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14.9.08

Kill the pain . XXXIII . Toalha

[G. Macchietti - Banhos em Pozzuoli]


quae si scribantur per singula nec ipsum arbitror mundum capere eos qui scribendi sunt libros

Io. 21:25

Se eu queria uma toalha. E eu não não queria. O que eu queria era abrir a porta. A janela. Abrir a janela. Porque estava tanto calor. E a porta não se podia abrir por causa da velha. Não nos podia ouvir. Não me podia ver. E eu nunca a vi. Podia nem. Já me passou pela cabeça. Sabe. Podia ser mais uma humilhação. Eu ser a puta. Que entra em segredo em silêncio xiu. Clandestino. Trancado naquele quarto quente tão. E se calhar nem havia velha nenhuma. Se calhar era só mais uma humilhação. Sabe. Na faculdade fugia-me. Sim sim. Ele mesmo mo disse. Fugia de mim. Via se eu estava no bar. E se estivesse. Não se ria. Mas ele. O que ele se deve ter rido. Sim. Ele sim. Trepando escadas ridículas. Cuspindo olhares de desprezo por cima do ombro. Imaginar-me despido na sua cama. Eu. A sua puta. A quem telefonava quando mais ninguém estava. E eu dizia sempre que sim. Odiando-me a cada novo sim. Porque eu sabia. Porque eu gostava tanto dele. Sabe. Não sabe. Quando os dias são feitos a olhar para o telefone. E cada minuto é uma mão que nos abre a barriga e nos arranca as tripas. Devagarinho. Quando cuspimos a última vírgula de dignidade e dizemos sim outra vez sim sim. Subir as escadas e cheirar-lhe a indiferença no hálito azedo. Ler-lhe nos olhos a mole maçada de ter de me abrir a porta e a cama e. E ainda assim. Porque eu achava que. Sabe. A esperança parva dos apaixonados. Não. Não sabe. Como poderia saber. E esmagar na boca um riso medonho. O gozo. E eu o gozado. E eu sabia. E ainda assim.

30.6.08

Kill the pain . XXIV . Tepidus

[Bassano - Madona com o Menino e João Baptista]

sed quia tepidus es et nec frigidus nec calidus incipiam te euomere ex ore meo

mas porque
és morno, e não és nem frio nem quente, começarei a vomitar-te da minha boca
Apoc. 3:16

Um morcego. Assim. Com umas asas tremendas. Escondidas. Claro. Como. Sei lá. Escondidas. Não interessa. Depois abria. Sítio alto. Uma casa uma árvore uma pedra uma montanha. As asas. E ficavam todos a olhar. Olha é ele. O puto gordo. Gordo não. Magro. Sem músculos. Quer dizer. Normal. E tinha uma cauda. Como um macaco. Morcego-macaco. Saltava de árvore em árvore e ninguém se chegava a mim. Eu não queria. Enroscar-me escondido nos ramos nas folhas no. Às vezes aparecia. De repente. Não era para salvar ninguém. Super-herói não não. Salvar-me a mim. Não. Abria as asas e voava. E ficavam todos a olhar sem saber quem eu era. E havia uma menina que se apaixonava por mim. Sempre. Menina. Imagine. Tenho-o tratado por tu. Desculpe. Eu. Eu que. Claro. Uma menina. Houve aquela. Meninas. A voz grossa. Eu lembro-me. E a. Sim. E eu era gordo e tinha a cara cheia de. Diziam que era a barba que as borbulhas que. Que não me preocupasse que. Barba na testa. Morrer. Já. Eu tão feio e olhar para o espelho e ver a testa cheia de barba. Morrer. Já. Depois o repuxo baixava e eu montado na baleia à porta da escola. Sorvendo guloso os olhos espantados. Mas não. Sem carne esta baleia. Sem água sem repuxo. Goela escancarada. Já está. Um ronco oleoso. Um arroto. Depois engasgou-se. Tossiu. Escarrou. Escarrou-me. Assim. Como quem vomita uma cartilagem de frango entalada na garganta. Por isso deixei de comer empadas de. Ninguém me viu. Deo gratias. Puxar enrolar-me no casaco. Nadar no ar pesado de gelo. Cada passo cada braçada.

