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2.12.08

Cuspir

[Alenza y Nieto - Retrato de um arquitecto]
Eis um homem perdido, aqui está um homem que se perde a si mesmo e não consegue deter-se a si próprio.
Dostoiévski, O duplo

Pôr a cabeça de fora. E cuspir os olhos para o chão. Que porcaria. Cuspir para o chão. E os olhos. Cuspir os olhos para o chão. Não se faz. Eu sei. E eu fiz. Depois fechei a janela. Despejei-me no sofá. Sem apagar a luz. Agora não vejo. E se não vejo.

26.4.08

O sonho

[J. J. Grandville - Sonho de Crime e Castigo]

Дверь, как и тогда, отворилась на крошечную щелочку, и опять два вострые и недоверчивые взгляда уставились на него из темноты. Тут Раскольников потерялся и сделал было важную ошибку.
Федор Достоевский, Преступление и наказание, 1, 7

2.4.08

A profecia

[Bosch - Nauis Stultifera (pormenor)]

«E quando saturares de lágrimas a terra sob os teus pés e meio côvado para baixo, ficarás imediatamente feliz com tudo. E não mais existirá para ti qualquer tristeza. É esta a profecia.»
Dostoiévski, Demónios.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra

14.7.07

Bibliotheca II . Dostoiévski "Crime e castigo"

В начале июля, в чрезвычайно жаркое время, под вечер, один молодой человек вышел из своей каморки, которую нанимал от жильцов в С-м переулке, на улицу и медленно, как бы в нерешимости, отправился к К-ну мосту.
Достоевский, Преступление и наказание

O que estás a ler
Dostoiévski
O que é isso
É um escritor russo

Depois debruçava-se sobre mim e varria-me as costas com cabelos negros salgados. Havia areia. E maresia. Um conto de Dostoiévski. Não me lembro. Eu tinha de ler mais Dostoiévski. E tinha de aprender russo. Porque não queria intermediários. Para ler mesmo Dostoiévski. E Gógol. Tchékhov. Tolstói. Púchkin. Tenho ali um volume de contos de Tchékhov. Em russo. Para quando chegar o dia. Hei-de ter Crime e Castigo. Преступление и наказание. Porque não é a mesma coisa. Porque o som é diferente. E o ritmo.

Lês-me um bocadinho
Leio mas tu não vais gostar
Porquê
Porque não é para meninas da tua idade
Porquê
Porque há senhores feios e senhoras más
E fazem o quê
Porque é que tu gostas disso
Porque
Porquê
Está bem eu leio-te um bocadinho

Estava frio e eu aninhava-me debaixo de uma pilha de cobertores sentindo as febres de Raskólnikov.

Ela virava a cara e ria para a amiga. Depois pegavam nos baldes e faziam um buraco na areia. Eu ia baixando a voz e quando as achava completamente alheadas retomava a minha leitura silenciosa. Ela parava. Pousava o balde e lançava-me um olhar imperativo. Lê. Continua. Quando eu tinha quatro anos não gostava de Dostoiévski.

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Bibliotheca

Não são apenas os melhores livros que li. São aqueles que de alguma forma
deixaram marca na minha memória. Não são prólogos à maneira de Borges. Porque eu não sou Borges. Não são recensões. São memórias. Cheiros. Sons. Cores. São os livros da minha vida.

3.6.07

Graal I . Actos de bem

[Bridgman - Bulaq]

«O próprio Ivan contaria, mais tarde, que tudo se passou assim por causa, digamos, da 'paixão pelos actos de bem' por parte de Efim Petróvitch, levado pela ideia de que um rapaz com capacidades geniais tinha de ser guiado por um educador genial. Entretanto, nem Efim Petróvitch nem o educador genial eram já deste mundo quando o jovem, terminado o curso do colégio, entrou na universidade.»
Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov, ed. Presença


Mil novecentos e noventa e cinco. Ar de desafio. Tu sabias. Eu tentava esconder-te os olhos. Porque são os olhos que me traem. Sempre. Até quando se me endurece a cara. E eu sei ser tão duro. Tu sabias.

Posso sentar-me
Senta-te
Que porcaria é essa que estás a comer

Não podia. Quantos anos tinhas. Eu vinte e três. Tu não me lembro. Menos. Mas não era por isso. Houve aquela vez. Lembras-te. Passando a ponte. Não é imagem. Havia uma ponte. Grande de pedra. Romana. Em baixo um rio quase riacho. Ponte tão grande para rio tão pequeno. Porque não chovia. E o fim de tarde quente. Quente quente suados. Olhos no rio. Sabes. Tons laranja no céu que eu nunca tinha visto. Mas do que me lembro é do calor. O calor que nos calava. E das primeiras estrelas suadas. Calados olhos no rio. Aqueles silêncios tão plenos. Sim porque tu sabias. Um dia disseste que me ias levar contigo. Procurar o Graal. Eu ri-me. E disse-te que era uma fantasia medieval. Que o Graal não existia. Mas tu deitaste-me os olhos. E depois de um breve silêncio disseste. Existe. Tu é que não sabes. Mas eu sei. Existe. E riste.