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8.2.10
A espera
Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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8.2.09
Deserto
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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5.9.07
O nevoeiro
Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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2.9.07
A hora da partida
A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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31.8.07
Destróis todas as pistas que nos salvam
Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas
Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam
Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança
Rejeitas a matriz
E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem
Sophia de Mello Breyner Andresen
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26.5.07
Qui habet aures audiendi audiat
[Cantigas de Santa Maria, manuscrito castelhano do século XIII]
Através do teu coração passou um barcoQue não pára de seguir sem ti o seu caminho
Sophia de Mello Breyner Andresen
Pántes gar hoi labóntes mákhairan en makháirêi apoloûntai
Poderia dizer agora sabes como que é. πάντες γὰρ οἱ λαβόντες μάχαιραν ἐν μαχαίρῃ ἀπολοῦνται. Mateus vinte e seis cinquenta e dois. Ou em língua de gente omnes enim qui acceperint gladium gladio peribunt. Ou ainda qui gladio ferit gladio perit. Mas não. Porque tu ainda não sabes como é. Porque não quero que venhas a saber nunca como é. Porque me és demasiado querido. E ver-te sofrer. Não consigo.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
25.5.07
Epistolário XI
Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma.
Sophia de Mello Breyner Andresen
André ao seu Ρ.Α.
Eu não sou corpo. Nem espírito. Não nada. Nada. Não tenho nada. Não te fui corpo. Não te fui espírito. Não te fui nada. E achei que te deixava para me entregar a quem. Sim. Levarei esta culpa para o meu frasco de ferro negro. Olhar-te nos olhos e ver-te a tristeza pingar. E eu impiedoso. Que voltava para quem amava. Vinte e seis anos. Quando se pensa que se sabe já tudo. Para quê. Para nenhum de nós. Sabes que é isso que me dói tanto tanto. E por isso não deixo de o escrever. Até me cansar. Da minha cegueira. Passaste à minha frente. E eu não te vi.
Virei as costas ao mar à praia. Adeus. Vale. Porque eu estou farto. Já me arrastei tanto. E eu não mereço. Tu tinhas razão. Tu tens sempre razão. Quando eu te dizia eu amo e tu me dizias não tu não sabes o que é amar. E me dizias daqui a uns anos falamos. E tu tinhas razão. Mas não falámos. Porque me morreste. Olho para trás e não te vejo. Queria lançar os meus olhos nos teus. Dizer-te que. Não adianta. Já foi. Dicebam haec et flebam amarissima contritione cordis mei. Agostinho. Santo. Um dia falo-te dele. Porque agora não é tempo. Agora é tempo de estares sozinho no meu coração.
A janela do meu quarto aberta escancarada para fazer sair o ar que me inebria. E não mais me voltarei na cama para lançar os braços a quem mos recusou. E se o fizer sei que vais estar lá para me acordares e dizeres em bom latim miser misercule desinas ineptire. Porque agora só tu és dono das minhas noites. Expulsei quem não precisava de mim. É que eu não preciso de quem não precisa de mim. E agora tranco a porta. Por fim. E cá dentro só estamos nós os dois. Tant pis pour. Porque o dia é nosso. E a noite de ninguém. E um dia também eu serei nada. Cinza num frasco.
Eu canso. Eu não existo. Eu sei. Eu sou desconfortável. Eu perturbo. E tu amparas-me o meu desconforto. Porque eu não quero ser confortável. Quem não gosta do meu desconforto não me merece. E eu sofri tanto para me tornar desconfortável. Tanto. E eu pensava que nunca me. Não. Não vou deixar de ser desconfortável só porque me torno desconfortável para quem não consegue chegar-me. Il choisissent le plus confortable? Bon, tant pis pour eux. Mois, franchement, je m'en fous. Toi, par contre, tu n'as pas eu peur de moi. Tu ne craignais rien. E eu. Eu não tenho medo de nada. Nem de ninguém. Só de mim.
Je t'adore. Tu me manques. Follement.
André
Virei as costas ao mar à praia. Adeus. Vale. Porque eu estou farto. Já me arrastei tanto. E eu não mereço. Tu tinhas razão. Tu tens sempre razão. Quando eu te dizia eu amo e tu me dizias não tu não sabes o que é amar. E me dizias daqui a uns anos falamos. E tu tinhas razão. Mas não falámos. Porque me morreste. Olho para trás e não te vejo. Queria lançar os meus olhos nos teus. Dizer-te que. Não adianta. Já foi. Dicebam haec et flebam amarissima contritione cordis mei. Agostinho. Santo. Um dia falo-te dele. Porque agora não é tempo. Agora é tempo de estares sozinho no meu coração.
A janela do meu quarto aberta escancarada para fazer sair o ar que me inebria. E não mais me voltarei na cama para lançar os braços a quem mos recusou. E se o fizer sei que vais estar lá para me acordares e dizeres em bom latim miser misercule desinas ineptire. Porque agora só tu és dono das minhas noites. Expulsei quem não precisava de mim. É que eu não preciso de quem não precisa de mim. E agora tranco a porta. Por fim. E cá dentro só estamos nós os dois. Tant pis pour. Porque o dia é nosso. E a noite de ninguém. E um dia também eu serei nada. Cinza num frasco.
