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29.5.07

Vox clamantis

[Bosch - Ecce homo]

Sem nenhum barco - a rouca
lenta respiração do deserto.
Eugénio de Andrade


Lenta me invade o corpo areia quente que pensava longe morta. Enche cada cantinho abre caminho por entre veias músculos e nervos. E deixa-se ficar quente caída. É tanta tanta que não chega não enche não cabe. Come carne bebe sangue. Lenta lentinha. Cada grão devagarinho pousando sobre outro e sobre outro e sobre. Tão devagarinho. E eu vou deixando de ser homem de sangue e carne. Serei estátua de areia dura. Antes fosse de sal.

27.5.07

O beijo

[Turner - Quillebeuf, na foz do Sena]

O silêncio é a água destas pedras

onde a noite se estende para morrer.
Eugénio de Andrade

Morre-me lenta a noite nos braços que ainda há tão pouco. Estendida dolente morta de cansaço. Tão bela tão louca. Os beijos que trocámos e a minha mão na tua pele. Quando eram as noites. E os dias. Tudo morto. Morre-me lenta morta. Abro os braços e cais no chão corpo desamparado. Baixar-me de novo. Depor-te beijo último nos lábios secos de amor. Levantar-te da terra num abraço derradeiro forte como. E a última lágrima. E sentir a tua indiferença tão fria. Tu não precisas de mim. Morre-me tão bela tão lenta a noite nos braços cansados.

أحبك
ذائماً