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4.7.08

Kill the pain . XXV . Incipiam te euomere ex ore meo

[Fra Angelico - Cura de Paládia por São Cosme e São Damião]

أَفَأَنْتَ تَهْدِى الْعُمْىَ وَلَوْ كَانُوا۟ لَا يُبْصِرُونَ

e não podes tu guiar os cegos mesmo não vendo eles?
Alcorão, 10:43

A tosse. Todas as manhãs. Como se me arrancasse as tripas. Assim. E me enfiasse os braços na boca. Os braços. E me fosse arrancando os pulmões. Uma tosse com braços. Veja lá. Mas ouça. Se o senhor me pudesse ouvir de manhã. Naqueles tempos. Não agora. Agora não fumo. Nada. Não custou nada. Três maços por. Acredite. Dizia eu. Se me pudesse ouvir de manhã. Esganado no fumo da noite e do dia de ontem. Grasnando aflito fechado na casa de banho. A cada ataque era um naco de dor e de vómito. A mãe enfiava os lábios no buraco da fechadura e rosnava ladainhas de nãodeixesdefumarnãos com susto zangado. Leoa a quem leão novo abocanha os filhos. E só passava quando acendia outro. Quando saía de casa. Até lá arrojava-me em espasmos tussíferos até à cozinha. Abria a boca e tentava engolir um naco de pão com. Sei lá. Doce manteiga queijo. Tanto faz. Porque o vómito era sempre igual. Estrangulado. Até às lágrimas. Sustinha a respiração. Sabendo que não o matava. Mas tentava. Pensava em coisas bonitas. Embora a madrugada não me seja propícia a coisas bonitas. Sabe que um dia quis ver o nascer do Sol. Fiquei profundamente desiludido. Mas ele tornava e às vezes não conseguia contê-lo. Depois gemia até-logos e saía esmagado pela fúria aflita dos lábios da mãe. Vinte anos. Quer dizer. Vinte e dois ou vinte e três. O senhor percebe o que quero dizer. Ou mesmo vinte e cinco. Era tão novo. Agora olhe para mim. Olhos cansados. Os cabelos cor de. E o cheiro. Sabe. Não o suportava. Eu. O cheiro da cinza podre da noite anterior. E vinha isto a propósito de. Sim. Já sei.

14.6.08

Kill the pain . XXI . Hic cetus

[Botticelli - Salomé com a cabeça de João Baptista]

أَفَأَنتَ تَهْدِى الْعُمْىَ وَلَوْ كَانُوا۟ لَا يُبْصِرُونَ

e não podes tu guiar os cegos mesmo não vendo eles?
Alcorão, 10:43


Já está. O Sol sonolento. Rasgando caminho por entre pálpebras trancadas. E o restolhar das mulheres remoendo remoques. Arrastando conversas dolentes suspiros resignados. Olhos largados no colo e as mãos bocejam o tédio de um dia que vai demorar a morrer.

24.12.07

Regista no Livro as palavras do Ateu

[Alcorão do século XVI, Lahore. Sura de Maria]

وَٱذْكُرْ فِى ٱلْكِتَبِ مَرْيَمَ إِذِ ٱنتَبَذَتْ مِنْ أَهْلِهَا مَكَانًۭا شَرْقِيًّۭا ١٦
فَٱتَّخَذَتْ مِن دُونِهِمْ حِجَابًۭا فَأَرْسَلْنَآ إِلَيْهَا رُوحَنَا فَتَمَثَّلَ لَهَا بَشَرًۭا سَوِيًّۭا ١٧
قَالَتْ إِنِّىٓ أَعُوذُ بِٱلرَّحْمَنِ مِنكَ إِن كُنتَ تَقِيًّۭا ١٨
قَالَ إِنَّمَآ أَنَا۠ رَسُولُ رَبِّكِ لِأَهَبَ لَكِ غُلَمًۭا زَكِيًّۭا ١٩
قَالَتْ أَنَّىٰ يَكُونُ لِى غُلَمٌۭ وَلَمْ يَمْسَسْنِى بَشَرٌۭ وَلَمْ أَكُ بَغِيًّۭا ٢٠
قَالَ كَذَلِكِ قَالَ رَبُّكِ هُوَ عَلَىَّ هَيِّنٌۭ ۖ وَلِنَجْعَلَهُۥٓ ءَايَةًۭ لِّلنَّاسِ وَرَحْمَةًۭ مِّنَّا ۚ وَكَانَ أَمْرًۭا مَّقْضِيًّۭا ٢١

