunidade nem dinheiro para mais do que aquela miserável garagem, onde não dormíamos, apertados e com calor. Lembro-me de que chorei descontroladamente na véspera da partida. Era o dia dos meus anos. Fazia 10. Ia para um mundo novo, que para mim só poderia ser pior do que aquele em que vivia. Inocente. Agora, logo agora que os meus pais se tinham separado, logo agora que eu estava tão feliz. Porquê partir? Porquê deixar tudo para trás? Não percebia. E no entanto era tão óbvio. Não podia ter sido de outra maneira. A mãe tomou uma decisão corajosa, difícil e acertada. Mas eu não a entendi, na altura. Partimos de madrugada. A mãe, a mana, de 8 anos, o mano, de 3 anos, e eu, 10 anos acabados de fazer. Foram longas horas de viagem, que apaguei da memória. Só me lembro de ser madrugada. Uma daquelas madrugadas frias de Setembro, num Outono antecipado. Ou então era eu que sentia frio inexistente. E de chegarmos, ao fim do dia, àquela garagem que nos serviu de casa durante largos meses. E depois havia aqueles gritos, de que eu não percebia a razão. Escrevia cartas ao meu avô materno, mentindo-lhe como estava tudo a correr bem, que estava a adorar o Algarve, que a casa afinal nem era assim tão má. A mãe sofria, baixinho, mas nunca mostrou fraqueza. Às vezes ouvia-a chorar, quando pensava que estávamos todos a dormir. Sofria mais do que nós todos juntos. Sofria por ela e pelos três filhos pequenos. Em silêncio. Não nos queixávamos. Tacitamente decidíramos que lamúrias era coisa que não valia a pena. Dias melhores viriam. Disso tínhamos a certeza. Afinal era só um ano. Nem isso. Um ano lectivo. Duro. Feroz. Ainda que só tivesse 10 anos, todo eu explodia em pré-puberdade. Literalmente. A minha cara era uma enorme borbulha vermelha, nojenta. Eu. Uma viga gorda, forrada de acne. Já na altura era o mais alto da turma. Desenraizado. Não entendia a cultura própria daquele povo. Não entendia a fala popular. Desconhecia tantas daquelas palavras e expressões. E eles olhavam-me como um bicho raro. Era o "lisboeta". Ouviam, fascinados, como eu pronunciava "lâite", e não "lêti". Estranhavam os meus modos citadinos e educados. Talvez por isso nunca me tenha conseguido integrar, nem na escola nem no bairro popular pobre onde vivia. Era estrangeiro. Era um esquisitóide, que dizia "espâlho" em vez de "espêlho", que não sabia o que eram alcagoitas - ó ignorante! - nem entendia o conceito de estar marefado. Sempre fui introvertido e tácito. Nunca me incomodou a rejeição. Pelo contrário, acabei mesmo por cultivá-la, na adolescência. Suportei, portanto, tudo. Acabei por perceber que não havia alternativa. Que vivíamos um inferno na terra, quase numa barraca, mas que isso acabaria por nos trazer grandes benefícios. E que a mãe tomara uma decisão corajosa que eu, hoje, com 34 anos, não sei se seria capaz de tomar. Percebi tudo. Menos os gritos. Isso nunca percebi. Eram ratinhos, não faziam mal a ninguém. Mas a mana tinha medo.

3.5.06

ἄνδρα μοι ἔννεπε μοῦσα πολύτροπον ὃς μάλα πολλὰ


[Ulisses cegando Polifemo - fragmento de cerâmica. Argos, século VII a.C.]

Contei em tempos como um livro para crianças me marcou a ponto de ter acabado licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas. Uma Odisseia para crianças, com desenhos e palavras bonitas. Continua à venda, mas nunca a comprei, porque a "minha" Odisseia para crianças era um livro velho, que já fora da minha mãe. Capa amassada, folhas amareladas. Nunca me passarou pela cabeça pedi-la à minha mãe. Era dela. Oferecido pelo seu pai. Mas hoje, numa venda de livros usadas, encontrei um volume muito parecido. Velho. Lido. Relido. Usado. Comprei-o. Não para ler. Para isso há a deslumbrante tradução do Frederico Lourenço. Mas para tê-lo. Imaginar que é o livro que devorei numa tarde, enfiado numa despensa. Folheá-lo. Tê-lo.

1.5.06

Peregrinatio mediolanensis XI

[Hayley Lever - Barcos no porto]

Ventimiglia tem uma praia. É para lá que me dirijo. Tenho de esperar seis horas pelo comboio que me há-de levar a Irún. Mas agora isso não me importa muito. Vou-me embora. A cinzenta Milão já ficou para trás há muito tempo. Vou para casa. A praia não tem areia, apenas grossos calhaus negros. Pouco importa. O Mediterrâneo, azul forte, marulha docemente. Descalço-me e sento-me à beira-mar, com os pés dentro da água morna. Não há ondas. Apenas um suave vai e vem. Tudo parece tão distante. Agora a minha viagem começa a fazer sentido. Naquele fim de tarde quente, os pés lavados pela tépida água salgada, Milão já não me parece tão medonha. Rio, lembrando-me da mendiga genovesa que, na viagem para Milão, me amaldiçoou por não lhe ter dado as liras que insistentemente implorava. Passam-me pelos olhos todos os momentos vividos durante aqueles poucos dias. Agora tudo parece menos carregado. Foi, realmente, uma viagem iniciática. Não como a imaginei, é certo. Sinto que tinha de ter passado por tudo aquilo, que agora me parecia quase nada. Sinto-me um homem novo. Um homem. O Sol desce, começa a arrefecer. Mas eu deixo-me ficar, pés na água. Em paz. Finalmente.