14.3.08

A espada

[Bosch - São Pedro e o doador (pormenor)]

μὴ νομίσητε ὅτι ἦλθον βαλεῖν εἰρήνην ἐπὶ τὴν γῆν
οὐκ ἦλθον βαλεῖν εἰρήνην ἀλλὰ μάχαιραν
nolite arbitrari quia uenerim mittere pacem in terram
non ueni pacem mittere sed gladium

Mat 10:34

Se não mato este peso. E as tuas mãos não param quietas e os teus dedos. À procura não sei de. Quentes trementes. Para cima devagarinho agora para baixo. E se. Não. Se a dor me matar a. Perder o sentido. Só um. Um golpe só. Já está. Já estava. Tivesse eu forças para.

16.8.07

Aquilo que não se pode contar . 21 . Nunc dimittis


[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor do painel central)]

νῦν ἀπολύεις τὸν δοῦλόν σου δέσποτα κατὰ τὸ ῥῆμά σου ἐν εἰρήνῃ
nunc dimittis seruum tuum domine secundum uerbum tuum in pace
الآنَ تُطْلِقُ عَبْدَكَ يَا سَيِّدُ حَسَبَ قَوْلِكَ بِسَلاَم
Lc 2:29

Eu morri ali. Enquanto a mão gelada me entrava na alma e me sugava o corpo. Porque até ali só o meu corpo estava morto. A alma vivia. Porque eu tinha medo e força e tristeza e dor e alegria e espanto e. E agora não tinha nada. Só medo. Tanto.

Toc toc toc. Dois olhos. Duas bolas grandes grandes como faróis saltando em cima do meu peito. E uma sombra espessa. E uns pontos brilhantes. Que a princípio pensei serem reflexos de luz no pó. Ainda antes de o ver. Mas não. O pó não brilha. Era aquilo. E eu não sei se. Porque nada me garante que. Aquela mão gelada. Que eu não via. Mas sentia. De quem era. Daquilo. Ou não. E se. Mas veio com ele. Com aquilo. E eu não sei se. Eu só queria que isto acabasse. De vez.

Depois os olhos afastaram-se devagarinho. E os pontos brilhantes apagaram-se. Enquanto o meu coração retomava o seu tum tum tum tum eu deixava de me ver de fora. Agora estava dentro de mim outra vez. Como agora. E o meu coração tum tum tum tum. E o meu peito subia e descia e os meus dedos ganharam cor. E olhei pela moldura e já não estava em cima da cama o meu corpo morto. E a mão gelada. Ficou cá dentro de mim.

Mas eu. Eu morri ali. E agora eu estou morto. Porque isto não é viver. Porque eu sei que. Porque aquilo me roubou tudo. E só deixou medo e terror e paranóia e loucura. E medo. E terror. E paranóia. E loucura. Mas isso não foi o pior. O pior foi que eu vi senti o que é estar morto. E eu queria que morrer fosse acabar tudo. Fechar os olhos e adeus. Mas não. Morrer é estar vivo. Com a certeza de não morrer mais. E a ver-me o corpo morto. Porque eu vi-me ali deitado na cama. A pele de cera e a boca torta e os olhos baços abertos. E se o meu coração não tivesse voltado tum tum tum tum e o meu peito a subir e a descer. O que teria eu visto. O horror e as lágrimas na cara da minha mãe. E o caixão e o funeral. E eu dentro do caixão a ver-me de cima. E depois as carnes desfeitas e os líquidos e os cheiros. E depois ficar assim parado a olhar até.

Até quando. Porque não é daquilo que eu tenho medo.

6.5.07

Omne quod dat mihi pater ad me ueniet

[Pieter Brueghel o Jovem - Os provérbios (pormenor)]

gustate et uidete quoniam suauis est Dominus
Ps. 33, 9

Ter a coragem de. Porque é tão fácil. E estaria pronto. Que o presente dói. E o futuro não existe. Poder dizer que. E depois. E depois ficar em paz. Repousar os olhos que não param. As mãos que se agitam. E o coração que. Vtinam requiescerem. Finalmente. Beati pacifici.