سورة مريم ١٦-٢١


E regista Maria no Livro, quando ela se afastou da sua família para um lugar virado a Leste, e então colocou entre eles e ela um véu, e então enviámos-lhe o nosso espírito, e ele então apresentou-se-lhe com a aparência de um homem. Ela disse: “Na verdade refugio-me de ti junto do Misericordioso, se és piedoso”. Ele disse: “Eu sou apenas um mensageiro do teu Senhor, para te anunciar o nascimento de um menino sem mácula”. E então ela disse: “Na verdade, como posso eu ter um menino, se não fui tocada por homem nenhum, se não sou desonesta?”. Ele disse: “Assim disse o Senhor: 'Isso é fácil para mim, e tornamo-lo sinal para os Homens, e nossa misericórdia, e isto é ordem já cumprida' ”.
Alcorão, Sura de Maria (19), 16-21

17.12.07

الغيب

[Marcantonio Bassetti - São Sebastião]


‏أَمْ عِندَهُمُ ٱلْغَيْبُ فَهُمْ يَكْتُبُونَ
Alcorão.
Sura da Montanha.
Quarenta e um.

à memória do Rui

Devagarinho. Como se ainda.
_ estavas a dormir
_ estava
Tinhas a barba de quê. Dois. Três dias. Com esforço erguido. Sentado. A mão nas costas. Ou na barriga. E o terror nos teus olhos. Aquilo. Outra vez. E agora. Mas não. Não pode ser. Porque se afinal.
_ quando durmo não tenho dores sabes
_ sei
A dor que te arranca as entranhas. Aquilo.

E a cada dia eu subia as escadas e pensava é hoje que te digo. E depois secava-me a boca e o terror nos teus olhos. E deixava os meus caídos no chão.
_ quando durmo é como se morresse sabes


Um molho de ossos sobre a cama. E a pele. Devagarinho. Como uma concertina. Assim. Fininha. Para cima para baixo. E havia um silvo quase mudo.

A luz morta e eu mal te via. Depois morri-me escadas abaixo. E nunca mais te vi.

22.10.07

Os cegos

[Iluminura árabe do século XIII]

صُمٌّۢ بُكْمٌ عُمْىٌۭ فَهُمْ لَا يَرْجِعُونَ
são surdos, mudos, cegos, e então não voltam
Alcorão 2:18

14.9.07

وَإِذَا الْقُبُورُ بُعْثَرَتْ

[Salma Arastu - Allah VI]

إِذَا السَّمَآءُ انفَطَرَتْ
وَإِذَا الكَْوَاكِبُ انتَثَرَتْ
وَإِذَا الْبِحَارُ فُجِّرَتْ
وَإِذَا الْقُبُورُ بُعْثَرَتْ
عَلِمَتْ نَفْسٌ مَّا قَدَّمَتْ وَأَخَرَت
Alcorão 82:1-5


'ida s-sm'â'u anfaTarat
wa-
'ida l-kwâkitu antatharat
wa-'ida l-bihâru fujjirat
wa-'ida l-qubûru buºtharat
ºalimat nafsun mma qaddamat wa-'ahrat

Quando o céu se estilhaçar,
e quando os planetas se espalharem,
e quando os mares se misturarem,
e quando as tumbas se abrirem
- toda a alma conhecerá o que avançou e o que atrasou.