Eu canso. Eu não existo. Eu sei. Eu sou desconfortável. Eu perturbo. E tu amparas-me o meu desconforto. Porque eu não quero ser confortável. Quem não gosta do meu desconforto não me merece. E eu sofri tanto para me tornar desconfortável. Tanto. E eu pensava que nunca me. Não. Não vou deixar de ser desconfortável só porque me torno desconfortável para quem não consegue chegar-me. Il choisissent le plus confortable? Bon, tant pis pour eux. Mois, franchement, je m'en fous. Toi, par contre, tu n'as pas eu peur de moi. Tu ne craignais rien. E eu. Eu não tenho medo de nada. Nem de ninguém. Só de mim.
Je t'adore. Tu me manques. Follement.
André
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Epistularium,
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ganhar a vida
Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor
Sophia de Mello Breyner Andresen
A minha solidão vê-se melhor
Sophia de Mello Breyner Andresen
Não se perde não o que não se tem. Nunca. É que às vezes. Viste a cena final. Não viste. Estavas a olhar para onde. Ela chega-se ao parapeito da ponte. Debruça-se. E depois passam carros e carrinhas e a gente deixa de a ver. E quando voltamos a vê-la ela já não está lá. Nunca esteve. Eu olhei e tu estavas ali. E depois fechei os olhos por um instante. E um dia eu vou abri-los de novo e descobrir que tu nunca estiveste. E agora adeus. Porque eu fechei os olhos por um instante um instantinho.
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Noite escura
[Fotograma de Noite Escura, de João Canijo]Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.
E noite onde sem fim me afundarei.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.
E noite onde sem fim me afundarei.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A minha noite é escura. No tecto do meu quarto há estrelas que brilham. Não é figura de estilo. Eu não escrevo poesia. Eu não leio poesia. É a sério. Há estrelas que brilham. Daquelas que se compram e se colam e brilham como as nossassenhorasdefátima. É nome de mulher árabe. Fatimah. Aquele t tem de ser dito com a boca cheia فاطمة . Eu tinha uma nossassenhoradefátima quando era miúdo e acreditava em deuses e ovnis e civilizações perdidas. Se eu pudesse escolher um nome árabe seria Raxid راشد . E quando me deito elas bebem a luz do candeeiro enquanto leio e depois brilham e quando apago a luz enchem-me o quarto de luz. E agora vou-lhes dar de beber. Que me esperam na cama quatro miniaturistas turcos um deles a cegar. E não há estrela nossassenhoradefátima que ma ilumine.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
10.5.07
Stella Vespertina
[Dürer - Auto-retrato]Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Olhar-te nos olhos e sentir o calor da chama que não se apagou. Os dias limpos e cheios. De cheiro a maresia salgada. Estender a mão e tocar-te de novo. Como na primeira vez. O cheiro forte da erva cortada pisada. As mentes de novo envolvidas. Que o tempo não passou parou.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
9.5.07
A névoa
[Piranesi - Carceri d'Invenzione]Sozinha estou entre paredes brancas
Pela janela azul entrou a noite
Com o seu rosto altíssimo de estrelas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Suave abate-se sobre mim névoa química que me alivia a alma. Refrigério querido. Cabeça pesada custa tanto levantar-te. E o peito apertado. Já estava. Agora menos. Pálpebras esmagadas contra olhos ardentes. Faltam-me as forças para. Levantar-me e cair sobre a cama. Já não ler. Braços dormentes. Vinte e oito quilos levantados hoje. Mas não é disso. E o tecto a baixar-se a cair sobre o peito. Não sentir nada. Resolver. Tão fácil. Mais um. Só mais um. Já não sinto. Ataraxia. Falsa. Porque amanhã acordo pregado à cama e lanço os cobertores sobre a cabeça e maldigo o dia e vou querer adormecer e não voltar a acordar. Outra vez. E se.
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Êxtase
O êxtase do ar e a palavra do vento
Povoaram de ti meu pensamento
Sophia de Mello Breyner Andresen
Povoaram de ti meu pensamento
Sophia de Mello Breyner Andresen
Porque seria tudo tão fácil. Abrir o peito e tirá-lo lá de dentro. Voltar ao meu mundo de trevas. Para onde não quero voltar. Onde a dor não dói mas mói.
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28.4.07
Ondas
Dai-me o sol das águas azuis e das esferas
Quando o mundo está cheio de novas esculturas
E as ondas inclinando o colo marram
Como unicórnios brancos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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26.4.07
Manhã
Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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23.4.07
As mãos
Mãos
Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Glosa. Côncavas de quem não tem. Mas dá. Porque. Aquele quadro do Arpad. Le seul cadeau que je peux t'offrir. Isto é o que ele diz. Ce que j'ai de plus précieux. Côncavas de tocar. Leves. Longas. De. Não é. Não é de desejo. As mãos não sentem. As mãos não desejam. Falam. As mãos dizem. E não é desejo. É حب. Abandonadas sobre o teu corpo. Quentes. Murmuram. أحبك. Sossegadas. Não prendem. Nunca. Só tocam. Leves. Quietas.
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