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27.10.07

O medo

[Goya - Loco furioso]

«Por fim, Ivan Dmítrich, vendo que era inútil resistir, deixou de raciocinar e entregou-se ao desespero e ao medo. Começou a isolar-se e a evitar as pessoas. O serviço, que já antes lhe repugnava, tornou-se-lhe insuportável. Tinha medo que o levassem a meter-se em sarilhos, que lhe metessem à socapa dinheiro de um suborno no bolso para depois o apanharem, ou que ele próprio, por descuido, cometesse um erro nos papéis oficiais que pudesse ser considerado fraude, ou que perdesse dinheiro que não fosse dele. É curioso: o seu raciocínio nunca dantes fora tão flexível e inventivo como agora que fantasiava, dia a dia, milhares de motivos sérios de receio pela sua liberdade e honra. Ao mesmo tempo, ia enfraquecendo a olhos vistos o seu interesse pelo mundo exterior, em particular pelos livros, e já a memória começava a traí-lo.»
Tchékhov, Enfermaria nº 6
trad. de Nina Guerra e Filipe Guerra

5.6.07

A doida de Génova

[Pieter Bruegel o Velho - Pedintes]

«TRIGÓRIN - Nada de especial, apontamentos... Surgiu-me um tema (Guarda o bloco de apontamentos) Um tema para um pequeno conto: na margem do lago vive desde a infância uma rapariga, igual a si; gosta do lago como uma gaivota, é feliz e livre como uma gaivota. Mas chegou um homem, por acaso, que a viu e, de passagem, a matou como a esta gaivota.»
Tchékhov, A Gaivota, ed. Relógio d'Água


Parecia doida. Costas dobradas agitando o cabelo tão negro. É doida e é desgrenhada. Entaramelava-se. Não lhe entendo a língua. Mão estendida. Pede. Não tenho nada. Não me entendes. Nem eu a ti. Abanando a cabeça. Eu e ela. Não lhe vejo os olhos. Porque os tem pregados no chão da carruagem. Não. Como se diz não. No. Niente. Depois parou de agitar a cabeça e lançou-me os olhos. A mão estendida agora não pede mas dá. Lança. Está doida. Não lhe entendo a língua. Mas sei o que está a dizer. Deito os olhos no livro e espero que se vá. Não leio não vejo nada. Senão aqueles olhos negros de fúria.

29.4.07

Releituras - Tchékhov

[Millais - Ophelia]

"Numa noite calma e luarenta de Julho, Olga Ivánovna estava no convés do vapor do Volga e olhava ora a água, ora as margens aprazíveis. A seu lado estava Riabóvski e dizia-lhe que as sombras negras na água não são sombras, mas sonhos, que à vista desta água-bruxa com seu brilho fantástico, à vista deste céu sem fundo e das margens tristes e pensativas que nos falam da vaidade da vida e nos dizem da existência de alguma coisa superior, eterna, beatífica, seria bom adormecer, morrer, tornar-se lembrança. O passado é vulgar, sem interesse, o futuro é insignificante, e esta noite divina, única em toda uma vida, acaba depressa, funde-se com a eternidade - então, para quê viver?"


Tchékhov, Lavandisca, ed. Relógio d'Água

28.4.07

Releituras - Tchékhov


"Neste momento, em cima, do lado onde se põe o sol, apertam-se as nuvens; uma assemelha-se a um arco de triunfo, a outra a um leão, a terceira a uma tesoura... De trás das nuvens sai um raio largo e verde que se estende até meio do céu; logo após, ao lado do raio verde estende-se um raio violeta, a seguir um dourado, depois um rosado... O céu torna-se cor de lilás terno. Olhando para este céu magnífico, encantatório, o oceano fica, a princípio, carrancudo, mas breve adquire ele próprio umas cores meigas, alegres, apaixonadas, a que é difícil arranjar nomes na língua humana."
Tchékhov, Gússev, ed. Relógio d'Água