24.8.07

Domi militiaeque . 5 . Purga

[Giorgione - Soldado e moço de cavalariças]

وَلَوْلَا أَن يَكُونَ النَّاسُ أُمَّةً وَاحِدَةً لَجَعَلْنَا لِمَن يَكْفُرُ بِالرَّحْمَنِ لِبُيُوتِهِمْ سُقُفًا مِّن فَضَّةٍ وَمَعَارِجَ عَلَيْهَا يَظْهَرُونَ وَلِبُيُوتِهِمْ أَبْوَابًا وَسُرُرًا عَلَيْهَا يَتَّكِؤُونَ وَزُخْرُفًا وَإِن كُلُّ ذَلِكَ لَمَّا مَتَاعُ الْحَيَاةِ الدُّنْيَا وَالْآخِرَةُ عِندَ رَبِّكَ لِلْمُتَّقِينَ
Alcorão 43:33-35 (*)

Não sinto as pernas ainda que esteja em cima delas e me dirija ao balneário. Se isto tudo acabasse já já. Já não quero saber. Fico não fico. Depressa caralho não há tempo para banhos. Não há tempo para banhos. Tanto faz. Porque não é o corpo que precisa de purga. Voltar para trás. Vestir. Sem banho. Porque eles mandaram. Se dependesse de mim. Não saía do duche. Ficava ali a vida toda. Até o corpo se me arrepanhar. Engelhado como a minha alma. E me crescerem cogumelos nos olhos. Mas quem manda aqui são eles. Os meus senhores. Que me ordenam não tome banho. Porque não há tempo. Eu obedeço. Andando sobre pernas que não sinto. E está tanto frio. Se tudo isto acabasse.

Sentado. Enquanto espero. Hão-de chamar-me. Não sei para quê. O banco é de pedra. E as minhas costas roçam a parede gelada. De pedra. Já não as sinto. Nem costas. Nem pernas. Fome. O meu número. Porque aqui eu não tenho nome. Frio. Um número. Queria comer. Que isto tudo acabasse. Mas primeiro estes senhores querem ver e tocar mais alguns bocados do meu corpo. Com coisas de ferro gelado. Para ver se. Não sei. Não quero saber. Já não sinto. Onde está o meu corpo. Se me pudesse livrar dele. Deixá-lo aqui neste banco de pedra. Vivo. Ou morto. Tanto faz. Disponham. Do meu corpo. Como quiserem. Mas não me toquem a alma. Essa vou eu purgá-la. Quando. Um dia.

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(*) Se os homens não tivessem formado uma só comunidade (de descrentes), teríamos certamente provido as casas dos que não crêem no Todo Misericordioso de tectos de prata com escadas para subirem, e para as suas casas portas (de prata) e sofás (de prata) onde se reclinariam, bem como ornamentos. E tudo isto não seria mais do que o gozo temporário da vida cá de baixo, enquanto o Além, junto do teu Senhor, é para os pios.

23.7.07

Hic sunt leones . 2 . Nocturno

[Rembrandt - Daniel na cova dos leões]

وَتَحْسَبُهُمْ أَيْقَاظًا وَهُمْ رُقُودٌ وَنُقَلِّبُهُمْ ذَاتَ الْيَمِينِ وَذَاتَ الشِّمَالِ وَكَلْبُهُم بَاسِطٌ ذِرَاعَيْهِ بِالْوَصِيدِ لَوِ اطَّلَعْتَ عَلَيْهِمْ لَوَلَّيْتَ مِنْهُمْ فِرَارًا وَلَمُلِئْتَ مِنْهُمْ رُعْبًا
Alcorão 18:18 (*)