Explicit. Deo gratias.

Peregrinatio mediolanensis X

[Piranesi - Torre redonda]

Aceno, no cais de embarque. Não. Tenho a mão levantada, mas não a movo, não aceno verdadeiramente. Mais parece um sinal de súplica. Não vás. Não me deixes de novo sozinho. Robson parte no comboio, para França. Eu decidi que volto para casa. Não tenho forças. Não era disto que eu estava à espera. Não é a viagem iniciática com que sonhava. Mochila às costas, resta-me esperar até ao fim do dia, e apanhar o comboio para Ventimiglia. Daí para Irún, e finalmente para Lisboa. Faço estes cálculos mentais e sinto-me tomado de desespero. Ainda falta tanto. De novo me arrasto por Milão. Ruas desconhecidas. Feias. Cinzentas. Gente antipática. Agressiva. Olham-me como se não estivesse ali, à sua frente. Pergunto a uma jovem onde há um jardim onde possa descansar. Vira lentamente a cabeça e olha através de mim. Como se tivesse ouvido algo e estivesse a tentar perceber de onde vinha o som. Depois continua o seu caminho, indiferente. Cinzenta. Caras fechadas, por todo o lado. Céu de chumbo. Desisto de tentar interagir com este povo. Até agora não consegui que alguém me respondesse a uma pergunta. Reagem todos da mesma maneira, como se programados para o efeito. Olham através de mim durante uns segundos, voltam a cara, e seguem o seu caminho. Por fim decido que o melhor sítio para descansar e fazer horas é o Duomo. Ali me sento, aliviado do peso da mochila, em posição de oração. Sou ateu. Mas quero descansar. Pensar. Correm-me lágrimas em torrente, mas não choro. Quantas horas ali terei passado, não sei. Ao fim do dia entro no comboio para Ventimiglia. Cabeça de fora da janela, lanço um último olhar a Milão. Até nunca mais.

Peregrinatio mediolanensis IX

Há coisas bonitas, em Milão. O Duomo. Não gastarei palavras para descrever aquilo que só os olhos e os ouvidos podem sentir completamente. Aquele mesmo Duomo, que no dia anterior me passara despercebido, por entre a névoa cinzenta que então me cobria os olhos. As galerias Vittorio Emmanuelle. O castelo Sforzesco, com o seu museu. Sim, naquele dia fiz a típica passeata turística, acompanhado do meu novo amigo brasileiro. A noite foi bem passada. Conhecemos mais uma série de brasileiros, hospedados na nossa pousada. Muita conversa leve, risos, juras de amizade futura. Não fiz a barba nesse dia, para não reabrir a ferida que tanto tempo demorou a estancar. Sentia-me sujo, apesar de ter acabado de tomar banho. E voltavam as nuvens cinzentas. No dia seguinte o meu amigo partia. Eu não sabia o que fazer. Permanecer mais um dia, ir procurar de novo a Soledad? Partir, sozinho, para a Grécia? Voltar para casa. Sentia-me tomado de uma enorme angústia. O Robson deu-me uma leve palmada nas costas, quase um afago. Que tem você, que ar tão sombrio? Nada. Estou com sono. E cansado. Às 22 horas apagaram-nos as luzes, e dirigimo-nos às respectivas camaratas. Que faço? Para onde vou?

Peregrinatio mediolanensis VIII

[Pontormo - Rapaz nu sentado]

Tenho medo de balneários. Despir-me diante dos outros. Não consigo. Nem vê-los. Cabeça baixa. Bem enrolado na toalha. Cortei-me a fazer a barba. É um golpe fundo. Espero que ninguém tenha visto. Passeiam-se nus, parecem não dar por mim. Ou estão todos a olhar para mim. Ali, toalha furiosamente entolada à volta da cintura, a tentar conter o sangue que jorra sem parar. Hello, where are you from? É comigo? Sem que tivesse dado conta, o balneário tinha-se acalmado. Agora só lá estou eu, com um bocado de papel higiénico comprimido contra a bochecha sangrante, e um rapaz nu, acabado de sair do duche, rindo para mim. Portugal. Ah, eu do Brasil. Já tinha percebido pelo sotaque. Vinha sozinho. Como eu. Percebemos que só nos tínhamos um ao outro, e ainda por cima falávamos a mesma língua. Tacitamente decidimos tornar-nos amigos inseparáveis, pelo menos até amanhã. Amanhã ele parte para França. Sinto um enorme alívio. Agora tenho alguém. Companhia.

Peregrinatio mediolanensis VII

[Piranesi - Prisioneiros em plataforma]

Não sei o que fazer. Não sei da Soledad. Vim sem número de telefone nem morada. Apenas sei onde trabalha. Arrisquei ir a Varese, mas em Itália parece que fecha tudo ao Sábado. Regresso à cinzenta Milão. Apático. Não sei o que fazer. Nem para onde ir. Vagueio pela praça do Duomo. A pousada só reabre às cinco. Não tenho discernimento para apreciar a beleza monumental do Duomo. Sinto o estômago colado às costas. E não é de fome. Arrasto-me, abordado por pedintes romenas, a quem lanço olhares vazios. Só vejo cinzentos à minha volta. Olho para o Duomo e não o vejo. Não sei para onde ir. Nem o que fazer.