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16.5.07

Epistolário V

[Saunders - Watchers]

Ah, so pleasantly we live
Without enmity among those with enmity.
Among humans with enmity
Do we dwell without enmity.
Dhammapada, XV, 197
(tradução de John Ross Carter e Mahinda Palihawadana)


Ρ.Α. ao seu André

Gostava tanto de ter saudades tuas. Mas aqui, como já te disse, não há saudades nem tristezas nem alegrias nem coisa alguma. Só nada. Mas eu estou contigo. Vejo-te aninhado nos lençóis salgados de lágrimas que já não saem na lavagem. E passo a minha mão de nada pela tua cabeça tão querida. Se eu tivesse memória não me esqueceria de ti. E não te deixo nem te deixarei. Serei tábua de salvação. E queria ser de novo o teu barco. Fico tão contente de ver que te levantas e olhas para ti. E que vês o que eu vi e o que eu vejo e o que nem todos conseguem ver. Abandona de vez esse barco que te deitou borda fora tão inesperado. E eu sinto que estás pronto. Que não vais repetir o erro de há dez anos. Porque, amigo, não se pode ter sempre o melhor de dois mundos. Não estou a falar de ti. Naturalmente. Qui habet aures audiendi audiat. Olha. Já falo latim. É o que dá tantos anos na tua memória. Arma uirumque cano. Quando der por mim saberei grego. E árabe. Gostava tanto de saber árabe como tu. Criava músicas com nomes em árabe. Lembras-te de quando passávamos horas a ouvir as coisas que eu fazia. Eu sei que ainda sabes pouco. Mas já sabes muito mais do que eu.

Mas eu lanço pedrinhas à tua janela todas as noites. Sempre que adormeces e me lanças as tuas saudades. Porque eu sei que mas lanças todas noites. Eu sinto. Todos os dias. E eu vou ver e és tu. Mas não precisava de ir ver. Eu já sabia que eras tu. Porque as tuas saudades são diferentes das outras. Não são melhores nem piores. Porque não há saudades melhores nem piores. São diferentes. São tuas. Têm o teu cheiro. E eu não preciso de ir ver para saber que és tu. Mas eu quero ir ver. Porque te queria ver outra vez. Passar outras tardes como aquela. Sentados em frente um ao outro. Tabuleiro de xadrez com peças imóveis em silêncio. Porque o importante era a presença. E eu lia-te os olhos e sabia. Mas eu não estava pronto. Tu sabes. Era tão difícil. E eu não era capaz. Eu também era homem de carne. Agora só osso. Com medos e vergonhas. Como tu. E adorava-te também por isso. Por me respeitares como eu te respeitava. Eu sei que tu só soubeste naquele dia horrível. Horrível para os outros. Para vocês. Para mim tão bom. Livre por fim. E que te arrependeste de teres voltado a quem não. Ouve-me. Eu já não vou a tempo de corrigir os meus erros. Tu ainda tens tanto tempo. Não o desperdices.

Percebi que não me queres ainda falar disso. Um dia dir-me-ás pois se choraste em vão. Eu tenho já a minha ideia, depois de tudo o que me escreveste. Mas não ta conto. Não é preciso. Tu habes oculos legendi. Et mentem cogitandi. Só tu, amigo, para me pores a escrever latim. Língua que desconheço. Promete que para a próxima me pões a escrever árabe. Ou grego. Alguma coisa estranha que ninguém perceba. Nem consiga ler.

Agora trata de encontrares quem te mande pedrinhas verdadeiras à janela. Porque eu estou morto. Eu não sou. Eu não estou. Só na tua saudade. E minha. Que não existe. Porque eu não sou. Eu não estou.

Teu,
Ρ.Α.

15.5.07

Tempo

[Bridgman - Figura descansando junto a templo enterrado]

They who will restrain the mind,

Far-ranging, roaming alone,
Incorporeal, lying ahiding,
They are released from Mara's bonds.
Dhammapada, III, 37
(tradução de John Ross Carter e Mahinda Palihawadana)

Já é tempo. Olhar para trás de cima. Recolher os pedaços espalhados pelo chão. Virar as costas ao muro de indiferença. Cortar. E lançar os olhos para diante. Com toda a força,

Epistolário III

[Hoare of Bath - Cabeça de jovem]

Like a water creature
Plucked from its watery home and thrown on land,
This mind flaps.
Dhammapada - Os ensinamentos de Buda, III, 34
(tradução de John Ross Carter e Mahinda Palihawadana)

André ao seu querido Ρ.Α.

