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24.4.08

Epistolário XXX

[Brueghel o Jovem - Provérbios (pormenor)]
...
Eu por mim, continuei
Espojado, adormecido,
A existir sem viver.
...
Mário de Sá-Carneiro

André ao seu P. A.

Não deixaste de me habitar a memória. Não me fugiram para outras paragens as primeiras imagens do sono. Ainda és tu que me abres a porta. E me puxas a mão anda anda. Sem que mo digas. Os teus olhos entornados no chão de indiferença.

Quando eu olhava e havia uma luz que. Os dias correm e eu estou mais perto de ti. Havia aquele último peso vergando as estantes. Velho de anos medrosos. O papel e as letras a que me agarrava já têm destino. Agora tomar as forças. E fazer a viagem.

ٳلى اللقاء صديقي

3.9.07

Burro

[Goya - Semana Santa en tiempo pasado en España]

- Quando eu morrer batam em latas,

Rompam aos berros e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro

Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro...

Mário de Sá-Carneiro.


Puxar os lábios para cima não chega. E mostrar os dentes. Há todo um processo. Esquecer. Os dias pastosos. E as noites duras. A solidão que me esmaga o peito. Devagar. Tortura malvada. Um bocado bocadinho agora e outro depois. Devagarinho. Abrir os olhos e não ver. A boca e não dizer. Porque há esta luz medonha que me cega e me rouba as palavras. E depois arrancar o corpo da cama quente. Um bocadinho agora. Outro depois. Perder a vontade de. Deixar-me cair. E não me levantar mais. Por isso não chega. Puxar os lábios para cima. E mostrar os dentes. Porque um sorriso não é isto. Isto é um esgar.

1.9.07

Existir sem viver

[Van Gogh - Velho desesperado]

...
Ai! mas um dia, tu, o grande corajoso,
Também desfaleceste.
Não te espojaste, não. Tu eras mais brioso:
Tu morreste.

Foste vencido? Não sei.
Morrer não é ser vencido,
Nem tão pouco é vencer.

Eu por mim, continuei
Espojado, adormecido,
A existir sem viver.

Foi triste, muito triste, amigo, a tua sorte -
Mais triste do que a minha e mal-aventurada
... Mas tu inda alcançaste alguma coisa: a morte,
E há tantos como eu que não alcançam nada...

Mário de Sá-Carneiro, A um suicida (excerto)

29.8.07

Epistolário XXIX

[Caravaggio - São João Baptista]

... E as janelas abertas, sempre... sempre fechadas...

Encalhei dentro de mim.
Nem me concebo já.

Mário de Sá-Carneiro, Eu-Próprio o Outro

Ρ.Α. ao seu André

Estou com pressa. Deixa-te de sonhos. E de delírios. E de loucuras. Recolhe-te em ti mesmo. Anda. Fecha a porta. Fecha os olhos. Vai-te embora. Esquece. Pára. Para quê. Ainda não percebeste que. O que fazes aí ainda. Já é tempo. Ou ainda achas que. Anda. Custa menos do que parece. Eu sei. Tu sabes. E depois nada. Ataraxia ἀταραξία. Ou preferes isto. Os dias rebolando vazios para a frente e para trás. E essa solidão atroz que te esmaga o peito. Não. Chega. Pára. E deixa-te de sonhos. Anda. Estou com pressa.

26.8.07

Pois tudo me ruiu

[Cagnacci - A morte de Cleópatra]

Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim d'alma esquecida,
Dormir em paz num leito d'hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Mário de Sá-Carneiro

Iguais

[Cranach - Lucrécia]

Dois dias mais tarde, suicidava-se com uma bala no coração...

... Foi depois que eu soube que a outros amigos ele anunciara também o seu suicídio - sob o maior segredo - juntando, em confidência, as razões que o forçavam a um tal desespero: mas a cada um de nós contara uma história diversa...
Mário de Sá-Carneiro, A grande sombra

Os dias rebolam iguais e parecem a cada dia que passa cada vez mais iguais. Sempre iguais. Às vezes há um lampejo uma faísca qualquer coisa que torna um dia diferente do anterior e do seguinte. Mas depois tudo volta ao sempre igual. Porque o lampejo a faísca o que seja não duram. Há sempre alguém que lhe põe o dedo molhado em cima. Recolho as cinzas e faço-me de novo ao caminho. E assim me rebolam os dias iguais. Sempre iguais.

23.8.07

Aquele é que me saberia ser

[Dürer - Auto-retrato]

«Paris, 1909 - Janeiro, 5.
Hoje encontrei-o pela primeira vez.
Foi no Café. De súbito, vi-o na minha frente... O Café estava cheio. Por isso se veio sentar na minha mesa.
Mas eu não o vi sentar-se. Quando o vi, já ele estava diante de mim. Ninguém nos apresentara, e já conversávamos os dois...
Como é belo!
E o ar de triunfo que ilumina o seu rosto esguio, macerado?... Tombam-lhe os cabelos longos aos anéis. É ruivamente loiro. Tive vontade de o morder na boca...
Aquele, sim, aquele é que me saberia ser.»
Mário de Sá-Carneiro, Eu-Próprio o Outro

22.8.07

Penduraram-me os nervos numa escápula de ferro

[Goya - Quién lo pudo pensar]

«Meu Deus... meu Deus... Como hei-de suportar esta luz sem fim - inevitável e obcecante...
Ultrapassei-me em tédio. Tudo se esvaziou à minha volta...
Penduraram-me os nervos numa escápula de ferro; ataram-mos numa réstia seca...
Tenho medo de mim, de triste que estou...
Passeio nas ruas, solitário - e o meu olhar, o meu próprio olhar, me fustiga...
Em vão busco ainda acompanhar-me de fantasmas...
Tudo vive esta vida ao meu redor...
Se ao menos existissem outras... Sei lá, vidas instáveis, vidas-aromas - organismos fluidos que se pudessem condensar, solidificar, e de novo evaporar...»

Mário de Sá-Carneiro, A grande sombra, VIII