É um cão. Tem de ser um cão. Um cão enorme. Porque um leão. Absurdo. A esta distância e com esta luz. Mas está a olhar para mim. Vejo-lhe a luz do candeeiro reflectida nos olhos. Não pode ser. Não estamos em África. Se ele começar a andar. Porque os cães têm aquele passo rápido e lateral. Com o tronco arqueado. E os gatos. E os leões. Dançam enquanto andam. E os tigres. Se fosse um tigre era pior. Assim devagarinho ondeando o corpo. Cabeça baixa. Para cima e para baixo. Leve leve. Mas ele não se mexe. Só está ali. A olhar para mim. Nocturno. Porque só os animais nocturnos reflectem daquela maneira a luz nos olhos. Não é um cão. É um leão e eu estou morto. Um cão não levanta a cabeça e não ruge daquela maneira. Como se estivesse a vomitar o som. Nem tem aquele andar sensual. Sensual. Vou morrer devorado por um leão e são estas as imagens que me vêm a cabeça Porque. Vem em passo rápido. Deitando boca fora aqueles roncos medonhos. Não me vai comer. Porque não é assim que se comporta um leão quando caça. Exagerar posição bípede. Mas se me ruge. Deve pensar que sou um rival. Domesticado. Nunca viu outros leões. Só homens. Para quê exagerar a posição bípede. Nasceu e viveu entre. Não rujas dessa maneira mata-me come-me mas não rujas. O que faz um leão a um rival. Ataca-o e mata-o. Não me vai comer. Mas vai-me matar. E o que faz um rival fraco. Foge. Mostra que não é uma ameaça. Mas se eu fugir ele persegue-me. Porque é o instinto. Correr atrás daquilo que foge. Para comer. E eu não tenho hipótese. Qual é o meu máximo. Doze quilómetros por hora durante vinte minutos. Marca respeitável para um ser humano de trinta e cinco anos. Mas fácil para um leão jovem. Tem juba curta. Por isso é jovem. Que atinge facilmente cinquenta quilómetros por hora. Se eu levantar os braços e fizer muito barulho. Vai pensar que sou maior e mais forte e mais. Talvez tenha medo. Não tenho nada a perder. Só a vida. Que já está perdida. Amo-te. Nunca te disse. Mas amo-te. E tu sabes. E não me vais ouvir dizer que te amo. E os braços não saem. Colados pesados. Não consigo. Só esta dor no estômago. Está quase quase. Já lhe cheiro o bafo. Poucos metros. Dizem que nos passa a vida toda diante dos olhos. E a mim só me passas tu. Vou morrer com a garganta esmagada pelas mandíbulas de um leão ou com o pescoço partido ou esventrado por uma patada. E só penso no quanto te amo e que nunca tive coragem para.

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(*) "Julgarias que estavam acordados, embora estivessem a dormir. E virámo-los do lado direito e do esquerdo, enquanto o seu cão estendia as patas à entrada. Tivesses tu posto neles os olhos, e ter-lhes-as dado as costas e fugido, e terias sem dúvida ficado cheio de medo deles."

22.5.07

Vida

[Bridgman - Esna]

مِنْ أَجْلِ ذَلِكَ كَتَبْنَا عَلَى بَنِي إِسْرَائِيلَ أَنَّهُ مَن قَتَلَ نَفْسًا بِغَيْرِ نَفْسٍ أَوْ فَسَادٍ فِي الأَرْضِ فَكَأَنَّمَا قَتَلَ النَّاسَ جَمِيعًا وَمَنْ أَحْيَاهَا فَكَأَنَّمَا أَحْيَا النَّاسَ جَمِيعًا وَلَقَدْ جَاء تْهُمْ رُسُلُنَا بِالبَيِّنَاتِ ثُمَّ إِنَّ كَثِيرًا مِّنْهُم بَعْدَ ذَلِكَ فِي الأَرْضِ لَمُسْرِفُونَ


ألْمَائدَةُ ٣٢


"Por isso prescrevemos aos filhos de Israel que quem quer que mate uma pessoa não culpada de assassínio ou de corrupção sobre a terra é como se matasse todos os homens. E quem quer que lhe dê o dom da vida é como se desse o dom da vida a todos os homens. Na verdade os Nossos mensageiros vieram a eles com provas. E depois, apesar disso, muitos deles começam a fazer excessos sobre a terra."

Alcorão, 5:32