Leio-te com tanta alegria. A tua memória não me morre. Assombra-me os dias. E as noites. Doce assombração que me embala o sono. E não deixarei que me morra. Morrerei eu primeiro. E então estaremos mortos os dois. E ficará a tua memória na memória dos que ficam. Que não sei o que seria de mim sem a tua doce assombração. Vinda do nada onde não há tempo nem memória. Agarro-me a ti última tábua de naufrágio. Sabendo que tábua tão frágil não me pode suster. Às vezes também adormeço sem sonhos. E penso se será assim. Mas se penso é porque não é assim. Porque aí onde não estás não se pensa nem se sente. E acordo com vontade de não acordar e não estar.

Quando estou tão sozinho parece-me ouvir pedrinhas a estalar contra a janela. Levanto-me e vou ver e sei que não és tu. Mas vou ver. Porque a tua memória, amigo, é mais forte do que a razão. E eu preciso das tuas pedrinhas na minha janela. Como daquela vez. Em que estava pronto a desistir. Preciso de ti. Tanto. E fui à janela e tu estavas lá em baixo com uma pedrinha na mão. A rir. Fingiste que ma lançavas à cabeça. E rimos tanto os dois. Dizias que ele não merecia que chorasse assim. E eu não chorava. Chorei uma vez. Mas sim. Chorava por dentro, como as pessoas dizem. E eu nunca te vi chorar. Mas eu sei que choravas. Diziam-mo os teus olhos. Aquelas vezes em que nos calávamos a olhar um para o outro. E chorávamos os dois por dentro. Sem palavra nem soluço nem lágrima. E depois um de nós dizia um disparate e chorávamos a sério mas de rir.

Lembras-te daquela noite. Tinhas andado à pancada, como era habitual e estavas todo sujo de sangue. Com aquele teu ar rufia, barba de três dias, pose marialva. E eu soturno e calado. Ainda enervado da cena no bar. Ver-te ali pontapeado e a pontapear. E aos socos. Depois metemo-nos no táxi e pedimos ao homem para nos levar àquele sítio que adoravas apesar de. Mas não dissemos olhe é para o coiso. Dissemos olhe é para a rua tal. Os dois calados mal encarados com ar perigoso. Sim. Eu sei fazer um ar perigoso e tu sabes. És dos poucos que já mo viste. E quando o táxi nos deixou, enquanto pagávamos o homem disse olhem para aquilo, aqueles lolós. E eu engasguei-me e saímos os dois e chorámos tanto de tanto rir. Lembras-te. Sim, eu escrevo muitas vezes lembras-te. Lembras-te daquelas vezes em que levavas um bloco de notas e um lápis. E ias perguntando ao pessoal quem era mais bonito ou quem era mais bom, se tu se eu. Se a pergunta era sobre beleza, os resultados eram sempre renhidos. Ora ganhavas tu ora ganhava eu. Mas se era questão de se saber quem era mais bom, tu ganhavas invariavelmente, e com grande distância. Eu não podia competir com o teu corpo musculado do trabalho. E ríamos tanto.

Mas com isto desviei-me do assunto. É que tenho tantas saudades tuas e daquelas noites doidas. Como é possível ter caído no mesmo erro, perguntas. Porque eu tento reger a minha vida pela razão e não pelo coração. Mas não consigo. E penso sempre agora vai ser diferente. Agora sim. Agora é que é. Hábitos longos de sportinguista doente. Até no amor. Agora é que é. E depois nunca é. E eu entrego-me sempre. Abro o jogo. E depois caio desamparado. Cada vez de mais alto. E já não sei como proceder, amigo. Quando era obsessivo e exigente era porque era obsessivo e exigente. E eu sei que conseguia ser sufocante na minha insegurança. Mas aprendi com os meus erros. E quando ele voltou passei a controlar a minha insegurança. E dei-lhe total liberdade. Deixei de fazer qualquer exigência. Queres vir ter comigo? Não? Está bem, não faz mal. Dormes cá? Não? Não faz mal, deixa estar. Para ver a relação cair de podre. Sem futuro nem presente. Só passado. Depois veio este último. E de novo me abri completamente. E outra vez trepei a escada da felicidade até lá bem acima. E outra vez lhe dei a liberdade toda que havia. Do meu lado era como se não houvesse relação. Terei pedido duas ou três vezes que nos víssemos. Não mais. Não que não o quisesse ver. Ah, eu queria. Queria estar sempre ao seu lado. Mas como podia exigir-lho. Só se eu fosse muito egoísta. Só nos víamos quando ele queria. Nunca lhe pedi nem exigi nada. Apesar de tudo sentiu-se preso. A quê, ainda hoje não consigo entender, e acho que nunca vou conseguir. E de novo caí desamparado. Agora de mais alto. Citius. Altius. Fortius. Como nos Jogos. Já me esquecia de que tu não sabes latim. Mas não faz mal. É um pormenor apenas.

