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4.6.07

Graal III . Foi-se embora

[Hirst - LH86 Unity]

Foi-se embora.
Não sei também como foi possível. Mas foi.
Bertold Brecht, O Voo dos Lindbergh

Depois dormimos juntos. Não na mesma cama. Nem sequer sozinhos. Não interessa. Dormimos juntos. Estavas ali. Ouvia-te o respirar suave dormido. Mihi sufficiebat.

Posso ir.
Não.
Porquê.
Porque depois temos problemas.
Porquê.
Porque não temos autorização.
Porquê.
Porque sim.

Vai lá. Sim sim eu sou fixe eu sei já disseste. Ninguém vai saber. Vai lá. Mas não faças barulho. Porque se te apanham. Se te apanham. Vai lá.

Graal II . Aonde quiseres


Contra a noite, depois de vésperas, quando se assentarom aas mesas, ouvirom vĩir ũũ trovam tam grande e espantoso que lhes semelhou que todo o paaço caía. E logo depois que o torvam deu, entrou ũa tam grande claridade que fez o paaço dous tanto mais claro ca era ante.
A Demanda do Graal, 25
(tradução portuguesa do século XIII)


Não controlo olhos nem mãos. Quando te vejo. Sim sim o Graal. Sem palavras para te lançar. Porque o teu riso diz. Mas desdiz. Como tu. Ambíguo. Esses olhos verdes. Eu nunca gostei de. Mas os teus. Desarmado.

Queres vir comigo.
Aonde.
Procurar o Graal.
Aonde.
Aonde quiseres.

O riso. Não te saía dos lábios. E eu não sabia o que me estavas a dizer. Et excruciabar. Porque eu ia. Sim sim o Graal. Aonde tu fosses eu ia.

Pode estar num castelo. Já imaginaste nós dois num castelo alemão ou escocês ou inglês ou francês eu sei lá. Num castelo. Longe de tudo. E nós agachados agarrados em passagens apertadas. Como é que achas que. Será uma taça de ouro. De madeira. Ou de pedra. Não interessa. Eu gostava que fosse de pedra. Como tu.

Deitado tu no parapeito da ponte de pedra. Eu de pé. Cabeça posta no rio. Coração em ti. Ardente. Calados os dois batidos pelo bafo da planície. Fim de tarde que não se finava. Laranja o céu a água. E havia aquele silêncio abafado das tardes de Verão. Depois perguntaste. Não sei. Não me lembro. Embalado pelo baixo da tua voz. Ouvia-te. Mas não te entendia. Nunca te entendi. E eu não respondi e fiquei a olhar-te o verde dos olhos.

Sim eu sabia sim.
E ainda assim.
Ainda assim.
Mas se assim.
Eu sou assim.

3.6.07

Graal I . Actos de bem

[Bridgman - Bulaq]

«O próprio Ivan contaria, mais tarde, que tudo se passou assim por causa, digamos, da 'paixão pelos actos de bem' por parte de Efim Petróvitch, levado pela ideia de que um rapaz com capacidades geniais tinha de ser guiado por um educador genial. Entretanto, nem Efim Petróvitch nem o educador genial eram já deste mundo quando o jovem, terminado o curso do colégio, entrou na universidade.»
Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov, ed. Presença


Mil novecentos e noventa e cinco. Ar de desafio. Tu sabias. Eu tentava esconder-te os olhos. Porque são os olhos que me traem. Sempre. Até quando se me endurece a cara. E eu sei ser tão duro. Tu sabias.

Posso sentar-me
Senta-te
Que porcaria é essa que estás a comer

Não podia. Quantos anos tinhas. Eu vinte e três. Tu não me lembro. Menos. Mas não era por isso. Houve aquela vez. Lembras-te. Passando a ponte. Não é imagem. Havia uma ponte. Grande de pedra. Romana. Em baixo um rio quase riacho. Ponte tão grande para rio tão pequeno. Porque não chovia. E o fim de tarde quente. Quente quente suados. Olhos no rio. Sabes. Tons laranja no céu que eu nunca tinha visto. Mas do que me lembro é do calor. O calor que nos calava. E das primeiras estrelas suadas. Calados olhos no rio. Aqueles silêncios tão plenos. Sim porque tu sabias. Um dia disseste que me ias levar contigo. Procurar o Graal. Eu ri-me. E disse-te que era uma fantasia medieval. Que o Graal não existia. Mas tu deitaste-me os olhos. E depois de um breve silêncio disseste. Existe. Tu é que não sabes. Mas eu sei. Existe. E riste.