Perguntas-me se me lembro do que aconteceu há dez anos. Lembro. Como podia não me lembrar. Aonde quase cheguei. Aonde quase estou. E eu sei que. Não. Seria cruel dizê-lo aqui em frente a esta gente toda. Mas tu sabes. Tu viste. Tu estavas lá. E avisaste-me. E disseste-me tem cuidado estás a viver uma ilusão ele não te merece. E eu olhei-te tão zangado. Porque eu achava que amava. E não conseguia conceber a minha vida sem ele. Fechava os olhos e era ele que estava ali. E era com ele que me imaginava envelhecer e morrer. Que tolice. Eu sei. Era uma mania. Tinha sido tanto tempo. E depois ainda foi tanto tempo mais. Hoje sei. E devia ter-te ouvido. E devia. Tu sabes. Eu sabia que tu sabias. Eu queria que tu soubesses. Mas não to queria dizer. Porque eu sabia que. Nunca falámos disto abertamente. Nem vamos fazê-lo aqui. Um dia. No nada.

E de novo fujo ao assunto. Porque me dói falar disto. Porque há decisões a tomar. Tão duras. Necessárias. Insinuas se não se estará a passar agora o mesmo. Se valerá a pena. Se terei chorado em vão. E desta vez eu chorei. Tanto. Que pensava que não havia mais água dentro de mim. Não sei. E mesmo que soubesse não to diria aqui. Não consigo magoar as pessoas. Conscientemente. Agora. Nem sempre fui assim. Eu sei que te magoei. Muito. Mas também sei que me perdoaste. E eu não merecia perdão. E naquele dia em que tu. Eu soube que me tinhas perdoado. E nem então consegui chorar. Mas por dentro. Morri também eu nesse dia. Lembras-te. Lá estou eu outra vez. Lembras-te de quando fomos ver o Sporting. E te apoiavas em mim tão fraco já. E filmaram-nos e nós rimos tanto. Eu ria-me tanto contigo.

Não sei. Não sei se é a mesma coisa. Sei que agora dói mais. Tanto. Mas também sei que ganhei crosta rija. E já não me verás de olhos mortos e lábios arrepanhados muito tempo mais. Porque eu tenho a minha dignidade. E não mais me rebaixarei por ninguém. Porque eu sou eu sou eu. E valho muito. Olho de cima. Por mais que me doa o peito. Se me perguntas se ainda amo. Sim. Claro. Tanto. Que se ele me batesse de novo à porta eu abria como no primeiro dia. Mas eu tenho um prazo. Que se vai esgotando a cada dia que passa. Aproximo-me do não retorno. Com a cabeça cada vez mais erguida. Levanto-me e olho para mim mesmo. E a cada dia que passa me vejo com mais clareza. E sei que acharei quem me queira. انشاء اللَّه . Esqueci-me de te contar que ando a aprender árabe. Isto quer dizer deus queira e diz-se inxa' allah. E quem não me quer não sabe o que está a perder. E tu sabes. Eu sei ser arrogante. E tu sabes que eu sei. Foste tu que me ensinaste. Estás bom? Não. Eu sou bom. Lembras-te?

Amigo. Despeço-me porque me dançam lágrimas nos olhos. Não por causa dele. Por tua causa. Porque tu fazes-me tanta falta. Ainda tenho a tua garrafa de vinho por abrir. E assim ficará até eu morrer. E nos juntarmos no nada. Agora estou aqui sozinho. E já não há ninguém que me mande pedrinhas à janela.


Um abraço tão tão forte.
Adoro-te.
Α.Φ.